segunda-feira, 1 de junho de 2020

Livro 1: Calma Paixão - Capitulo IX

A semana passou sem nenhuma outra complicação. Drew não respondeu a meu convite. Mas Ash me garantiu que ele iria, nem que fosse amarrado.
— Ash, não precisa. Se ele não quiser ir, o problema é dele. Perderá uma grande refeição. Só queria agradecer a todos vocês pela oportunidade que me foi dada.
— Por isso mesmo. Ele tem que ir. Vamos voltar? – Tínhamos saído para fazer um lanche num café próximo.
 — Vamos. Preciso terminar umas anotações no modelo de contrato que Penny me enviou. Fora outras coisas sobre novos contratos. E retornamos ao escritório. Quando estava entrando, percebi que Drew estava em sua sala. Resolvi ir até lá tirar satisfação.
— Posso entrar?
— Pode. Em que posso ajudar?
— Te fiz ou disse algo?
— Como assim?
— Na quarta, quando saímos de casa, você estava muito bem. Depois começou a me destratar ou ignorar.
— Não. Foi impressão sua.
— Minha, de Ash, de Artie, e todos da equipe.
— Não.
— Beleza. Vai ser assim? Tudo bem. Só espero que não venha a afetar nosso trabalho aqui.
— Não tem nada a ser afetado.
— Ui. Tá bom. Estou esperando você hoje à noite lá em casa.
— Infelizmente, já tenho compromisso.
— E se não me engano, está marcado desde terça comigo.
— Pois é. Você cancelou.
— Não pode ser. Eu não cancelei nada. Apenas ampliei o número de convidados. Bom. Se quiser aparecer, você sabe o endereço, a partir das sete. Gostaria muito que você fosse.
— Como disse, já tenho compromisso.
— Beleza. Faça como quiser. Até logo. Caso não lhe veja mais, tenha um lindo fim de semana. – Retorno para minha sala. Concluo minhas atividades. E às 5:00 dispenso Gab e vou para casa.

Em casa, coloco uma roupa confortável e vou para a cozinha. As brincadeiras com Nana na cozinha me fizeram uma cozinheira de mão cheia.
Não sei fazer pratos muito chiques, mas os que faço não deixam a desejar a nenhum chefe famoso. Opto por comida italiana, que amo de paixão. Começo a fazer a massa para o prato principal: Spaghetti ao molho de camarão. De entrada, servirei raviolli ao succo e de sobremesa, tiramissu. De aperitivo termos Bruschettas diversas.

Quando Penny chega do escritório, troca de roupa e vem me ajudar. Ela prepara as bruschettas, nisso ela era boa, já que como cozinheira era uma negação.

— Então, como você está?
— Estou bem. Não tive mais nenhum lapso ou blackout essa semana. Acho que deve ter sido por causa do nervosismo do início da semana. Trabalho novo. Gente nova. Devo ter ficado mais nervosa do que pensei.
— Marcou a consulta com Dra. Reeds.
— Não acho necessário. Já passou.
— Jura que acha que não é necessário? Essa semana você teve dois episódios. Nunca foram tão próximos.
— Mas passaram.
— Você é quem sabe. Já é bastante grandinha. Terminei.
— Eu também. Na hora é só esquentar os molhos. Vou tomar banho e me arrumar.
— Drew vem?
— Quem sabe? A criança está magoadinha porque marquei o jantar para hoje. – Comento caminhando para o quarto.
— Não era hoje que vocês iriam jantar novamente?
— E o que vamos fazer aqui hoje? – indago.

Entro no quarto, escolho um vestido de alça fina, floral transparente com um vestido forro num tom verde bebê, sandália de salto de amarrar na perna, deixo o cabelo solto, passo um produto para ressaltar meus cachos. No rosto, uma maquiagem um pouco mais elaborada. O interfone toca, Penny atende.
— Emm, Adam chegou com o irmão e a cunhada.
— Já estou indo. – Saio do quarto e Penny está abrindo a porta para os três. Os rapazes trazem cada um uma garrafa de vinho.
— É hoje que me embriago. – Brinquei.
— Boa noite! - Cumprimenta Ash ao entrar. Todos nos cumprimentamos. Penny pega as garrafas e leva para a cozinha. Adam a acompanha e serve drinks para todos. — Lindo apartamento, meninas! – Ash elogia. O interfone toca novamente.
— Oi! Podem subir, apartamento 20. - Atendo
— Drew? – Adam pergunta
— Lisa e Gabriel. Não sei, mas acho que está rolando algo entre os dois.
— Não duvido. – Ash replica.
— Boa noite. – Eles nos cumprimentam ao entrar.
— Boa. Que bom! Mais vinho! É hoje! – Festeja Penny
— Penny comporte-se. – Repreendo
— Sim mamãe.
A noite transcorre com muita conversa e brincadeira entre todos. Penny o tempo todo se gabando de que havia feito as bruschettas e que seriam a melhor parte do jantar.

— Bem, acho que Drew não vem mesmo. – Lamentou Artie. – Que cara idiota. Preferiu ficar em casa. Pura pirraça. Igualzinho quando criança.
— Ele me disse que tinha um compromisso.
— Com as almofadas do sofá dele. – Completou ele
— É uma pena! – Lamento – Já que ele não vem, vamos comer? – O interfone toca.
— Olha, deve ser ele. – Penny atende. – Pode subir. É o marrento. - Rimos
— Então vamos esperar mais um pouco. – Adam sugere. Drew entra – Cara, já era hora. Estou faminto. Vocês vão experimentar a melhor massa caseira que já comeram na vida!
— O que é isso, Adam! – respondo sem jeito – Não é tão boa assim.
— Provem e digam. – Penny me ajuda a servir os pratos. Vamos colocando na banca e cada um vai pegando o seu.
— Desculpe o atraso.
— Não tem problema. Fico feliz que você veio.
— Fica mesmo?
— Por que não ficaria?
— Não sei.
— Deixa de bobeira. Toma, senta e coma.
— E eu sou o mandão.

Todos sentaram-se à mesa, como não havia espaço para todos, eu e Drew nos sentamos no balcão de café da manhã. Entre uma garfada e outra trocávamos olhares.

— Gente! Foi você mesma quem fez a massa desse spaghetti? – Lisa perguntou
— Não disse? – Adam comentou
— Nossa, bem leve, no ponto. Uma delícia mesmo. Parabéns! – O interfone toca.
— Está esperando mais alguém!? – Penny estranha
— Não. Todos estão aqui.
— É uma encomenda para você, Emm. – Adam atendeu – Pode subir.
— O que será? – Penny olha para mim – De quem será?
— Sabe lá Deus. – A campainha toca. Vou atender. – Obrigada. – Agradeço enquanto assino e dou uma gorjeta ao entregador.
— De quem é? – Pergunta Penny – Estou curiosa.

Congelo ao ver o nome da cidade de onde o pacote veio.
— É de Mystic City.
— Ah! Então é de sua vó.
— Não.
— Então só pode ser de meus pais.
— Também não. – A cada resposta que dou vou sentindo meu coração bater mais forte, minhas pernas enfraquecerem. Não tinha nome do remetente, nem o endereço. Apenas o nome da cidade.
— De alguém do colégio?! – Penny começa a estranhar minha reação. Adam olha para nós duas e depois para Drew, que não tira os olhos de mim, exceto quando olha para Adam. E eu apenas sacudo a cabeça respondendo à pergunta de Penny.
— Você não está achando...? – Novamente apenas aceno a cabeça lentamente confirmando. – Não pode ser. Como?!
— Se vocês me dão licença. Por favor, terminem o jantar. Penny, depois sirva-lhes a sobremesa. – Parecia que estava em câmera lenta. Minha voz saiu vagarosa. Tento me retirar em direção ao quarto. Caio desmaiada no chão.

Quando acordo estou no meu quarto, com Penny, Ashley e Lisa ao meu redor. Ouço se perguntarem se não seria melhor me levar a um pronto socorro.

— Vejam ela está acordando. – Penny avisa
— Cadê? – É a primeira coisa que falo.
— O quê? – Penny se faz de desentendida.
— Não se faça. Cadê?
— Tá lá na sala. – Levanto rapidamente, sinto o corpo cambalear, mas prossigo. Os rapazes ainda estão na sala. Pego o pacote e volto para meu quarto.
— Por favor, me deixem só.
— Podem ir. Eu fico com ela.
— Você também, Penélope.
— Oi?! Penélope?! – Aceno com a cabeça para que saia. – Tudo bem! Qualquer coisa é só chamar.
— É melhor irmos embora, não acha, Lisa?
— Não. Fiquem. Ainda temos algumas garrafas para terminar. – Consigo ouvi-las ao saírem do quarto. Penny sabia que eu retornaria.

Desembrulho a caixa, que não era maior que uma caixa de sapato. Dentro dela, um bilhete e um embrulho. Começo ler o bilhete.


Olá, minha amada!
Não pence que esqueci de você. Lhe envio um presente de formatura, Lenbra quano tiramos essa foto? Nu dia juramos que ficariamos juntos para sempre. E eu sou de cumpri minha promesas.
Agora que já realizou seu sonho infatiu de estuda nesa sidade dos infernos, já podi voutá pá me. Se não voutá logo, irei te busca
com todo meu amor,
Taylor.

Cada palavra que eu lia daquele texto horrível me arrepiava toda. Como aquele cretino soube meu endereço?! Deus o que foi que eu fiz para merecer tanta perseguição?!?!?! Já faz 5 anos que não ouvia falar dele. Pego o embrulho e abro. Nele uma foto da gente abraçados, eu estava com 14 anos, ainda acreditava no amor dele, ele ainda me tratava bem. O que vou fazer?

Depois eu decido. Estou com visitas em casa. Preciso dar atenção a eles. Vou ao banheiro lavo o rosto, retoco a maquiagem, coloco mais perfume, aliso o vestido com as mãos. Respiro fundo e retorno.

— Peço desculpa, acho que a agitação dos preparativos junto com estomago vazio, vinho e a surpresa de receber um presente de formatura de amigos da minha cidade natal, mexeram um pouco comigo. Onde estávamos?
— De quem é? – Penny pergunta rangendo os dentes coladinha com meu rosto.
— Já disse. De Tina, Scott, e do pessoal do teatro. Penny, pedi para que servisse a sobremesa. Vamos. – Dirijo-me à geladeira retiro as taças individuais. Drew vem até mim.
— Você está bem, mesmo? Não quer encerrar a noite?
— Estou ótima! Relaxe. Tome esses e leve para mim. – Entrego-lhe duas taças.

E continuamos nossa noite. Conversando, brindando e rindo. Depois desse episódio, a noite transcorreu como se nada tivesse acontecido. Como me viram bem, os demais acharam que minha explicação fora plausível. Quer dizer, nem todos, Penny, Adam e Drew estavam desconfiados. Por volta da meia noite, começamos a nos despedir. Os primeiros a irem foram Lisa e Gabriel.

— Obrigada por terem vindo. Amei.
— Obrigada por nos receber. – Disse Gabriel.
— Se cuida.
— Não se preocupa.

Uns quinze minutos depois, foi a vez de Ash e Artie irem. Adam disse que passaria a noite com Penny. Nessa hora dei por falta dela.

— Cadê ela?
— Foi no quarto.
— No meu quarto. – E me dirijo até lá - O que você pensa que está fazendo? – Minha voz sai mais alto do que planejei, ela se assusta.
— Você ia esconder isso de mim? – O volume dela também é mais alto que o natural
— Não é da sua conta.
— Como não?!?! Esse canalha manda isso para você, lhe ameaçando e você ia esconder?!?! – A voz dela fica cada vez mais alta
— Pare de gritar. Adam e Drew ainda estão aqui. – Controlo meu volume.
— Que se danem. O que está pensando em fazer? Hein? Vai voltar?!
— Não! – Respondo com veemência – Não sei! – modifico o tom de voz
— Pera aí? Você o que?!?! Isso não pode ser sério? É? – incrédula
— Não tive tempo para analisar.
— Vamos falar de análises de risco – Fala saindo do quarto.
— Para onde você vai? Volte aqui?
— Estamos aqui entre amigos que sabem, mesmo que por alto, o que esse marginal fez contigo.
— Penélope Davis, isso é assunto meu. Me devolva.
Ela para ao lado de Adam e vira-se em minha direção, gritando. — Não. Isso é assunto nosso. Eu vi, vivi e sofri tudo o que você sofreu.
— Você não sofreu nada. – Também estou gritando.
— Não da mesma forma que você. Mas cada vez que tentava me aproximar de você e me olhava daquele jeito... – a voz dela embarga – era como se ele tivesse me batido também. Cada vez que via uma mancha roxa em seu corpo – ela para e respira fundo – eu sentia a mesma dor. Quando fui lhe visitar naquele hospital depois que você “acidentalmente” – faz aspas com as mãos – bateu a parte posterior da cabeça na mesa, eu morri um pouquinho. Cada dia que não lhe via, imaginava que estava morta. Assassinada por este monstro que você sempre defendeu.
— Você não entende – Minha voz fraqueja, sinto as lágrimas escorrerem pelo meu rosto, sinto o nó se formar na garganta – Ele era tudo o que eu tinha. Eu não tinha mais ninguém. Eu não era nada. Eu não sou nada. – Adam e Drew assistiam a tudo, sem dizer uma só palavra
— Mentira! Mentira! – Ela grita, quase cai, Adam a segura. – Você tinha a mim, sua vó, meus pais. Você era tudo para sua vó. Você é tudo para ela. Você é tudo para mim. – se agarra em Adam e chora copiosamente. – Não vou deixar que ele lhe tire de mim novamente. Lhe tire da gente. Olha o que você construiu aqui. Olha seus amigos. Seu emprego. Sua vida!
— Você não entende. Vocês nunca entenderão – Corro para o meu quarto.

Entrei no meu quarto, me joguei na cama e chorei. Chorei muito. Não sei o que aconteceu na sala. Senti uma mão tocando meu cabelo. Virei o rosto, limpei os olhos e o vi.

— Drew! Desculpa esse escândalo todo.
— Não tem que se desculpar. Penélope pediu para eu ficar com você essa noite. Ela foi para a casa de Adam.
— Não precisa. Vou ficar bem. Eu sempre fico bem.
— Não vou deixá-la só nesse estado. Seria irresponsável de minha parte. Estou na sala, se precisar. – Levanta-se da cama e se retira do quarto.

Ninguém entende. Se eu não for, ele virá me buscar. Tenho certeza disso. Agora que ele sabe meu endereço, ele virá. Acabou meu refúgio. E será perigoso para Penny também.

“Era primavera. Estou com 14 anos e tinha acabado de começar a namorar com Taylor. Os dias eram mais lindos. Ele me buscava em casa para ir para a escola, me levava para casa. Enfrentava quem mexia comigo. Não deixava que outros garotos se aproximassem nem de mim nem de Penny. Sempre muito protetor. Mas muito mesmo. Não entendia por que Penny não gostava dele.
— Acho essa proteção dele exagerada.
— Você está é com inveja, porque meu namorado me protege!
— Não preciso que ninguém me proteja. Eu mesma faço isso.
— Tá com inveja. – Implicava com ela.

Numa tarde de domingo, fomos até a cachoeira, nós três. Tiramos uma foto abraçados, eu e ele, Penny bateu. Ele me disse em meu ouvido:

— Estarei para sempre com você. Cuidarei de você para sempre. Você é minha até que a morte nos separe.
— E você é meu até que a morte nos separe. – Frases inconsequentes que jovens adolescentes proferem sem pensar.

De repente, estou em um quarto escuro. Alguém grita comigo. Logo em seguida, sinto meu rosto arder. Não, novamente, não.

— Para Taylor, por favor, para. Eu não fiz nada! Eu juro! – E ele continua a me bater, sinto o gosto de sangue em minha boca.”

— Não. Por favor. Tá me machucando! – Acordo gritando. A luz do quarto acende abruptamente. Drew entra aterrorizado. Senta ao meu lado e me abraça.
—Xiiii! Xiiii! Passou! Passou! – Repete essas palavras enquanto se abraça e balança para frente e para trás. – Ele não pode mais lhe fazer nenhum mal. Ele não chegará perto de você, eu prometo. – Eu apenas choro até voltar a dormir.

Na manhã seguinte, acordo novamente abraçada a ele. É a segunda vez essa semana. Sinto-me segura ao lado dele. Ele me transmite paz. Fico assim por mais alguns instantes. Não sei que horas acordei. Nem quanto tempo fiquei daquele jeito. Ouvi um barulho na sala, me mexi para levantar, ele também se mexeu.
— Desculpa, não queria te acordar.
— Não estava dormindo.
— Mil perdões. – sento-me na cama – você me convida para jantar, tenho um lapso, convido você para jantar em minha casa, Penny e eu temos um surto e damos um show. Meu Deus, que vergonha!
— E das duas vezes, acabo com você dormindo em meus braços. Acho que ainda estou no lucro.
— Sem brincadeira. – ouço o som de vidro estilhaçando no chão. Levanto-me e vou ver.
— Ela vai me matar. – Penny fala para Adam que está me olhando.
— Acho que você me mata primeiro. – Olho para trás e vejo Drew saindo do quarto – Me faz um favor pega esse pacote com tudo que tem dentro e traz para mim.
— Claro! - Ele retorna e me entrega o pacote.
— Essa foto tinha tudo para ser uma boa lembrança, mas só traz tristeza. E o lugar dela é no lixo, como todo aquele passado tenebroso que vivemos. Mana me desculpa por tudo que lhe fiz sofrer sem saber.
— Só me jura que nunca mais cogitará retornar àquela vida.
— Você estava pensando em ... – Adam e Drew se espantam
— Vamos esquecer isso. Meu lugar é aqui. Com meus amigos, que sei que se importam comigo verdadeiramente. – E abraço Penny, que sussurra baixinho em meu ouvido:
— De novo? – e lança um olhar para Drew quando se afasta.
— Deixe de besteira. Vamos limpar isso e tomar café.
— Que tal irmos tomar o brunch em algum lugar, nós quatro e depois curtimos o sábado? – Sugere Drew.
— Sei o lugar perfeito para o brunch e podemos mostrar o Brooklyn ao menino de Manhattan.
— Ei, eu conheço o Brooklyn.
— Da ponte ao meu apartamento e, agora, até aqui. – Zomba Adam.
— Idiota.

E assim começamos nossa manhã, lavando, varrendo, limpando os vestígios do jantar da noite anterior e daquele presente infernal. Ao terminarmos, os rapazes foram ao apartamento de Adam trocar de roupa, enquanto nós nos arrumávamos. Quando ficamos prontas, descemos para esperar por eles. Estávamos famintas, já era quase 11 da manhã quando eles chegaram. Entramos no carro de Adam e seguimos para o dinner. Passeamos pelo jardim botânico do Brooklyn, Adam e Penny mais a frente, eu e Drew um pouco mais recuados. Em algum momento nossas mãos se tocaram, nossos dedos se entrelaçaram. E continuamos andando assim, de mãos dadas.

Um pouco mais adiante, nos sentamos num banco, o outro casal sentou em outro. E começamos a conversar.
— O que aconteceu com você essa semana? – Perguntei a ele.
— Resolvi lhe dar espaço. Senti que não estava à vontade comigo. – Olho nos olhos dele, séria e respondo:
— Não estava à vontade com você?!? Dormimos juntos naquele dia!
— É dormimos!
— Sério. Amei nosso jantar, me divertir muito.
— Desculpa se pareço cético, mas não foi o que pareceu. Voltou calado a viagem inteira.
— Disse que estava com dor de cabeça.
— De novo. Não acreditei. Mas respeitei seu espaço. – Coço minha cabeça, me ajeito no banco, giro o corpo e fico quase de frente para ele.
— Lembra que disse que minha vida era feita de contradições? – Ele acena com a cabeça – Então, tirando aquela que já lhe contei, a outra mais importante de minha vida, é a do amor e violência. Enquanto meus pais eram vivos, esses dois não andavam juntos... – Engulo seco.
— Mas esse Taylor lhe “mostrou” que um não existe sem o outro. – Aceno com a cabeça um pouco tristonha. – Não fique triste, continue.

Respiro fundo, busco forças e continuo.

— Durante 4 anos vivi em um relacionamento abusivo e muito violento. Entre os 16 e 18 anos, fui parar algumas vezes no hospital. Numa delas, a que Penny comentou ontem, ele me empurrou, durante uma das muitas brigas que tivemos, e eu bati minha cabeça na mesa de estudos dele. Na hora desmaiei. Quando acordei, estava só no quarto e ele na sala com o pai assistindo futebol.
— Os pais estavam em casa e não fizeram nada?
— Ele é igual ao pai. A mãe fazia de um tudo para evitar. Com o pai conseguia, mas com ele não. Arrumei minha mochila e a partir daí só lembro quando acordei no hospital. Não sei como saí de lá, como cheguei em casa, como fui parar num quarto do hospital da cidade. Desde então, tenho esses lapsos de memória e alguns blackouts. Quando lhe disse que não sabia o que tinha acontecido, não sabia mesmo. Para mim, estava numa hora me divertindo com você, discutindo sobre homens e na outra uma garçonete me chamava dizendo que você estava me procurando. Numa hora estávamos entrando no seu carro, de repente estava no Brooklyn e você querendo o endereço, no mesmo instante, já tínhamos chegado. É assim.
— E o motivo?
— Uma lesão decorrente da pancada.
— E o que gera? Qual é o gatilho?
— Todos e nenhum. É emocional. Alguma coisa em nossa conversa, não lembro o que, mexeu comigo.
— Entendo. – Ele me puxa para perto dele e ficamos assim, abraçados.
— Ei, pombinhos, onde vamos ver o pôr do sol? – Adam grita do banco deles.
— Já sei. Me dá as chaves do carro.
— Mas nem a pau. – Nega enquanto se aproxima.
— Agora é a minha vez. Vou lhe mostrar que eu conheço sim o Brooklyn. Anda me dá.
— Vai amor, entrega, vamos ver se ele conhece mesmo nosso bairro. – Atendendo ao pedido, Adam lhe joga as chaves.
— Vamos.

Durante o percurso vamos conversando besteiras, comentando algo sobre alguém que passou. Os rapazes na frente, nós duas atrás. Um mexe com o outro, nós duas damos risadas. Então fico sabendo que os dois foram da mesma turma na faculdade e frequentaram a mesma fraternidade.

— Isso aqui – Adam aponta para Drew e ele - é família.
— A gente se odeia, mas se ama. – Caímos na risada. – Pronto chegamos. E bem a tempo.
— O Highline Park! Boa pedida! – Admira-se Adam
— Com certeza! – concordamos. Eles abrem as portas para que possamos sair. Drew me dá a mão e cola seus lábios aos meus. Fico surpresa.
— Por que a surpresa?
— Não esperava, só isso.
— Tenho vontade de fazer isso desde a segunda. – Abaixo a cabeça envergonhada. – Não abaixe a cabeça nunca por nada nem para ninguém. – Imediatamente a levanto – Melhor. – E me dá outro beijo. – Vamos, não quero perder.

E caminhamos até o pôr do sol. Juntos. De mãos dadas. Como nunca andei com ninguém em minha vida. A noite caiu. A fome começou a bater em Penny. E ela com fome...

— Quero comer.
— Daqui a pouco. Vamos esperar mais um pouco. – Pediu Adam e ela coçou a sobrancelha. Isso não era um bom sinal.
— Acho que você não entendeu. – Cutuquei Drew e sussurrei em seu ouvido
— Isso não vai ser bonito. Ele cutucou a onça.
— Estou lhe dizendo que estou com fome.
— E eu pedindo para esperar um pouco mais.
— Adam estou com fome.
— Penélope, você já disse. Eu sei. Mas vamos esperar mais um pouco.
— Ele está de onda com ela – Drew sussurra em meu ouvido
— Eu sei. E isso não vai dar certo. Conheço minha amiga. O prato já deveria estar na frente dela numa hora dessas.
— Pera aí que vou pegar uma pipoquinha para você. Diz ele meio irônico, levantando-se e indo comprar a pipoca
— Pipoquinha é o caralho, Adam. – Ela não grita, berra, batendo a mão no saco de pipoca. - Quero comida. Estou com fome. – Respondeu furiosa.
— Eu não lhe disse? – olho para Drew que me aponta Adam, gargalhando da reação dela.
— Porra, Adam. Sabe que quando estou com fome fico mal humorada. – E ela parte para cima dele dando leves tampinha “raivosos”.
— Agora ele vai fazer cara de Gato de Botas, aposta?
— Gato de Botas?
— É, você também faz. Preste atenção. – E Adam faz a cara do Gato de Botas.
— Acabou a briga. Vamos comer. – Informo
— Como você sabe?
— 3 anos com eles.
— Não faz essa cara. – Penny fala - Sabe que não aguento. – E acabam se beijando.
— Não disse? Já podemos ir? Ou ainda tem mais showzinho de vocês?
— Vai beijar seu homem e me deixa com o meu.
— Oi?! Já passou a fome? - Perguntei
— É. Isso pode esperar. Minha fome não. Vamos, quero comer. – E partimos.

Jantamos em um restaurante ali perto mesmo. Voltamos para casa. Penny fica se despedindo de Adam encostados no carro dele. Drew me leva até o portão do prédio.

— Obrigado por confiar em mim.
— Obrigada por ser tão gentil e amável.
— Entendo que é difícil para você, mas nos dê uma chance.
— Estou dando. – Ele se aproxima e me beija. Beijo longo, casto, carinhoso, mais repleto de paixão.
— Posso te ligar amanhã?
— Não.
— Pensei que fosse nos dar uma chance.
— Vai me ligar assim que chegar em casa. Fico preocupada com sua segurança.
— Senhora, sim, senhora. – E bate continência.
— Vamos entrar, Emm – Penny passa por nós – Boa noite, Drew.
— Vá subindo, que vou atrás. – Aviso a ela – Obrigada pelo dia fantástico. Amei.
— Obrigado você. – E me dá outro beijo.
— Estou esperando.
— Entre. – Simplesmente, bato continência e entro.

Vinte minutos depois, o telefone toca, e vejo seu nome no visor.
— Chegou bem?
— Cheguei. Já estou dentro de casa.
— Que bom! Boa noite!
— Boa noite, anjo! Sonhe com os anjos.
— Você também. Drew! – Digo.
— Obrigada por tudo.
— Fiz por prazer. Agora vá descansar. Sua noite ontem não foi boa e o dia agitado. Me ligue quando acordar. Beijos.
— Boa noite, meu anjo. – E desligo o telefone.

***

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