Emily Campbell
Aquela não foi a última vez que vi Derek. Nos meses
seguintes, ele se mostrou muito prestativo. Chegando a me levar algumas vezes
às consultas e exames. Ele confessou que achou estranho o interesse súbito em
mim, especialmente por eu estar grávida.
— Deve estar achando que sou algum maníaco. Mas a verdade é
que algo em você me chamou a atenção. Não sei o quê. Seu sorriso, o jeito
delicado com que fala com seus bebês, ou com quem está ao seu lado, ou o
fascínio com que olhava o pôr do sol. – Ele tentava me explicar enquanto
retornávamos de mais uma consulta.
Já estávamos em abril, havia entrado na minha vigésima nona
semana, e minha médica começava a se preocupar com um parto prematuro, comum
numa gravidez gemilar, e levando em consideração meu histórico, corria um
risco. Então a partir de agora nossas visitas seriam mais constantes.
“Anjinhos,
mamãe preparou essa casinha tão acolhedora para vocês ficarem por nove meses.
Aqui fora ainda não está pronto. Por favor!” – Passou a ser meu mantra diário.
Derek me deixou no escritório
contra a vontade dele, por ele eu pediria licença e só voltaria a trabalhar
depois do nascimento dos gêmeos. Mas não podia fazer isso, tinha dado minha
palavra para Steph que a gravidez não atrapalharia meu andamento no escritório.
E não atrapalhou nem irá. Nessa altura do campeonato, já estava como gerente
regional da divisão havaiana, responsável por toda negociação com a Ásia e
Oceania.
Já estava ganhando um bom
salário, com o dinheiro que havia juntado em Nova York e agora, consegui dá uma
boa entrada numa linda casa, que o banco recuperara, então o valor estava bem
abaixo do mercado, com minha participação na agência de turismo e parte do
salário conseguiria pagar as prestações até consegui vender a cobertura nos
Hamptons.
Estava tudo caminhando. A
decoração dos quartinhos ficou linda, nada de princesa e príncipe, o tema dos
quartos era Anjos, todo em tom pasteis, colorido. Ficou digno de uma designer
de interiores. Queria que Lisa visse meu trabalho. “Na
verdade, queria que ela e Penny estivessem aqui, me ajudando!” Penso comigo mesma. Mas como? Se ninguém sabia o
que estava realmente acontecendo comigo? Já pensei diversas vezes em como
contar a Penny sobre os gêmeos, mas na hora h, falta coragem. Esse é o
principal motivo de minhas discussões com Nana. Ela não gosta da ideia de
deixar minha melhor amiga às escuras.
***
Drew
Grant
Abril chegou e nossas previsões
não se concluíram. Estamos atrasados na fundação. Mas ao que tudo indica,
terminaremos esse mês, e mês que vem começamos as vendas na planta do
condomínio. É um negócio arriscado para uma empresa do nosso porte, mas esse
risco foi muito bem calculado.
Estou em reunião com meus
engenheiros sobre as obras que estão sendo finalizadas ou em processo avançado.
Precisamos liberar as equipes para a próxima etapa da obra. Mas está difícil,
Gabriel está fazendo muito bem seu trabalho, na prospecção de novos clientes.
Ashley já não pega mais projeto
nenhum novo, por causa da gravidez, ela corre o risco de ter um parto
prematuro. Então tem se dedicado, quase que exclusivamente aos projetos antigos
e ao condomínio. Transferiu a liderança de sua equipe para um outro arquiteto.
Artie, é claro, preferia que ela ficasse em casa, mas não se atreve mais a
falar nisso. Caiu na besteira de falar durante um almoço quando nossos pais
vieram nos visitar, por pouco um prato não lhe acertou perna.
— Eu. Já. Disse. Que. Não. Vou.
Parar. Até. O. Dia. Do. Parto. – Terminou a frase arremessando o prato que
estava em sua mão na direção dele, mas para o chão.
— Calma, minha filha! Isso não
fará bem aos bebês. Arthur! Para com isso, Ash está grávida e não doente. Eu
também tive gêmeos e só parei uma semana antes de vocês nascerem, porque me
sentia pesada demais para andar. – Minha mãe dificilmente nos chamava pelo
nome, mas quando o fazia sabíamos que não estava feliz.
— Mas, mãe... – Ele tenta
argumentar, mas papai não deixa
— Nem mais nem menos. Sua mãe
tem razão. Ash sabe o que faz. E acabou o assunto.
E quando ele dizia “acabou o assunto” ninguém mais tentava argumentar. Ele já havia
determinado. Meu pai não era intransigente, longe disso. Mas ele sabia que uma
discussão entre Artie e a mamãe duraria intermináveis horas. Então ele acabava
logo no início, dando como ganha a batalha por ela. Afinal, ele sabia onde o
calo dele apertava.
Nesse período, meu lance com
Becca foi ficando mais sério. Agora estávamos namorando realmente. Estar com
ela era um alívio para as preocupações do dia a dia nas obras. Não falávamos
sobre o trabalho nunca. Nem o meu nem o dela. Mas ainda não estava apaixonado
por ela. E para piorar as coisas, embora ela fosse uma boa pessoa, não
conseguia se entender com meu irmão, minha cunhada, nem Adam, muito menos
Penny. De todos entendo Penny, que torcia pela amiga dela. E pelo que pude
perceber, ela também não faz nenhum esforço para agradar a ninguém.
***
Penny
Davis
Estamos entrando em maio e tem
quatro meses que Emm foi para o Havaí. Se lhe disser que falei com ela uma vez
por semana nesse período, estou exagerando. Facetime, então nem pensar. Não
aceita um. Tem algo de estranho. Meus pais escondem algo de mim sobre ela, assim
como a Nana. Pesquisei sobre o processo contra Taylor e não tem nada que a
forçasse a sumir desse jeito.
— Meu amor, vai ver que é por
conta do novo trabalho dela. Você bem conhece Emm, quando se envolve em algo,
se entrega.
— Desde que não seja assunto do
coração. – Rebato
— Desencana desse assunto,
Penny. Os dois já lhe falaram sobre isso, já aceitaram que não daria certo. Só
você que insiste.
— Eles desistiram muito fácil.
— Porque o que eles sentiam não
era tão forte assim como...
— O que ele e a lambisgóia
sentem um pelo outro?
— Não. Como você e Ash pensaram
e quiseram.
— Aí tem. Esse sumiço de Emm.
Ela está me escondendo algo. – Uma luz acendeu – Será?
— Será o que, amor?
— Não! Não! Ela me contaria!
Melhor, eu perceberia! Perceberia?! Contaria?!
— Do que você está falando?!
— Preciso ligar para ela. E vai
ser agora. – Vou para o quarto que era dela, tranco a porta. Não quero que Adam
ouça. E faço a chamada, ainda é cedo lá.
O telefone chama... Chama... Chama...
Até que ela atende.
— Penny aconteceu alguma coisa?
— Você que me diga. O que está
escondendo de mim?
— O quê? Tá doida?
— Não. Sei que está escondendo
algo de mim. O que é?
— Mana, eu... eu... não tô
escondendo nada.
— Vou fazer um facetime, e se
não atender, saberei que está escondendo algo muito sério de mim.
— Penny. Estou no escritório.
Indo para uma reunião com empresários australianos, não posso fazer um facetime
com você agora, somente para você tirar da cabeça uma hipótese criada por você
de que estou escondendo algo. Quando minha reunião acabar te ligo. Aloha.
— Aloha o escambau. – Ela já
havia desligado. Essa ligação não chegou naquela semana.
Graças a Deus a gestação de Ash
está sobre controle e eles decidiram fazer um chá de bebê enquanto os bebês não
chegavam. Convidaram muitos amigos casados, a família deles estava presente em
peso. É claro que Drew trouxe a namoradinha. Ela não me desce. Não é divertida
como Drew e vive o podando.
— Para Drew, estamos em público.
– Reclamava ela de alguma brincadeira que ele fez antes de chegarmos.
— Olá! – cumprimento a todos.
— Oi! – me cumprimenta com um
revirar de olho
— Vou dar um tabefe nessa
criatura – grunho no ouvido de Adam
— Comporte-se. – Fuzilo ele com
o olhar. – Não adianta fazer nada. Ele gosta dela. Como bons amigos devemos acatar
sua decisão.
— Foda-se, Adam. Você também não
a suporta.
— Mas administro esse não
suportar por causa dele.
— Algum problema? – Drew
pergunta.
— Que eu saiba não. – Respondi a
ele.
— Claro que não percebe.
A sutiliza é questão de berço.
— Oi?! Você disse o quê? – Finjo não ter entendido.
— Ela não disse nada. – Drew tenta abafar o caso. – Becca,
por favor.
— Mas eles que começaram a conversar cochichando, querido.
Isso é extremamente grosseiro.
— Talvez, estivéssemos conversando um assunto nosso, que
não lhe diz respeito, querida! – Essa última palavra saiu com um sarcasmo muito
grande.
— Amor, vamos ali falar com os pais de Ash. Faz muito tempo
que não converso com eles. – Adam me retira para não acontecer uma baixaria. –
Você também não tem ajudado, né Penny?
— Ela que veio com a história de que eu não tenho berço. E
foi ela quem começou revirando os olhos quando os cumprimentei.
Artie e Ash se aproximam de nós dois. Também chateados com
a presença de Rebeca na festa.
— Juro que não entendo. Drew diz que ela é uma boa pessoa.
Mas não consigo enxergar. – Artie comenta ao encostar onde estamos
— E Adam diz que penso o que penso dela porque queria que
Drew se entendesse com Emm.
— Não é isso. Sei que ela é desagradável. Era na faculdade
e só fez piorar depois que o sucesso subiu a cabeça. Mas sua birra com ela se
deu por causa de Emm.
— Só não a coloquei para fora porque amo meu cunhado. Mas
ela está demais hoje. – Ash comenta muito chateada – Hoje é a festa dos meus
bebês.
— Vou lhes dizer uma coisa, é melhor nos acostumarmos com
ela. Drew a segurou como um náufrago segura uma boia salva-vidas. – Artie
alerta
— Concordo com você, meu amigo! – Adam completa. Eu e Ash
apenas respiramos fundo.
***
Nenhum comentário:
Postar um comentário