— Juro que não entendo você! – Lisa comenta. Passamos a nos
encontrar para a noite das meninas, uma vez por semana. Saímos do escritório e
sentamos em algum restaurante ou bar próximo para o Happy Hour. Hoje estamos todas.
— Não tem o que entender. – Rebato, tentando cortar o
assunto preferido das três nessas reuniões
— Como não!? – Ash é a mais indignada das três. – Não é
porque é meu cunhado. Mas homem igual a ele, só meu marido! Lindo, educado,
atencioso, ... – E passa a dar as qualidades de Drew.
— Concordo com você em tudo, menos em uma coisa, igual a ele
não é só Art, Adam também.
— Gente, ele tem defeitos como todos nós. – Continuo a
rebater – Drew não é perfeito, vocês sabiam?
— Claro que não é perfeito. Não somos mais adolescentes para
acreditar em príncipes encantados sem defeitos. Mas que temos quatro príncipes
em nossas vidas, temos. – Penny defendeu o ponto de vista delas.
— 4?! – As três ao mesmo tempo.
— A tá! Vocês não consideraram Gab?! Ele é lindo, um
corpaço, disponível a ajudar a qualquer hora, e todas as outras qualidades do
demais. – Concordamos com ela.
— Fora isso tudo, falando como chefe dele, um profissional
de primeira. Ele é muito pró-ativo.
— Pronto. Ligou o modo Gerente. Corta essa Emm. – Reclamou
Penny – Aqui não é lugar.
— E ela fala como se os outros não fossem profissionais. –
Ashley defendeu os sócios.
— Não disse isso.
— Tá! Mas por que você e Drew não estão juntos mesmo? – Lisa
insiste, ela assim como Ash não entendem, não lhes contei minha história.
— Já disse. Por enquanto não quero compromisso com ninguém a
não ser comigo.
— Pensei que hoje fosse a noite das meninas? – Pontua Ash
quando viu os sócios entrando no bar que estávamos. – Quem contou a eles onde
estávamos?
— Não olhe para mim! Nem falei com Adam hoje.
— Muito menos eu. Amo está só nós quatro. – Falei. – Lisa?!
— Acho que sem querer devo ter dito algo a Adam.
— Como assim?!?
— Boa noite, Senhoras! – Chegaram cheios de graças.
— Só tem uma senhora aqui. – Respondeu Penny cruzando os
braços e fazendo bico. Adam dá a volta em nossa mesa para dar-lhe um beijo.
Arthur faz o mesmo. Drew apenas acena com a cabeça para mim
— O que vocês estão fazendo aqui? – Ashley pergunta
— Viemos passar vergonha com vocês. – Drew responde chamando
o garçom
— Passar vergonha? Nem chegou e já está bêbado? – Lisa
estranha
— Vai dizer que vocês não sabem que hoje é dia de Karaokê
aqui?
— Vou embora. – Penny se levanta mais que depressa – Não
fico aqui nem mais um segundo. Emily? Você sabia disso? Você escolheu o bar
hoje. Fez de propósito.
— Qual é! Acha que faria isso? Logo eu que detesto karaokê mais
que você. Vamos pedir a conta e vamos embora.
— Ninguém sai daqui até que tenhamos, pelo menos, cantado
uma vez cada um. – Ordena Adam
— Bom se Penny quiser ficar, ela fica. Eu vou embora. Agora
mais do que nunca.
— Adam! – ele é repreendido discretamente por Penny. Já
estou de pé pegando a carteira e retirando uma nota de 20 dólares para pagar
meu consumo, quando sinto a mão de Drew tocando meu ombro.
— Por favor, fique! – Falou baixo perto de meu ouvido. É
impressionante como ele sabe me convencer a fazer o que não quero.
— Certo, mas quando começar a cantoria, vou embora.
— Veremos. – Ele responde em meio de um sorriso charmoso no
canto da boca.
— Acho que estou sobrando. – Comenta Lisa.
— Não, meu amor. Quem está sobrando são eles. Hoje é nosso
dia. – Ash não estava nem um pouco contente.
— Quer que eu vá embora? – Artie questionou
— Não devia nem ter vindo. – Sabia que as coisas entre os
dois não estavam muito boas nos últimos dias, mas não imaginei que estivesse a
esse ponto.
— Beleza. Vou embora. – Ele se arruma para sair.
— Aaah! Não vai, não senhor. Se eu vou ficar, forçada, você
também fica. Ash deixa de coisa. - Replico
— Aff! – ela suspira.
— Acho melhor pedirmos uma mesa maior. Que demora do garçom
de chegar. – Drew reclama
— Boa noite.
— Por acaso, teriam uma mesa maior?
— Infelizmente estamos lotados hoje. Posso providenciar mais
cadeiras se desejar.
— Ótimo! Aproveita e traga três cervejas, por favor.
Meninas? – Recusamos com a cabeça.
E a noite estava animada. Os rapazes a perturbar um ao
outro. Adam a provocar Penny, Drew e eu a trocar olhares. Lisa começou a
paquerar um bonitão que estava na mesa ao lado. Quando alguém anuncia que o
karaokê iria começar em breve e que as inscrições estavam abertas. Olhei para
Penny, que olhou para mim. Ela sabia que eu precisava sair dali urgente.
— Gente, o combinado foi que ficaríamos até essa baixaria
começar. – Ela comunicou
— Não vão, não. Eu fiquei. Vocês vão ficar até o final. – Artie
desafiou. Penny via meu desespero no olhar.
— Mas eu... – Tentei falar, mas fui interrompida por Adam.
— Mas nada. Vamos ficar até que todos tenhamos cantado algo.
— Por favor... preciso ir. – Estava implorando. Mas eles não
entendiam
— Detesta tanto assim karaokê? – Drew me pergunta
— Para você eu digo o porquê. É um gatilho. Um dos poucos
que consegui identificar. – Sussurrei em seu ouvido.
— Entendo! Mas vamos tentar, me inscrevi para cantar uma
música para você. Vou ver se posso ser o primeiro e depois te levo para casa,
tudo bem?
— Posso tentar. Penny, chega aqui.
— Obrigado.
— Oi, mana!
— Vou tentar ficar, Drew disse que vai cantar.
— Para você? – Aceno com a cabeça. – Você vai ficar bem? –
Dou com o ombro. Nesse momento Drew não está mais perto da mesa. – Quer que eu
fique aqui? – Novamente aceno positivamente com a cabeça. E ela me abraça e
fica ao meu lado, segurando minha mão.
Infelizmente, Drew não é o primeiro. Ele é o quinto a
cantar, cada um que iniciava, eu apertava a mão de Penny, a coitada, vai acabar
com a mão quebrada. Cada nota que inicia, engulo seco esperando qual é a música
e respiro fundo quando percebo que não é a maldita canção. Drew é chamado ao
palco, reconheço a música nas primeiras notas. Give your heart a break,
de Demi Lovato. E ele começa a cantar. Quando chegou à segunda estrofe, buscou
meu olhar e passou a cantar olhando para mim.
Agora estamos tão
perto e ainda tão longe
Como eu ainda não
passei no teste?
quando querida
você perceberá
que eu não sou
como os outros
Não quero quebrar
seu coração
quero dar ao seu
coração um tempo
eu sei que está
assustada, é errado
como se pudesse
cometer um erro
Só temos uma vida
para viver
e não existe tempo
para esperar, para desperdiçar
Então me deixe dar
ao seu coração um tempo
Dar ao seu coração
um tempo
Me deixe dar ao
seu coração um tempo
Seu coração um
tempo
À medida que ele ia cantando, eu ia soltando a mão de Penny.
Meu corpo estava relaxando aos poucos, o pânico foi dando lugar à calma. Meus
olhos não saiam dos dele, nem os deles saiam dos meus. Ao meu redor, tudo ia
desaparecendo, aos poucos só tinha eu e ele. Ele e eu. No bar, tudo era um
grande borrão. Meus pensamentos estavam vazios, apenas ouvia a voz dele dizendo
aquelas coisas para mim. Sim, eram para mim. Era um recado. Acenei com a
cabeça. Estava em transe. Não percebi quando a música acabou. Senti o toque de
Penny sobre meu ombro.
— Emm, você está bem?
— Mana, lembro de tudo. Não tive nenhum lapso. – Percebia
minha voz leve, sem nenhum receio. – Eu estou bem. É. Eu estou bem! – celebrei.
— Ainda quer ir embora? – Ela me pergunta
— Quero. Não quero perder essa sensação. Vamos. – E me
levanto sem esperar por Drew
— Mas e Drew?!?!
— Vamos. Agora. – Pego minha bolsa e saio desgovernada,
ouvindo os primeiros acordes da próxima música.
— Diga a Drew que já fomos – Consigo ouvi Penny avisando às
meninas que estávamos saindo. Só paro no estacionamento, ofegante.
— Pode me explicar o que houve? – Penny está sem entender –
Numa hora você estava feliz na outra se desesperou e saiu correndo. Lembra
disso?
— Lembro. Estava bem. Agora estou apavorada. Taxi! – grito
ao ver um passando. – Vamos.
— Drew disse que te levava.
— Você vem ou não?
— Não sou louca de te deixar sozinha. – Entramos no taxi.
Pego meu celular e o desligo. Penny me olha estranho. Peço para que o motorista
dirija, mas não passo o endereço.
— Brooklyn.
— Não! – grito – Apenas dirija. Depois passamos o endereço.
– Olho para ela – Não quero ir agora para casa. Por favor, desliga seu celular.
– Peço quase implorando
— Eles ficarão preocupados. Posso mandar uma mensagem?
— Para o Adam. – Ela concorda. E vou falando enquanto
digito: “Amor, estou com Emm, ela está bem. Tranquilize Drew. Amanhã nos
falamos.” Ela aperta enviar e eu a agradeço. O taxi roda pela cidade ainda
em movimento. Olho pela janela, “não acredito no que ele quis dizer com
aquela música. Ele não sabe onde está se metendo. Como estamos está ótimo.
Ninguém corre nenhum perigo. Eu não me machuco. Ele não se machuca. Assim está
perfeito. Para que complicar as coisas?!?!”
— Mana, já estamos rodando a muito tempo. Podemos ir para
casa?
— Podemos. – Penny bate na janela da divisória do taxi, e
passa o endereço para o motorista.
Entramos em casa, deixo minha bolsa no aparador da porta,
vou à cozinha pego um copo de água e vou para meu quarto. Troco de roupa e
deito. Logo pego no sono.
Passou duas semanas desde a noite do karaokê. Conversei com
Drew sobre o que aconteceu. Fiquei apavorada com o que havia acontecido comigo
naquela noite. Algo diferente. Uma sensação leve e assustadora ao mesmo tempo.
Ele disse que entendia. Naquela mesma semana, marquei uma consulta com Dra.
Reeds.
— Explique exatamente o que sentiu, Emm.
— Polly, o pavor aos poucos foi ficando leve, de repente não
havia mais ninguém. Éramos só nós dois. Mas depois que a música acabou e Penny
me tocou e saí do transe, e ela me perguntou como estava, à medida em que ia
falando, aquela sensação de leveza e segurança foi dando lugar à dor, medo e
desespero. Tinha que saí dali correndo.
— Sua amiga foi com você ou saiu sozinha?
— Ela foi comigo. Pegamos um taxi, desliguei o celular, pedi
que fizesse o mesmo e ficamos horas rodando pela cidade. Até que ela pediu para
que fossemos para casa e eu concordei.
— Não falou com Drew?
— Naquela noite, não mais. No dia seguinte, conversamos
durante o almoço. E só.
— E o que lhe assustou mais? Não ter tido o lapso ou o que a
música significava?
— E o que ela significa?
— Você sabe.
— Sei? Sei, né. Acho que foi o que ela pode significar. Não
ter tido o lapso foi fantástico. Mas o que ela pode significar, isso machuca
muito.
— O que machuca?
— A possibilidade.
— De?
— Ser verdade. De eu estar errada.
— Mas você já sabe que está errada.
— Lá no fundo, não estou. De alguma forma sairei machucada.
Qualquer um poderá me machucar. Não sou mais capaz.
— Já discutimos isso. Veja onde chegou.
— Profissionalmente, eu sei que sou eficiente. Mas só
profissional. – E a consulta segue. Mas nada muda.
Acordo na manhã seguinte, com o despertador tocando, me
alertando que era hora de me arrumar e ir para o trabalho. Não me sinto
disposta. O corpo está mole. A cabeça dói. Mas forço-me a levantar e dirijo-me
até o banheiro:
— Um banho e fico como nova.
Tento me convencer disso, termino o banho e faço toda a
rotina antes de partir para o trabalho, visto-me, faço cabelo e maquiagem,
calço o sapato, tomo o café, vou até o metrô. Chego ao escritório no mesmo
horário de todos os dias. Nada diferente. Apenas eu. Tem algo me incomodando
hoje. Começo minha rotina.
No meio da manhã, Penny chega em meu escritório. Começa a
falar um monte de coisas, sem sentido.
— Penny, o que está acontecendo?
— Nada. Por quê?
— Você está estranha. – Meu celular toca. – De sua casa.
— É? Deve ser alguma coisa da empresa.
— Penny?!
— Atende logo.
— Alô!
— Emily, minha filha, tudo bem?
—Tia, comigo tudo. E por aí? Aconteceu alguma coisa?
— Penny está aí?
— Sim! – Estranho a pergunta – O que está acontecendo?
—Juro que não sei. Ela pediu para que eu viesse para cá.
Coloca no viva voz.
— Tia, tá no viva voz.
— Emm, minha filha. É sobre sua vó. – Estremeço toda.
— O que aconteceu com Nana? – Minha voz soa desesperada
— Calma, Emm. Mãe diz logo.
— Ela passou mal ontem a noite e está internada.
— Passou mal como? O que ela teve?
— Os médicos não sabem ainda. Mas acham que é sério. Você
precisa vir para cá ainda hoje.
— Não! Vou mandar trazê-la para Nova York.
— Ela pode não aguentar a viagem.
— Contrato uma UTI aérea. – o desespero toma conta de minha
voz. – Eu não posso voltar.
— Mãe, pegaremos o primeiro voo para aí. – Penny assume o
comando, sabendo que não tenho condições de decidir nada. – Gab, por favor,
liga para o aeroporto reserva duas passagens para Boston e alugue um carro em
meu nome por favor. Meus dados.
— Já estou fazendo isso.
— Adam, Drew? Quem está aqui?
— Apenas Artie.
— Peça para que venha aqui, por favor. Emily, precisamos ir
arrumar nossa bagagem.
— Penny, você não entende? Eu. Não. Posso. Voltar.
— Emily, de todos sou quem mais entende. Mas sua vó precisa
de você. O caso dela pode ser muito grave. Você tem que ir.
— Não consigo. Não consigo.
— O que houve? – Artie pergunta ao me ouvir quase gritando.
— A vó dela está internada. Precisamos ir para Mystic City.
— Precisam de alguma coisa?
— Só da dispensa dela.
— Nem precisava pedir. Eu aviso a
Drew e Adam que estão indo para lá.
— Obrigada. Vamos querida. No
caminho ligo pro escritório e aviso que estarei viajando.
— NÃO CONSIGO!! JÁ DISSE!! –
Grito desesperada.
— Emily Campbell! Você consegue
sim. Se sua vó morrer e não se despedir por causa disso não se perdoará.
— Nana, morrer?!? Não. Não posso
perdê-la também. – Consigo me levantar, pego minha bolsa e saio do escritório
sendo apoiada por ela.
— Mando as informações do voo e
do carro para o celular dela.
— Obrigada, Gab.
— Cuida de tudo para mim. Confio
em você.
— Não se preocupe. Saúde para sua
vó. – Gab rebate
— Quando chegarem, nos avise. –
Pede Artie e Penny acena com a cabeça.
O caminho do escritório até nossa
casa, de nossa casa até o aeroporto, o voo, o caminho até nossa cidade. Tudo.
Simplesmente tudo é um espaço em branco.
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