Março chegou e com ele
começamos a obra do condomínio. A primeira etapa é a das fundações. A parte que
sustenta todo o prédio. A expectativa é que finalizemos essa parte entre 30 e
45 dias, com os atrasos normais é possível que fechemos em 60 dias. Estamos
todos muito envolvidos nesse projeto. Até mesmo Ashley tem aparecido
constantemente no canteiro de obras para fiscalizar, deixando a todos
preocupados, pois sua gravidez caminha para o sexto mês, já está com a barriga
bem grandinha. Teremos um casal. Eles decidiram homenagear nossa irmã, e o nome
da menina será Angela. Para o nome do menino decidiram sair da letra A, e seu
nome será Raphael, como o anjo.
No campo pessoal, tenho saído
algumas vezes com Becca. Ela tem me feito muito bem. É uma relação em
construção, estamos nos conhecendo. Na época da faculdade, não sairia com
alguém como ela, que era uma doce jovem, sonhadora, romântica, enquanto eu
estava realmente focado em me formar e curtir aqueles anos, pois sabia que
depois dali, a vida não me trataria com tanta benevolência, levaria porradas de
todos os lados. E não estava errado. Tenho apanhado muito.
Mas agora, estamos mais
maduros, a vida nos ensinou muitas coisas. Certas lições foram mais suaves que
outras. Algumas foram duras demais. Mas sobrevivemos e amadurecemos. Hoje sinto
que ela não quer as mesmas coisas que queria na faculdade. Construiu um nome de
respeito em sua área. Construiu sua empresa de móveis personalizados do nada e
alcançou o mercado europeu, além do nosso. Está bem focada no trabalho.
Eu, que pensei em formar uma
família como meus pais e irmão, percebi que é melhor estar solteiro. Não quero
amarras. Quando comecei a me envolver com Emily, foi tudo muito intenso e
rápido. Desde o momento em que a vi entrar no restaurante com Adam percebi que
ela era a mãe de meus filhos, a mulher com quem eu teria tudo que meus pais
sempre tiveram, e que queria para mim, quando chegasse a hora. Não que eu seja
um cara romântico, mas também não estou longe disso. Cresci num lar repleto de
amor, carinho e compreensão. Mesmo na época da morte de Angie, nunca ouvimos
uma palavra ou vimos um gesto ou um olhar de acusação ou reprovação por a
termos deixado sair sozinha. Porém essa culpa nos acompanhou mesmo sem
acusações.
Mas eu acho que me afetou mais
que a Artie. Logo ele compreendeu que não tivemos culpa. Claro que esse
esclarecimento veio com a ajuda profissional. Mas comigo foi diferente. Desde
que enterramos nossa irmã, tenho sonhos com ela sendo agredida. Em todos, principalmente
nos primeiros meses, o agressor era eu. Minha psicóloga me disse que era uma
projeção do que estava sentindo e que com o tempo passaria. Ela estava certa,
ao longo dos anos, o agressor passou a ser o que ele era, um corpo sem rosto.
Mas a culpa ainda me corroía.
Sempre que estava na companhia
de alguma mulher, me sentia na obrigação de acompanhá-la até em casa.
Independente se eram apenas amigas ou se tinha rolado algo de uma noite ou se
eram minhas namoradas. A maioria preferia ir de táxi ou uber. Cheguei a seguir
algumas. Quase fiz isso com Emily naquele dia, mas me contive. Fazendo a
ligação, perguntando se já havia chegado e pedindo para me ligar, de acordo com
suas respostas, o motorista saberia que ela estava sendo monitorada por alguém.
E esperava que lembrassem do quão grande eu era, fazia questão de abrir a porta
do carro e mostrar meu rosto a ele.
Eram medidas que aliviavam
minha tensão, minha preocupação. Nunca soube de alguém com quem eu tenha estado
ter sido atacada depois que tínhamos nos visto. Mas era certo que os pesadelos
não me deixariam dormir.
***
Emily
Campbell
Março chegou e aqui no Havaí,
o sol está sempre brilhando. Tem um mês que estou trabalhando com Stephanny
Fletcher. Em nossa primeira reunião aqui, quando comecei a trabalhar com ela,
me informou que o cargo de sua assistente era temporário, que, na verdade,
estava procurando uma pessoa para gerir a filial havaiana de sua empresa. E que
meu professor tecera os melhores elogios sobre mim. E que ficara curiosa para
me conhecer. Se tudo desse certo em três meses, minha posição na empresa
mudaria e eu passaria a gerenciar toda a divisão nas ilhas. Uma grande
responsabilidade.
Ainda não assumir de vez a
posição, mas a cada dia que passava faço menos coisas para ela e mais para a
empresa. Ela tem me ensinado todos os processos administrativos e
organizacionais da Fletcher Co, que é uma multinacional com sede em Nova York,
o que de vez em quando me levaria de volta à cidade, e com algumas filiais em
pontos estratégicos na Europa. Ela começara a expandir os negócios para a Ásia
e Oceania, e a filial no Havaí seria a responsável por essa expansão. A
princípio estávamos receosas por causa de minha gravidez. Mas garanti a ela,
que em momento algum isso iria me atrapalhar. E ela me disse que jamais
descartaria uma mulher candidata a um cargo por causa de uma gravidez. E que,
juntas, daríamos um jeito.
Enquanto a sorte sorriu novamente
para mim no campo profissional, no lado amoroso continuo sofrendo. Não tem um
dia só que não pense em Adam. Penny sempre tenta me dar notícias dele, mas
sempre a corto. Ainda não contei a ela dos gêmeos. Não sei qual será a reação
dela quando souber. Estou chegando ao sexto mês, e graças a Deus não sofreram
nada com o que passei no início da gravidez. Às vezes me questiono se tomei a
decisão correta. Estou sozinha em Maui, longe de meus amigos e minha família. O
que será de mim quando chegar a hora?
Quando chego no apartamento do
hotel, onde ainda estou hospedada, e graças a Deus Stephanny disse que a
empresa assumiria as despesas do hotel até arrumar um lugar definitivo para mim,
começo a procurar imóveis em sites. Então, em minhas horas vagas, tenho visitado
muitas casas e apartamento. Decidi aceitar a proposta de Artie, fiquei com a
cobertura deles, uma de 4 quartos, sendo todas suítes, mas a ideia é assim que
começarem as vendas do projeto, Penny colocar à venda por mim, já que ela é
minha procuradora. E espero que com esse valor possa comprar ou dar entrada em
algo aqui, estou muito assustada com os valores imobiliários. Quero ver se
consigo comprar uma casa com 3 ou 4 quartos. Mas verei isso. Vai depender da
cobertura em Nova York.
***
Drew Grant
Sábado a noite. Chamo Becca
para sairmos. Decidimos jantar e ir ao cinema. Tinha um filme que ela queria
muito assistir, não era o tipo de filme que curto, mas a companhia vale, uma
mistura de romance com documentário baseada na história de uma personagem
histórica que ela admira. O filme não foi de todo ruim, mas tirei alguns
cochilos, “Espero não ter roncado”, penso. Não que eu ronque
normalmente, mas sabe, quando não se quer algo, isso acontece. E tenho andado
muito cansado por conta das obras.
— Desculpe se o filme foi
chato. – Ela me fala assim que saímos do cinema.
— Não. Foi chato, não. –
Respondi tentando achar algum entusiasmo
— Então os cochilos foram de
cansaço?
— Eu que me desculpo. Foram de
cansaço sim. Passei o dia na obra.
— Não precisa se desculpar. Só
o fato de ter aceitado assistir esse filme, já compensou os cochilos e roncos.
— Eu não ronco.
— Ronca sim.
E persistimos nesse ‘ronca,
não ronco’ por alguns instantes. Até que ela assumiu que eu não havia roncado.
Já fazia mais de um mês que estávamos saindo, mas nem eu havia entrado em seu
apartamento, nem ela no meu. E parecia que ela estava decidida a mudar essa
situação. Ao chegarmos na porta do prédio, ela me pergunta se não quero subir. “A
verdade é que não sei se quero subir ou não”, penso mas não me atrevo a
proferir uma só palavra.
— Já é tarde. Estou cansado.
— Vamos lá, Drew! Não somos
mais crianças.
— Vamos deixar para a próxima,
realmente estou morto. – Dou-lhe um beijo, espero que desça do carro, entre no
prédio e volto para casa.
Não que eu não quisesse passar
a noite com ela. Mas não me sinto preparado ainda. Nunca fui cafajeste, de ir
para a cama pensando em outra. E minha cabeça ainda teimava em pensar em Emm.
Mas essa situação não poderia perdurar por mais tempo. Precisava dar um jeito
nisso. Entro em casa, mal tomo banho e deito. Acordo no dia seguinte com o sol
batendo em meu rosto. Só então percebo que dormir de toalha. Realmente estava
muito cansado.
***
Emily Campbell
Hoje é sábado e o pessoal do
escritório resolveu se encontrar em um bar no final da tarde para curtir. Havia
dito que não iria, por causa da gestação. Aliás tenho usado meus anjinhos muito
como desculpas. Então resolvo que
merecia uma distração. Ainda não havia conhecido a noite havaiana. Vou ao meu
guarda-roupas procuro um vestido confortável e que me caia bem. Graças a minha
linda barriguinha, muitas de minhas roupas não cabiam mais, principalmente
minhas calças. Escolhi um liso, de tecido leve, num dégradé nos tons de verde,
claro no busto e escurecendo à medida que desci até o meio da coxa. Coloquei
uma sandália baixa, afinal depois da semana inteira usando salto e roupa mais
séria, queria algo simples, confortável e leve. Chamei um taxi, peguei minha
bolsa e fui ao encontro da turma.
Escolheram o Aloha Bars Maui,
que para minha sorte, fica perto de onde estou hospedada. O local é muito
bonito e aconchegante, fica de frente para o mar, com uma área verde a céu
aberto com mesas distribuídas, muita madeira escura. Gostei muito do ambiente.
— Olha, quem resolveu dar o ar
da graça! – Fui recebida com entusiasmo por todos.
— Nossa amável novaiorquina!
Sente-se aqui.
— Não sou novaiorquina, já
disse isso.
— Os anjos permitiram você
sair?
— Pois é! Conversei com eles e
disse que a mamãe precisava conhecer mais a terra deles e as pessoas. Preciso
arrumar uma babá para eles, afinal! – E olho como quem diz será um de vocês e
damos risadas.
Alguém pede para mim um
coquetel que não sei pronunciar o nome ainda, mas muito gostoso e sem álcool.
Não veio em um daqueles abacaxis e nem tinha abacaxi na receita. A mesa estava
repleta de pessoas, não só do escritório, mas era uma reunião entre amigos. Não
passou despercebido por mim, nem por Nola, uma das assistentes de Stephanny, que
se tornaria minha melhor amiga aqui, um olhar mais fixado em minha direção, que
vinha de um homem, de uns 30 e poucos anos, cabelo castanho escuro, os olhos
azul acinzentados, impossíveis de desviar, sentado um pouco à minha direita e à
frente. Não sei se foram os hormônios da gravidez ou carência. Ou mesmo os
dois. Mas ele mexeu comigo.
Não consegui ficar sentada,
resolvi ir ver o por do sol, que é tão lindo, ou mais, que os de Nova York.
Levanto-me e saio em direção à praia, chego até o final da área verde e fico em
pé observando.
— A vista daqui é muito linda,
mesmo? – Dou um pequeno salto por causa do susto. Olho de onde vem a voz. Mas,
não sei se é minha imaginação, mas ele não estava se referindo ao por do sol. –
Desculpe o susto, não foi minha intenção. – Sua voz é calma e suave.
— Tudo bem, tomo esses sustos
diretos. Fico muito concentrada facilmente. – Lembro-me dos sustos que Drew
vivia me dando.
— Quer dizer, que você é a
nova contratada da Fletcher?
— Sou. E você também trabalha
lá?
— Eu?! – Solta um sorriso de
canto de boca pra lá de charmoso – Não. Cuido da segurança. Derek Crawford,
detetive da Polícia do Havaí. – E estende sua mão em minha direção
— Emily Campbell. Assistente
direta de Stephanny Fletcher. — Prazer.
— Todo meu. – Outra vez o
sorriso. – O pai do bebê também trabalha lá?
— Não. Digamos que eles sejam
produção independente.
— Gêmeos? – Aceno com a cabeça
sem tirar meus olhos dos olhos dele – Além de bonita, corajosa!
— Por que corajosa?
— Tenho certeza de que tinha
sua vida bem estruturada em Nova York, abandonou tudo, grávida de dois bebês e
se mudou para o outro lado do país. Corajosa.
— Não vou dizer que não sou
corajosa. Mas minha mudança para cá foi mais por necessidade do que por coragem
ou desejo de aventura.
— Entendo. – Ele me responde e
vira-se para admirar comigo o espetáculo da natureza.
E um papo animado teve início
logo após nos juntarmos novamente ao grupo. Nola me lançou alguns olhares
inquisitórios sobre Derek, que fui respondendo de forma discreta, pois ele
continuava a me olhar fixamente.
— O que foi, Nola?
— O que estavam conversando?
— Nada demais. Sobre meus
anjinhos e minha vinda para cá. Me chamou de corajosa.
— E você é.
— Talvez um dia lhe conte
minha história. E depois não vá me achar tão corajosa assim. Principalmente
quando, e se, falar do pai deles. – E aliso minha barriga.
— Não importa. Só em ter um
bebê sem o pai ou qualquer outro familiar por perto, você é corajosa. – Aceno com
a cabeça, mas sem prestar muita atenção ao que ela diz.
Estou olhando para frente, mas
sem enxergar nada. Meus pensamentos vão para o passado. Mesmo sem prestar muita
atenção para o que estava olhando, pude perceber que Derek continuava a me
olhar. E de repente, um pensamento assustador passa pela minha cabeça: “Que
tipo de pervertido é esse que fica encarando uma mulher grávida?” E a noite
transcorre na maior alegria. Por volta das dez horas resolvo pedir um taxi para
ir para casa.
— Se quiser posso deixá-la em
casa? – Ele se oferece. Já ouvi isso antes. E olha no que deu.
— Não precisa, muito obrigada.
Não quero dar trabalho.
— Nola me disse que mora perto
dela e já vou dar carona a ela, estamos indo para a mesma área.
— Sendo assim, aceito.
Entramos no carro, uma
pick-up, na qual tenho um pouco de dificuldade de entrar devido a barriga. Tem
horas que me sinto grávida de 9 meses. Nola vai atrás. Vamos conversando coisas
triviais. Ao entrar em casa, tomo um banho, coloco meu pijama e deito na cama
para pensar. Acordo com a luz do sol entrando pela janela. Dormi sem desfazer a
cama.
***
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