Drew Grant
Pertenço a uma família que construiu sua
fortuna a partir do trabalho duro de nossos pais. Dave e Molly Grant se
conheceram ainda no colégio em Pensacola, Flórida, cidade onde minha mãe e nós
nascemos e vivem até hoje. Meu pai, filho de militar, chegou lá aos 16 anos
após meu avô ser transferido. Quando se viram foi paixão à primeira vista.
Desde que começaram o namoro nunca se separaram.
Casaram-se logo após a formatura. Trabalharam duro para sustentar a família.
Ele, engenheiro e ela, arquiteta. Com 10 anos de casamento, decidiram criar uma
empresa, Project 3em homenagem aos três filhos: Arthur, Andrew e Angela. Eu e
meu irmão, filhos mais velhos e gêmeos, Angie, um ano mais nova que a gente.
Éramos muito felizes em nossa infância. Brincávamos muito nas obras em que os
dois trabalhavam. Quando não estávamos em aula, passávamos muito tempo no
escritório. Era um escritório pequeno, porém muito requisitado na região.
Sempre fomos muito unidos, nós três, mesmo na
adolescência, nosso grupo de amizades era o mesmo. Quem andava com Artie,
andava comigo e com Angie. Mas tudo mudou. De repente tudo mudou.
***
Decidi voltar para Nova York e terminar com
tudo. Não posso aceitar ser comparado o tempo todo com um abusador e agressor.
Não sou assim, tenho ódio de quem agride de uma mulher, se achando superior
apenas por ser homem. Isso me deixa louco.
Acordo antes de Emm, arrumo minhas coisas com
todo cuidado para não a acordar. Depois de tudo pronto, paro em frente à cama e
a observo dormir. “Deus como ela é linda! E como eu sou apaixonado por essa
mulher. Entendo tudo o que ela passou. Conheço sua dor. Mas não sei mais como
ajudá-la.”
Desço e vejo Nana na cozinha. Chego perto dela
e a abraço. Um abraço apertado, cheio de carinho e saudade. Olho para ela e ela
sente minha dor.
— O que foi, meu filho?
— Me desculpa. Eu tentei. Tentei realmente.
Mas...- respiro fundo e ela completa meu pensamento
— Não consegue mais. – Aceno com a cabeça.
— Nana, sou louco por ela. Mas ela só me
enxerga como aquele... aquele... – Inspiro profundamente, e calo-me.
— Vai voltar para Nova York?
— Pego o próximo voo. Não quero sair fugindo.
Queria poder conversar melhor, mas não consigo.
— Por que não escreve o que está sentindo?
— Me consegue papel e envelope? – Ela indica a
escrivaninha no canto da cozinha. Sento-me e escrevo, entre lágrimas.
“Anjo,
Não queria tomar nenhuma decisão agora. Não quero
lhe magoar. Mas não posso permitir ser magoado. Sei de muito do que sofreu,
embora conheça sua dor, jamais terei noção da magnitude dela. Não estive em seu
lugar, nem sofri o que sofreu. Mas também sei que não lhe causei nenhuma dor. E
não o faria. Não fui criado assim. Tenho uma mãe, tive uma irmã. Não aceito o
que ele lhe fez. Porém, se não é capaz de me ver de forma diferente, de como eu
sou realmente, não mais sei como lhe convencer do contrário.
Fiz o meu melhor, lhe dei o meu melhor. Mas não
cabe a mim mudar seus julgamentos e suas convicções. Espero realmente que
consiga se resolver e ser feliz. Lembrarei desses dias ao seu lado com muito
carinho. Mas cheguei ao meu limite.
Vamos manter nossa relação apenas no profissional.
Com todo carinho e respeito,
Drew.
— Quer tomar café?
— O táxi já deve estar chegando. Entrega a ela?
– Ela indica o balcão e acena com a cabeça. – Obrigada pelo carinho. – E a
abraço novamente.
— Obrigada a você, pelo cuidado comigo e,
especialmente, com minha neta.
— Se precisar, de qualquer coisa, Nana, por
favor, entre em contato. – Novamente ela acena com a cabeça. O táxi chega. Pego
minha sacola e saio.
***
Ela regressou a Nova York e voltou a trabalhar.
Pediu para que ficasse um período trabalhando de casa para ficar com a vó, eu
fiquei aliviado. Foram trinta dias vendo-a pouco. Sempre gostei da forma como
fizemos as divisórias do escritório do 35º, com paredes de vidro, iluminação
natural, podíamos nos ver sempre, bastando levantar a cabeça. Mas ultimamente,
isso tem me incomodado.
Sempre que estou em meu escritório, e ergo minha
cabeça, vejo-a em sua sala, cada dia mais linda. Cada dia mais charmosa. Cada
dia mais apaixonante. Nunca pensei que uma paixão pudesse doer tanto. Tenho
evitado o máximo ficar lá, às vezes, fico nas pranchetas dos engenheiros que
estão em campo. Faço visitas mais prolongadas, para não precisar retornar para
a A4+.
Ela e Penny nos convidaram diversas vezes para
jantares em sua casa, não fui a nenhum. É penoso demais para mim. Quando o
grupo do trabalho resolve sair juntos, também não vou. Tenho preferido sair com
um grupo de ex-colegas da faculdade, e num desses encontros conheci Tiffany,
não estamos juntos, mas Artie e Adam acreditam que sim, devido a frequência com
que saímos.
***
O aniversário de Adam chega e ele organiza uma
grande festa. E exige a presença de todos.
— Drew, seu babaca, não quero saber de
desculpas nem de história. Em 11 anos que nos conhecemos, você nunca faltou a
um aniversário meu. Não vai ser agora.
— Adam, meu irmão. Eu prefiro não ir. Não quero
dar de cara com Emm. Já basta no escritório.
— Não entendo. Você está com a tal Tiffany.
Qual o problema ver Emm?
— Termine com Penny e verá sentido.
— Meu irmão, eu e Penny é para sempre. Leva
Tiffany. Não tem problema, quanto mais gente melhor, sabe disso.
— Vou pensar em seu caso.
O dia chega, mesmo sem vontade, vou. Caí na
besteira de comentar com Tiffany da festa, e ela se animou toda para conhecer
meus amigos. Acho que ela também acredita que estamos juntos. Então, separo um
conjunto de alfaiataria preto de calça social e blazer, visto uma camisa num
cinza grafite, sapatos e meias na mesma cor. Busco Tiffany em sua casa e
partimos para a casa de Adam.
Estamos num canto da sala de Adam, eu e
Tiffany, que tentava a todo custo se enturmar, Ash e Artie, Adam. Ash falava
sobre algo que acontecera em uma das obras que visitou essa semana, quando de
repente, parou de falar e olhou para a entrada. Acompanhei seu olhar. Na porta
estava Penny. E logo atrás dela, mais linda do que nunca, estava Emm, num
vestido longo preto, com um maravilhoso decote em V, que descia até quase o
umbigo, e deixava aparecer parte de seus seios, pequenos e firmes. Seu cabelo
estava preso de um lado e caia em cachos no ombro esquerdo. A maquiagem
reforçava sua beleza natural. Nunca a vi tão linda. Ela se aproxima com Penny.
— Boa noite! – Ela cumprimenta de forma geral – Adam, meu
amigo, promessa é dívida e está paga. Feliz aniversário. – E lhe abraça.
— Que bom que veio. Não seria a mesma coisa sem você aqui.
— Não faria falta. – Ela responde
— Não diga besteiras – Ash vem me abraçar – Sabe muito bem
que você faz falta, as três mosqueteiras não existem sem você.
— Vida, você sabe que são Os três mosqueteiros. – Artie me
abraça
— Os três mosqueteiros estão sempre completos. – Ela rebate
– Nós é que sofremos o desfalque.
— Drew! – Ela direciona o olhar para mim, solto o ar que
até então não havia percebido que estava prendendo
— Emm, como vai? – A cumprimento sem sair do lugar, mas sem
tirar o olho dela.
—Oi, sou Tiffany, a namorada de Drew. E você, é? – Namorada?!?
Como assim?!?! Penso. Preciso esclarecer as coisas com ela.
— Essa é Emily, nossa amiga e gerente geral da empresa.
—E não esqueça – Ashley começa a falar e eu gelo – nossa
salvadora. Graças a ela, nós retomamos o crescimento. – Respiro aliviado,
percebo a mesma reação de Emm.
Peço licença a todos e me retiro levando comigo
Tiffany até a varanda.
— Que história é essa de minha namorada?
— E não sou? Estamos nos encontrando a quase um
mês. Saímos juntos todos os fins de semana. Estamos namorando.
— Aí que você se engana. Não estamos namorando.
Não saímos juntos todos os fins de semana, nos encontramos quando saio, não
marco nada com você nesse sentido. Não confunda as coisas. – Sou bem claro com
ela em relação a nós dois. – Não quero envolvimento com ninguém.
— Com ninguém mesmo?
— O que quer dizer?
— Acha que sou cega? Pensa que não vi como
olhou para a “salvadora” – e faz aspas com as mãos.
— Bom, não entendi as aspas, já que ela nos
salvou mesmo. E você está enxergando demais. Emily é só uma amiga do trabalho.
— Se engane se quiser, Drew. A mim, não. Já que
não tenho lugar em sua vida, vou embora. Seja feliz. – E gira em seu eixo e se
retira da festa sem falar com ninguém.
Sento-me num canto com pouca iluminação. A
noite está bastante fria, o inverno parece que quer chegar mais cedo. Alguém
sai da sala. Eu a vejo chegando. Espero um pouco para que ela perceba minha
presença. Isso não acontece. Então, resolvo me aproximar.
— Você está muito bonita hoje.
— Ui! Que susto! Você precisa parar com isso.
Muito obrigada.
— Mas essa roupa não é a ideal para ficar nesse
frio.
— Já estou entrando.
— Por que eu estou aqui?
— Não. Porque estou com frio e já deu minha
hora.
— Já, Cinderela?
— Já. Boa noite, Drew. – Se despedi e a vejo
sair sem falar com mais ninguém. Resolvo entrar.
— Drew, você viu Emm? – Penny me pergunta
— Estávamos na varanda e ela resolveu ir
embora.
— O que você disse a ela? – Ash se aproxima
feito um furacão.
— Apenas a elogiei. E quando comentei que o
vestido não era ideal para estar na varanda ela disse que estava indo. E foi.
— Ela está muito estranha. – Comentou Ash. O
olhar de Penny dizia que ela estava escondendo algo.
A noite transcorreu sem mais nenhum incidente.
Conversamos muito, falamos nossas abobrinhas de sempre. Pegamos no pé de Adam,
um pouco. O jantar foi servido, cantamos os parabéns, comemos o bolo e aos
poucos as pessoas foram saindo e ficando apenas nós cinco e os pais dele, que
dormiriam lá. Resolvo ir embora. Penny me pede uma carona. Já era tarde e não
queria correr perigo.
— Fica, amor! – Adam pediu – E o meu presente?
– Com um ar safado.
— Não quero deixar Emm sozinha hoje. Desculpa.
Ela está precisando de mim.
— O que ela tem? – Pergunto sem disfarçar a
preocupação.
— Nada demais. Só estava sentido um desconforto
muito grande. Acho que deve está... com... saudades de Nana, é isso. Saudades
de Nana. – Não sei se ela está tentando esconder algo ou não sabe realmente o
que está acontecendo.
—Ok, vamos então. – nos despedimos de todos e
saímos. Menos de cinco minutos depois a deixei em frente ao portão do prédio –
Diga que lhe desejo melhoras. – Penny apenas acena com a cabeça, me agradece e
deseja boa noite.
***
Na segunda, passo a manhã com Adam e os
engenheiros do projeto Condomínio Beira Mar, em campo. Estamos avaliando o
andamento das obras, verificando alguns dados. Quando recebemos uma mensagem do
escritório.
“Reunião de diretoria hoje às 5:00 p.m. Não se
atrase.”
Olho para Adam, já passam da 1:00 e precisamos
almoçar e sair imediatamente, se não nos atrasamos.
— O que será que houve? – Questiono
— E eu vou lá saber. Veio do telefone
corporativo de Emm. Normalmente, quem manda é Gabriel. Melhor irmos.
No horário da reunião, estamos presos num
engarrafamento, perto do escritório. Chegamos com cinco minutos de atraso.
Quando descemos do carro, passo uma mensagem para Artie informando que estamos
chegando.
— Desculpem nosso atraso, mas o trânsito está
infernal. – Desculpa-se Drew
— Alguém pode me dizer o que está acontecendo?
Tivemos que largar tudo às pressas. – Explica Adam
— Ainda não. Então, Emm, o que tem de errado
com o projeto do condomínio?
— Ei! Não tem nada de errado com ele. – Advirto
— Então o que é?!?
— Se vocês me permitirem. – Eles consentem. –
Passei o dia tentando elaborar como dizer isso, mas não tem jeito, é preciso
ser direta e arrancar de vez o curativo. – Ela começa da explicar. Eu me
mantenho mudo, apenas ouço
— Emily, você está nos assustando – fala Ashley
— Desculpa, não é minha intenção. Fiquem
sabendo que isso foi muito bem pensado e não foi do dia para a noite. Mas esta
é nossa última reunião. – Os cinco na sala, incluindo Gab, se olham sem
entender o que eu estava dizendo. – Esta – e empurra um envelope que segurava
em suas mãos – é minha carta de demissão. E essa decisão não está aberta à
discussão.
— Penny sabia disso? – Adam me questiona, aceno
com a cabeça – Por isso ela tem agido estranho quando falamos de você.
— Pedi para que não contasse.
— Podemos, ao menos, saber os motivos? – Artie
indaga
— Certa vez, quando contei parte de minha
história a alguém – E essa é a primeira vez que olho para ela e vice-versa. –
me perguntaram por que eu aceitei trabalhar na empresa de terceiros quando tinha
a minha própria empresa. Pois já é hora de eu assumir minha herança. Irei
administrar a minha empresa. Afinal, estudei administração por causa dela.
Quero muito agradecer a todos a oportunidade, o carinho e tudo mais. Foi um
grande aprendizado. Estou aqui para o que precisarem, é só chamar.
— Mas quem irá ficar em seu lugar? Vamos
precisar contratar alguém.
— Drew, droga! Fala alguma coisa! – Esbraveja
Artie – Afinal a culpa é sua.
— A culpa é minha?!?! Como!?!?
— Ninguém tem culpa de nada. Ou seria minha
culpa. Não vem ao caso. Respondendo a sua pergunta, Adam, eu indico Gabriel.
Ele, embora ainda não tenha se formado, conhece muito bem do serviço, das
rotinas, está mais que capacitado para ocupar meu lugar. Mas essa é uma decisão
de vocês. Agora preciso ir. Torço muito pela empresa. Adeus.
Simplesmente, levanta-se, recolhe apenas sua
agenda, deixando o Ipad e o telefone corporativo. Ficamos nos olhando, sem
compreender o que aconteceu. Ashley é a primeira a falar.
— Pelo visto, ela está irredutível. Gab você
sabia disso?
— Juro que não. Fui pego de surpresa tanto
quanto vocês.
— Mas ela não deu nenhuma indicação? – Adam
questiona
— Trabalhou hoje como se fosse uma
segunda-feira normal. Fez o que costuma fazer.
— Bom, não podemos ficar sem ninguém gerindo a
empresa. – Tento minimizar o resultado da reunião – Confio na indicação dela.
— Não, isso não está aberto a discussão. O que
está em discussão é isso. - Artie pega o envelope e o sacode – Vamos aceitar?
— Vamos
fazer o quê? Emm, não é leviana e não faz nada no impulso, não
profissionalmente – Completo meu pensamento.
— Então é isso. Vamos aceitar, sem tentar
convencê-la do contrário. – Artie insiste.
— Vamos nos colocar no lugar dela. Deve estar
muito difícil para ela, aqui no escritório depois de tudo – Ash fala me olhando
com um olhar de reprovação.
— Gab, você nos daria licença? Amanhã você
assume o escritório e as funções dela – Informo a ele, que acena com a cabeça e
sai – Vamos lá. Querem falar de vida pessoal. Vamos falar de minha vida pessoal.
Você acha que para mim está sendo fácil?
— Pelo menos, você já tá com uma namorada nova,
não foi assim que Tiffany se apresentou no sábado? – A voz de Ashley soa dura e
irônica ao mesmo tempo.
— Eu não tenho namorada. Não sou e nunca fui
cafajeste, Ash. Tiffany achou que estávamos juntos, mas não estávamos nem
estamos. Eu sou apaixonado por Emm.
— E deu o fora nela, depois de tudo o que
presenciamos?
— É. O problema não está no que vocês presenciaram,
e sim no que não viram. Cansei de ser comparado, logo eu – e olho para Artie –
com um abusador desgraçado. Tudo que eu dizia, ela levava para o passado. Cansa
ter que medir todas as palavras, gestos e atitudes, você sabia disso? – Falo
com os olhos cheios de lágrimas. – Eu?!?! Um futuro abusador, é assim que ela
me vê. – Artie se levanta e me abraça – Artie, como ela pode?
— Mano, ela não sabe. – Ele me consola.
— Não sabe de quê? – Adam questiona. Ashley
também não sabe. Nunca contamos para ninguém o que aconteceu em nossa
adolescência.
— Pelo menos, ela está aqui. Viva, vivendo seus
sonhos, mas... – falo, mas Artie não permite que eu termine. E tira-me do
escritório e me leva para casa.
Essa foi de longe a noite mais agitada de minha
vida. Aqueles sonhos voltaram a me assombrar. “Estamos em uma espécie de
salão, nossa turma toda. Somos um monte de adolescentes querendo nos divertir.
Temos entre 14 e 16 anos. Angie é a mais nova, está com 14. Eu e Artie com 15. Estamos
lá desde cedo. Angie quer ir embora, mas nem Artie nem eu queremos ir. Aliás
ninguém quer, só ela.
— Deixa de ser bebê, Angie. Ainda tá cedo! –
Provoco um pouco
— Para de me chamar de bebê, Drew. Estou
cansada. Amanhã tenho ensaio cedo. Preciso descansar.
Ela era do grupo de líder de torcida. Era
linda! Cabelos liso, de um loiro muito claro, puxou a mamãe. O corpo já estava
bem desenvolvido e era todo definido, pois era do grupo de acrobacias das
líderes de torcida de nosso colégio.
— Já que não vão comigo, vou sozinha.
— Vai uma ova. - Eu digo.
— Acontece algo com você, mamãe e papai vão nos
matar. – Artie diz
— Vai acontecer o quê? Estamos a cinco minutos
de casa, andando. O que pode acontecer?
— Muita coisa. Fica aí, daqui a uma hora vamos
todos. – Vou dançar e Artie vem juntos.
— Chatos! – É a última coisa que ouvimos de
nossa irmã.
— Bebezinha! – É a última coisa que ela ouve da
gente.
Na hora combinada de irmos nos disseram que
Angie já tinha ido.
— Amanhã, ela vai ouvir. – Falou com raiva,
Artie.
— E nós também – completei
Acordamos na manhã seguinte com a mamãe nos
sacudindo.
— Onde está sua irmã? Cadê Angie? – Sacudia um
e perguntava, sacudia o outro e fazia outra pergunta.
— Arthur e Andrew, onde está a irmã de vocês? –
Ouço a voz severa de meu pai.
— Deve estar no quarto dormindo. – Respondo
meio sonolento
— Deixe de se fazer de sonso, senhor Andrew. Se
ela estivesse no quarto não estaríamos perguntando. Olhe o estado de sua mãe.
— Mas pai, ela veio para casa antes da gente,
quando chegamos achamos que ela estava dormindo.
— Como assim, ela veio antes de vocês?!
— Ela disse que queria vir para casa, que estava
cansada, mas eram somente 8:00, queríamos ficar mais um pouco, dissemos que
esperasse mais uma hora que viríamos os três juntos. – Artie explica
— Vocês a deixaram vir sozinha?
— Não mãe. Mandamos esperar. E fomos dançar.
Quando estávamos procurando por ela, nos disseram que já tinha vindo. – Artie
continua
— Quanto tempo depois?
— Uma hora mãe, como havíamos dito. – Respondo
indignado. – Sabe que somos responsáveis. A senhora não disse para estarmos em
casa antes das 9:00 por que era dia de semana?
— Sua irmã não chegou em casa. – Meu pai nos
alertou
O desespero toma conta de todos. Minha mãe não
diz coisa com coisa, começamos a ligar para as amigas dela, ninguém a viu
depois que saiu do clube.
Meu pai atende o telefone. É a polícia...
encontraram o corpo de Angie num beco a menos de dois minutos de casa. Ela
havia sido agredida, violentada e morta a menos de dois minutos de casa. Nós
passamos pelo lugar. Não vimos nada. A polícia disse que quando passamos, já
tinha acontecido. Minha irmãzinha... minha irmãzinha...” Acordo sobressaltado. Achávamos que nosso
bairro era seguro, mas evitávamos andar sozinhos a noite. Não andávamos
sozinhos a noite. Se tivéssemos ido com ela, estaria aqui. Teria seus sonhos
realizados. Estaria feliz. Estaríamos felizes. O caso de minha irmã nunca foi
resolvido. Nunca pudemos ver o culpado sendo julgado e ela tendo sua justiça.
***
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