sexta-feira, 12 de junho de 2020

Livro 2 - Frutos de uma paixão - Capítulo I


Drew Grant


Pertenço a uma família que construiu sua fortuna a partir do trabalho duro de nossos pais. Dave e Molly Grant se conheceram ainda no colégio em Pensacola, Flórida, cidade onde minha mãe e nós nascemos e vivem até hoje. Meu pai, filho de militar, chegou lá aos 16 anos após meu avô ser transferido. Quando se viram foi paixão à primeira vista.

Desde que começaram o namoro nunca se separaram. Casaram-se logo após a formatura. Trabalharam duro para sustentar a família. Ele, engenheiro e ela, arquiteta. Com 10 anos de casamento, decidiram criar uma empresa, Project 3em homenagem aos três filhos: Arthur, Andrew e Angela. Eu e meu irmão, filhos mais velhos e gêmeos, Angie, um ano mais nova que a gente. Éramos muito felizes em nossa infância. Brincávamos muito nas obras em que os dois trabalhavam. Quando não estávamos em aula, passávamos muito tempo no escritório. Era um escritório pequeno, porém muito requisitado na região.

Sempre fomos muito unidos, nós três, mesmo na adolescência, nosso grupo de amizades era o mesmo. Quem andava com Artie, andava comigo e com Angie. Mas tudo mudou. De repente tudo mudou.

***
Decidi voltar para Nova York e terminar com tudo. Não posso aceitar ser comparado o tempo todo com um abusador e agressor. Não sou assim, tenho ódio de quem agride de uma mulher, se achando superior apenas por ser homem. Isso me deixa louco.

Acordo antes de Emm, arrumo minhas coisas com todo cuidado para não a acordar. Depois de tudo pronto, paro em frente à cama e a observo dormir. “Deus como ela é linda! E como eu sou apaixonado por essa mulher. Entendo tudo o que ela passou. Conheço sua dor. Mas não sei mais como ajudá-la.”

Desço e vejo Nana na cozinha. Chego perto dela e a abraço. Um abraço apertado, cheio de carinho e saudade. Olho para ela e ela sente minha dor.
— O que foi, meu filho?
— Me desculpa. Eu tentei. Tentei realmente. Mas...- respiro fundo e ela completa meu pensamento
— Não consegue mais. – Aceno com a cabeça.
— Nana, sou louco por ela. Mas ela só me enxerga como aquele... aquele... – Inspiro profundamente, e calo-me.
— Vai voltar para Nova York?
— Pego o próximo voo. Não quero sair fugindo. Queria poder conversar melhor, mas não consigo.
— Por que não escreve o que está sentindo?
— Me consegue papel e envelope? – Ela indica a escrivaninha no canto da cozinha. Sento-me e escrevo, entre lágrimas.

“Anjo,
Não queria tomar nenhuma decisão agora. Não quero lhe magoar. Mas não posso permitir ser magoado. Sei de muito do que sofreu, embora conheça sua dor, jamais terei noção da magnitude dela. Não estive em seu lugar, nem sofri o que sofreu. Mas também sei que não lhe causei nenhuma dor. E não o faria. Não fui criado assim. Tenho uma mãe, tive uma irmã. Não aceito o que ele lhe fez. Porém, se não é capaz de me ver de forma diferente, de como eu sou realmente, não mais sei como lhe convencer do contrário.
Fiz o meu melhor, lhe dei o meu melhor. Mas não cabe a mim mudar seus julgamentos e suas convicções. Espero realmente que consiga se resolver e ser feliz. Lembrarei desses dias ao seu lado com muito carinho. Mas cheguei ao meu limite.
Vamos manter nossa relação apenas no profissional.

Com todo carinho e respeito,
Drew.

— Quer tomar café?
— O táxi já deve estar chegando. Entrega a ela? – Ela indica o balcão e acena com a cabeça. – Obrigada pelo carinho. – E a abraço novamente.
— Obrigada a você, pelo cuidado comigo e, especialmente, com minha neta.
— Se precisar, de qualquer coisa, Nana, por favor, entre em contato. – Novamente ela acena com a cabeça. O táxi chega. Pego minha sacola e saio.

***
Ela regressou a Nova York e voltou a trabalhar. Pediu para que ficasse um período trabalhando de casa para ficar com a vó, eu fiquei aliviado. Foram trinta dias vendo-a pouco. Sempre gostei da forma como fizemos as divisórias do escritório do 35º, com paredes de vidro, iluminação natural, podíamos nos ver sempre, bastando levantar a cabeça. Mas ultimamente, isso tem me incomodado.

Sempre que estou em meu escritório, e ergo minha cabeça, vejo-a em sua sala, cada dia mais linda. Cada dia mais charmosa. Cada dia mais apaixonante. Nunca pensei que uma paixão pudesse doer tanto. Tenho evitado o máximo ficar lá, às vezes, fico nas pranchetas dos engenheiros que estão em campo. Faço visitas mais prolongadas, para não precisar retornar para a A4+.

Ela e Penny nos convidaram diversas vezes para jantares em sua casa, não fui a nenhum. É penoso demais para mim. Quando o grupo do trabalho resolve sair juntos, também não vou. Tenho preferido sair com um grupo de ex-colegas da faculdade, e num desses encontros conheci Tiffany, não estamos juntos, mas Artie e Adam acreditam que sim, devido a frequência com que saímos.

***
O aniversário de Adam chega e ele organiza uma grande festa. E exige a presença de todos.

— Drew, seu babaca, não quero saber de desculpas nem de história. Em 11 anos que nos conhecemos, você nunca faltou a um aniversário meu. Não vai ser agora.
— Adam, meu irmão. Eu prefiro não ir. Não quero dar de cara com Emm. Já basta no escritório.
— Não entendo. Você está com a tal Tiffany. Qual o problema ver Emm?
— Termine com Penny e verá sentido.
— Meu irmão, eu e Penny é para sempre. Leva Tiffany. Não tem problema, quanto mais gente melhor, sabe disso.
— Vou pensar em seu caso.
O dia chega, mesmo sem vontade, vou. Caí na besteira de comentar com Tiffany da festa, e ela se animou toda para conhecer meus amigos. Acho que ela também acredita que estamos juntos. Então, separo um conjunto de alfaiataria preto de calça social e blazer, visto uma camisa num cinza grafite, sapatos e meias na mesma cor. Busco Tiffany em sua casa e partimos para a casa de Adam.

Estamos num canto da sala de Adam, eu e Tiffany, que tentava a todo custo se enturmar, Ash e Artie, Adam. Ash falava sobre algo que acontecera em uma das obras que visitou essa semana, quando de repente, parou de falar e olhou para a entrada. Acompanhei seu olhar. Na porta estava Penny. E logo atrás dela, mais linda do que nunca, estava Emm, num vestido longo preto, com um maravilhoso decote em V, que descia até quase o umbigo, e deixava aparecer parte de seus seios, pequenos e firmes. Seu cabelo estava preso de um lado e caia em cachos no ombro esquerdo. A maquiagem reforçava sua beleza natural. Nunca a vi tão linda. Ela se aproxima com Penny.

— Boa noite! – Ela cumprimenta de forma geral – Adam, meu amigo, promessa é dívida e está paga. Feliz aniversário. – E lhe abraça.
— Que bom que veio. Não seria a mesma coisa sem você aqui.
— Não faria falta. – Ela responde
— Não diga besteiras – Ash vem me abraçar – Sabe muito bem que você faz falta, as três mosqueteiras não existem sem você.
— Vida, você sabe que são Os três mosqueteiros. – Artie me abraça
— Os três mosqueteiros estão sempre completos. – Ela rebate – Nós é que sofremos o desfalque.
— Drew! – Ela direciona o olhar para mim, solto o ar que até então não havia percebido que estava prendendo
— Emm, como vai? – A cumprimento sem sair do lugar, mas sem tirar o olho dela.
—Oi, sou Tiffany, a namorada de Drew. E você, é? – Namorada?!? Como assim?!?! Penso. Preciso esclarecer as coisas com ela.
— Essa é Emily, nossa amiga e gerente geral da empresa.
—E não esqueça – Ashley começa a falar e eu gelo – nossa salvadora. Graças a ela, nós retomamos o crescimento. – Respiro aliviado, percebo a mesma reação de Emm.

Peço licença a todos e me retiro levando comigo Tiffany até a varanda.

— Que história é essa de minha namorada?
— E não sou? Estamos nos encontrando a quase um mês. Saímos juntos todos os fins de semana. Estamos namorando.
— Aí que você se engana. Não estamos namorando. Não saímos juntos todos os fins de semana, nos encontramos quando saio, não marco nada com você nesse sentido. Não confunda as coisas. – Sou bem claro com ela em relação a nós dois. – Não quero envolvimento com ninguém.
— Com ninguém mesmo?
— O que quer dizer?
— Acha que sou cega? Pensa que não vi como olhou para a “salvadora” – e faz aspas com as mãos.
— Bom, não entendi as aspas, já que ela nos salvou mesmo. E você está enxergando demais. Emily é só uma amiga do trabalho.
— Se engane se quiser, Drew. A mim, não. Já que não tenho lugar em sua vida, vou embora. Seja feliz. – E gira em seu eixo e se retira da festa sem falar com ninguém.

Sento-me num canto com pouca iluminação. A noite está bastante fria, o inverno parece que quer chegar mais cedo. Alguém sai da sala. Eu a vejo chegando. Espero um pouco para que ela perceba minha presença. Isso não acontece. Então, resolvo me aproximar.

— Você está muito bonita hoje.
— Ui! Que susto! Você precisa parar com isso. Muito obrigada.
— Mas essa roupa não é a ideal para ficar nesse frio.
— Já estou entrando.
— Por que eu estou aqui?
— Não. Porque estou com frio e já deu minha hora.
— Já, Cinderela?
— Já. Boa noite, Drew. – Se despedi e a vejo sair sem falar com mais ninguém. Resolvo entrar.

— Drew, você viu Emm? – Penny me pergunta
— Estávamos na varanda e ela resolveu ir embora.
— O que você disse a ela? – Ash se aproxima feito um furacão.
— Apenas a elogiei. E quando comentei que o vestido não era ideal para estar na varanda ela disse que estava indo. E foi.
— Ela está muito estranha. – Comentou Ash. O olhar de Penny dizia que ela estava escondendo algo.

A noite transcorreu sem mais nenhum incidente. Conversamos muito, falamos nossas abobrinhas de sempre. Pegamos no pé de Adam, um pouco. O jantar foi servido, cantamos os parabéns, comemos o bolo e aos poucos as pessoas foram saindo e ficando apenas nós cinco e os pais dele, que dormiriam lá. Resolvo ir embora. Penny me pede uma carona. Já era tarde e não queria correr perigo.

— Fica, amor! – Adam pediu – E o meu presente? – Com um ar safado.
— Não quero deixar Emm sozinha hoje. Desculpa. Ela está precisando de mim.
— O que ela tem? – Pergunto sem disfarçar a preocupação.
— Nada demais. Só estava sentido um desconforto muito grande. Acho que deve está... com... saudades de Nana, é isso. Saudades de Nana. – Não sei se ela está tentando esconder algo ou não sabe realmente o que está acontecendo.
—Ok, vamos então. – nos despedimos de todos e saímos. Menos de cinco minutos depois a deixei em frente ao portão do prédio – Diga que lhe desejo melhoras. – Penny apenas acena com a cabeça, me agradece e deseja boa noite.

***
Na segunda, passo a manhã com Adam e os engenheiros do projeto Condomínio Beira Mar, em campo. Estamos avaliando o andamento das obras, verificando alguns dados. Quando recebemos uma mensagem do escritório.
“Reunião de diretoria hoje às 5:00 p.m. Não se atrase.”

Olho para Adam, já passam da 1:00 e precisamos almoçar e sair imediatamente, se não nos atrasamos.
— O que será que houve? – Questiono
— E eu vou lá saber. Veio do telefone corporativo de Emm. Normalmente, quem manda é Gabriel. Melhor irmos.

No horário da reunião, estamos presos num engarrafamento, perto do escritório. Chegamos com cinco minutos de atraso. Quando descemos do carro, passo uma mensagem para Artie informando que estamos chegando.

— Desculpem nosso atraso, mas o trânsito está infernal. – Desculpa-se Drew
— Alguém pode me dizer o que está acontecendo? Tivemos que largar tudo às pressas. – Explica Adam
— Ainda não. Então, Emm, o que tem de errado com o projeto do condomínio?
— Ei! Não tem nada de errado com ele. – Advirto
— Então o que é?!?
— Se vocês me permitirem. – Eles consentem. – Passei o dia tentando elaborar como dizer isso, mas não tem jeito, é preciso ser direta e arrancar de vez o curativo. – Ela começa da explicar. Eu me mantenho mudo, apenas ouço
— Emily, você está nos assustando – fala Ashley
— Desculpa, não é minha intenção. Fiquem sabendo que isso foi muito bem pensado e não foi do dia para a noite. Mas esta é nossa última reunião. – Os cinco na sala, incluindo Gab, se olham sem entender o que eu estava dizendo. – Esta – e empurra um envelope que segurava em suas mãos – é minha carta de demissão. E essa decisão não está aberta à discussão.
— Penny sabia disso? – Adam me questiona, aceno com a cabeça – Por isso ela tem agido estranho quando falamos de você.
— Pedi para que não contasse.
— Podemos, ao menos, saber os motivos? – Artie indaga
— Certa vez, quando contei parte de minha história a alguém – E essa é a primeira vez que olho para ela e vice-versa. – me perguntaram por que eu aceitei trabalhar na empresa de terceiros quando tinha a minha própria empresa. Pois já é hora de eu assumir minha herança. Irei administrar a minha empresa. Afinal, estudei administração por causa dela. Quero muito agradecer a todos a oportunidade, o carinho e tudo mais. Foi um grande aprendizado. Estou aqui para o que precisarem, é só chamar.
— Mas quem irá ficar em seu lugar? Vamos precisar contratar alguém.
— Drew, droga! Fala alguma coisa! – Esbraveja Artie – Afinal a culpa é sua.
— A culpa é minha?!?! Como!?!?
— Ninguém tem culpa de nada. Ou seria minha culpa. Não vem ao caso. Respondendo a sua pergunta, Adam, eu indico Gabriel. Ele, embora ainda não tenha se formado, conhece muito bem do serviço, das rotinas, está mais que capacitado para ocupar meu lugar. Mas essa é uma decisão de vocês. Agora preciso ir. Torço muito pela empresa. Adeus.

Simplesmente, levanta-se, recolhe apenas sua agenda, deixando o Ipad e o telefone corporativo. Ficamos nos olhando, sem compreender o que aconteceu. Ashley é a primeira a falar.

— Pelo visto, ela está irredutível. Gab você sabia disso?
— Juro que não. Fui pego de surpresa tanto quanto vocês.
— Mas ela não deu nenhuma indicação? – Adam questiona
— Trabalhou hoje como se fosse uma segunda-feira normal. Fez o que costuma fazer.
— Bom, não podemos ficar sem ninguém gerindo a empresa. – Tento minimizar o resultado da reunião – Confio na indicação dela.
— Não, isso não está aberto a discussão. O que está em discussão é isso. - Artie pega o envelope e o sacode – Vamos aceitar?
  Vamos fazer o quê? Emm, não é leviana e não faz nada no impulso, não profissionalmente – Completo meu pensamento.
— Então é isso. Vamos aceitar, sem tentar convencê-la do contrário. – Artie insiste.
— Vamos nos colocar no lugar dela. Deve estar muito difícil para ela, aqui no escritório depois de tudo – Ash fala me olhando com um olhar de reprovação.
— Gab, você nos daria licença? Amanhã você assume o escritório e as funções dela – Informo a ele, que acena com a cabeça e sai – Vamos lá. Querem falar de vida pessoal. Vamos falar de minha vida pessoal. Você acha que para mim está sendo fácil?
— Pelo menos, você já tá com uma namorada nova, não foi assim que Tiffany se apresentou no sábado? – A voz de Ashley soa dura e irônica ao mesmo tempo.
— Eu não tenho namorada. Não sou e nunca fui cafajeste, Ash. Tiffany achou que estávamos juntos, mas não estávamos nem estamos. Eu sou apaixonado por Emm.
— E deu o fora nela, depois de tudo o que presenciamos?
— É. O problema não está no que vocês presenciaram, e sim no que não viram. Cansei de ser comparado, logo eu – e olho para Artie – com um abusador desgraçado. Tudo que eu dizia, ela levava para o passado. Cansa ter que medir todas as palavras, gestos e atitudes, você sabia disso? – Falo com os olhos cheios de lágrimas. – Eu?!?! Um futuro abusador, é assim que ela me vê. – Artie se levanta e me abraça – Artie, como ela pode?
— Mano, ela não sabe. – Ele me consola.
— Não sabe de quê? – Adam questiona. Ashley também não sabe. Nunca contamos para ninguém o que aconteceu em nossa adolescência.
— Pelo menos, ela está aqui. Viva, vivendo seus sonhos, mas... – falo, mas Artie não permite que eu termine. E tira-me do escritório e me leva para casa.

Essa foi de longe a noite mais agitada de minha vida. Aqueles sonhos voltaram a me assombrar. “Estamos em uma espécie de salão, nossa turma toda. Somos um monte de adolescentes querendo nos divertir. Temos entre 14 e 16 anos. Angie é a mais nova, está com 14. Eu e Artie com 15. Estamos lá desde cedo. Angie quer ir embora, mas nem Artie nem eu queremos ir. Aliás ninguém quer, só ela.
— Deixa de ser bebê, Angie. Ainda tá cedo! – Provoco um pouco
— Para de me chamar de bebê, Drew. Estou cansada. Amanhã tenho ensaio cedo. Preciso descansar.

Ela era do grupo de líder de torcida. Era linda! Cabelos liso, de um loiro muito claro, puxou a mamãe. O corpo já estava bem desenvolvido e era todo definido, pois era do grupo de acrobacias das líderes de torcida de nosso colégio.

— Já que não vão comigo, vou sozinha.
— Vai uma ova. - Eu digo.
— Acontece algo com você, mamãe e papai vão nos matar. – Artie diz
— Vai acontecer o quê? Estamos a cinco minutos de casa, andando. O que pode acontecer?
— Muita coisa. Fica aí, daqui a uma hora vamos todos. – Vou dançar e Artie vem juntos.
— Chatos! – É a última coisa que ouvimos de nossa irmã.
— Bebezinha! – É a última coisa que ela ouve da gente.
Na hora combinada de irmos nos disseram que Angie já tinha ido.
— Amanhã, ela vai ouvir. – Falou com raiva, Artie.
— E nós também – completei

Acordamos na manhã seguinte com a mamãe nos sacudindo.
— Onde está sua irmã? Cadê Angie? – Sacudia um e perguntava, sacudia o outro e fazia outra pergunta.
— Arthur e Andrew, onde está a irmã de vocês? – Ouço a voz severa de meu pai.
— Deve estar no quarto dormindo. – Respondo meio sonolento
— Deixe de se fazer de sonso, senhor Andrew. Se ela estivesse no quarto não estaríamos perguntando. Olhe o estado de sua mãe.
— Mas pai, ela veio para casa antes da gente, quando chegamos achamos que ela estava dormindo.
— Como assim, ela veio antes de vocês?!
— Ela disse que queria vir para casa, que estava cansada, mas eram somente 8:00, queríamos ficar mais um pouco, dissemos que esperasse mais uma hora que viríamos os três juntos. – Artie explica
— Vocês a deixaram vir sozinha?
— Não mãe. Mandamos esperar. E fomos dançar. Quando estávamos procurando por ela, nos disseram que já tinha vindo. – Artie continua
— Quanto tempo depois?
— Uma hora mãe, como havíamos dito. – Respondo indignado. – Sabe que somos responsáveis. A senhora não disse para estarmos em casa antes das 9:00 por que era dia de semana?
— Sua irmã não chegou em casa. – Meu pai nos alertou

O desespero toma conta de todos. Minha mãe não diz coisa com coisa, começamos a ligar para as amigas dela, ninguém a viu depois que saiu do clube.
Meu pai atende o telefone. É a polícia... encontraram o corpo de Angie num beco a menos de dois minutos de casa. Ela havia sido agredida, violentada e morta a menos de dois minutos de casa. Nós passamos pelo lugar. Não vimos nada. A polícia disse que quando passamos, já tinha acontecido. Minha irmãzinha... minha irmãzinha...”  Acordo sobressaltado. Achávamos que nosso bairro era seguro, mas evitávamos andar sozinhos a noite. Não andávamos sozinhos a noite. Se tivéssemos ido com ela, estaria aqui. Teria seus sonhos realizados. Estaria feliz. Estaríamos felizes. O caso de minha irmã nunca foi resolvido. Nunca pudemos ver o culpado sendo julgado e ela tendo sua justiça.

***

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