— Vem cá um instante. – E aponto para o banco – Quero
conversar com você antes de entrarmos.
— Tudo bem. – Percebi o estranhamento em sua voz.
— Antes de mais nada, quero lhe agradecer por tudo. Pelo
apoio essa semana, não sei se teria suportado essa barra sozinha. Por antes de
qualquer coisa, ser meu amigo. Para mim, depois de tudo o que passei, das
amizades que perdi, fazer um novo e grande amigo é muito complicado e
importante. E acima de qualquer interesse que possamos ter um no outro, quero
preservar essa amizade. Obrigada pelo apoio e suporte mais cedo na cachoeira, por
ter me permitido ser forte e defender a mim mesma. Não tem ideia como isso é
importante para mim. Nunca tive voz perto dele. E sei que para você e para o
Adam, partir em minha defesa era sua prioridade naquele momento.
— Não tem que agradecer por nada disso. Não era meu lugar de
ação. Tive vontade de encher a cara do desgraçado de porrada desde nosso
primeiro jantar. E não conhecia sua história. Mas lhe permitir fazer o que
tinha que fazer, era minha única opção. Claro, se o covarde partisse para lhe
agredir, acho que teria cometido um crime.
— Que bom que entendeu meu momento – Ele concorda com a
cabeça. Agradeço por estarmos na penumbra, pois estou começando a chorar e não
quero que ele me veja chorando. Respiro fundo e continuo. – Mas quero mesmo lhe
agradecer pelo jeito que me trata. Minha vó disse uma coisa para mim hoje e me
fez voltar ao passado, um passado a muito esquecido. Meu pai tinha um jeito
muito especial de nos tratar, as mulheres da vida dele, nunca o vi falar alto
ou destratar minha vó e minha mãe, e só nos chamava de anjo, assim como você.
Ela comparou seu jeito com o dele. Os pais de Penny tentaram nos ensinar como
as mulheres devem se comportar e que comportamento masculino devem aceitar.
Penny aprendeu direitinho. Mas eu, esqueci tanto do exemplo de meu pai quanto
dos ensinamentos de meus tios. Você fez reviver isso em mim. Muito obrigada mesmo.
– E me aproximo dele, e beijo-lhe a boca, no início um beijo tranquilo,
recatado. Mas que, aos poucos, vai cedendo a paixão que nos envolve. Nossas
línguas se encontram. Ele deixa minha boca, passando a beijar meu rosto, meu
pescoço e retorna a me beijar a boca. E cada vez mais a vontade, necessidade do
toque vai aumentando.
Nossas mãos deslizam pelas nossas costas, num sobe e desce
frenético. Jogo minhas pernas entre suas pernas, o banco balança. Minhas mãos
viajam naquele corpo musculoso, definido. Seu perfume me embriaga. Seu gosto em
minha boca, aliso sua nuca. Ele enche suas mãos com meus cabelos. Ajeito-me no
banco, ele novamente balança, ameaça cair. Drew me carrega no colo, sem em
momento algum tirar sua boca da minha. Abraço seu pescoço. Sou levada para o
quarto. Meu quarto de adolescente, marcado com lembranças felizes. Agora se
enche com o cheiro de nossa paixão. Nos entregamos ao momento, à paixão
retraída.
Estou deitada no peito dele, brincando com os gomos de seu
abdômen, sentindo aquele perfume inebriante. Meus pensamentos estão longe.
— Um beijo pelo pensamento.
— Dou o beijo sem contar o pensamento – E beijo lhe a face.
— Então uma bala pelo pensamento. – Ele insiste.
— Estava pensando em como minha vida melhorou.
— Chega de tristeza.
— E quem disse que estou triste? – E deito sobre seu corpo e
o encaro. – Deus foi muito bom comigo. Talvez se não tivesse vivido o que
vivi... – Meu telefone toca na cabeceira – Hoje não estaria aqui com você.
Estaria com... – O telefone continua tocando e o dele passa a tocar. – Atendo
ou atende você. – Ele pega o meu telefone e atende colocando no viva voz.
— Diga.
— Vocês estão prontos? – Penny pergunta
— Já passou duas horas? – Pergunto admirada
— Não. Já tem duas horas e meia. – Ela nos informa – Mas
entendemos se não quiserem ir. – Ele me olha e eu sussurro
— Tô com fome.
— Já estamos indo. – Desliga o telefone e vamos para o
banheiro.
Vinte minutos depois estamos na porta de casa, os seis
casais, decidindo como vai ficar a divisão dos carros.
— Gente, aluguei um carro grande, não há necessidade de
irmos em dois carros.
— E quem confia em você dirigindo na autoestrada, Adam? –
Artie cutuca
— Para sua informação, serei eu quem irá dirigindo! – Penny
informa
— Agora é que vamos em dois carros mesmo. Quando cheguei
aqui, quase morro com essa doida no volante! – Brinca Drew
— Epa! Minha namorada dirige muito bem.
— Só estamos perdendo tempo. – E tomo a chave das mãos de
Adam e sento no banco do motorista. - Quem quiser comer, entra. Estou com fome.
— É lógico que está. Passeio de barco dá fome! – Dessa vez a
gaiata foi Ash, e dão risada. Olho para Drew que dá com os ombros e se dirige
para sentar ao meu lado no banco do carona.
— Sabe que vamos ser o prato principal hoje, né? – ele me
pergunta
— Desde que eu tenha a sobremesa só para mim depois,
aguento. – E beijo-lhe os lábios.
— Agora deu! Esses dois não desgrudam mais. – Provoca Artie
— Aprendi com o melhor. Não reclama. Adam, lembra desses
dois quando começaram? – Drew responde, enquanto ligo o carro e nos coloco na
estrada.
— “Ah, não vou poder ir, porque Ash tem um projeto para
finalizar” – Adam fala com uma voz zombeteira.
— “Para mim, não vai dar porque vou tomar o chá das cinco
com as amigas de Ash”. – Drew imita o irmão
— Ei, pode parar! Nunca tomei chá das cinco com minhas
amigas, detesto chá!
— Ih, Artie! Com quem foi tomar chá? – Entro na brincadeira
— Nunca disse essa frase! É zoeira dos caras. – Se defende
— Zoeira nada, me lembro bem. Vocês já eram noivos nessa
época. – Provoca ainda mais Drew
— É o quê?!? Explica essa história, Sr. Arthur!
— Amor, você conhece bem o Drew, ele está de perturbação.
Não leva isso a sério. – Tinha pavor na voz dele – Drew?
— Não tô não. Eu me lembro bem. Ainda queria me levar junto.
Disse que não ia sofrer sozinho.
— Não ia sofrer sozinho?!?! – Ashley parece estar uma fera
— Anjo, fala sério. Ela tá acreditando.
— Mas é verdade! Juro por Deus! Foi bem na época dos ensaios
do casamento. Ash tinha uma mania de reunir os padrinhos e madrinhas sempre às
cinco da tarde. Acabamos chamando entre a gente, os padrinhos, de chá das cincos.
— Seu filho da...
— Olhe que ela é sua mãe também!
— Sério que você acreditou que eu estava acreditando?
Lembrei na hora dessas reuniões. Entrei na onda. Mas foi muito bom ver sua cara
de medo! – Caímos todos na risada.
A viagem foi toda assim. Como todas as vezes que nos
reuníamos. Um perturbando o outro, um rindo da cara do outro. A distância entre
Mystic City e Somerville não chega ser trinta minutos. Rapidamente estávamos
estacionando no restaurante. Escolhemos uma mesa perto da janela que dá para a
avenida e nos sentamos. Logo chega o garçom.
— Para começar uma rodada de cerveja para todos. – Artie
pediu. – Por conta da A4+ Project.
— Como Gerente Geral eu me oponho.
— Como sócio, e acredito que falo pelos demais, Artie está
apoiado. – Adam deu seu voto e os demais acenam com a cabeça, incluindo Penny.
— Você nem trabalha lá, tá concordando por quê? Deveria me
apoiar, sou sua amiga a mais tempo.
— Primeiro, sou a advogada da empresa.
— Para que eu fui lhe contratar! – Resmungo
— E segundo – ela continua – você já é minha amiga a tempo
demais, cansei de você.
— Não seja por isso, assim que voltar para NYC, me mudo e
nunca mais me vê.
— Essa sorte não tenho. Primeiro:
— Começou com as enumerações. – Retruco
— Como ia dizendo, primeiro: sou advogada da empresa que
trabalha, trato diretamente com você. Segundo, nossos namorados são melhores
amigos...
— “Nossos namorados”!? Quem disse que tenho namorado?
— E não tem?! – Drew pergunta, estranhando
— Ninguém me pediu em namoro. Sou uma garota a moda antiga.
— Não seja por isso... Quer namorar comigo?
— Humm! Vou pensar em seu caso! – Respondo imitando um
desdém.
— Vai pensar?!?!
— Porra!! Deixa eu terminar. Como ia dizendo, segundo nossos
na-mo-ra-dos são melhores amigos e terceiro, se você sair de casa, eu lhe caço
até o fim do mundo. Nosso combinado é morarmos juntas até envelhecemos.
— Retiro meu pedido. – Drew começa a falar, mas eu o interrompo
— Por falar em pedido, eu não vou beber álcool. Estou
dirigindo.
— Bebe só essa, para brindarmos. Como ia dizendo, retiro meu
pedido.
— Agora deu. Por quê?
— Se começar a namorar com você vou ter que morar com Penny
quando nos casarmos?! Não. Sinto muito. Não aguentaria.
— Não, meu anjo! Ela não me aguenta mais. Vou me mudar.
— Não se atreva. Já disse lhe caço.
— Quem casa, quer casa. – Adam lembra da frase de Nana em
minha formatura.
— A conversa tá é boa! Nem fui pedida em namoro, já estão me
casando. Vamos mudar o rumo dessa conversa?
O garçom trás nossas cervejas. Brindamos a nossa amizade e
aos amores. E jogamos conversa ao vento. O pessoal estava admirado com a beleza
da região. A rota que fizemos hoje é inacreditavelmente linda. Esse sempre foi
meu passeio favorito da empresa. Ele foi o primeiro a ser criado, e desde então
nunca teve uma única vez que deixou de sair. Era o orgulho de meus pais e,
ainda é, dos tios. E a cada estação oferecemos um diferencial, como estamos no
outono, experimentamos a sensação do banho frio com a fogueira e marshmallows
para assar. No verão, o passeio sai no meio da tarde para que possamos ver o
pôr do sol e dependendo do grupo oferecemos a opção de acampar no local.
— Gente, tô ficando faminta. Vamos pedir? - Comentei
— Para mim, ainda é cedo. – Ash dispensou
— Também estou – Alertou Penny.
— Estou com as meninas. Por mim, podemos pedir algo. – Disse
Artie – Vou pedir o cardápio. – E assim como o irmão, faz um gesto discreto
chamando a atenção do garçom. – Você poderia trazer o cardápio e mais uma
rodada, menos uma, não é Emm? Obrigado.
— Um instante. – Diz o garçom e continuamos a conversar
enquanto esperamos.
Rapidamente o garçom retorna com as cervejas e alguns
cardápios. Drew resolve comer comigo, pedimos de entrada Pasta Carbonara
e de principal o Tarvern Burger, para beber água, para mim e Drew
continuará na cerveja. E a noite passa sem que percebamos. Quando olhamos o
relógio, está quase na hora do bar fechar, então pedimos a conta. Quando chega,
os três não nos permitem pagar. Voltamos para casa com mesma alegria que nos
envolveu a noite toda.
Sinto a claridade bater em meus olhos. Acordo nos braços
dele. Nunca em meus mais ingênuos sonhos, pensei ser possível sentir o que
estou sentindo. Tão segura, tão entregue e, ao mesmo tempo, tão livre e dona de
mim. Encontrei em Drew um porto seguro, um amparo e um incentivo. Sinto-me mais
forte que jamais sentir.
Saiu da cama com todo cuidado, visto-me e desço para
preparar o café. Deixo tudo arrumado, vou até a escrivaninha de minha vó, escrevo
um bilhete. Volto até o quarto, deixo-o no meu travesseiro e saio. Vou direto
para o hospital, quero ver minha vó e contar-lhe tudo o que aconteceu ontem na
cachoeira e depois.
Quando entro no quarto, minha vó e tia Sam estão em um papo
animadíssimo. Passam das 9:00 quando chego.
— Que bom vê-la assim, Nana! Bom dia tia!
— Pelo sorriso no rosto o fim do dia e a noite foram
excelentes. – Minha vó nota
— Foram sim. Quer dizer, deve um lance desagradável.
— Cadê o bonitão? Não lhe vejo sem ele.
— Deixei dormindo. Dormiu a semana toda numa cadeira ou
nesse sofá comigo, daquele tamanho todo, precisa de uma boa noite de sono.
— Pensei que tinham brigado.
— Não. Estamos muito bem.
— Quer dizer que...
— Ele me pediu em namoro.
— E ainda fazem isso? – Sam pergunta enquanto minha vó bate
palmas
— Tia, sou uma moça a moda antiga... Quer dizer, nem sei se
estamos namorando. Tudo ia bem, até Penny dizer que vamos morar juntas até
ficarmos velhas. Ele desistiu. – Faço cara de tristeza. As duas riem
— Mas então... O que foi que aconteceu de desagradável?
— Eu e Penny estávamos nadando no rio...
— Vocês vestiram a roupa de mergulho, não vestiram?
— Não, tia. Vestimos maiôs. Continuando. Estávamos no rio,
quando avistamos Taylor à margem, me observando.
— Esse cara não aprendeu? Chamaram a polícia.
— Não. Saí da água, me agasalhei e fui até ele. – E conto a
elas tudo o que aconteceu, o que falei, como ele reagiu, conto inclusive que
ele ofendeu Drew e Penny, mas que o coloquei no lugar insignificante dele, e
que ele tentou partir para me agredir e eu o ameacei de morte.
— Você o que?! Tá louca? – Minha vó reclamou
— Tenho a melhor advogada de Nova York. – Sei que exagerei,
mas é a melhor que conheço – e o juiz julgaria como legítima defesa. Afinal,
ele conhece bem o caso.
— Entendi. Se confiando nos outros. – Sam me repreendi
— Não tia, confiando em mim. Ele jamais iria enfrentar
alguém que o olhasse como igual. Ele é um covarde. Por isso, não fez nada.
Agora, acabou. Vou poder viver minha vida em paz.
— Já era sem tempo. – Minha vó celebra. E conto-lhe como
todos estão apaixonados pela região. Como eu me redescobri apaixonada pela
cidade.
— Então, pensa em voltar? – Tia Sam me pergunta
— A morar? – Ela acena com a cabeça – Não tia. Meu lugar é
lá. Mas pretendo voltar mais vezes para visitá-los. - E conto da noite que
tivemos em Somerville. Conversamos sobre os planos dos tios para a empresa,
fiquei de ajudar na gerência mesmo de longe. Quando batem na porta.
— Bom dia, sumida! – Drew me cumprimenta ao entrar no quarto
acompanhado dos outros. – E minha doente favorita? Como passou a noite?
— Pior do que vocês, pelo que fiquei sabendo.
— Vamos fazer os mesmos passeios quando a sra. sair daqui. –
Diz Adam
— Podem parar. Quando ela sair daqui, vai ficar quietinha
por um tempo, para se recuperar completamente. – Alerto principalmente a ela, a
mais assanhada de todos.
— Por que não me acordou? – Drew se aproxima e me beija.
— Epa! Pode parar! – Grita Nana
— O que foi, Nana? – Questiono
— Que falta de respeito é essa?!
— Nana!!
— Minha filha, ele ontem lhe pede em namoro e na mesma hora
volta a trás. Não pode ir beijando assim. Para isso, vai ter que fazer direito.
Pedir sua mão em namoro a mim...
— A mim e James. – Tia Sam completa
— Não seja por isso. Sra. Campbell e Sra. Davis, posso
namorar com a bela e encantadora Emily Campbell.
— Não sei, o que acha, Samantha?
— Não sei, Maggie. Vai que ele resolve...
— Agora chega vocês duas. – Penny branda – Eu e Ash sofremos
para que esses dois ficassem juntos. Não venham agora azedar a coisa toda.
— Mas quem quase azedou foi você ontem! – Eu lembrei a ela –
Com a história de morarmos juntas para sempre.
— Pois é! Quem casa, quer casa. – Minha vó falou o ditado
novamente.
— Lembrei disso a ela ontem, Nana. Ah!! Esse ditado me faz
lembrar da formatura de Emm, quando falei do orador da minha?
— Você não contou essa história para elas? – Drew questionou
— Não disse quem era.
— Não acredito! Foi... - Pressumi
— Apresento o orador da turma de Engenharia da NYU de 2010,
Andrew Grant. – Todos caímos na risada. Eu me aproximo dele:
— Oh, meu anjo! Doeu muito, doeu? Não era mais fácil descer
pela escada?
— Não comece, Emm, você não.
— Desculpe, mas minha formatura foi desdenhada por sua
causa. – E dou mais risada.
— Adam, cuidado que seus podres são piores que os meus. - E
ficamos rindo das provocações dos dois. Olho para Nana e a pego me admirando,
me chama para perto dela. Sento-me ao seu lado na cama e ela me confidencia:
— É muito bom ver esse sorriso leve em seu rosto.
— É muito bom ser e estar leve, Nana
***
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