segunda-feira, 18 de maio de 2020

Livro 1: Calma Paixão - capítulo I: Minha chegada

Encontro-me sentada num banco da Grand Station, em Nova York. Que lugar lindo! Fico admirando sua arquitetura por uns instantes antes de ligar para casa, informando que cheguei bem. Considerada a maior estação de trem do mundo, serve de cenário para filmes e seriados da tv. Observo o relógio que no filme Madagascar foi parar na cabeça da Melman, a girafa. Os arcos, as luzes, tudo é muito lindo. Simplesmente não acredito que estou realizando um sonho! Perco-me em meus pensamentos admirando aquela estação que me esqueço de fazer as ligações. Não sei quanto tempo fiquei sentada naquele banco, só olhando, mas de repente me desperto com a vibração do celular. Uma mensagem de Penny, minha amiga de infância com quem morarei aqui.

“Chegou? Minha entrevista começa em 3 horas.”

Então lembro que preciso avisar a minha vó que também cheguei. Mando uma mensagem para Penny dizendo que estou esperando o trem, sei que é mentira, é só uma mentirinha. E depois que compro o ticket do trem, ligo para minha avó informando que cheguei bem.
— Não se preocupe, Nana. Eu me cuidarei. Sei que Nova York não é Somerville. Já estou indo para o apartamento de Penny. Quando chegar lá, te lig... — Sinto um esbarrão em meu ombro, meu celular vai ao chão, minha bolsa vai parar do outro lado. Rapidamente vou em direção à minha bolsa e quando levanto o corpo para pegar o celular entro em choque. O que foi aquilo que esbarrou em mim. Imediatamente congelo.
— A senhorita está bem? – ele me pergunta – Senhorita, tudo bem? Eu lhe machuquei? – Quando ele me toca é que volto ao normal e pela cara dele, a minha deve estar muito ruim.
— Oh, eu ... eu ... estou bem sim. — Gaguejo de nervoso. Aqueles olhos mel, parecem ser tão doces quanto o próprio mel, me encarando.
— A machuquei?
— Não. Eu estou bem. Foi só o susto. – E que susto!! Pego meu celular, e toco-lhe a mão. Ele está usando uma camisa branca, com um blazer azul e calça jeans, mas em nada escondem o corpo atlético. Com os cabelos bem arrumados, castanhos claros. Os traços dos olhos, mesmo tempo que são delicados, são fortes, possuem presença. Tem um que de masculinidade. Deus!! Que visão. — Obrigada pelo celular. – Agradeço e saio em direção à plataforma de onde sairia o trem.

‘Ande logo, se não perde o trem. E Penny ou lhe deixa na rua ou perde o emprego”
­— Senhorita! Senhorita! – ouço-o gritando e me viro, senhor! que visão!! — Acredito que sem isso não consiga pegar embarcar.

Ele tem em suas mãos um pedaço de papel que, pelo que disse, acredito ser meu ticket. Faço uma busca rápida em meus bolsos e não o encontro. Só agora que me dou conta que o papel estivera em uma de minhas mãos o tempo todo e com o choque deve ter tido o mesmo destino do celular. O chão da Grand Station.

— Meu Deus! Como sou desastrada!
— Esquecida talvez. Desastrada não – me responde olhando para minha passagem e abre o sorriso mais lindo e safado que já vi em minha vida — Humm! Pelo visto estamos indo para o mesmo lugar.
— Que coincidência!! – falo com um tom de ironia, mas fazendo um agradecimento a Deus por me deixar ter um pouco mais dessa visão maravilhosa.
— A propósito, sou Adam e você?
— Emily.
— Nome tão lindo quando a dona! — sua voz soa rouca e tem um toque de sedução.
— Obrigada. – Limito-me a agradecer. Não sei o que mais falar.

Entramos no trem e vamos conversando sobre se eu era daqui e o que fazia nessa cidade tão grande e louca. Claro que não disse toda a verdade. Limitei apenas a dizer que era de Massachusetts e estava aqui em férias. O que de tudo não era mentira. Realmente estava de féria. Esperando o semestre letivo começar na Stern School of Business, na NYU.

Entramos no vagão e ocupamos nossos lugares. Embora no mesmo, estamos bem distantes. Pego meu IPod, coloco os fones de ouvidos, e ponho para tocar uma plaslist de jazz. A viagem até a 8th Street levaria mais de uma hora. E começo a me perder em meus pensamentos assim que o trem começa seus primeiros movimentos.
“Deus! Como cheguei longe! Tenho certeza de que meus pais estão orgulhosos de mim, aonde quer que estejam. Nana, é assim que chamo minha adorada vó, teve um tanto de trabalho comigo na adolescência. Me envolvi com o cara errado. Boba, inocente. Mal sabia eu.

Quando conheci Taylor, estava no 7º ano. Ele havia se mudado para a cidade. Nunca soube o motivo, nunca tocou no assunto e depois de algumas investidas minha e recusas dele de me responder, desisti. Achei que quando estivesse pronto, me contaria. Tudo o que sei é que ele e a mãe se mudaram para a cidade nas pressas. Alugaram uma casa com todos os móveis. Mal tinha uma mala de roupas cada um. Não sei por que os professores acharam que era uma boa eu e Penny nos aproximarmos dele para que se sentisse acolhido. Fizemos. De cara, Penny não gostou dele. Sempre o achou grosso e metido. Mas eu, bastava duas palavrinhas doces, que me derretia. E o bendito tinha uma lábia maravilhosa. Não adiantou os avisos dela. Quando ele me convidou para o baile daquele ano, fui ao céu! E depois daí, nos tornamos namorados. E meu inferno pessoal iniciaria. Foi uma relação abusiva, cercada de traição, palavras grosseiras, proibições. Namoramos até o início do Ensino Médio. Quando ele voltou das férias de verão, disse que não queria mais nada. Tinha se cansado de mim. Isso mesmo: ELE CANSOU DE MIM. Cansou de tentar me consertar, tinha que assumir que eu era burra demais para ele, e um monte de coisas. Passei dias chorando.

— Toma vergonha, Emm! Aquele babaca lhe ofende como não podia e você fica assim chorosa?!?!?!
— Você não entende! Eu não soube ser uma boa namorada. Agora ele fica desfilando na minha frente com a Mendy Bommer. Ela sempre teve o olho em nosso namoro.
— Azar o dela. Não sabe a boa bisca que está levando. – E num impulso me pegou pelo braço, me tirou da cama, me levou até o espelho de corpo inteiro que havia em meu quarto e me fez me encarar.
— Me diga o que está vendo.
— Meu reflexo. – Ela me olha com fogo nos olhos, resolvo levar a sério a pergunta. – Sério me vejo.
— E o que vê parece com o que ele disse de você? Você perdeu seus pais aos 9 anos, nunca lhe vi lamentar ou se mal dizer. Você é a pessoa mais forte e guerreira que eu conheço.
— Entendo.
— Será que entende mesmo? Para de se lamentar porque aquele encosto lhe desprezou. Quem perdeu foi ele. O bicho era um grosso, agressivo...
— Ele nunca me bateu. Não era assim. – interrompi para defendê-lo – Ele só tinha um jeito forte de falar.
— Jeito forte de falar?! Fala sério! Ele só não te batia, porque todas as outras violências ele fez contigo. Vai me dizer que ele não quis nos separar? Afastou você de todos os nossos amigos. Durante todos esses anos, você só fez, foi, usou, comeu, bebeu, falou, ouviu, tudo o que ele quis, como ele quis e quando ele quis. Assuma isso para você.

Nessa hora, senti um toque em meu ombro. Era Adam.
— Ei, distraída. Assim vai perder a parada.
— Chegamos? Meu Deus! Preciso correr. – Pego minhas coisas e saio junto com ele do trem. E vamos em direções diferentes.

A estação não era muito longe da casa de Penny, então resolvo fazer o percurso a pé mesmo, chegaria em 10 – 15 minutos, a tempo de ela ir para sua entrevista. E assim fiz. Fui caminhando, observando os prédios de tijolos a vistas com suas escadarias, muito retratadas nos filmes. Essa arquitetura de Nova York, seja aqui no Brooklyn ou em Manhattan, sempre me fizeram sonhar em morar aqui.

— Graças a Deus! Se você demorasse um pouco mais iria ficar na rua. – Penny está nas escadarias me esperando, levei mais que o esperado, admirar os prédios me fez mais lenta que o necessário.
— Desculpas! Me distrai vendo os prédios. Vá! Espero que ocorra tudo bem.
— Já conhece a casa. Seu quarto está lá te esperando. Sinta-se em casa. Afinal ela será pelos próximos anos.

Dou-lhe um abraço bem apertado, pego as chaves do apartamento, que a família dela tinha comprado quando entramos no ensino médio. Ela é um ano mais velha que eu. Mas como nossos pais eram amigos, nos tornamos melhores amigas da vida. Ela estava aqui desde o ano anterior, estudava engenharia na NYU. Tínhamos planejado isso. Estudaríamos na NYU. Não tentamos outra universidade, para desespero de seus pais e de Nana. Quando ela foi admitida me advertiu:

— Minha parte eu cumpri. Espero você lá ano que vem.

Fiz de tudo. Para ser admitida também. Não podia ficar mais em Somerville. Não com Taylor me perseguindo. Entro no apartamento. Um lindo e aconchegante apartamento de dois quartos, sendo um com banheiro, o quarto dela, claro. E o meu, bem simples na parede perpendicular à porta estava minha cama king size, uma mesinha de cabeceira de um lado, abaixo de uma das janelas e do outro lado, abaixo da outra janela tinha uma escrivaninha. Em frente à cama, havia um closet que, embora pequeno, dava para entrar. Acima da cabeceira da cama, havia um quadro de uma das cachoeiras do rio Mystic, uma onde costuvámos ir quando mais novas.
Desfiz as malas, dei uma decorada com alguns objetos que trouxe comigo, para me sentir mais próxima de casa. Coloquei uns porta-retratos na mesinha de cabeceira e na escrivaninha. Deitei na cama para descansar um pouco. Acho que o cansaço venceu. Adormeci.

Acordei com os gritos de Penny.
— Tá a fim de me matar?
— Consegui! Consegui! Passei para a segunda fase do processo!!
— Que bom!! Isso merece uma comemoração!! Vamos ver o que tem na cozinha.
— Eheh! Nada.
— Como assim? Nada?!?
— Tem. O básico do básico. Nada que possamos transformar em alguma comida boa para comemorarmos. Vamos sair. Aqui perto tem um restaurante maravilhoso.
— Então vamos nos arrumar. Estou faminta! Acho que a última vez que comi foi em casa.

Uma hora e meia depois estávamos sentadas numa charmosa mesa na calçada. O garçom vem nos atender. Pedimos um coquetel sem álcool, afinal eu estava com 19 e ela com 20, quase 21, não podemos beber ainda. Não é que nunca tomamos bebidas alcoólicas, Nana nos dava desde os 18. Mas tínhamos prometido que nunca beberíamos em público. Quando ele chegou com nossas bebidas, brindamos ao sucesso de Penny, a nossas vidas em Nova York. E ficamos conversando. Lembramos de nossas aventuras em nossa cidade. Ela contou como foi duro ficar um ano sozinha lá. Mas que tinha feito algumas amizades na universidade. Que lá tinha muita gente babaca, mas muita gente boa também, que eu iria gostar muito de lá.

Quando acabamos nossos coquetéis, pedimos nossas comidas. Ela pediu de entrada uma salada ceasar e eu um ceviche, como principal ambas pedimos o prato do chefe, que era o especial do dia, e de sobremesa, quis um cheesecake de frutas vermelhas e ela uma fatia de red velvet com cobertura de buttercream.

Quando estamos degustando nossas sobremesas, e rindo de algum comentário que ela fez sobre algum transeunte, quase me entalo ao sentir uma mão em meu ombro e ver a cara de espanto de Penny. Parecia que estava vendo um fantasma. Eu gelei pensando que era...

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