“Chegou? Minha
entrevista começa em 3 horas.”
Então lembro que preciso avisar a minha vó que também
cheguei. Mando uma mensagem para Penny dizendo que estou esperando o trem, sei
que é mentira, é só uma mentirinha. E depois que compro o ticket do trem, ligo
para minha avó informando que cheguei bem.
— Não se preocupe, Nana. Eu me cuidarei. Sei que Nova York
não é Somerville. Já estou indo para o apartamento de Penny. Quando chegar lá,
te lig... — Sinto um esbarrão em meu ombro, meu celular vai ao chão, minha
bolsa vai parar do outro lado. Rapidamente vou em direção à minha bolsa e quando
levanto o corpo para pegar o celular entro em choque. O que foi aquilo que
esbarrou em mim. Imediatamente congelo.
— A senhorita está bem? – ele me pergunta – Senhorita, tudo
bem? Eu lhe machuquei? – Quando ele me toca é que volto ao normal e pela cara
dele, a minha deve estar muito ruim.
— Oh, eu ... eu ... estou bem sim. — Gaguejo de nervoso.
Aqueles olhos mel, parecem ser tão doces quanto o próprio mel, me encarando.
— A machuquei?
— Não. Eu estou bem. Foi só o susto. – E que susto!! Pego
meu celular, e toco-lhe a mão. Ele está usando uma camisa branca, com um blazer
azul e calça jeans, mas em nada escondem o corpo atlético. Com os cabelos bem
arrumados, castanhos claros. Os traços dos olhos, mesmo tempo que são
delicados, são fortes, possuem presença. Tem um que de masculinidade. Deus!!
Que visão. — Obrigada pelo celular. – Agradeço e saio em direção à plataforma
de onde sairia o trem.
‘Ande logo, se não perde o trem. E Penny ou lhe deixa na
rua ou perde o emprego”
— Senhorita! Senhorita! – ouço-o gritando e me viro,
senhor! que visão!! — Acredito que sem isso não consiga pegar embarcar.
Ele tem em suas mãos um pedaço de papel que, pelo que disse,
acredito ser meu ticket. Faço uma busca rápida em meus bolsos e não o encontro.
Só agora que me dou conta que o papel estivera em uma de minhas mãos o tempo
todo e com o choque deve ter tido o mesmo destino do celular. O chão da Grand
Station.
— Meu Deus! Como sou desastrada!
— Esquecida talvez. Desastrada não – me responde olhando
para minha passagem e abre o sorriso mais lindo e safado que já vi em minha
vida — Humm! Pelo visto estamos indo para o mesmo lugar.
— Que coincidência!! – falo com um tom de ironia, mas
fazendo um agradecimento a Deus por me deixar ter um pouco mais dessa visão
maravilhosa.
— A propósito, sou Adam e você?
— Emily.
— Nome tão lindo quando a dona! — sua voz soa rouca e tem um
toque de sedução.
— Obrigada. – Limito-me a agradecer. Não sei o que mais
falar.
Entramos no trem e vamos conversando sobre se eu era daqui e
o que fazia nessa cidade tão grande e louca. Claro que não disse toda a
verdade. Limitei apenas a dizer que era de Massachusetts e estava aqui em
férias. O que de tudo não era mentira. Realmente estava de féria. Esperando o
semestre letivo começar na Stern School of Business, na NYU.
Entramos no vagão e ocupamos nossos lugares. Embora no
mesmo, estamos bem distantes. Pego meu IPod, coloco os fones de ouvidos, e
ponho para tocar uma plaslist de jazz. A viagem até a 8th Street levaria mais
de uma hora. E começo a me perder em meus pensamentos assim que o trem começa
seus primeiros movimentos.
“Deus! Como cheguei longe! Tenho certeza de que meus pais
estão orgulhosos de mim, aonde quer que estejam. Nana, é assim que chamo
minha adorada vó, teve um tanto de trabalho comigo na adolescência. Me envolvi
com o cara errado. Boba, inocente. Mal sabia eu.
Quando conheci Taylor, estava no 7º ano. Ele havia se
mudado para a cidade. Nunca soube o motivo, nunca tocou no assunto e depois de
algumas investidas minha e recusas dele de me responder, desisti. Achei que
quando estivesse pronto, me contaria. Tudo o que sei é que ele e a mãe se
mudaram para a cidade nas pressas. Alugaram uma casa com todos os móveis. Mal
tinha uma mala de roupas cada um. Não sei por que os professores acharam que
era uma boa eu e Penny nos aproximarmos dele para que se sentisse acolhido.
Fizemos. De cara, Penny não gostou dele. Sempre o achou grosso e metido. Mas
eu, bastava duas palavrinhas doces, que me derretia. E o bendito tinha uma
lábia maravilhosa. Não adiantou os avisos dela. Quando ele me convidou para o
baile daquele ano, fui ao céu! E depois daí, nos tornamos namorados. E meu
inferno pessoal iniciaria. Foi uma relação abusiva, cercada de traição,
palavras grosseiras, proibições. Namoramos até o início do Ensino Médio. Quando
ele voltou das férias de verão, disse que não queria mais nada. Tinha se cansado
de mim. Isso mesmo: ELE CANSOU DE MIM. Cansou de tentar me consertar, tinha que
assumir que eu era burra demais para ele, e um monte de coisas. Passei dias
chorando.
— Toma vergonha, Emm! Aquele babaca lhe ofende como não
podia e você fica assim chorosa?!?!?!
— Você não entende! Eu não soube ser uma boa namorada.
Agora ele fica desfilando na minha frente com a Mendy Bommer. Ela sempre teve o
olho em nosso namoro.
— Azar o dela. Não sabe a boa bisca que está levando. – E
num impulso me pegou pelo braço, me tirou da cama, me levou até o espelho de
corpo inteiro que havia em meu quarto e me fez me encarar.
— Me diga o que está vendo.
— Meu reflexo. – Ela me olha com fogo nos olhos, resolvo
levar a sério a pergunta. – Sério me vejo.
— E o que vê parece com o que ele disse de você? Você
perdeu seus pais aos 9 anos, nunca lhe vi lamentar ou se mal dizer. Você é a
pessoa mais forte e guerreira que eu conheço.
— Entendo.
— Será que entende mesmo? Para de se lamentar porque
aquele encosto lhe desprezou. Quem perdeu foi ele. O bicho era um grosso,
agressivo...
— Ele nunca me bateu. Não era assim. – interrompi para
defendê-lo – Ele só tinha um jeito forte de falar.
— Jeito forte de falar?! Fala sério! Ele só não te batia,
porque todas as outras violências ele fez contigo. Vai me dizer que ele não
quis nos separar? Afastou você de todos os nossos amigos. Durante todos esses
anos, você só fez, foi, usou, comeu, bebeu, falou, ouviu, tudo o que ele quis,
como ele quis e quando ele quis. Assuma isso para você.
Nessa hora, senti um toque em meu ombro. Era Adam.
— Ei, distraída. Assim vai perder a parada.
— Chegamos? Meu Deus! Preciso correr. – Pego minhas coisas e
saio junto com ele do trem. E vamos em direções diferentes.
A estação não era muito longe da casa de Penny, então
resolvo fazer o percurso a pé mesmo, chegaria em 10 – 15 minutos, a tempo de
ela ir para sua entrevista. E assim fiz. Fui caminhando, observando os prédios
de tijolos a vistas com suas escadarias, muito retratadas nos filmes. Essa
arquitetura de Nova York, seja aqui no Brooklyn ou em Manhattan, sempre me
fizeram sonhar em morar aqui.
— Graças a Deus! Se você demorasse um pouco mais iria ficar
na rua. – Penny está nas escadarias me esperando, levei mais que o esperado,
admirar os prédios me fez mais lenta que o necessário.
— Desculpas! Me distrai vendo os prédios. Vá! Espero que
ocorra tudo bem.
— Já conhece a casa. Seu quarto está lá te esperando.
Sinta-se em casa. Afinal ela será pelos próximos anos.
Dou-lhe um abraço bem apertado, pego as chaves do apartamento, que a família dela tinha comprado quando entramos no ensino médio. Ela é um ano mais velha que eu. Mas como nossos pais eram amigos, nos tornamos melhores amigas da vida. Ela estava aqui desde o ano anterior, estudava engenharia na NYU. Tínhamos planejado isso. Estudaríamos na NYU. Não tentamos outra universidade, para desespero de seus pais e de Nana. Quando ela foi admitida me advertiu:
— Minha parte eu cumpri. Espero você lá ano que vem.
Fiz de tudo. Para ser admitida também. Não podia ficar mais em Somerville. Não com Taylor me perseguindo. Entro no apartamento. Um lindo e aconchegante apartamento de dois quartos, sendo um com banheiro, o quarto dela, claro. E o meu, bem simples na parede perpendicular à porta estava minha cama king size, uma mesinha de cabeceira de um lado, abaixo de uma das janelas e do outro lado, abaixo da outra janela tinha uma escrivaninha. Em frente à cama, havia um closet que, embora pequeno, dava para entrar. Acima da cabeceira da cama, havia um quadro de uma das cachoeiras do rio Mystic, uma onde costuvámos ir quando mais novas.
Desfiz as malas, dei uma decorada com alguns objetos que
trouxe comigo, para me sentir mais próxima de casa. Coloquei uns porta-retratos
na mesinha de cabeceira e na escrivaninha. Deitei na cama para descansar um
pouco. Acho que o cansaço venceu. Adormeci.
Acordei com os gritos de Penny.
— Tá a fim de me matar?
— Consegui! Consegui! Passei para a segunda fase do
processo!!
— Que bom!! Isso merece uma comemoração!! Vamos ver o que tem
na cozinha.
— Eheh! Nada.
— Como assim? Nada?!?
— Tem. O básico do básico. Nada que possamos transformar em alguma
comida boa para comemorarmos. Vamos sair. Aqui perto tem um restaurante
maravilhoso.
— Então vamos nos arrumar. Estou faminta! Acho que a última
vez que comi foi em casa.
Uma hora e meia depois estávamos sentadas numa charmosa mesa
na calçada. O garçom vem nos atender. Pedimos um coquetel sem álcool, afinal eu
estava com 19 e ela com 20, quase 21, não podemos beber ainda. Não é que nunca
tomamos bebidas alcoólicas, Nana nos dava desde os 18. Mas tínhamos prometido
que nunca beberíamos em público. Quando ele chegou com nossas bebidas,
brindamos ao sucesso de Penny, a nossas vidas em Nova York. E ficamos
conversando. Lembramos de nossas aventuras em nossa cidade. Ela contou como foi
duro ficar um ano sozinha lá. Mas que tinha feito algumas amizades na
universidade. Que lá tinha muita gente babaca, mas muita gente boa também, que
eu iria gostar muito de lá.
Quando acabamos nossos coquetéis, pedimos nossas comidas.
Ela pediu de entrada uma salada ceasar e eu um ceviche, como principal ambas
pedimos o prato do chefe, que era o especial do dia, e de sobremesa, quis um
cheesecake de frutas vermelhas e ela uma fatia de red velvet com cobertura de buttercream.
Quando estamos degustando nossas sobremesas, e rindo de
algum comentário que ela fez sobre algum transeunte, quase me entalo ao sentir
uma mão em meu ombro e ver a cara de espanto de Penny. Parecia que estava vendo
um fantasma. Eu gelei pensando que era...
***
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