sexta-feira, 5 de junho de 2020

Livro 1: Calma Paixão - Capitulo XII


Chegando no andar do quarto de Nana, encontro Penny e Adam do lado de fora. A essa hora não há procedimento nenhum. Alguma coisa tá acontecendo. Apresso o passo.

— Que bom que você chegou! – Assim fui recebida por Penny.
— O que houve com minha vó? Eu sabia que não devia ter saído.
— Anjo, calma! Deixa Penny falar. – Drew tenta me conter
— Anda, Penny! Fala logo!
— Sua vó acordou. E quer falar com você.
— Jura? – Ela acena com a cabeça e indica a porta do quarto
— O plantonista está com ela.
— Vozinha! – Falo com os olhos cheios de lágrimas
— Minha florzinha! Que bom que você chegou!
— Não fale muito para não se cansar.
— Não faça muito esforço, Sra. Campbell. – Recomenda o médico
— Pode deixar, dr. Ela ficará bem quietinha. – O médico se despede e se retira do quarto.
— Como você está minha flor? Eu ouvi você com Taylor hoje.
— Você ouviu?!
— Sim. O que ele queria?
— Nada de importante.
— Você ficou abalada demais. Pode perceber.
— Não se preocupe com isso. Queria lhe apresentar uma pessoa, pode ser?
— Claro. – Vou até a porta e chamo Drew.
— Nana, esse é Andrew Grant, sócio de Adam, um amigo muito especial, muito especial. – Ele desaprova como o apresentei, mas iria apresentá-lo como?! Meu namorado?! Não somos. Dei com o ombro
— Como a senhora está se sentindo?
— Estou caminhando. Vocês trabalham juntos?
— Sim, vó, ele é meu chefe...
— Já disse que sou líder da minha equipe, apenas isso. Somos amigos especial. – Diz isso com um sorriso encantador no canto dos lábios.
— Isso, um amigo muito, muito especial mesmo. Veio de Nova York só para me dar apoio.
— Que bom. Você merece ser feliz. E vejo que tem um brilhinho nesse olhar.
— Nana! – Repreedo-a um pouco embaraçada. - Agora chega. Já falou demais. Vai descansar.
— Já descansei demais. Quero conversar com seu amigo especial. – E dá uma piscadela para ele
— Está bem animada, né, Nana? – Penny comenta ao entrar no quarto com Adam.
— E não é para estar? Com esses dois gatos me fazendo visita? – Os dois ficam sem jeito. – Oh! E ainda são tímidos!
— Se acostumem. – Alerta Penny – Das três aqui, a mais nova é Nana. Querida, já vamos. – Se dirige até as coisas dela e pega um envelope e me entrega. – Eu não lhe disse que seria fácil?
— Scott concedeu?
— Nem precisei argumentar. Bastou ler os nomes.
— Ótimo.
— Só mais um detalhe: tem validade nacional. Vamos Drew?
— Eu fico.
— Não precisa. Pode ir. Dorme lá em casa. Tem minha cama e o quarto de hospedes.
— Já conversamos sobre isso. Eu fico.
— É só um amigo especial, sei!! – Nana ironiza
— Nana. Vai dormir. – Reclamo. – Não adianta reclamar com você. É teimoso. Vou conversar com o plantonista, já volto.

 Na conversa com o plantonista, fico sabendo que o quadro de minha vó deu uma leve evoluída, pois descobriram qual era a bactéria causadora da infecção e os antibióticos estão combatendo a infecção. Que a tendência seria só de melhora. Converso sobre a presença de Drew a noite como acompanhante e explico o ocorrido esta manhã e ele permite, já que minha vó estava bem melhor, porém não deveríamos deixá-la agitada. “Mais do que já está?” penso comigo. Retorno ao quarto e ficamos os três. Nana logo volta a dormir e ficamos conversando baixinho para não a incomodar. Não sei que horas adormecemos.

Na manhã seguinte, acordo com Nana reclamando com o técnico que estava retirando sangue dela para os exames diários. Drew já havia se levantado.

— Nana, deixa o rapaz trabalhar em paz.
— Ele me furou e doeu.
— Eu sei que dói, mas não posso fazer nada, senhora. É sangue arterial, dói mesmo.
— Não se preocupe, moço. Ela gosta de reclamar muito de manhã.
— Não se preocupe. Já estou acostumado.
— Nana, você viu Drew?
— Quando acordei ele estava saindo. Ouvi a porta bater.
— Estranho! Como a senhora está se sentindo agora pela manhã?
— Um pouco cansada. Ainda dói para respirar, mas estou melhor que antes.
— Graças a Deus. – Ele entrou com dois copos de café e um saco com dois muffins. – Trouxe nosso café.
— Obrigada. Estou com fome.
— Que gentil! – Nana está realmente encantada – Continue tratando minha flor desse jeito que terá uma aliada.
— Aliada em que, Nana? - Pergunto
— Ele me entendeu, não entendeu?
— Com certeza, Sra. Campbell. Se for por mim, sua flor será a mais bem tratada de todas sempre.
— Assim eu gosto. Pode me chamar de Nana. Ela sabe ser turrona de vez em quando, puxou ao pai. E é decidida como a mãe. Juntou essas duas características...
— E eu não sei? Oh, cabecinha dura!
— Vão continuar falando de mim como se eu não estivesse aqui? Ok, por favor, meu café e o que tem dentro do saco?
— Muffin de Mirtilo. Seu favorito.
— Muito obrigada.
— Meu prazer é te servir!
— Menos, meu querido. Menos! – E sorrimos juntos, os três.

O quadro clínico de minha vó vai evoluindo dia após dia. Drew só saía do hospital quando eu saía. Penny e Adam voltaram para Nova York, não tinha por que se afastarem por tanto tempo das empresas, mas ficaram de voltar no fim de semana, quando Nana poderia ter alta. Nesse meio tempo, não abandonamos nossas obrigações. Estávamos trabalhando online. Mantive minhas reuniões com as equipes, analisei algumas propostas, me mantive ocupada.

Na sexta-feira seguinte, Adam, Penny, Artie e Ash chegaram à cidade. Depois de se acomodarem, foram ao hospital nos visitar.

— A alegria chegou! – Penny entrou com euforia no quarto. – Não temos mais doenças, vamos logo para casa. Oh, coisa boa, não Nana!
— Penny, isso ainda é um hospital, com pessoas doentes. – Reclamei com ela
— Emm. Drew! – Artie entra nos cumprimentando. Abraço os dois, tanto ele quanto Ash.
— Então, vocês dois se acertaram? – Ela sussurra em meu ouvido
— Nana, esses são os outros dois sócios de Adam.
— Credo! Beleza é pré-requisito para ser sócio de vocês?!
— Nana! – Repreendo-a – Eles são meus chefes.
— Somos líderes de nossas equipes. – Dizem os quatro ao mesmo tempo. E damos risadas
— Arthur e Ashley Grant. Irmão e cunhada de Drew.
— Beleza é mal de família! Ai se fosse novinha!
— Meu Deus! Ela está pior do que antes da doença. – Comenta Penny.

Conversamos um pouco, antes do médico que está cuidando do caso entrar e pedir para falar comigo e Nana. Peço para que os outros fiquem. E ele nos diz que a infecção fora vencida e que quando terminasse o período do antibiótico ela teria alta, ou seja, mais dois dias de hospital.

— Que notícia maravilhosa! – Ash celebra
— Trouxemos sorte. – Diz Adam.

Penny me puxa pro lado e conversa baixinho comigo.
— E aquele outro assunto?
— Graças a Deus, não chegou mais perto. Também pouco sai do hospital nesses dias. Quando o fazia era muito rápido e sempre com o Drew. Sei que andou rondando a casa, pude sentir a presença dele, mas não se aproximou.
— Devia ter chamado o xerife, ele teria sido detido. Ele precisa aprender.
— Ele terá sua lição.
— Bom dia! Nossa como esse quarto tá cheio. – Era a tia Sam que vinha para nos render.
— Tia, Nana recebe alta no domingo
— Que notícia boa! Seu pai – começou a falar com Penny – pediu para avisar que o passeio sairá em uma hora, se vocês quiserem ir, tem vaga para os seis.
— Vamos, claro que vamos. Ainda mais com essa notícia maravilhosa.
— Que passeio? – Perguntei
— Para nossa cachoeira.
— Vou dispensar. Vou em casa, tomar um banho e volto para ficar com Nana. Sua mãe tem o que fazer.
— Não tenho. Minha tarde e noite estão ocupadas com minha amiga.
— Vai, filha! Vocês estão trancados aqui esse tempo todo. Vai se divertir um pouco.
— É, anjo. Vamos nos divertir. Você está precisando. – Durante todos esses dias, estive protegida dentro do hospital e na companhia de Drew. Sair significava a possibilidade de encontrar com Taylor nas ruas. O medo toma conta de mim. Sinto meu sangue esfriar. Acho que fica nítido. – Ei, estou aqui. Você não estará só.
— Estamos – Adam reafirmou – Nós três.
— Não sei do que estão falando, mas estou aqui por você. – Artie completa
— Mana, não precisa se preocupar. Tem a medida.
— E vou fazer o quê? Hein, Penny? Jogar o pedaço de papel na cara dele? – Meu medo se transforma em raiva. – Vocês não têm noção do que passei, do que senti e sinto até hoje. Dói aqui dentro.
— Vocês nos dão licença. Preciso falar com minha neta a sós. – Nana muito serenamente pede e todos saem. – Sente aqui do meu lado. – Eu vou e sento, com as lágrimas escorrendo, tento enxugá-las, mas é em vão. – Escute o que vou lhe dizer e escute com atenção. Eu sei muito bem o que sofreu e calada. Suportou por teimosia e, me desculpe, burrice. Nós, eu, Penny, os pais dela, sempre lhe dissemos que ele não valia seu sofrimento, não foi? – Aceno com a cabeça – Você se deixou naquela situação por não acreditar em você e acreditar nas merdas que aquele traste lhe dizia. Você nunca foi fraca, nunca foi burra, nunca foi inútil, vagabunda, piranha, ou qualquer outra coisa que ele tenha lhe chamado. Eu não lhe criei para ser nada disso. E você nesses 7 anos, desde que tomou a decisão de que iria sair daquele ciclo, mostrou que não era nada do que ele fez você acreditar. Você tem ao seu lado um homem maravilhoso. Não o conheço direito. Mas uma pessoa que larga tudo e vem para uma cidadezinha do interior, se tranca num quarto de hospital, com uma “amiga”, fala com você como seu pai falava comigo e com sua mãe, só lhe chama de anjo. Chefes que saem de suas rotinas e vem visitar sua avó, estão com você mesmo sem saber o por quê. Minha filha, tá com medo de que?! Daquele projeto de traste? Ele não é homem para chegar perto de você, não com seus amigos por perto...
— E quando eu não tiver nenhum deles comigo?
— Você não precisa deles para se defender. Você é capaz de fazer isso sozinha. Agora se liberte dessas amarras que ainda lhe prendem a esse passado terrível, você não tem mais 16 anos. Você agora é uma mulher, dona de suas vontades. Forte e decidida. Agora pegue essa turma de gatões e vá passear. Curta o fim de semana com eles.

As palavras de minha vó foram duras, mas certeiras. Ela tinha razão, não podia me aprisionar a uma história que eu já havia terminado a muito tempo. Não posso me trancafiar por medo do que não tem mais domínio sobre mim. Sou mais forte do que ele me fez acreditar. Sou mais segura de mim do que era quando adolescente. Eu conquistei Nova York.

­— Você tem razão, vó. Não posso deixar o medo me paralisar. Eu mereço ser feliz, como todos e qualquer um. Te amo, vó.
— Também te amo, minha florzinha. – Peguei minhas coisas e as de Drew. E saí do quarto.
— Tia, tudo bem mesmo a senhora ficar? De noite venho para dormir.
­— Só saio amanhã quando James chegar. Você está de folga hoje e amanhã, ficaria o fim de semana todo, mas vou liberar o domingo.
— Tudo bem. Mas venho amanhã e fico um pouco. Não adianta.
— Vamos, se não perdemos o passeio. – Penny alerta
— Preciso passar numa loja para comprar algumas roupas para mim e Drew.
— Já temos tudo aqui. Minha mãe trouxe as da agência.
— Vamos!

O passeio de barco pelo rio Mystic tem as melhores vistas da região. Esse é o mais vendido da agência. Nossa cachoeira é de tirar o fôlego.

— Essa é a cachoeira da foto em seu quarto? – Drew reconhece
— Isso mesmo. Linda, não?
— Espetacular. – E me abraça. Sinto os olhares sobre a gente.

Chegamos num ponto do passeio que precisamos ancorar e continuar andando para o banho de cachoeira. Nessa época do ano a água, que no verão é agradável, começa a ficar gelada. Os moradores do lugar acham revigorante esse banho, mas os turistas reclamam da temperatura. Por isso, oferecemos roupas especiais para eles. Depois da caminhada de mais ou menos quinze minutos, sobre protestos de alguns não tão preparados, chegamos a um conjunto de pequenas quedas, alimentadas pela grande cachoeira que eu e Penny chamamos de nossa.

Os “turistas” vão primeiro para a água, enquanto eu e Penny vamos nos trocar. E como fazíamos na infância e adolescência, quando conseguia fugir de minha prisão, estamos de maiô. O que cria um burburinho na água.

— Vocês vão pegar um resfriado! – Gritou Ash
— Vão congelar – Advertiu Artie – A água está muito fria.
— Não vou ficar no hospital com mais ninguém. Só Nana merece essa consideração. Vão colocar outra roupa. – Ordena Adam

Drew é o único que fica calado. Parece que a praga de Artie o pegou. Imóvel, de olhos arregalados. Artie lhe dá um empurrão e ele se espatifa sobre a água, despertando do transe. Enquanto procuramos o ponto certo para nos jogarmos na água.
— Não vai falar nada? – Ele pergunta
— Falar o que?
— Da loucura que estão fazendo.
— A tá! Vocês querem adoecer, é? Não aguento mais uma semana de hospital, não viu?

E foi ele terminando a frase e nós duas nos jogando na água como bolas de canhão, espirrando água gelada para todos os cantos. Os três homenzarrões gritaram feito criancinhas ao sentirem a água no rosto. Nós duas, nos emergimos do mergulho, olhando uma para a outra, e ao mesmo tempo dissemos:

— Que delícia! – de queixo batendo e lábios ficando roxos – Que delícia!
— Agora já podem ir para perto da fogueira, pois estão com frio.
— Que...- queixo tremendo – frio ...- mais bater de dentes – nada! – Retrucou Penny
— Estam..tamos acos...cos... tumadas. – Rebati
— Estamos vendo. – Disseram Adam e Drew nos puxando para fora da água sendo seguidos por Artie e Ashley. Eles nos enrolam nas toalhas e nos sentam perto da fogueira que um dos guias acendeu.

— Ficaram moles, meninas? – Um dos guias nos provoca
— A cidade grande as amoleceu. – Diz o outro dando risadas.
— Vocês perderam a noção do perigo. Esqueceram que sou sua chefe. – Ralhei com os dois.
— Você não teria coragem. É um doce, igual a sua mãe.
— E turrona igual ao pai. Nós avisamos para não caírem de maiô. Mas não adiantou, né? – Diz Drew
— Shiii. Chega de reclamação. Estamos nos divertindo. – Reclamou Penny. – Vamos de novo?
— Só se for agora. – Jogamos as toalhas no chão e saímos correndo. Antes dos protestos de todos.

Na água, para aquecer o corpo, começamos a nadar. Quando Penny para e olha para a margem. Sigo seu olhar, e lá está ele. Meu maior medo. O pior algoz de uma pessoa. A crueldade camuflada de amor. Olho para aquela figura e analiso. Em seis anos, fisicamente, ele não mudou muito. Eu o reconheceria em qualquer lugar. Aparenta ser mais velho do que seus 25 anos. Ele aparenta ser mais velho que os rapazes, que estão com quase 30. Não ganhou corpo, pior, parece que perdeu. A fisionomia... é triste ver uma pessoa naquele estado. Ele não concluiu os estudos, deve ter se entregado à bebida e às noitadas. E se acha o maioral. Volto nadando para a fogueira, Penny me segue. Não digo uma palavra. Saio da água, vou até onde estão os outros, pego a toalha e me enxugo, em seguida visto um vestido que tia Sam colocou na mochila e o visto, calço os chinelos e saio andando. Penny faz a mesma coisa, faz um sinal com a cabeça mostrando para onde estou indo. Todos se levantam e me seguem.

Quando chego perto dele, vejo que sorri vitorioso. Ele está certo de que largarei tudo e ficarei com ele, de que ainda possui domínio sobre minha vida, de que é o melhor para mim e que eu não tenho escolha.

— Podemos ir para nossa casa agora? – É tudo que me diz. Olho para trás e vejo meus amigos. Minha família se dirigindo para onde estamos. Faço um sinal para que parem. Percebo o desespero no olhar de Penny e Drew. Mas não falam nada. Observo as mãos deles serradas. Viro-me para Taylor.

— Não, Taylor. Com você, a 9 anos, eu iria para qualquer lugar. Naquela época você era, realmente, meu príncipe. A 7 anos você destruiu tudo o que poderíamos ter juntos. Você me destruiu. Tirou de mim o que tinha de mais belo. Eu que já havia sofrido a maior das perdas, a de meus pais. Você me tirou a confiança, o respeito, a esperança, o sonho. Você me jogou... – engulo o choro, não darei a ele esse prazer, e respiro fundo – num mundo sombrio que me acompanhou por anos. – Sinto a presença de alguém ao meu lado, olho e Penny segura minha mão – Você me humilhou, me agrediu verbalmente, me distratou na frente de seus pais, seus amigos, meus amigos...

— Nenhum deles te amou como eu amei e amo. – Sou interrompida
— NÃO SE ATREVA – paro de falar, não quero me alterar, respiro fundo novamente – Não se atreva a falar de amor. Você não conhece esse sentimento. Por sua causa, passei noites sem dormir, não confiava nas pessoas, perdi oportunidades de viver. Um dia, em um leito de hospital, recebi a visita dessa a quem você por muitas vezes chamou de vagabunda... – olho para Penny – e ela trazia um envelope com os papeis de requerimento de admissão da NYU e me disse: “faça isso antes que ele te mate”. Aquela era a terceira vez que seu “amor” me mandava para o hospital. Não me diga que você me ama. Você não ama nem a você mesmo. Olha no que se transformou?! Você realmente acha que eu vou largar um emprego dos sonhos, a confiança de meus líderes, meus amigos que largaram tudo para me dar apoio nesse momento, mas principalmente, eu largaria a mim, a mulher maravilhosa, forte, guerreira em que me permiti transformar para reviver tudo aquilo? Errar uma vez, beleza, faz parte. Mas repetir? Nunca. Mas numa coisa você tinha razão – ele abre novamente o sorriso – Não, não sorria. Eu, naquela época, por um período, fui burra, fraca, inútil. Fui porque me permiti ser dominada por um ser desprezível como você e seu pai. Vocês me dão nojo. Jamais em sã consciência eu pensaria em voltar com você.

— Você está iludida. Acha que o grandalhão aí vai continuar com você? Vai te usar e largar. Todos os homens fazem isso. Ninguém gosta de mulher metida a esperta. – Percebo que Drew ameaça a avançar para cima dele, olho para ele como quem diz sei o que estou fazendo. Ele recua. – Não disse. Frouxo como todo playboyzinho da cidade.

— E você é muito homem? Por quê? Por que enche a cara? Por que bate em sua mãe? Batia na namorada? Não. Ele não é frouxo, muito menos playboy. O frouxo aqui é você, que não tem caráter, é um covarde. Um estúpido, ignorante. – Ele avança para cima de mim – Venha, bata. É assim que você se sente homem? Bata. Mas saiba que daqui você não sai vivo. Eu te mato. – Penny olha para mim com a cara assustada. – Não são eles não. Serei eu que me defenderei. Venha. – Ele recua. Jamais pensou que eu pudesse enfrentá-lo desse jeito. – Vou lhe dar um conselho, e de graça, fique longe de mim. Esqueça meu endereço, aqui e em Nova York. Se você se aproximar novamente de mim, eu chamarei a polícia e será seu fim. – Tiro meus olhos dos olhos dele, onde estiveram quase o tempo todo, o meço de cima a baixo e de baixo para cima, reviro os olhos e antes de girar sobre meus joelhos digo: - Onde eu estava com a cabeça. – Abraço Penny e Drew. E voltamos para a fogueira.

— Isso não ficará assim. Você verá. Não terá seus amiguinhos por perto sempre. – Ele me ameaça.

Quando sentamos, todos me olham e eu desabo no choro. Drew me abraça. Não me diz nada. Penny olha para mim com orgulho estampado no rosto. Nesse momento, todas as minhas forças somem, me desfaço em lágrimas. Mas são lágrimas libertadoras. Sinto-me leve, livre. Quase a mesma sensação da noite do karaokê. Mas não quero fugir de Drew, pelo contrário, preciso do abraço dele, de seu carinho, de seu corpo junto ao meu. Preciso do seu apoio para que eu possa me erguer novamente. Choro. Choro por tudo o que estava preso e não falei. Choro por cada cicatriz em meu corpo e alma causada por esse passado.

— Pessoal, sinto, mas precisamos ir. – Um dos guias nos alerta.

O pessoal recolhe as coisas, eu continuo sentada, abraçada a Drew, que apenas se limitou a me apoiar sem dizer uma só palavra. Mas dizer o quê? Quando todos estão prontos, ele me ampara e fazemos o percurso de volta. Na trilha e no barco, nenhuma palavra foi dita em nosso grupo. Chegamos no atracadouro, descemos do barco e nos dirigimos aos nossos carros. Drew pega a chave, me coloca no banco do carona, dá a volta e seguimos para a casa.

— Ei, vamos jantar onde? – Artie pergunta quando todos descemos do carro.
— Eu havia planejado fazermos o jantar aqui e ir comer na beira do lago. Mas acho melhor irmos para algum lugar. O que acha, Emm?
— Você tinha planejado de me colocar no fogão sem me perguntar? Massa!
— Sei que você ama cozinhar, então não reclama.
— Cara, aqui, restaurante digno? - Questiono
— Só o Mama’s – dizemos juntas, e caímos na risada. Os outros não entendem nada.
— Eu explico. Mama’s é uma pizzaria furreca que nós frequentávamos. E toda as comemorações dos jogos dos times da escola eram lá, porque para o coordenador de esportes de lá, era o único restaurante... – Ela me olha - DIGNO – dizemos a palavra juntas novamente. – Mas só era digno porque a mama era a mãe dele.
— Então vamos para lá.
— Já fechou a anos. Vamos pro Five Horses Tavern, lá servem um delicioso hambúrguer. - Surgiro
— Mas é em Sommerville. – Penny reclama
— Eu estou a fim de um hambúrguer. – Adam se anima
— Estamos dentro. – Dizem Ash e Artie
— Contem comigo. – Drew se inclui – É Penélope Charmosa, seu charme furou dessa vez. – Rimos da brincadeira com o nome dela
— Odeio essa brincadeira. Mas como sou voto vencido, Five Horses é o vencedor. Em o que? 2 horas?
— Temos chuveiros extra aqui em casa, se quiserem adiantar. – Ofereço.
— Não, achamos melhor deixar vocês dois a sós. – O cupido Ashley lança sua flecha. Drew olha para mim e me beija. E nos dirigimos para a casa.

***

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