CAPÍTULO
III
Drew Grant
A vida seguiu. Estamos no início de
fevereiro. Conseguimos mais um contrato de construção de um condomínio, dessa
vez com três prédios de 5 andares com 2 coberturas cada, de 2 a 4 quartos, na
região de East Quogue. Era um projeto muito grande mesmo. Emily fez um
excelente trabalho ao elaborar a proposta junto com Artie e Ash. A descrição do
projeto elaborado por meu irmão e Ash que Emily fez, ressaltando as vantagens
financeiras para os investidores, com certeza contribuiu bastante.
— Gente, não teríamos conseguido esse contrato
sem a contribuição de Emm. – Adam comenta ao erguer a taça para brindarmos.
— Vocês têm notícias dela? – Ash pergunta
— Minha mãe disse que foi morar em Maui. –
Penny responde
— Como assim em Maui? – Pergunto surpreso.
– Pensei que tinha ido ficar com a avó.
— Todos nós pensamos, mas recebeu uma
excelente proposta de emprego lá. Parece que uma amiga de um professor
precisava de alguém e ele a indicou. – Penny explicou.
— É! Uma indicação de um professor não
podemos recusar. Elas são tudo no começo da carreira. Muito dos nossos nos
ajudaram demais no início de nossa empresa.
— Consegui meu cargo no escritório graças a
um professor. A própria Emm, foi indicada para alguns aqui em Nova York, mas o
que vocês ofereceram era melhor.
— Brindemos ao nosso sucesso! – Proponho o
brinde.
— Drew, estávamos pensando. O projeto do
condomínio, teremos direito a alguns apartamentos. – Artie me puxou para um
canto
— Quatro para ser exato. Como parte do
nosso pagamento.
— Um para cada sócio.
— E...?
— Assim... não teríamos conseguido sem a
ajuda dela. Pensei em passar ou o meu ou o de Ash para o nome de Emily, o que
acha?
— O apartamento é de vocês. Terão direito a
fazer o que quiserem. Só não sei se ela aceitará.
— Penny a convence.
— Eu o quê?
— Convence Emm a aceitar um apartamento no
condomínio. – Eu explico
— Você comprará um apartamento no
condomínio de vocês para ela?!?
— Não. Artie está pensando em passar um dos
deles para ela.
— Ah! Tarefa difícil. Posso tentar.
— Tem mais uma coisa. – Adam surge.
— O quê? – Ela pergunta
— Nós temos participação nas vendas. E o
nome dela está entre os beneficiários. – Ele completa.
— Isso vai ser mais difícil que pensei.
— Tive uma ideia. Vamos fazer um facetime
com ela. Agora. – Sugeri Ashley já pegando o telefone e discando para ela.
— Desiste. Nunca consigo um facetime com
ela.
— Mas vai aceitar o meu, quer ver? – Espera
enquanto chama.
— Vai ver que está trabalhando. – Suponho
— Não. Ela deve estar na hora do almoço. –
Indico.
— Vou tentar ligação normal. – Penny disca.
– Mana, me liga. Preciso falar contigo. — Caiu na secretária eletrônica.
***
PENNY DAVIS
Com muito sacrifício, consigo que Emm
atenda minha ligação, no final da manhã seguinte.
— Tá complicado falar com você, Emm! –
Reclamo assim que ela atende
— Mana! Desculpas! Isso aqui está uma
loucura. Ainda estou aprendendo o serviço. Eu vi as chamadas de vocês ontem.
Aconteceu alguma coisa?
— Muitas coisas. Ash e os rapazes me
incumbiram de convencê-la...
— Não volto. – Fui cortada
— Não é isso.
— Desculpe.
— Então... Sabe o condomínio?
— O da beira mar? Ou o da East Quogue?
— Esse último, eu acho. Conseguiram o
contrato.
— Que bom! Vou ligar para eles para
parabenizá-los.
— Então... de novo... No contrato, tem uma
cláusula, estou muito orgulhosa de mim por isso! Voltando... essa cláusula
estipula que cada sócio terá direito a um apartamento em um dos prédios.
— Lembro dessa cláusula e da discussão em
torno dela. O que é que tem isso?
— Bom, Artie pediu para lhe informar que
ele abriu mão do dele em seu nome.
— Diga a ele muito obrigada, mas não.
— Pediu para informá-la que isso não está
aberto a discussões e muito menos sua participação nas vendas.
— Penny, não faço mais parte da equipe, não
é justo.
— Ligue para ele e converse com ele. Só fui
encarregada de lhe comunicar em relação ao apartamento. Já na participação, seu
nome já estava no contrato e se recusaram a mudar esse dado.
— Vou ligar para Artie.
— Ei, me conta, como está tudo por aí?
— Como disse, o serviço é muito diferente
do que estava acostumada. Mas estou me adaptando. A vida aqui é tranquila.
Estou procurando um lugar para morar.
— E está onde?
— Em um hotel. Mas já tenho em vista dois
apartamentos para alugar.
— Depois me passe o endereço. Assim que
tiver uma folga quero lhe visitar.
— Agora preciso ir. Beijos. Diga a Artie
que ligo para ele ainda hoje.
— Certo. Saudades, mana!
— Também. – E ela desliga o telefone.
***
DREW GRANT
Pelo visto Emily quer mesmo ficar longe de
tudo e de todos. Cruzou o país. Preciso tocar minha vida para frente. Não posso
ficar imaginando o que teria sido se não tivesse acabado naquele dia o que
estávamos iniciando.
— DREW! – desperto com uma batida na mesa
dada por Adam – Acorda cara. Precisamos determinar os membros das equipes para
o condomínio. Quais são seus eletricistas sem trabalho?
— Desculpa. Estava longe.
— E pela cara, na costa oeste do país.
— Não! Vamos lá. Os encanadores livres...
— Eletricistas...
— Certo. Eletricistas. Tenho três
disponíveis para começar a partir de abril.
— Não acredito que comecemos com a parte
elétrica antes de junho.
— Aí vai ficar difícil montar a equipe de
eletricista com tanta antecedência.
— Coloca esses três na lista para pequenas
obras, para não ficarem sem serviço e na época encaixamos eles. – Sugere
Gabriel.
— Boa, Gab. – Concordo – E os seus Adam?
— Estou com os eletricistas ocupados até
maio, com algumas reformas. Meu maior problema está nos engenheiros. Se vamos
começar a obra mesmo agora em março, estou sem ninguém disponível.
— Mas já não tínhamos acertado que nessa
primeira fase seriam meus engenheiros, por que já concluímos a maioria das
obras? Tenho dois disponíveis já agora em fevereiro para projetar as fundações.
— É mesmo! Minha equipe entra na segunda
fase, não é isso?
— Isso. – E essa reunião dura horas.
Quando saímos passam das oito da noite de
uma sexta-feira. Decido para casa. Já que o programa dos caras é em casal. E
estou solteiro, nem um pouco a fim de chamar uma pessoa qualquer para curtir a
noite. Prefiro ir para casa, pedir umas pizzas, comprar algumas cervejas e
maratonar algo na TV. “Quando me tornei tão caseiro?!” E é isso
que faço.
Acordo no meio da madrugada. Aquele sonho
novamente. Dessa vez, sonho com Emily, em seu próprio corpo, mas a situação é a
de Angie. Por que meu subconsciente faz isso? São histórias completamente diferentes.
***
São nove horas da manhã. Acordo com o
telefone tocando.
— A farra ontem foi boa, hein? – Adam me
desperta de vez
— Bom dia para você, também, A! – Respondi com
mal humor, esse é um apelido que nos demos ainda na faculdade.
— E aí? Vamos juntos hoje?
— Para onde? Vou para lugar nenhum!
— Ah, não! Você vai sim. Para nossa reunião
anual da fraternidade. Você não é louco de faltar.
— Não estou nem um pouco no humor para
celebrações de fraternidade. Dispenso.
— Estamos passando por aí em meia hora.
— Não vai ter jeito, né? – Ouço-o negando.
– Tudo bem. Pode deixar eu vou sozinho.
— Te conheço, meu caro A! Vamos lhe buscar.
Podemos ir até em dois carros, mas passo aí para lhe tirar de casa.
— Ok. – Desligo o telefone, escolho a
playlist do Imagine Dragon, ligo o som no volume mais alto, para terminar de
acordar enquanto me arrumo. Vou para o quarto escolho uma calça cargo caqui,
uma camisa polo marrom, justa em meu corpo, e uma jaqueta preta, coloco um
tênis. Vou para a cozinha, preparo um café bem forte para terminar de
despertar, como pão com geléia para forrar o estômago, afinal deverei começar a
beber cedo.
Desço para esperar Adam e Penny. Que não
demoram muito. A reunião seria na casa do presidente de nossa época. Na
verdade, essa reunião é de um grupo exclusivo dos membros. Mais ou menos 20
caras e suas esposas, namoradas e afins. Sempre nos divertimos muito juntos.
Esse era o grupo de bagunceiros, porém éramos muito dedicados. Todos nos
formamos com honra.
Entro no banco de traz do Lamborghini Urus,
branco de Adam e coloco a playlist que estava ouvindo em casa para tocar
através do bluetooth, no volume mais alto para desespero de Penny.
— Porra, Drew! Diminue esse volume. Vai nos
deixar surdos.
— Me acordaram porque quiseram. Agora preciso
disso para despertar.
— Já ouviu falar em CAFÉ, inferno? Agora
baixa. – Ordena irritada.
— Vai, cara, abaixa um pouco. Se não meu
sábado estará estragado. – Adam suplica.
— Ih!! O que você fez com meu amigo? –
Pergunto a Penny enquanto abaixo o volume.
— Ele agora é um homem comprometido. – Bufo
em rejeição ao que ela diz.
— Não faria isso, se estivesse com... – Ela
se cala.
— Isso é outra história. Mas seria o mesmo
de sempre. – Completo. No rádio toca Demons. Começo a lembrar dela e daquele
fim de semana em Mystic City.
“Entramos em casa, vou direto para a
cozinha. Estamos famintos. Ela procura algo para servir. Olho pela porta que dá
acesso ao quintal, e pergunto se aquele era o lago onde fazia piquenique com os
pais, ela diz que sim. Fico admirando a paisagem enquanto ela prepara algo.
Então sugiro que façamos um piquenique. A princípio ela acha que não temos com
o que fazer, mas a convenço que com qualquer comida podemos fazer um.
Preparamos tudo e nos sentamos numa toalha quadriculada, tirada de dentro de
uma cesta de vime. Pego meu celular, coloco uma playlist de músicas variadas
para tocar e começamos a curtir nosso piquenique.
A conversa entre a gente flui.
Falamos sobre nossas infâncias. Escolho cuidadosamente as histórias que
envolvem a mim e Artie. Apesar de ter ocorrido a muito tempo, ainda era
doloroso falar de Angie. A tarde vai caindo, quando tocam Demons, do Imagine
Dragons e ela fica pensativa.
— O houve? – Pergunto
— Essa letra. Diz muito sobre
mim.
— Como assim?
— Sou cheia de demônios
internos. – uma tristeza encontra sua voz.
— Você conseguirá
exorcizá-los. Se dê tempo. – E dou-lhe um beijo.”
— Acorda! – Adam me chama –
Lembra onde fica a casa de Will?
— Pega a direita. – Respondo.
E ele segue o caminho.
Uma hora e meia depois chegamos
na casa dele, em Mantoloking, Nova Jersey. Uma casa belíssima! Num estilo
típico das casas da região, possuía um deck exclusivo para atracar um barco e
de frente para o mar. Literalmente, saímos da casa direto dentro do Oceano
Atlântico. Era uma casa muito grande para ele, esposa e dois filhos. Ambos
frequentaram a Columbia. Ela é jornalista e ele, advogado, abriu seu próprio
escritório em Jersey City.
Quando chegamos a casa já tem
bastante gente. Muito mais que as 40, 50 pessoas que imaginei. Encontramos Will
na sala, conversando com alguns irmãos da fraternidade. Será uma manhã muito
divertida. Sei que não estava a fim de vir, preferia curtir a fossa em casa.
Mas dou graças a Deus por meu amigo não deixar.
Vou até o bar, instalado à esquerda da entrada, da casa. Peço uma
cerveja. Encosto nele e fico a vista, que é de tirar o folego. Começo a
imaginar como é viver ali. Penso no condomínio. Alguns apartamentos terão o
mesmo tipo de vista. Sinto alguém se aproximar. Ela pede um drink. E percebo
que ela está me olhando.
— Drew? Drew Grant? – Ela me
reconhece.
— Meu nome. – Respondo
— Não lembra de mim? – Ela me
pergunta
— Me desculpe, mas não mesmo.
– Se fosse na época de faculdade, claro que diria que sim e iria tirando
informações até lembrar ou ela dizer quem era. Mas não sou mais esse cara.
— E dizem que as pessoas não
mudam. – Ela meneia a cabeça, fazendo um biquinho. – Não sei se me sinto
ofendida, por você não lembrar de mim, ou lisonjeada, por não mentir.
— Para meu bem, eu você
escolheria a segunda opção. – E um sorriso vem aos meus lábios sem que consiga
esconder.
— Pode até ter mudado, mas o
sorriso de canto, continua o mesmo. – Ela conversa comigo realmente como se me
conhecesse. – Não acredito que tenha se esquecido de mim.
— Estou começando a me sentir
um cafajeste. – Tomo um gole de cerveja
— Nunca. Você nunca foi um e
sei que não se transformaria depois de adulto.
— Me ajuda. Dá uma dica. –
Estava começando a achar aquela situação divertida.
— Fizemos algumas disciplinas
juntos.
— Assim como com boa parte das
pessoas aqui.
— Terceiro ano, fizemos um
projeto com nota A+, sobre Construções Antigas.
— Becca Bianchi! – Lembrei
dela. Nossa! Como está bonita! – Desculpa, Becca!
— Não se preocupa. Faz muito
tempo que não nos vemos. Mas acho que esse foi o único projeto de tirou A+.
— Não. Tirei muitos. Esse foi
o único projeto que fiz com uma mulher. Sempre trabalhei com Adam.
— E como está o Adam?
— Está aqui com a namorada.
— Adam sossegou?
— Estão juntos a três anos. –
Ela meneia a cabeça ponderando a informação
— E você?
— Livre como sempre. – Lanço
um sorriso meio forçado para disfarçar uma tristeza. – Você se casou? –
Enquanto bebe um gole de seu drink, ela balança a cabeça negando. – Hum! Então
somos dois solteiros numa reunião cheia de casais?
E passamos muito tempo só nós
dois conversando. Penny se enturmou com um grupo de advogados e advogadas
colegas de Will. Passaram a comentar um caso de repercussão nacional envolvendo
um magnata. Adam a conversar com outros membros da fraternidade, de vez em
quando olhava para mim com uma cara de quem diz “Isso mesmo, meu amigo! Bola
para frente!”
No meio da tarde, a reunião
está como se tivesse acabado de começar. Eu e Becca continuamos a conversar.
Ela já estava em seu sétimo drink, já começava a dar sinal de que o álcool
estava fazendo efeito em sua cabeça. Aconselho-a a passar para uma bebida não
alcóolica, já que ela iria dirigir.
— Estou bem, Drew. Sou
resistente ao álcool.
— Por sua segurança, é melhor
você parar um pouco, não acha? – Mas ela não para de beber.
O sol começa a se pôr no
horizonte. Uma visão estupenda! O dia não tinha sido um lindo dia de sol, mas
não tinha nem chovido, nem nevado. Tivemos períodos alternados de sol com
algumas nuvens e o céu completamente nublado. Mas no entardecer, tudo se abriu
para dar visão ao espetáculo do astro rei.
Decido que ficarei e levarei
Becca para casa, pois seria muito perigoso ela dirigir e sair sozinha no estado
em que se encontrava. Aviso a Adam, que se apronta para voltar a Nova York com
Penny.
— Cara, vou ficar e levar
Becca para casa.
— Sei! Safado! A pessoa não
está em seu juízo perfeito!
— Adam! – Esbravejo quase
gritando! — Quem você pensa que eu sou?! – Estou muito irritado.
— Calma, cara! To de zoeira.
— Isso não é brincadeira. –
Adverto-o
— Vamos? – Chega Penny.
— Drew vai ficar para levar
Becca para casa. – Nossa se olhar matasse, eu estava morto.
— Por favor, Penny! Sabe que
não sou esse tipo de cara!
— Qual? O que se diz
apaixonado por uma e vai levar outra para casa?!
— Não. Me recuso a retomar
essa discussão com você.
— Por quê?
— Penny, chega! Ela está
tocando a vida dela, por que eu não posso fazer o mesmo?
— Sabe de uma? Dane-se. Você
não é tão diferente dos outros.
— Penny, para com isso! Drew
tem todo direito. Não deu certo com Emm. Aceita.
— Vamos embora. – E toma a
frente emburrada.
— Relaxa, mano! Ela vai
superar. Você com certeza é diferente dos outros.
Realmente, não esquento mais
com o que Penny diz com relação a mim, sei que torcia para que eu e Emm
déssemos certo, mas não deu. Não vou parar mais minha vida por causa disso.
— Vida que segue. – Digo em
voz alta. E vou até onde Becca está e proponho levá-la para casa.
Pego
as chaves do carro de Becca, assumo o volante. Pergunto-lhe seu endereço, “Que
bom! Ela mora não muito longe de meu apartamento. Poderei deixá-la e voltar
andando.” Penso comigo mesmo. Ligo o
motor do carro e o faço andar.
***
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