CAPÍTULO XVI
Drew Grant
“Estava em casa, na segunda,
passavam das sete horas da noite quando o interfone toca. O porteiro avisando
que Becca havia subido acompanhada de um senhor de terno. Agradeço e vou abrir
a porta para que eles entrassem. Ao chegarem nos dirigimos ao escritório. Sento
atrás de minha mesa, eles ocupam as poltronas a minha frente.
— Querido esse é o Dr.
Hoffmann, um dos meus advogados.
— Prazer, Dr. Hoffmann.
Acredito que Becca tenha lhe colocado a par da situação.
— Sim. Uma ex-namorada
apareceu agora afirmando que o Sr. é pai dos filhos dela.
— Eu sou o pai deles. Não
tenho dúvidas disso.
— Certo. O Sr. está querendo a
guarda deles.
— Errado novamente. Quero
apenas o reconhecimento da paternidade para que possamos alterar as certidões
de nascimento dele.
— Não foi isso que foi
informado.
— Querido, isso não é justo.
Ela escondeu de você seus filhos e vai levá-los para longe novamente. Deveria
querer a guarda só para você, assim garante que eles serão bem cuidados. Afinal
ela não bate bem da bola e é dedicada à sua carreira.
Sabe Hoffmann, acredito que
uma mulher de carreira não pode ser uma mãe exemplar. Ou se dedica aos filhos
ou se dedica à carreira.
— Minha mãe foi mãe de três e
uma profissional requisitadíssima. Só quero colocar meu nome na certidão de
meus filhos. E acabou. – Ela faz um sinal com a cabeça.
— Aqui tem um arquivo com a
procuração, coloque seus dados, imprima e assinamos. E amanhã mesmo darei
entrada ao pedido.”
Vou lembrando de cada detalhe
de minha conversa com o advogado que Becca me indicou no caminho da Fletcher Co
até a A4+, isso foi antes de irmos para a casa de Emily e Penny para o jantar.
Entro em minha sala com ele ao telefone.
— Fui bastante claro com o Sr.
Não quero a guarda deles.
— Será que eu entendi errado?
Pensei que ter me dito que queria o reconhecimento da paternidade e a guarda
unilateral.
— Não, dr. Hoffmann. Fui
enfático quando disse que só queria meu nome na certidão deles. Agora o sr. irá
corrigir essa cagada. Não quero prejudicar a mãe deles. Ela já sofreu demais.
Não sou um monstro para tirar a mãe dos filhos.
— Infelizmente, agora já não
posso fazer nada.
— Como assim? Claro que pode.
— Teremos que esperar a
audiência de instrução.
— O Sr. só pode estar
brincando.
— Não. Mas já foi marcada.
Será na próxima semana.
— Nos falamos mais tarde. –
Desligo o telefone.
“Muito estranha essa
informação dele. Posso não ser expert em leis, mas nunca ouvi falar de não se
retirar uma ação. Vou procurar outro advogado para uma consulta.”
— O que você estava pensando
quando autorizou essa merda? – Pergunta Artie entrando em minha sala.
— Mano, você precisa acreditar
em mim. Não pedi isso. O advogado foi quem entrou com o pedido errado.
— Por que não falou com Penny?
Ela teria resolvido isso tudo sem estresse nenhum.
— Foi uma sucessão de
atropelos. No domingo comentei com Becca sobre as crianças. Na segunda o
advogado estava em minha casa com a procuração e hoje ela recebeu a intimação.
Estou atordoado.
— E como pretende resolver
isso? Sabe que nossos pais estão vindo para a cidade semana que vem. Vão querer
conhecer os netos. E Penny disse que até essa merda estar resolvida, nenhum de
nós se aproxima deles.
— Ela não pode fazer isso.
Tenho meus direitos.
— Cara, você mexeu com a
pessoa errada. Não sei quem está mais irada contigo.
— Vou procurar outro advogado.
Preciso resolver isso.
— Acho bom.
Ligo para a firma de Penny e
peço para falar com um dos sócios. Quando sou atendido, eu explico a situação e
ele me explica que só posso desistir da ação com autorização da outra parte. Ou
seja, precisaria falar com Emily e Penny sobre o assunto. Com relação à conduta
do colega dele, ele acha estranho ele ter entrado com a ação sem ao menos ter
conversado mais uma vez com ele. E levo outra bronca por não ter acionado a
firma deles. “Será que ninguém entende que foi tudo muito rápido? E que eu
não tive culpa da ação?” Desligo o telefone com uma indicação de um outro
advogado e com as instruções que deveria seguir para consertar a cagada que eu
não fiz. Mas antes, preciso tirar uma dúvida de minha cabeça.
— Vamos almoçar hoje? – Ligo
para Becca
— Que surpresa agradável.
Claro, querido. Você me pega aqui?
— Passo aí dentro de uma hora.
– Desligo o telefone.
Passo no escritório dela e
vamos a um restaurante próximo.
— O que aconteceu? Esse
convite repentino no meio da semana é de estranhar.
— Vamos deixar para conversar
quando chegarmos. – Ela assente.
Quando chegamos peço uma mesa
mais reservada. Fazemos nosso pedido e enquanto almoçamos vamos conversando.
— Então? Qual o motivo de
tanto mistério? – ela me pergunta
— Tem certeza de que você não
está sabendo?
— Eu não. O que houve?
— Recebi uma visita da
advogada de Emily hoje.
— Quer dizer de Penny?
— Isso. Chegou como um furacão,
me questionando sobre a ação que estou movendo contra Emily pela guarda
unilateral.
— De onde ela tirou isso? Você
pediu o reconhecimento de paternidade.
— Corta essa, Becca. Você sabe
muito bem o que o seu advogado andou fazendo. Quero saber até onde tem seu
dedo.
— Por que teria meu dedo
nisso?!
— Porque toda essa história de
ação foi ideia sua. Levou seu advogado sem eu pedir, já com uma procuração
pronta, que, por ingenuidade, não li. Fora detalhes na ação que não conversei
com ele.
— Tá bom! Conversei com ele
sobre sua ação. Sugeri sim que ele entrasse com a guarda unilateral deles, para
lhe assegurar a convivência com eles.
— Mas eu não lhe disse que
queria nem lhe autorizei a falar por mim.
— Só estava pensando em você.
— Vamos deixar algo muito
claro, ok? Eu não preciso que falem em meu nome com ninguém. O que vocês
fizeram me prejudicou e prejudicou também ao Artie, Ash, meus sobrinhos, e
principalmente meus pais. Penny entrou com um pedido de medida de afastamento.
Enquanto não houver a audiência não poderemos chegar perto dos meus filhos.
— Ela não pode fazer isso.
— Não importa se pode ou não, ela fará.
— E o que você irá fazer?
Conversou com Dr. Hoffmann?
— Com ele e outro advogado.
Tentaremos algo para reverter a situação. Mas eu te peço, não se meta mais.
Você falou coisas que lhe confidenciei e que não deveriam ter vazado.
— Disse o que acho que irá lhe
ajudar na guarda de seus filhos. Como é que uma pessoa que simplesmente, do
nada, sai do ar pode cuidar de duas crianças? E se ela tiver um desses e
esquecê-las em algum lugar?
— Eu já lhe disse que não
quero a guarda. Emm é perfeitamente capaz de cuidar deles. Tem feito isso a
dois anos. – Digo isso alterando o tom de minha voz. Estava ficando furioso com
essa insistência dela.
— Querido, é
irresponsabilidade sua deixar os meninos com uma doida.
— POR... – percebo que estou
começando a gritar, respiro e falo - Porra, Rebbeca, já disse que não quero a
guarda, e nunca mais chame-a de doida. Você não sabe pelo que ela passou e o
que causou os lapsos dela. Você não tem o direito de se meter com a minha
família.
— Ela agora é sua família. –
Ela está indignada. – E eu sou o quê?!
— Ela já era minha família
antes de ser mãe de meus filhos. Já éramos amigos antes de qualquer outra
coisa. E você só é minha namorada.
— Eu só sou sua
namorada? – Ela enfatiza bem esse “só”
— Você deixou muito bem claro
quando começamos que nossa relação não passaria de um namoro. Se arrependeu
agora disso?
— No começo era, realmente,
como pensava. Mas...
— Mas o quê, Rebbeca? – Estou
muito irritado agora.
— Uma pessoa não pode mudar de
ideia?
— Pode. Então você está
disposta a criar meus filhos no lugar da mãe deles, é isso? – Digo com uma
certa ironia, nunca a vi tratar meus sobrinhos com carinho, imagine filhos de
outra mulher.
— Eu?!?! – Fala meio desconcertada
— É! Já que a ideia da guarda
unilateral foi sua, já que mudou de ideia, pensei por que não? Ficamos juntos e
você vende sua empresa e fica em casa criando os meninos.
— Claro que não. Temos
condições suficientes para contratar um exército de babás para eles.
— Hã?! Você quer tirar os
meninos de uma mãe presente para deixá-los nas de um bando de desconhecidas.
— Ora, Drew! Não seja
inocente! Sua querida Emily é uma grande mentirosa. Ninguém é capaz de cuidar
de uma empresa e de dois filhos ao mesmo tempo. Por isso que nas grandes
empresas os CEOs são homens ou mulheres sem família, como no meu caso.
— Que pensamento mais sexista,
tanto eu quanto ela fomos criados por empresárias de sucesso em suas áreas. Ela
foi criada por três exemplos.
— Sua mãe é uma exceção à
regra. Ela era dona da empresa. E quando ela não podia, seu pai a cobria, tenho
certeza disso.
— Para mim chega dessa
conversa. Vou ser direto e claro dessa vez. Fique fora dessa história. Ela não
lhe pertence. Se houver mais uma intervenção sua, acabou entre nós dois.
— Você vai terminar comigo por
causa daquela coisinha?!?!
— Não. Vou terminar por sua
causa. Fique avisada. – Chamo o garçom e peço a conta antes mesmo de
terminarmos. Quando ele chega, pago e a deixo no restaurante.
Não consigo mais ficar nem um
minuto ao lado dela hoje. Talvez nunca mais. Como uma mulher tão inteligente
como ela pode ser tão sexista! “Uma mulher não pode ser CEO e cuidar dos
filhos! Em que século ela vive? Como pude me enganar tanto!”, entro no
carro e dirijo.
Saio sem rumo pelas ruas da
cidade. Passo horas dirigindo. O pôr do sol me guia. Quando percebo estou na
rua 3, em frente ao prédio de Emily. Estaciono o carro e fico observando as
crianças no playground do outro lado da rua. Aquele carrinho! São eles.
Eles estão correndo pelo parque. Saio do carro e vou em direção aos dois. Uma
jovem me vê aproximando e os chama. Deve ser a babá que Emm contratou. Já deve
ter recebido a ordem de não deixar que me aproxime dos meninos.
— Dandão! – Ouço a pequena Trixie
me chamar. – Dandão! Dandão! – Me aproximo.
— Por favor, deixe-me
abraçá-los um pouco.
— Tenho ordem de não o deixar
se aproximar das crianças, me desculpe. Vamos voltar, já está na hora crianças.
Se o senhor me dá licença. – Ela os coloca no carrinho e faz o caminho de volta
para casa.
Sento-me em um dos bancos e
fico observando meus filhos, que até domingo não sabia que existiam, mas por
quem já estou infinitamente apaixonado e ligado. E eles também estão assim.
Eles vão se afastando e vou ouvindo o chorinho dos dois, clamando por mim.
“Deus o que foi que eu fiz!” –
Arrependo-me de ter aceitado a ajuda de Rebbeca.
Nenhum comentário:
Postar um comentário