sábado, 11 de julho de 2020

Livro 2 - Frutos da Paixão - Capítulo XVI

CAPÍTULO XVI

Drew Grant

“Estava em casa, na segunda, passavam das sete horas da noite quando o interfone toca. O porteiro avisando que Becca havia subido acompanhada de um senhor de terno. Agradeço e vou abrir a porta para que eles entrassem. Ao chegarem nos dirigimos ao escritório. Sento atrás de minha mesa, eles ocupam as poltronas a minha frente.
— Querido esse é o Dr. Hoffmann, um dos meus advogados.
— Prazer, Dr. Hoffmann. Acredito que Becca tenha lhe colocado a par da situação.
— Sim. Uma ex-namorada apareceu agora afirmando que o Sr. é pai dos filhos dela.
— Eu sou o pai deles. Não tenho dúvidas disso.
— Certo. O Sr. está querendo a guarda deles.
— Errado novamente. Quero apenas o reconhecimento da paternidade para que possamos alterar as certidões de nascimento dele.
— Não foi isso que foi informado.
— Querido, isso não é justo. Ela escondeu de você seus filhos e vai levá-los para longe novamente. Deveria querer a guarda só para você, assim garante que eles serão bem cuidados. Afinal ela não bate bem da bola e é dedicada à sua carreira.
Sabe Hoffmann, acredito que uma mulher de carreira não pode ser uma mãe exemplar. Ou se dedica aos filhos ou se dedica à carreira.
— Minha mãe foi mãe de três e uma profissional requisitadíssima. Só quero colocar meu nome na certidão de meus filhos. E acabou. – Ela faz um sinal com a cabeça.
— Aqui tem um arquivo com a procuração, coloque seus dados, imprima e assinamos. E amanhã mesmo darei entrada ao pedido.”
Vou lembrando de cada detalhe de minha conversa com o advogado que Becca me indicou no caminho da Fletcher Co até a A4+, isso foi antes de irmos para a casa de Emily e Penny para o jantar. Entro em minha sala com ele ao telefone.
— Fui bastante claro com o Sr. Não quero a guarda deles.
— Será que eu entendi errado? Pensei que ter me dito que queria o reconhecimento da paternidade e a guarda unilateral.
— Não, dr. Hoffmann. Fui enfático quando disse que só queria meu nome na certidão deles. Agora o sr. irá corrigir essa cagada. Não quero prejudicar a mãe deles. Ela já sofreu demais. Não sou um monstro para tirar a mãe dos filhos.
— Infelizmente, agora já não posso fazer nada.
— Como assim? Claro que pode.
— Teremos que esperar a audiência de instrução.
— O Sr. só pode estar brincando.
— Não. Mas já foi marcada. Será na próxima semana.
— Nos falamos mais tarde. – Desligo o telefone.
“Muito estranha essa informação dele. Posso não ser expert em leis, mas nunca ouvi falar de não se retirar uma ação. Vou procurar outro advogado para uma consulta.”
— O que você estava pensando quando autorizou essa merda? – Pergunta Artie entrando em minha sala.
— Mano, você precisa acreditar em mim. Não pedi isso. O advogado foi quem entrou com o pedido errado.
— Por que não falou com Penny? Ela teria resolvido isso tudo sem estresse nenhum.
— Foi uma sucessão de atropelos. No domingo comentei com Becca sobre as crianças. Na segunda o advogado estava em minha casa com a procuração e hoje ela recebeu a intimação. Estou atordoado.
— E como pretende resolver isso? Sabe que nossos pais estão vindo para a cidade semana que vem. Vão querer conhecer os netos. E Penny disse que até essa merda estar resolvida, nenhum de nós se aproxima deles.
— Ela não pode fazer isso. Tenho meus direitos.
— Cara, você mexeu com a pessoa errada. Não sei quem está mais irada contigo.
— Vou procurar outro advogado. Preciso resolver isso.
— Acho bom.
Ligo para a firma de Penny e peço para falar com um dos sócios. Quando sou atendido, eu explico a situação e ele me explica que só posso desistir da ação com autorização da outra parte. Ou seja, precisaria falar com Emily e Penny sobre o assunto. Com relação à conduta do colega dele, ele acha estranho ele ter entrado com a ação sem ao menos ter conversado mais uma vez com ele. E levo outra bronca por não ter acionado a firma deles. “Será que ninguém entende que foi tudo muito rápido? E que eu não tive culpa da ação?” Desligo o telefone com uma indicação de um outro advogado e com as instruções que deveria seguir para consertar a cagada que eu não fiz. Mas antes, preciso tirar uma dúvida de minha cabeça.
— Vamos almoçar hoje? – Ligo para Becca
— Que surpresa agradável. Claro, querido. Você me pega aqui?
— Passo aí dentro de uma hora. – Desligo o telefone.
Passo no escritório dela e vamos a um restaurante próximo.
— O que aconteceu? Esse convite repentino no meio da semana é de estranhar.
— Vamos deixar para conversar quando chegarmos. – Ela assente.
Quando chegamos peço uma mesa mais reservada. Fazemos nosso pedido e enquanto almoçamos vamos conversando.
— Então? Qual o motivo de tanto mistério? – ela me pergunta
— Tem certeza de que você não está sabendo?
— Eu não. O que houve?
— Recebi uma visita da advogada de Emily hoje.
— Quer dizer de Penny?
— Isso. Chegou como um furacão, me questionando sobre a ação que estou movendo contra Emily pela guarda unilateral.
— De onde ela tirou isso? Você pediu o reconhecimento de paternidade.
— Corta essa, Becca. Você sabe muito bem o que o seu advogado andou fazendo. Quero saber até onde tem seu dedo.
— Por que teria meu dedo nisso?!
— Porque toda essa história de ação foi ideia sua. Levou seu advogado sem eu pedir, já com uma procuração pronta, que, por ingenuidade, não li. Fora detalhes na ação que não conversei com ele.
— Tá bom! Conversei com ele sobre sua ação. Sugeri sim que ele entrasse com a guarda unilateral deles, para lhe assegurar a convivência com eles.
— Mas eu não lhe disse que queria nem lhe autorizei a falar por mim.
— Só estava pensando em você.
— Vamos deixar algo muito claro, ok? Eu não preciso que falem em meu nome com ninguém. O que vocês fizeram me prejudicou e prejudicou também ao Artie, Ash, meus sobrinhos, e principalmente meus pais. Penny entrou com um pedido de medida de afastamento. Enquanto não houver a audiência não poderemos chegar perto dos meus filhos.
— Ela não pode fazer isso.
 — Não importa se pode ou não, ela fará.
— E o que você irá fazer? Conversou com Dr. Hoffmann?
— Com ele e outro advogado. Tentaremos algo para reverter a situação. Mas eu te peço, não se meta mais. Você falou coisas que lhe confidenciei e que não deveriam ter vazado.
— Disse o que acho que irá lhe ajudar na guarda de seus filhos. Como é que uma pessoa que simplesmente, do nada, sai do ar pode cuidar de duas crianças? E se ela tiver um desses e esquecê-las em algum lugar?
— Eu já lhe disse que não quero a guarda. Emm é perfeitamente capaz de cuidar deles. Tem feito isso a dois anos. – Digo isso alterando o tom de minha voz. Estava ficando furioso com essa insistência dela.
— Querido, é irresponsabilidade sua deixar os meninos com uma doida.
— POR... – percebo que estou começando a gritar, respiro e falo - Porra, Rebbeca, já disse que não quero a guarda, e nunca mais chame-a de doida. Você não sabe pelo que ela passou e o que causou os lapsos dela. Você não tem o direito de se meter com a minha família.
— Ela agora é sua família. – Ela está indignada. – E eu sou o quê?!
— Ela já era minha família antes de ser mãe de meus filhos. Já éramos amigos antes de qualquer outra coisa. E você só é minha namorada.
— Eu sou sua namorada? – Ela enfatiza bem esse “só”
— Você deixou muito bem claro quando começamos que nossa relação não passaria de um namoro. Se arrependeu agora disso?
— No começo era, realmente, como pensava. Mas...
— Mas o quê, Rebbeca? – Estou muito irritado agora.
— Uma pessoa não pode mudar de ideia?
— Pode. Então você está disposta a criar meus filhos no lugar da mãe deles, é isso? – Digo com uma certa ironia, nunca a vi tratar meus sobrinhos com carinho, imagine filhos de outra mulher.
— Eu?!?! – Fala meio desconcertada
— É! Já que a ideia da guarda unilateral foi sua, já que mudou de ideia, pensei por que não? Ficamos juntos e você vende sua empresa e fica em casa criando os meninos.
— Claro que não. Temos condições suficientes para contratar um exército de babás para eles.
— Hã?! Você quer tirar os meninos de uma mãe presente para deixá-los nas de um bando de desconhecidas.
— Ora, Drew! Não seja inocente! Sua querida Emily é uma grande mentirosa. Ninguém é capaz de cuidar de uma empresa e de dois filhos ao mesmo tempo. Por isso que nas grandes empresas os CEOs são homens ou mulheres sem família, como no meu caso.
— Que pensamento mais sexista, tanto eu quanto ela fomos criados por empresárias de sucesso em suas áreas. Ela foi criada por três exemplos.
— Sua mãe é uma exceção à regra. Ela era dona da empresa. E quando ela não podia, seu pai a cobria, tenho certeza disso.
— Para mim chega dessa conversa. Vou ser direto e claro dessa vez. Fique fora dessa história. Ela não lhe pertence. Se houver mais uma intervenção sua, acabou entre nós dois.
— Você vai terminar comigo por causa daquela coisinha?!?!
— Não. Vou terminar por sua causa. Fique avisada. – Chamo o garçom e peço a conta antes mesmo de terminarmos. Quando ele chega, pago e a deixo no restaurante.
Não consigo mais ficar nem um minuto ao lado dela hoje. Talvez nunca mais. Como uma mulher tão inteligente como ela pode ser tão sexista! “Uma mulher não pode ser CEO e cuidar dos filhos! Em que século ela vive? Como pude me enganar tanto!”, entro no carro e dirijo.
Saio sem rumo pelas ruas da cidade. Passo horas dirigindo. O pôr do sol me guia. Quando percebo estou na rua 3, em frente ao prédio de Emily. Estaciono o carro e fico observando as crianças no playground do outro lado da rua. Aquele carrinho! São eles. Eles estão correndo pelo parque. Saio do carro e vou em direção aos dois. Uma jovem me vê aproximando e os chama. Deve ser a babá que Emm contratou. Já deve ter recebido a ordem de não deixar que me aproxime dos meninos.
— Dandão! – Ouço a pequena Trixie me chamar. – Dandão! Dandão! – Me aproximo.
— Por favor, deixe-me abraçá-los um pouco.
— Tenho ordem de não o deixar se aproximar das crianças, me desculpe. Vamos voltar, já está na hora crianças. Se o senhor me dá licença. – Ela os coloca no carrinho e faz o caminho de volta para casa.
Sento-me em um dos bancos e fico observando meus filhos, que até domingo não sabia que existiam, mas por quem já estou infinitamente apaixonado e ligado. E eles também estão assim. Eles vão se afastando e vou ouvindo o chorinho dos dois, clamando por mim.
“Deus o que foi que eu fiz!” ­ – Arrependo-me de ter aceitado a ajuda de Rebbeca.

***

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