domingo, 7 de junho de 2020

Livro 1: Calma Paixão - Capitulo XIV


No domingo pela manhã, minha vó recebe alta. Dentre as recomendações que o médico fez está a de repouso de, pelo menos, duas semanas. Ou seja, precisaria ficar mais duas semanas fora de Nova York. Gab tem feito o que pode para me cobrir, mas não tem mais condições de ficar. Drew também não podia ficar mais tempo, havia problemas nas obras que só ele poderia resolver. Estava sem saída. Ou eu ficava sozinha e prejudicava a empresa, ou levava minha vó para lá.

Para comemorar a alta dela e nos despedir do pessoal, decidi fazer um almoço para todos. Enquanto conversavam na sala, eu, Penny e Ashley estávamos na cozinha preparando os pratos e aperitivos.

— Mas Emm, você não deveria se preocupar, minha mãe não já disse que cuida dela?
— Mana, você conhece minha vó. Tia Sam não poderá ficar o tempo todo com ela, e vai acabar inventando o que fazer.
— Mas em Nova York ela não vai ficar sozinha também? Você irá trabalhar e ela ficará sozinha por um período mais longo. – Ash pondera
— Mas não estará no ambiente dela, então não terá alternativa.
— O que o médico disse sobre a viagem.
— Ele não ver problema, mas não recomenda, pelo menos nos próximos dias. Realmente não sei o que fazer. Gab me disse que o casal Giovanni, do projeto do Village quer porque quer falar comigo pessoalmente. Nem por vídeo chamada aceitam, parece que estão tendo problemas com a equipe de engenharia.
— Esse projeto é de Drew? – Ash questiona
— Não, de Adam.
— E por que não falam com ele? – Ashley não compreende o problema
— Quem sabe!
— Aí fica difícil. – Penny comenta ao sair da cozinha levando uma bandeja de aperitivos.
— Ei, Penn. O almoço está quase pronto. Avisa lá. Pode ir com ela, Ash. Quando estiver pronto, aviso para me ajudarem.
— Ok. – E se retira da cozinha.

Enquanto dou os últimos toques nos pratos e separo a louça onde serão servidos, começo a ponderar sobre minhas opções para essas duas próximas semanas. “Não posso pedir que tia Sam e tio James assumam essa responsabilidade, ela é minha. Não posso ficar aqui mais duas semanas. Por melhor que o pessoal seja, sou funcionária deles, preciso mostrar serviço. Além do fato de que, mesmo depois daquele discurso e da medida provisória, tenho visto Taylor na vizinhança e na frente do hospital. Ele não desistiu. Tenho certeza de que o que o mantem longe de mim é a presença de Drew e dos meninos.”

— Anjo, tudo bem? – sinto seu toque em meu braço
— Oi! Está. Por quê?
— Esqueceu de apagar o fogo, quase queimou. – E me mostrou uma panela.
— Jesus! Estava pensando na situação de minha vó.
— Decidiu alguma coisa?
— Ainda não. Só sei que não posso ficar e não posso ir.
— Vamos dar um jeito nisso, ok? – E me beija a testa
— Espero! Vou terminar isso.
— Te ajudo.

Terminamos de arrumar os pratos e levamos para a mesa. O almoço transcorreu com muita brincadeira e risos. Não tocamos no assunto. No final da tarde, nos despedimos deles, o voo sairia no início da noite e teriam que ir para Boston. Drew ficou de retornar na segunda à noite.

Depois que todos se vão, sento com ela no quarto para conversarmos sobre as opções.

— Vó, mais duas semanas para mim é muito tempo, tanto para ficar aqui sem trabalhar, mesmo sendo grande amiga dos proprietários e namorada de um deles, antes de tudo são meus patrões. Mas também não posso ir e deixá-la aqui sozinha, pois sei que não fará o repouso devido e ficarei preocupada. – Levanto-me e me aproximo da janela. O quarto dela fica na frente da casa, pela janela posso ver o movimento da rua. E tive a infelicidade de ver quem me observava de longe. – E ainda tem Taylor, que continua a me perseguir. Mas o que Drew está fazendo? – Abro a janela e o chamo. – Anjo, Nana quer falar com você.
— Taylor ainda está lhe rondando?
— Ele não vai parar. Virei uma obsessão na vida dele. Agora então que sabe que não terá volta.
— Diga Nana.
— O que você estava fazendo? – Pergunto
— Ia tirar satisfações com aquele cara lá fora.
— E dar a ele o que ele quer. Nossa paz.
— Como vou para casa e deixá-la a mercê desse maníaco?
— Não é indo confrontá-lo que iremos resolver o problema.
— E não foi o que você fez?
— Não. Eu desabafei tudo o que consegui desabafar depois de tanto tempo. Jamais iria até ele com o intuito de atacá-lo como você.
— Ele rodeando você, corre o risco de...
— Oh, meu anjo! Eu me apaixono cada vez mais por você quando faz essas coisas, mas minha profissão é analisar os riscos, lembra?
— Em negócios.
— E o que é vida se não um grande negócio?
— Eu vou para Nova York com você. – Disse Nana.
— O quê?!
— Eu disse que vou com você. Assim fica longe deste monstro.
— Ótimo! Vou procurar algum corretor para alugar um apartamento de dois quartos mobiliado para a gente.
— Ficam lá em casa. – Sugere Drew.
— Como é?! “Ficam lá em casa”! Tá dando ordem?
— Sabe que não foi assim que falei.
— Não?!  “Quando chegar me ligue”, “Ficam lá em casa”. Isso para mim é uma ordem.
— Já expliquei a primeira frase, não vou me repetir. E agora apenas sugeri que ficassem em meu apartamento, ele é grande o suficiente e Nana não ficaria só.
— O Cavaleiro montado em seu cavalo branco chega para salvar a mocinha em perigo. Pois fique sabendo que não estou em perigo e que sei me cuidar.
— Minha filha o que foi que lhe deu? Ele não fez nada.

— Ainda, Nana. Ele não fez nada ainda. Conheço bem o tipo. Fala mansa no começo depois põe as manguinhas de fora. Nós vamos alugar um apartamento no Brooklyn e pronto.
— Emily Campbell, olhe como fala! – Minha vó chama minha atenção. Como uma adolescente, saio batendo o pé.
— Deixe-a! Depois se arrepende e pede desculpa.

Vou para o quintal. Não entendi o que foi aquilo. O que me deu para falar daquele jeito. Por que certas frases têm esse efeito sobre mim? Por que esses gatilhos? Só posso ter enlouquecido! E saio caminhando em direção ao banco que fica de frente à cerca que separa nosso quintal do lago.

O sol se põe, a noite cai e eu continuo em transe. Minha mente é um buraco negro. Absorve tudo, mas não tem nada. Sinto alguém sentar-se ao meu lado. Permaneço imóvel. Ouço que está falando comigo. Mas não escuto nada. De repente meu coração dispara. Algo me deixa alerta. “É ele quem está ao seu lado. Levante-se e fuja.” Mas meu corpo está imóvel. Nada acontece. Quero gritar, mas não consigo. Quero correr, nada acontece. E a pessoa continua a falar. Não altera com tom da voz. Não grita. Eu quero gritar. Mas não consigo. Num espasmo abro o olho. Estou em meu quarto. Drew dorme ao meu lado. Como e quando voltei para dentro de casa? “Inferno. Outro lapso”. Não lembro de mais nada, a não ser que estava no quarto com minha vó. Levanto-me e vou até a cozinha. Pego um copo de água e sento-me ao balcão.

— Senhor, essa cidade ainda me faz mal. Como pode! Como num momento eu estou bem e no outro esqueço de tudo? O que foi que aconteceu dessa vez?
— Você não lembra? – Drew me pergunta
— Ui! Que susto! Pensei que estivesse dormindo.
— Acordei quando se levantou. Não lembra o que aconteceu essa tarde?
— Tudo que lembro é que estava conversando com minha vó e fui até a janela.
— Não lembra que discutimos?
— Nós discutimos?! Por quê?
— Porque você me viu indo tirar satisfação com aquele babaca.
— E para que você foi fazer isso?
— Já falamos sobre isso. Já entendi. Também não lembra que sua vó concordou em ir para Nova York e que queria alugar um apartamento e sugeri que ficassem em minha casa? E que surtou por causa disso.
— Por que Nana vai para lá?
— Não, porque eu disse, por favor não se altere, “Ficam em minha casa”. Achou que eu estava dando ordem.
— Não lembro de nada disso. Como foi que eu reagi?
— Péssimo. Em resumo, disse que conhecia caras assim, doce no início, mas que depois viram crápulas.
— Não lhe chamei de crápula, chamei? Me desculpa, anjo!
— Não com essas palavras, mas chamou. Mas não se preocupe, liguei para um amigo corretor e pedi, se não se importar claro, para ver uns apartamentos perto do seu e do de Adam com as características que você quer para alugar e que tinham pressa.
— Anjo, por favor! Me desculpe. Não sei o que dizer.
— Não precisa dizer nada. É melhor eu voltar a dormir, adiantei meu voo.
— Você o quê?!
— Adiantei meu voo. Preciso estar em Nova York amanhã o mais cedo possível.
— Você não tinha compromisso amanhã.
— E não tenho. Apenas preciso ir. Boa noite.
— Drew! Espera. – E o sigo. – Não faça isso.
— É melhor pararmos por aqui.
— Você está terminando?
— Só não quero me magoar nem te magoar. Acho que já teve emoção demais por hoje. Vamos dormir e conversamos depois. Sugiro, claro, que tome seu remédio. Boa noite. – E segue para o quarto. Não consigo dormir. Estou ansiosa, com medo. O que vou fazer? Passam da meia noite, e o sono nada. A cabeça fervilhando. Lembro da música que ele cantou para mim no karaokê “Quando você perceberá que eu não sou como os outros?”  Fico olhando-o dormir. Já são duas da manhã. Decido tomar meu remédio. Mas se tomar, vou dormir demais e não o verei sair. Se não dormir, terei outro lapso. Deus, o que fazer?! Tomo o comprimido e fico na poltrona.

Sinto a claridade em meus olhos, com dificuldade tento abri-los, busco o celular e vejo a hora, passam das 10, olho para a cama. Está vazia. Desço as escadas correndo.

— Vó, cadê Drew?
— Já foi. Partiu cedo. Deixou para você – e aponta um envelope no balcão, sinto uma ponta de reprovação na voz dela.
— Juro que eu não fiz nada. – Tento me convencer mais que a ela.
— Se você acha, fazer o quê?
— Vó me ajude!
— Se acalme, e leia o que ele escreveu. Não sabe o que está aí ainda. – Respiro fundo e crio coragem.

“Anjo,
Não queria tomar nenhuma decisão agora. Não quero lhe magoar. Mas não posso permitir ser magoado. Sei de muito do que sofreu, jamais terei noção da sua dor. Não estive em seu lugar, nem sofri o que sofreu. Mas também sei que não lhe causei nenhuma dor. E não o faria. Não fui criado assim. Tenho uma mãe, tive uma irmã. Não aceitaria que fizessem com ela, o que ele lhe fez. Porém se não é capaz de me ver de forma diferente, de como eu sou realmente, não cabe a mim lhe convencer.
Fiz o meu melhor, lhe dei o meu melhor. Mas não cabe a mim mudar seus julgamentos e suas convicções. Espero realmente que consiga se resolver e ser feliz. Lembrarei desses dias ao seu lado com muito carinho. Mas cheguei ao meu limite.
Vamos manter nossa relação apenas no profissional.

Com todo carinho e respeito,
Drew.

— Vó, ele terminou! Ele terminou comigo – E caio no choro. Um choro desesperado.
— Desculpe, mas não é de se estranhar. Você vive comparando-o com o traste, permite que ele mexa contigo. Qualquer santo cansa!
— Vó!!
— E agora o que vai fazer? Vai ficar chorando?
— Não tenho mais nada o que fazer. Vou esperar o médico liberar sua viagem de avião até Nova York e retomar o trabalho e cuidar da senhora. Vou conversar com Penny da possibilidade dela ficar na casa de Adam até encontrarmos um apartamento para nós duas.
— Mas Drew me disse que tinha um corretor procurando um apartamento para nós duas.
— Vou agradecer, mas dispensar.
— Vai dar uma de orgulhosa?
— O problema não é mais dele. Vou ligar para o médico e saber quando a senhora pode viajar de avião realmente.
— Existe a possibilidade de trem. Não esqueça. São só quatro horas até a Grand Central.
— Perguntarei qual é a melhor.

Ligo para o médico e vejo as possibilidades. Ele me diz que se não tem outra alternativa senão ela ir para Nova York, ir de trem é melhor por não ter pressurização, que pode vir a causar algum dano aos pulmões fragilizados. Depois do almoço passamos na sede da PE T e nos despedimos dos tios, entregamos uma chave da casa para eles cuidarem das plantas dela e pegamos a estrada. Uma hora depois estávamos devolvendo o carro e esperando o trem. Não trocamos uma só palavra no percurso de Mystic até Boston e o mesmo no trem. Minha mente estava muito longe. Eu estava tão leve a dois dias atrás. Agora parece que carrego o mundo.

***

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