segunda-feira, 29 de junho de 2020

Livro 2 - Frutos de uma paixão - Capítulo VII


“Meu Deus! Como o tempo passa rápido! Mês que vem os gêmeos fazem dois anos. Estão a cada dia que passa mais parecido com o pai. O que torna difícil acabar com minha culpa.” – Esse é meu primeiro pensamento do dia, quando acordo e olho para meus filhos.

Tem dois anos e meio que estou em Maui. Dois anos e meio que não vejo Penny. Muito mal falo com ela. Já tem meses que conversamos. Se não me engano foi no dia 1º de janeiro. Aproveitei para desejar feliz ano novo. Mas ela agiu friamente, mal conversamos.

Nana estava certa, renunciei a minha amizade mais verdadeira, a pessoa que mais me apoiou em todas as minhas decisões, até nas mais erradas, mesmo sem concordar. “Sou sua amiga acima de tudo. Estarei aqui, lhe apoiando, principalmente quando quebrar a cara”. Ela sempre foi direta. Mas sei que não abri mão por um capricho.

Eu e Derek estamos juntos a dois anos. Embora goste muito dele e ser tratada muito bem, como uma pessoa real, não consigo sentir por ele o amor que sinto por Drew. Sim. Dois anos e meio depois, uma relação que, realmente, não passou de dez dias, ainda mexe comigo. Também sinto que não sou amada por Derek. Ele esconde algo de mim. Nada tenebroso, como meu passado, mas algo bem íntimo. E vivemos bem assim. Com nossos segredos.

Mas um segredo que o incomoda bastante é o do pai dos anjos. Ele é mais um que não aceita que eu tenha escondido dele a verdade dos meninos. As poucas vezes que tentaram chamá-lo de pai, ele os corrigiu “O titio irá com você”, “Diga para o tio o que você quer, Trixie?”, nunca fora grosseiro ou destratou meus filhos. Mas esse segredo é um dos poucos motivos para nossas discussões mais sérias.

Quanto aos meus lapsos, graças a Deus quase não os tive desde que tudo aconteceu em Mystic City. Não sei se foi ter enfrentado Taylor. Não sei se foi o fato dele ter ido para a prisão. Realmente, não sei e fico feliz sem tê-los. Assim, pude ser uma pessoa normal aos olhos de meus novos amigos.

Na empresa está tudo bem. O trabalho é um refúgio. Lá não preciso ficar respondendo perguntas que não quero sobre mim, meu passado e o pai das crianças. Temos fechado cada vez mais contratos com a Ásia e a Oceania. Os números da filial havaiana são surpreendentes.

***
Drew Grant

Tem mais de dois anos que tudo aconteceu. Tem dois anos que estou com Becca. Nesse período, meus sobrinhos nasceram. E impressionante como se parecem com nós três. Angela tem muitos traços, principalmente a personalidade independente e desafiadora, da tia que jamais conhecerá. A pobre da Ash tem sofrido bastante. Minha mãe sempre que pode, dá dicas de como fazia com ela. Já Rapha tem muito do pai e de mim. É muito mais calmo que ela.

Minha relação com Becca se resume a nós dois, apenas. Ela não conseguiu se dar bem com meus amigos nem família, também não fez esforço. Meus sobrinhos não gostam dela também. Talvez sintam que ela não gosta de crianças. O que para mim é um alerta que nossa relação não vai passar do namoro. Ao contrário de Adam e Penny que estão quase morando juntos, não tenho a menor vontade de entregar as chaves do meu apartamento a ela muito menos pegar as dela. E parece que nem ela.

Estive umas duas vezes em Mystic City para visitar Nana e os Davis com Adam e Penny. Tinha a esperança de encontrá-la lá. Nunca aconteceu. Nana me disse, na última vez que estive lá, que ela nunca mais voltou à cidade. Mas me disse que morava numa linda casa, quase a beira mar, estava muito bem no trabalho e que estava namorando um cara muito bom. Em um jantar na casa dos Davis, ela ia falando alguma coisa, mas James a cortou. Penny, Adam e eu nos entreolhamos.

— Vocês estão escondendo algo da gente? – Penny expressou o questionamento que todos já vínhamos nos fazendo.
— Escondendo o quê, filha? Não temos nada a esconder de vocês. – James a respondeu.

O jantar continuou, conversamos. Ir até Mystic é uma viagem maravilhosa. Muito relaxante. Infelizmente só podemos ficar um fim de semana. Volto para Nova York com a promessa de regresso em breve. Ainda não cumpri minha promessa. Conseguimos outro contrato para a construção de um novo condomínio, o que tem nos deixado meio atolados com os arranjos finais da obra.

Estamos finalizando para entregar aos decoradores. Cada torre terá um apartamento decorado para avaliação dos futuros moradores. Pelo projeto inicial, a decoração será básica, podendo ser alterada, ou não, de acordo com os donos. Claro que, aqueles produtos que já são inclusos no preço não terão nada de básico. Eletrodomésticos como geladeira, fogão, máquinas de lavar pratos e roupas, toda a ferragem, torneira e lustres, serão de alta qualidade, top de linha. Todas as unidades foram vendidas. Um sucesso total.

***
Emily Campbell

— O que custa você convidar sua amiga para vir passar o 4 de julho com você e os anjinhos?
— Derek, não me custaria nada. Mas não a convenceria a vir só, ela viria com Adam. – Explico pela milésima vez
— E...?????
— Chega! Não aguento mais essa pressão. O dia tá lindo lá fora. Vou aproveitar meu sábado com meus filhos na piscina. Você vem?
— Sinceramente, cansado de ver você evitando essa ligação. Faz assim, curta seu sábado, e me ligue depois de falar com Penny.
— É o quê?!
— Isso. Não posso ser mais conivente com sua atitude de esconder do pai a existência deles. E sei que sua amiga será capaz de convencê-la disso. Sei que sofre por não a ter participando, mesmo que de longe, da vida deles. Não gostaria que escondessem um filho de mim.
— Tenho certeza disso. Mas você não sabe as circunstâncias. Então não tem o direito de opinar.
— Certo, pelo que entendi no dia que eles nasceram, toda sua família quer que você conte, sua avó chegou a ser irônica comparando-o a um tal de Taylor. Mas você tem razão, não conheço nada do seu passado, você fez questão de não me contar nada...
— Assim como você. – Interrompo seu discurso, lembrando-o que também tem segredo.
— Você tá certa. Não estou em condições de exigir nada. – Ele respira fundo, aperta o nariz, faz sempre isso quando estar irritado. – Acho melhor eu ir. Me ligue quando ligar para amiga. Melhor, se ligar para sua amiga. – E se retira.

***

Drew Grant

Sábado chegou. Resolvo aproveitar o dia lindo e vou correr no Central Park. Sempre gostei de me exercitar ao ar livre. Correr por suas trilhas cercadas por árvores lindas com os prédios ao fundo. Aproveito isso para pensar na minha vida.

“O que teria acontecido se eu não tivesse me acovardado e insistido num relacionamento com Emm? Se tivesse aberto o jogo e contado a ela a história de Angie? E mesmo que tivesse feito tudo como fiz e ela estivesse ainda aqui? Estaríamos juntos? Estaríamos separados? Por que Penny ainda insiste nessa história? São tantos questionamentos que me faço todos os dias. São tantas dúvidas. O que aconteceria se eu fosse para Maui atrás dela? Mas ela está com um namorado. E se não me quisesse mais?”
Nessa minha angústia passo a amanhã correndo e não me dou conta. Volto para casa depois das doze horas. Tomo um banho e resolvo fazer uma pequena reunião aqui em casa com meus amigos. Ligo para Artie primeiro.

 — Mano, que tal nos reunirmos hoje aqui em casa para uma sessão de pizzas, cerveja, jogos e muita conversa?
— Só os homens?
— Pode trazer Ash. Adam, traz Penny... – Respondo
— E você, Becca.
— Na verdade, queria um pouco de normalidade hoje.
— Normalidade?
— É. Estou um pouco saudoso da época em que ficávamos de bobeira.
— Vou falar com Ash, precisamos ver com a babá. Não tínhamos planos para hoje a noite, acho que ela a dispensou.
— Veja e me ligue. Vou falar com Adam. – Nos despedimos e desligamos. Então ligo para Adam.

— Cara, e aí?
— Diz, A.
— Pizza, cerveja, jogos e conversa boa. Que tal?
— Onde, quando e com quem?
— Aqui, hoje, eu, você, Artie e as meninas.
— Não sei se seria uma boa reunir Penny e Becca novamente. Na última vez, quase foram aos tapas, você lembra.
— Não estou pensando em falar com ela.
— Hummm! Aí ficou interessante. Espera. Drew tá chamando a gente para ir para casa dele hoje... Sem ela... Certo. – Deveria estar falando com Penny. – Combinado. Chegaremos às sete horas. Levo uma pizza e um pac[1].
 — Traga uns 2 pacs, as pizzas providencio.
— Combinado. Até mais tarde.
— Te espero.
***

Emily Campbell

Passei o resto da manhã pensando na conversa com Derek. “É muito fácil para eles opinarem. Não sabem como foi doloroso ler aquelas palavras. Não sabem como é doloroso saber que inconscientemente você é capaz de ofender a pessoa amada e não poder se desculpar. Afinal, não sabe que ofendeu. Não tem ideia de como me magoou vê-lo no trabalho todos os dias, depois que ele me apresentou a felicidade, e não poder tocá-lo uma única vez. Quis mandar tudo à merda e abraçá-lo e dizer que não desistiria dele? Lógico que sim. Mas precisava respeitar a decisão dele, depois de tudo ele sempre respeitou minha decisão de não falar do meu passado. Tive que sofrer sozinha... Bem não tão sozinha. Ele deixou em mim duas sementinhas que alegram meus.”

— Mama! Ó! Bintá a gua! – Trixie me chama para brincar com eles na água.
— Isso, minha anjinha! – Levanto e caminho até ela – Vamos brincar na água. Nós três.

Entramos por volta das duas, dou banho nos dois, coloco-os para assistir TV, enquanto preparo o almoço deles. Quando Bennie vem em minha direção com um porta-retrato na mão.

— Tipeda. Tipeda – E me mostra a foto de minha formatura. Nela estamos eu e Penny. Foi Adam que tirou ela. Meu coração aperta.
— É, Bennie, é tia Penny doida. – E sinto uma lágrima escorrer pelo meu rosto. – Você quer conhecer tia Penny, anjo? – Ele olha para mim, e abraça minha perna.

Termino o almoço deles, coloco-os em suas cadeirinhas e entrego os pratos. Enquanto comem, pegou meu celular e faço um facetime para Penny.

***



[1] Pac é como são chamadas as embalagens com seis garrafas ou latas de cerveja nos EUA

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