—
Vamos entrar? – Penny sugeriu.
—
Quero ir pro hospital.
—
Vamos deixar nossas malas lá dentro e vamos logo em seguida, ok? – Aceno com a
cabeça.
Estou
ligada no automático. Não sei o que estou vivendo, fazendo ou sentindo. Ouço um
telefone tocando. Penny pega minha bolsa e o atende.
—
Oi... Não sei dizer... Parece um pouco fora de si... Não tenho certeza se é por
causa de Nana ou se por estar de volta... Ainda é cedo para dizer... Acho que
não precisa vocês virem... Qualquer coisa ligo para você ou para Adam... Tchau.
– Ela desliga e guarda o telefone. – Vamos entrar.
Entramos. A casa está do mesmo jeito que
deixei a 6 anos atrás. O mesmo cheiro de casa de vó. Largo minha bolsa em algum
lugar. E digo:
—
Agora vamos. Quero ver minha vó. – Ela coloca a bagagem em um canto e saímos.
Na porta, perto do carro, alguns vizinhos tinham vindo nos ver.
—
Querida, quanto tempo!
—
Oi, Sra. Smith. Agora não vai dar para conversarmos. – Penny dispensou a Sra.
—
Tudo bem! Manda meus desejos de melhoras para sua vó.
—
Obrigada. – Penny respondeu. Não conseguia falar nada.
Entramos
no hospital. Penny pergunta onde minha vó está internada. Vamos até seu quarto.
tia Sam está fazendo companhia a ela. Na hora que entro, e vejo minha vó
naquela cama, algo parece que liga em mim, corro até ela.
—
Vozinha! O que aconteceu? Como a senhora está? – E a abraço
—
Oh, minha flor! Estou como Deus quer!
—
O que foi que aconteceu com ela?
—
Os médicos estão achando que é algum problema pulmonar. Estão esperando os
resultados dos exames saírem.
—
Sabe qual a possibilidade dela poder viajar?
—
Não conversamos sobre isso.
—
Por que não tia? Eu disse que queria levá-la para Nova York.
—
Emm, ainda é cedo para discutirmos isso.
—
Eu não posso ficar nessa cidade. Vocês sabem disso.
—
Boa tarde. – O médico entra
—
Boa, doutor. Sou Emily, neta dela. O que aconteceu com minha vó?
—
Sua vó teve muita sorte.
—
Sorte?! – aponto para onde ela está.
—
Sim. Está com uma infecção pulmonar severa e a crise que ela teve ontem, se
estivesse sozinha teria morrido em casa.
—
Qual a possibilidade de ela ser transferida para Nova York ainda hoje?
—
Nem hoje nem amanhã, nem tão cedo. Não recomendo tirá-la daqui.
—
Isso não é uma opção. Preciso levá-la desta cidade.
— Se fizer isso, o risco de morte é muito
maior.
—
Mesmo numa UTI aérea?
—
Mesmo. Ela está muito fraca.
—
Emy! Não quero sair daqui. Quero morrer em minha cidade.
—
Vó, a senhora não vai morrer, entendeu?
—
Não vou ficar para sempre aqui. Faz parte da vida. Já cumpri minha missão. Você
já está criada e formada, não tenho mais nada o que fazer nesse mundo. Quero
ver meu filho.
—
Não vó! – Me desespero com a fala dela – Eu ainda preciso da senhora.
Decido
que ficarei no hospital, acompanhando minha vó. Penny e Sam vão para casa,
pegam minha bolsa e trazem para mim.
—
Tem certeza que ficará bem aqui sozinha?
—
Não estou sozinha. Minha vó está comigo e o andar cheio de enfermeiras e
médicos.
—
Sabe o que quis dizer.
—
Sei. Vamos esperar que não fique sabendo que estou na cidade.
—
Ligue para Drew. Já ligou duas vezes. – Ela recomenda
—
Vou ligar. Boa noite.
—
Qualquer coisa, me liga. Virei na hora.
—
Não se preocupe. Qualquer coisa, te ligo. – Ela me beija e sai.
O
entra e sai das enfermeiras e técnicas é constante. Por volta das 8, pego o celular
e decido ligar para Drew.
—
Oi, anjo! Estava preocupado.
—
Oi! Desculpa não ter ligado mais cedo.
—
Entendo! Como está sua vó?
—
Quero levá-la para aí, mas os médicos não querem liberar. Dizem que ela não
suportaria a viagem. Pelo menos, não por agora.
—
Ela deve estar muito fraca. Pense na saúde dela primeiro. Quer que eu vá para
aí?
—
Estou pensando. Estou pensando. É só no que penso... ou quase é só isso que
penso. Não precisa vir não. Você tem seus compromissos por aí.
—
Posso muito bem passar para Adam, ou outro engenheiro.
—
Se precisar, te digo. Como você está?
E
ficamos conversando por horas. Até meu sono começar a querer me pegar.
Desligamos o telefone. E adormeci. Ele tem o dom de me acalmar. Amo isso nele.
Mas a noite não é tranquila. Quando não sou acordada por alguma enfermeira
dando medicação, sou acordada por alguma máquina que desregula e começa a
apitar. Ou, pior, por meus pesadelos. Quando amanhece, Penny entra no quarto.
—
Dormiu?
—
Muito mal.
—
Sabia. Café?
—
Quero. – Pego o copo extra que ela traz na mão. E passamos a manhã a conversar.
Ao meio dia, o médico entra para fazer uma visita. Aparentemente o quadro
respiratório dela não teve alteração. O que não é de todo ruim. Poderia ter
piorado.
—
Não quer sair um pouco? Ligo para minha mãe e ela vem ficar no seu lugar.
—
Só saio daqui com ela em direção ao aeroporto de Boston. Não vou arriscar.
—
Isso não lhe fará bem.
— Sair também não.
— Não falo mais
nada. Falei com a turma ontem. Disse que estávamos aqui.
— Você não fez isso!
— O que é que tem?
— Vai virar um
falatório só!
— E você acha que o
bairro já não sabe que você voltou? Não lembra que encontramos a Sra. “Língua
Solta” Smith ontem quando saímos de sua casa?
— Sinceramente? Não.
— Percebi. Pois é.
Duvido que já não tenha espalhado.
— Isso vai chegar no
ouvido de quem não deve.
— Se ele chegar
perto de você, chamamos a polícia.
— Veremos como
ficará esses dias aqui.
No final da tarde
recebo uma ligação de Drew, querendo saber como eu estava e como o quadro de
Nana estava evoluindo. Conversamos bastante sobre muitas coisas. O trabalho,
Gab estava me substituindo a contento, nossa adorável Sra. Scott tentou
modificar novamente o projeto, mas como era apenas cor de tinta, puderam trocar
sem comprometer o prazo. O tempo estava começando a esfriar, e os sinais do
outono já eram perceptíveis.
***
Penny Davis
Já se passaram cinco
dias desde que eu e Emm chegamos aqui. O quadro de Nana está cada vez mais
complicado. Já estão pensando em colocá-la no respirador artificial. Emm não sai
do lado dela nem para comer. Para se alimentar preciso forçá-la. Estou
começando a ficar preocupada com a saúde física dela.
O que separa minha
casa da casa de dos Campbell é uma cerca e uma árvore, onde tínhamos uma casa que
tinha acesso por nossos quartos e estávamos sempre contando nossos segredos na
infância e adolescência. Resolvo ir até ela, para pensar na vida. Foi nessa
casa onde Emm derramou muitas lágrimas por causa de Taylor. Por mais que ela
tentasse se afastar dele, ele a perseguia e ela cedia. Nunca fui capaz de
entender o “amor” que sentiam um pelo outro. Fui ensinada por meus pais a me
dar valor. Sempre tive o exemplo de como a mulher deve ser tratada, meu pai
sempre foi cuidadoso e respeitoso com as mulheres. E sempre fez questão de
deixar bem claro que eu não admitisse que nenhum homem me tratasse diferente de
como ele tratava a minha mãe e a mim. Estou sentada à janela da casinha quando
notei um carro parado em frente à casa de Emm, o motorista não me era estranho.
Desço correndo e chamo minha mãe.
— Mãe chegue aqui na
sala, por favor! – Aproximo-me da janela e fico observando aquele carro.
— O que foi?
— Olha o motorista
daquele carro. É quem eu estou pensando?
— Não é a primeira
vez que ele aparece aqui desde que vocês chegaram.
— E por que a
senhora não me disse nada?
— Não queria alertar
e como ela está sempre no hospital e você com ela, não pensei que fosse
perigoso.
— Meu pai tá
sabendo?
— Tá doida?! Se eu
contar para ele, é bem capaz de ir tomar satisfação com ele. Quero distância de
problema.
— Pois eu não. Vou
lá agora.
— Penélope, não se
meta em confusão. – Mas já era tarde. Já estava descendo os degraus da varanda.
Ele não percebeu que
eu me aproximava.
— Ora, ora o que
vejo aqui! O “estolquiador”!
— Ora se não é a
vaca!
— Continua o mesmo
babaca de sempre, não? O que está fazendo aqui?
— Que eu saiba a rua
é pública.
— E é. Mas não passe
desse ponto.
— Está me ameaçando?
— Apenas alertando.
Boa noite.
— Diga a minha Mi
que a estou esperando em nossa casa.
— Mas é muita cara de
pau! Esteja avisado. Se afasta da gente. – Viro as costa e retorno para casa.
— O que você pensa
que está fazendo? – Minha mãe me espera na varanda
— Nada. Só fui dar
um alô a um velho amigo.
— Velho amigo?!?!
Não sei a quem você puxou! – E ela retorna para a cozinha.
Volto a observar
pela janela. Minha mãe tem razão. Ele não é de confiança, podia ter feito algo
comigo. Meu telefone toca, é Adam, minha dose de paz e acalento diária nesses
dias.
— Boa noite, Amor!
— Como você está? Me
dê notícias de Emm e Nana.
— Eu estou indo. O
quadro de Nana não é nada bom. E Emm está arrasada, mal se alimenta.
— Por que você está
indo? O que mudou de meio dia para agora?
— Nada, demais.
— Penny!
— Não quero falar,
já basta minha mãe chateada comigo.
— Qual foi a besteira
que você fez dessa vez, mulher?
— Por que tenho que
ter feito besteira?
— Porque sua mãe
está chateada contigo. Anda, conta logo.
— Falei com o
babaca.
— Você foi procurar
ele?!?! Por que e para quê?
— Não!! Ele estava
aqui em frente, observando a casa de Emily.
— E foi até ele ...?
— Mandar que ele se
afastasse.
— Não acredito que
fez isso. E se ele lhe agredisse?
— Eu apanhava, mas
ele ia sair todo rasgado.
— Amanhã pegarei o
primeiro voo para Boston. Não vou deixá-las à mercê desse maníaco.
— Não tem
necessidade.
— Está decidido.
Estamos indo.
— Estamos?! Você não
vai falar com Drew?
— Ele está ao meu
lado.
— Meu Deus! Emm vai
ficar furiosa comigo!
— Vá dormir e não se
coloque mais em risco, por favor!
— Tá bom. Até
amanhã. Me avise do horário do voo. Vou buscá-los.
— Ok. Te amo.
— Te amo. – E
desligo o telefone.
— Quem está vindo? –
Meu pai acabara de chegar do escritório.
— Adam e Drew.
— Adam eu conheço,
mas quem é esse Drew?
— Sócio de Adam e
paquera de Emm.
— Hum! Acha uma boa
ideia? – E aponta a janela com a cabeça
— Não entendi.
— Sua mãe me contou
a besteira que fez.
— Na pior das
hipóteses, o babaca fica sabendo que ela tem quem olhe por ela agora e é muito,
muito mais forte e homem que ele.
— Você não toma
jeito. – E seguimos para a cozinha
— Mãe preciso que a
senhora vá amanhã de manhã para o hospital ficar com Emm. Vou para Boston
buscar Adam e Drew, sócio de Adam.
— Posso ir sim. –
Ela serve o jantar, conversamos sobre Drew e Emm, a PE Tourism, e outros tantos
assuntos, até o sono chegar. Antes de dormir, ligo para Emm para saber como ela
está.
— Boa noite.
— Não está. Nana
teve outra complicação.
— Quer que eu vá
ficar com você?
— Precisa não. O
médico recomendou que tomasse um calmante e daqui a pouco dormirei.
— Vou ter que resolver
uma situação em Boston amanhã cedo, vou depois para o hospital, certo? Minha
mãe vai ficar com você.
— Diga a ela que não
precisa. Posso ficar só por algumas horas.
— Se ninguém for,
você não se alimenta.
— Prometo que vou
tomar café, tudo bem?
— Está bem. Avisarei
a ela. Boa noite, mana.
— Boa noite, mana. –
Desligo o telefone e me deito.
Na manhã seguinte,
acordo por volta das 7:00, pego o celular e vejo uma mensagem de Adam. Eles
chegam aqui às 8:30. Preciso me arrumar e sair. Desço as escadas depois de
tomar banho e me arrumar, para tomar café.
— Bom dia, mãe. Emm
disse que não precisa a senhora ir.
— E você acha seguro
deixá-la sozinha durante o dia?
— Seguro não é. O
quarto tem livre acesso a visitantes. Mas ela disse que está tudo bem.
— Você contou para
ela quem esteve aqui?
— Não, mãe. Claro
que não. Ela já está abalada com a piora de Nana.
— Então eu vou.
— Tá certo. Eu tô
saindo. O voo dos rapazes aterriza em meia hora. Tchau.
***
Emily Campbell
Acordo às 8:30 com a
movimentação no quarto. Era hora do banho dela. Aproveito para ir tomar um café
na lanchonete do hospital. Caminhando pelos corredores, fico pensando o que
poderá acontecer com minha vozinha. O que será de mim sem ela. Chego na lanchonete,
peço um café e um muffin. Sento em uma mesa junto a parede de vidro e começo a
comer. Estou com o olhar meio perdido, quando tenho uma visão aterrorizante.
Jamais esquecerei aquele rosto. Aquele andar. Meu Deus! Ele não pode estar
aqui. Ele não pode me ver. Levanto apressada, pego meu café e o muffin, e saio
da lanchonete quase correndo. Apavorada. Em minha mente, só negação. Preciso
chegar no quarto rápido. Preciso me esconder. Ele não pode me ver. O que ele
vai fazer comigo se me encontrar.
Consigo chegar no
quarto sem que ele me visse. E para minha surpresa, o quarto não estava vazio.
— Graças... – busco
ar – Você chegou. Ele... ele...
— Bom dia, minha
Emm! – Gelo da cabeça ao dedão do pé.
— Você?! Aqui?! O
que quer?
— Mandei um presente
para você e não me agradeceu. É assim que se faz? – Ele responde com um tom irônico
na voz.
— Eu... não...
recebi nada. – Menti.
— Ora! Ora! Além de
fujona, virou mentirosa? Sabe o que acontece com meninas mentirosas, não sabe?
— Eu... não...
estou... mentindo, juro. Não recebi nada seu. – Falo num tom quase desesperado.
— Conheço você. Sei
quando mente. Vamos para casa da velha pegar suas coisas. Vai morar agora
comigo.
— Não. – Sou
enfática
— Como é?! Onde
achou coragem? Quem manda em você sou eu. Sempre mandei. Você só realizou esse
sonho besta de fazer faculdade e morar naquela cidade, porque
eu permiti. Deixei
você ficar lá.
— Mentira! – Falo
quase gritando
— Como ousa a
levantar voz comigo – A voz dele soa como antigamente, está muito bravo. –
Esqueceu o que pode acontecer? – Antes que eu possa responder, um enfermeiro
entra no quarto.
— Está tudo bem?
— Está sim.
— Não está. Está
importunando a paciente. – Não sei de onde veio essa coragem, mas falei isso.
— Senhor, preciso
pedir para que se retire imediatamente.
— Estarei esperando
por você. Não pense que irá me abandonar novamente.
— Sai agora. E irei
a polícia caso se aproxime novamente de mim ou de minha vó.
— Veremos.
— Senhor! – O
enfermeiro aponta a porta do quarto.
Taylor sai do quarto
fazendo ameaças com o olhar. Desabo sobre o sofá. O enfermeiro vem em meu
socorro.
— Está tudo bem?
Quer alguma coisa?
— No armário tem meu
remédio, pode pegar para mim, por favor? – Ele vai até o armário, pega o vidro
com meus calmantes e um pouco de água e me entrega. E vai monitorar minha vó.
Tomo o remédio e
deito no sofá para me acalmar e esperar o remédio fazer efeito. Não sei se foi
efeito do susto, da noite mal dormida, mas peguei rapidamente no sono que não
vi a hora que o enfermeiro saiu do quarto.
Dormi a manhã
inteira. Despertei com uma enfermeira fazendo a medicação de Nana.
— Desculpa por lhe
acordar. – Disse
— Não, tudo bem. Que
acompanhante é essa que dorme o tempo todo. Que horas?
— São 1:10.
— Gente, dormir
demais! Sabe me dizer se minha amiga esteve aqui?
— Esteve sim. E
muito bem acompanhada.
— Dos pais?
— Não. Dois rapazes
muito educados e de tirar o folego. – “Dois rapazes? Quem serão? Será que ela veio
com Peter e Scott?” me perguntei mentalmente.
— Obrigada. Vou
ligar para ela.
— Está tudo certinho
com sua vozinha. – Aceno em agradecimento a ela. Pego o celular na mesa ao lado
do sofá e ligo para ela.
— Mana, você esteve
aqui e estava dormindo. A enfermeira disse que veio acompanhada, quem foi?
— Estamos chegando
no hospital, você já descobrirá.
— Tô com fome. Trás
algo para eu comer, por favor.
— Já estou levando.
— Você é meu anjo.
Tenho algo muito sério para lhe contar.
— O quê?
— Quando chegar te
conto. Até.
— Até. – Desligamos
o telefone juntas. Menos de 10 minutos depois, a porta do quarto abre e tenho
um sobressalto.
— Ufa! É você!
— Quem mais poderia
ser? Por que esse medo?
— Pense em quem
apareceu aqui hoje?
— Aquele crápula não
teve a cara de... – Aceno positivamente – Eu avisei a ele.
— Você o que?!
Quando? Adam? – Só agora notei a presença de Adam atrás dela na porta – O que
faz aqui?
— O que fazemos?! –
Drew adentra o quarto
— Penny!!
— Bem. Drew estava
na casa de Adam ontem, quando lhe contei que tive um encontro desagradável com
o traste na porta de sua casa...
— Pera, aí! Você o
quê? Isso foi antes ou depois de conversar comigo?
— Foi antes. E antes
que pergunte, não falei porque me disse que Nana tinha piorado.
— E os dois
resolveram pegar um avião, largar tudo e vir para Mystic City?!
— Não podíamos fazer
diferente. – Respondeu Adam – Vocês não estão mais sozinhas.
— Eu sei me cuidar.
– Respondi desaforadamente
— Agora me diga, o
cretino esteve aqui? E você o viu?
— Não, Penny! Eu adivinhei
quando acordei. Lógico que o vi.
— E...?
— Não sei o que
teria acontecido se o enfermeiro não tivesse entrado.
— Você acha que...?
— Tenho certeza. Eu fiz
o que nunca deveria ter feito. Eu o desafiei.
— Boa menina!
Continue desafiando.
— Você é louca? Ele
acaba comigo.
— Ele não é louco de
encostar um dedo em você. – Drew se mete na conversa – Já lhe disse que agora
você não está sozinha.
— Emily, você não é
mais aquela menina indefesa e ingênua de 6 anos atrás.
— Ele sempre soube
onde eu estava. – Começo a chorar – Ele sempre soube! Disse que só me formei
porque ele deixou... – limpo um pouco das lágrimas – e que agora eu já podia
voltar e que ele está me esperando para pegar a mim e minhas coisas e irmos
para casa. – E caio num choro desesperado enquanto Penny me abraça.
— Oh, querida! Você
sabe que ele só tem esse poder se você permitir.
— Acabou, P. Ele vai
me levar para aquela casa de novo. Meu lugar... meu lugar é ao lado dele.
— Não, senhora. Seu
lugar nunca foi ao lado dele.
— Para ele chegar
perto de você agora, terá que passar por essas duas muralhas aqui. – Diz Drew,
enquanto me tira dos braços de Penny e me leva para o sofá e me deita em seu
colo. – Eu lhe prometi que ninguém mais iria lhe machucar, eu sou homem o
suficiente para manter minhas palavras. – E fica alisando minhas costas, não
sei por que, mas algo na voz dele me acalma. Sinto-me segura com ele perto de
mim.
— Acho melhor
levá-la para casa. – Sugeri Adam
— Daqui eu não saio.
— Anjo, vamos para
sua casa, você descansa e mais tarde voltamos, o que acha?
— Eles têm razão. Vá
lá pra casa. Descanse, se alimente e depois você volta. Qualquer alteração
aqui, lhe aviso.
— Promete?
— Juro. Mas antes
quero que você assine uma procuração para mim.
— Procuração? – Adam
questiona
— Vou entrar com um
pedido de medida protetiva contra o traste ainda hoje.
— Mas ele só fez
ameaças. Juiz nenhum dará essa medida sem que eu tenha sido realmente agredida.
— Dará, se conhecer
seu histórico. Conhecemos o juiz.
— Quem?
— Um certo Scott
Peterson.
— Mentira! – Ela
acena com a cabeça
— Manda que assino
agora. – Ela me dá o papel, assino, ela liga para tia Sam para vim ficar com
Nana.
Enquanto eu e Drew
íamos para minha casa, Penny e Adam ficavam esperando tia Sam chegar para irem
falar com Scott.
— Você está bem para
dirigir?
— Estou sim, e minha
casa não fica muito longe.
— Pensei que íamos
para a casa de Penny.
— Somos vizinhas. E
prefiro minha casa.
— É a primeira vez que
vejo você se referir a casa de sua vó como sua casa.
— A muito tempo,
deixei de pensar em tudo aqui como me pertencendo ou como se eu pertencesse a
esse lugar.
— Entendo
perfeitamente. Eu... – ele parece meio sem jeito ao falar – Eu...
— Pode falar. Somos
amigos.
— Somos só amigos?!
— Desembucha.
— Eu sei que você
não gosta de tocar nesse assunto, mas queria conversar com você sobre.
— Um dia. Hoje não,
por favor.
— Tudo bem. Mas
saiba que você é muito mais do que acredita ou que ele te fez acreditar. –
Aceno com a cabeça.
Sua voz é doce,
carregada de carinho. É isso nele que me atrai e acalma. Ele consegue ser duro
e doce ao mesmo tempo. Já presenciei ele nas reuniões de equipe, quando algo
tinha dado errado. Não alterava o tom ou o jeito de falar, ele corrigia e
desconsertava qualquer um.
— É uma bonita
cidade.
— Sim, é muito
bonita mesmo. Os moradores cuidam daqui. Se orgulham da beleza natural da área.
Quem sabe depois que tudo isso passar, não te leve para fazer um passeio
ecológico pela região.
— Eu adoraria. – 15
minutos depois estávamos estacionando na entrada da garagem da casa de Nana.
— Chegamos. – Saio
do carro e olho ao redor. Como se estivesse procurando algo ou alguém.
— Acha que ele
estaria aqui? – Drew me pergunta ao ver minha ação
— Ele disse que
estaria me esperando.
— Não se preocupe.
Ele não chegará mais perto de você. Prometo.
— Eu sei. – O
comentário sai sem nenhuma convicção. - Vamos entrar?
Nos dirigimos à
porta de entrada da casa. Era uma casa estilo vitoriano, muito bem conservada.
O avô de meu pai, pai de Nana, construíra para sua família, e tem passado de geração
para geração desde então. Ainda tínhamos objetos que pertenceram a minha
bisavó, Nana deu seu toque na decoração, assim como fez minha mãe. E Nana
espera que um dia eu também o faça.
Entramos em casa,
vou direto para a cozinha. Estou faminta. Procuro algo rápido para fazer.
Encontro queijo, ovos, e temperos, e alguns vegetais, decido fazer uma omelete
de queijo com purê de batata doce e uma salada verde. Enquanto cozinho vamos
conversando. Drew caminha até a porta que dá para o jardim do fundo e fica
admirando a paisagem.
— É aquele lago onde
você fazia piquenique com seus pais?
— É sim. Amava
sentar na grama, com a toalha quadriculada, tomar um suco e comer as delícias
que minha mãe e Nana preparavam.
— Sua vó sempre
morou com vocês?
— Sim e não. Ela foi
morar em Nova York depois que meu avô faleceu, e meus pais vieram morar aqui,
mas passava muito tempo aqui conosco. Era muito bom quando ela vinha. Minha
paixão pela Grande Maçã veio dela.
— Ela morou lá?
— Sim. Ela foi sous
chef em um restaurante de renome lá durante alguns anos. Foi com ela que
aprendi a cozinhar. Ela abandonou tudo para cuidar de mim. – Minha voz sai com
um grande toque de tristeza. – Quando se mudou de vez para aqui, depois da morte
de meus pais, abriu um pequeno restaurante que só funciona na hora do almoço,
para ficar comigo.
— Vamos fazer um
piquenique.
— Oi?! Não temos
nada.
— Ora! E essa
omelete, esse purê e essa salada? Vejamos o que temos mais aqui?
Azeitona... humm ...
crackers... Acho que já dá para fazer um piquenique de leve, não?
— Vou pegar a
toalha. Acho que deve ter algum vinho no bar na sala de jantar. As taças estão
lá também. – Fico animada com a ideia
— Vou pegar. Vá
cortando esses queijos. – Pouco tempo depois ele chega com o vinho e as taças.
— Fiz uma pastinha
para passar nos crackers.
— Viu? Um pouco de
criatividade e boa vontade, podemos tudo.
— Aqui está a cesta.
— Nossa, até cesta
temos! Deixou de ser de leve. – Dou risada com a animação dele. Arrumamos a
cesta e saímos em direção ao lago.
Estendemos a toalha,
distribuímos os alimentos, os pratos do almoço vieram prontos e embrulhados.
Drew abre a garrafa de vinho, nos serve. Comemos, conversamos. Conto-lhe
algumas histórias minhas e de Penny de nossa infância. A tarde vai caindo, o
céu ficando alaranjado. Estou deitada sobre sua perna e ele alisando meu
cabelo.
— Podia ficar assim
para o resto de minha vida. Sem ter preocupação com nada.
— Mas pode.
— Preciso voltar
para o hospital. Estou a muito tempo longe de minha vó. E tia Sam precisa
voltar para casa. Cuidar do tio.
— Então vamos. Fico
com você lá.
— Não precisa. Vai
ser horrível você dormir no hospital.
— Vim para Mystic
para ficar com você. E vou ficar com você, nem que para isso fique sentado no
chão do hospital.
— Você é meu anjo. –
E dou-lhe um beijo terno nos lábios.
— Você que é o meu.
– E retribui com um mais apaixonado.
Recolhemos tudo e
entramos. Coloco a louça na máquina, programo a lavagem. Vou até a casa de
Penny pela nossa casa da árvore, Drew havia me dito que sua bagagem estava na casa
dela. Pego a que ele me indicou como sendo sua. Volto, lhe entrego e vamos tomar
banho. Quando estamos saindo, a visão me congela. Parado, escorado na lateral
do carro, meu algoz me esperava como prometido.
— Vamos. – Sinto a
mão de Drew pegando a minha, e se aproxima de meu rosto e sussurra. – Eu estou
aqui, nada vai lhe acontecer. Confie em mim. – E me beija. E encara-o
Então consigo me
mover. Mas sinto seus olhos me fuzilarem. Consigo sentir a raiva roendo seu
interior. E ela será toda direcionada a mim. Eu sofrerei as consequências do
afronte de Drew a Taylor. Ele não deixará passar em branco. Entro no carro,
Drew na direção. Eu pareço uma gelatina, o corpo todo treme. Ele liga o carro e
partimos. Meu destino está selado.
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