quinta-feira, 28 de maio de 2020

Livro 1: Calma Paixão - Capitulo VIII

Ao me ver caindo no chão, Penny se assusta e solta um grito correndo em minha direção. O que eu não sabia era que Adam estava em casa. Tinha ido passar a noite com ela.

— Emm, pelo amor de Deus, o que aconteceu? Me diz. O que houve?
— Ele... ele... ele... me bateu.
— Drew lhe bateu?!?!? – Foi então que percebi a presença de Adam na sala. – Não pode ser. Ele não é disso.
— Não foi Drew. Foi Taylor. – Penny o tranquiliza. – Venha querida, vamos para o quarto. – Ela e Adam me levantam. Ele me carrega no colo e me deposita com todo cuidado na cama.
— Amor, nos deixa a sós? – Ouço a ternura na voz de minha.
— Vou pegar um copo com água para ela.
— Obrigada. – Ele sai.

Enquanto me desfaço em lágrimas, sinto o toque leve das mãos dela em meus cabelos. Ouço meu celular tocando. Chegou uma mensagem. Penny pega e verifica de quem é.

— É de Drew. Quer que leia? – Apenas concordo com a cabeça. – “Não sei o que aconteceu, mas se foi algo que disse peço perdão. Quero que fique bem. A propósito, cheguei em casa em segurança. Dorme com os anjos, meu anjo.” Quer que lhe responda algo? – Novamente assinto com a cabeça. – “Não se preocupe, não foi nada que me disse. Fico feliz que chegou em segurança. Durma você também com os anjos.”  Tá bom? – Não consigo dizer uma só palavra. Apenas balanço a cabeça. Adam entra com a água, entrega o copo a Penélope.
— Quer que eu vá para casa?
— Não precisa. Já é tarde. Fica aí mesmo. – Ele volta para o quarto dela.

Não sei por quanto tempo ficamos assim. Eu chorando e ela alisando meu cabelo e segurando o copo. Quando notei que ela segurava um copo com água, ergui-me e o peguei. Comecei a beber daquele líquido como se fosse lavar meus pensamentos.

— Quer conversar? – Ela me perguntou com todo carinho e doçura que uma irmã poderia transmitir.
— Quando você estava para vim para Nova York, eu quis me despedir. – Comecei a relatar, entre soluços - Apesar de estarmos estremecidas, queria me despedir de você. Era um final de semana, dia de jogo. Pedi para irmos comer uma pizza no Mamma’s, como desculpas para poder me encontrar com você. Ele se alterou, gritou – Paro de falar, coloco a mão no lugar onde o tapa pegou – não pude mais sair. No dia seguinte, me pediu desculpas, que tinha perdido a razão, que eu tinha provocado mais uma vez, sabia que ele não gostava de você e que você não gostava dele, pensei em dizer que não era aquilo, que ele estava enganado, mas sabia que podia piorar as coisas. Prometeu que aquilo não iria mais acontecer. Fiz o almoço e no final da tarde, voltei para casa como era de costume. Juro Penny, que quis me despedir, quis mesmo, ele não deixou. Ele não deixava que eu fizesse as coisas. – Recomeço a chorar.
— Eu sei que você quis. E você foi, meu amor. Você se despediu de mim. Escondido dele. Sua vó arrumou nosso encontro e você se despediu, não lembra?
— Não. Não me despedi. Você foi embora naquele fim de semana.
— Emm, isso foi um mês antes de eu vim para cá. Foi antes do final do ano. Eu vi você chegando em casa com o rosto muito maquiado, mas dava para ver a mancha.
— Foi?
— Ele tentou nos separar, mas não conseguiu. Estamos aqui, realizando nossos sonhos, morando juntas, formadas, trabalhando em empresas de renome. Ele não os afetou.
— Não lembro de ter me despedido de você.
— Agora se acalme e me diga o que gerou isso? Por que esse canalha atrapalhou sua noite?
— Não lembro. Estava sentada à mesa com Drew falando sobre nossas escolhas profissionais. Entramos em algum assunto sobre homens e mulheres, não lembro ao certo. Daí só lembro que estava no banheiro e uma garçonete me chamando que havia um cavalheiro preocupado comigo do lado de fora. – Solto um riso irônico - Um cavalheiro preocupado comigo! – Rio novamente - Nunca houve!
— Você estava sim com um cavalheiro, jantando e ele estava e está preocupado com você, achando que disse algo que a magoou. Veja. – Ela me mostra a mensagem que ele enviou.
— Não lembro disso. – E aponto para a mensagem de resposta
— Isso fui eu. Tinha que deixá-lo mais tranquilo. – Ouço baterem na porta.
— Desculpa. Mas alguém descobriu que estou aqui e quer saber notícias.
— Eu mandei uma mensagem dizendo que ela estava bem.
— Eu sei. Mas ele não acreditou.
— Diga-lhe que amanhã estarei sentada em minha cadeira trabalhando normalmente.
— Acho que ele não está preocupado com a gerente geral. E não senhora, amanhã a senhora não irá trabalhar. – Respondeu Adam.
— Adam, vou lhe dizer o que já disse a muita gente nos meus piores momentos. Meus estudos e trabalho são minhas terapias. Eu estarei sim no escritório.
— Tá, não vou discutir. Mas não vai adiantar eu mandar mensagem.
— Então liga. – Sugeriu Penny – Pera aí! Como ele descobriu que você estava aqui?
— Eu meio que liguei para ele, depois que ela entrou chorando e dizendo que ele bateu nela.
— Eu. lhe. disse. que.  não. havia. sido. Drew.
— Eu sei. Queria saber se esse tal Taylor estava no restaurante. Se eles haviam encontrado alguém.
— Tá. Tá. Liga para ele e diga que ela está bem. – O interfone toca. – Não me diga que...
— Ele chegou. – Adam completou a frase de Penny, meio que sem graça. Enquanto eu ouvia a discussão dos dois, meio que alheia ao que estava acontecendo ao meu redor.
— Quem chegou?
— Querida, Adam, bocão, fez uma pequena cagada, e Drew está lá embaixo. – O interfone toca novamente.
— Meninas, o cara está lá embaixo, já são quase meia noite, é perigoso.
— Deixo-o entrar. – Respondo meio que no automático, sem ter certeza do que faria.
— Tem certeza? – Penny me pergunta.
— Ele já tá aí, não vai embora até me ver bem. Então deixo-o entrar. Vou ao banheiro, me organizar. Vendo que estou bem, quem sabe ele volta para Manhattan.
— Mas você não está bem.
— Já tem gente demais sabendo disso. E passei 4 anos de minha vida disfarçando meus sentimentos para quem me conhecia. Acha que não sou capaz de enganar a ele? – Entro no banheiro, lavo bem o rosto, faço uma maquiagem leve, muito natural, mas que disfarça o rosto de choro. Penny e Adam estão na sala esperando que ele entre. Ouço do quarto, a voz dele, percebo a preocupação nela.
— Onde ela está? Como ela está? Quem é esse tal de Taylor?
— Deus! Como Adam é bocudo! – rebate Penny. – Não podia ter feito apenas o que eu lhe pedi?
— Eu fiz. Fui para o quarto, deixei vocês a sós. Só que também me preocupei...
— Se preocupou por nada, né Adam? – Entro na sala, como se tivesse acabado de sair do escritório.
— Como assim, por nada? Esqueceu que caiu aos prantos...
— Adam, você já fez demais por hoje. Vamos para o quarto. – Penny o puxa em direção aos quartos, mas quando passa por mim fala baixinho – Ele não é Taylor, e está realmente preocupado com você. Confie em mim e confie nele. Não se esconda embaixo dessa maquiagem. Não lhe fez bem e não lhe faz bem.
— Eu sou forte o suficiente para suportar isso tudo sozinha. Diga ao Adam que da próxima vez ele perde a gerente geral.
— Venha comigo agora. Adam. Mudanças de plano. Fique com Drew. – E sou puxada para o quarto por ela. – O que você está pensando em fazer?
— Você acha que eu vou chegar para um estranho, um HOMEM que conheci a dois dias e me abri? Depois de tudo que passei?
— Esse HOMEM que você conheceu a dois dias, se jogou da casa dele até a sua, depois de você ter um blackout num banheiro de restaurante sem lhe dizer nada, achando que era o culpado, só porque soube que alguém lhe bateu. Detalhe isso ocorreu a 8 anos. Não acha que ele deve saber de alguma coisa?
— Deixe-me falar com ele. Cuide de Adam
— Tudo bem. Você é quem sabe. – Saio do quarto em direção à sala.
— Adam, você nos dá licença?
— Desculpa me meter, mas eu realmente me preocupei. – diz ao passar por mim.
— Por favor, sente-se. Desculpa o alarde de Adam, embora nos conheçamos a alguns anos, ele ainda não sabe de muita coisa sobre mim. Posso lhe oferecer algo?
— A verdade seria bom.
— Mas não estou contando nenhuma mentira. Muito pelo contrário, você hoje soube mais do meu passado que Adam nesses anos que convivemos.
— Então me conte o que houve naquele banheiro. Quem estava lá que lhe bateu?
— Ninguém me bateu no banheiro. O que aconteceu lá, eu realmente não lembro.
— A garçonete me disse que você estava parada olhando fixamente para o espelho com a mão no rosto e chorando. E vai me dizer que não aconteceu nada.
— Eu não disse que não aconteceu nada. Disse que não me lembrava. E que ninguém havia me batido.
— Por favor, Emily! Você entrou em casa gritando que eu havia batido em você.
— Não. Eu disse que ELE havia me batido. Não disse seu nome, nem que tinha sido você.
— Foi esse Taylor. – Abaixo a cabeça, coloco a mão no rosto novamente e balanço positivamente. – E quem é ele? Onde ele estava no restaurante? E por que não me disse quando saiu do banheiro?
— Taylor é meu ex. Ele não estava no restaurante. Ele... – respiro fundo – ele... – tento falar, mas não consigo.
— Ele lhe agrediu? – Começo a chorar baixinho. Drew se aproxima de mim e me abraça. – Pega um pouco de água para ela. – Levanto a cabeça e vejo Penny estava nos observando da porta do quarto. Ela se dirige à cozinha, pega a água e um remédio.
— Melhor tomar seu calmante, caso contrário, não dormirá. Tome.
— Que remédio é esse? – Ele perguntou
— Um calmante natural que o médico receitou para quando estivesse assim, agitada.
— Melhor levá-la pro quarto. – Eles me levantam do sofá e novamente sou carregada até minha cama, onde sou colocada com muita delicadeza. – Penny, se importa se eu ficar com ela?
— Querida? – Concordo com a cabeça – Fique à vontade então. Ali é o banheiro, a cozinha já sabe onde é.
— Obrigado.

Ele tira a camisa que estava usando, o cinto e o sapato, ficando de calça e camiseta. Deita-se em minha cama e me coloca em seu peito e começa a alisar minhas costas, num gesto carinhoso e delicado. Deposito minha cabeça e uma de minhas mãos em seu peito, mesmo meio dopada pelo remédio e de tanto chorar, pode sentir o peitoral e abdômen bem definidos. E aquele perfume! Que perfume delicioso!

— Anjo, pode confiar em mim. Jamais lhe farei mal. Nem permitirei que lhe façam.

Essas foram as últimas coisas que ouvi e que me lembro. Acordei com o despertador tocando. Estava na mesma posição que adormeci. Melhor, estávamos. Coitado! Irá acordar todo dolorido. Levanto-me com todo cuidado para não despertá-lo. Paro enfrente a cama e o observo. Aquele homem lindo, cheiroso, atencioso, saiu de sua casa para ver o que tinha acontecido comigo. Penny tinha razão, ele não é igual a Taylor. Ele começa a despertar.

— Bom dia, anjo! – Cumprimento-o
— Bom dia, anjo!
— Deve estar todo dolorido. Vou pegar um comprimido
— Não precisa. Não estou sentindo dor alguma.
— Jura?
— Tenho certeza.
— Vou tomar um banho e logo preparo nosso café, tudo bem?
— Fique à vontade. A casa é sua.
— Rapidinho. Enquanto preparo o café você toma o seu.
— Não se preocupe comigo.
— É o mínimo que posso fazer, depois de ontem. – Respondo entrando no banheiro. Minutos depois, saio já vestida pro trabalho, entrego-lhe a toalha e dirijo-me à cozinha.

— Bom dia, minha querida! Como se sente? – Adam estava sentado no sofá
— Bom dia! Envergonhada, mas bem.
— Emm, me desculpa por ter ligado para Drew. Mas estava muito preocupado. Não podia imaginar, conhecendo-o como conheço, alguém lhe batendo e ele não fazendo nada. Só depois foi que liguei o nome a história, mas já era tarde.
— Tudo bem. Meu terapeuta sempre diz que segurar esse segredo por tanto tempo não me faz bem.
— Você faz terapia?
— Bom dia, né cara!
— Bom dia, a todos. Tá bom assim?
— É mais educado. Sei que sua mãe lhe ensinou direitinho.
— Então. Respondendo sua pergunta. Faço. Desde os 12 anos. Por causa do acidente com meus pais.
— Mas não foi aos 9?
— Mas só deu curto aos 12, na entrada da adolescência.
— E conheceu o mané.
— Penny, por favor, falar dele agora de manhã não.
— Tudo bem. Mas que ele é um mané, ele é.
— Vamos tomar nosso café em paz, falando de coisas agradáveis. Como, exemplo, Sra. Scott.
— Fala sério? Qual foi dessa mulher de novo?
— Essa senhora Scott é a da reunião de hoje? - pergunto
— Isso. Ela quer mudar todo o layout da cozinha novamente.
— Jura? Isso atrasa o projeto em quê? 15 dias?
— Não. 15 dias já estamos. 45 dias.
— O quê?!? – Adam quase grita.
— É cara! Juntando todas as modificações e essa, coloque aí mais, pelo menos, 45 dias.
— Isso é inaceitável. – Adam parece incrédulo.
­— Estamos falando de algum prejuízo para a firma? – Pergunto novamente.
— Isso vai depender do novo layout. Se podermos reaproveitar as instalações hidráulicas e elétricas, talvez, e eu frizo esse talvez, não.
— Que delícia!! Se soubesse que nos dariam tanto trabalho não havia aceitado o serviço. – Diz arrependido Adam.
— Pensei que o projeto fosse de Drew. – Estranho a afirmação de Adam.
— Era para ser meu. Como já estava com minhas equipes ocupadas passei para ele.
— O presente de grego! Muito meu amigo.
— Queria ter mais conhecimento do assunto. Por isso, trago para casa aquela pastinha que você me fez deixar ontem no escritório. Agora terei que estudá-lo na hora do almoço para a reunião. Ou seja, não almoçarei direito.
— Você tem todos nossos projetos na pasta?
— Alguns. Quando solicitou uma reunião nossa com eles, pedi para que Gab transferisse o arquivo para o Ipad.
— Vocês vão se reunir com eles hoje? Por que não fiquei sabendo?
— Porque essas reuniões agora são da minha responsabilidade. Para isso me contrataram.
— Perfeito!
— Por falar em trabalho, estou no meu horário. Vocês vão daqui direto?
— Vou deixar Pen no escritório e de lá vou visitar uma obra. Só chego no meio da manhã.
— Ainda está cedo. – Disse Drew
— Chego sempre uma hora antes.
— É mesmo! Gabriel me disse ontem. Eu ainda vou passar em casa, trocar de roupa. Você pode ir comigo.
— Tudo bem. Só vou pegar minha bolsa e o blazer.
— Para que o blazer? Tá linda assim.
— Por causa do ar condicionado. Vamos? Penny, querida, já estamos indo. Adam, desculpa por ontem.
— Estamos quites, ok? – Ele dá uma piscadela que retribuo. E saímos.

A viagem até o apartamento de Drew foi feita em silêncio. Eu não queria tocar no assunto da noite passada. Sentia-me envergonhada. Tanto pelo meu comportamento no restaurante quanto pelo meu passado. Não queria que pensasse que eu era fraca, não sou. Não queria que ele achasse que aceitaria aquele comportamento abusivo novamente. Pois não aceitaria. Taylor tirou o que havia de melhor de mim naquela época. Destruiu toda boa imagem que eu tinha de mim mesma.
Chegando no prédio onde Drew morava, enquanto ele subiu até seu apartamento para se trocar, preferi ficar no carro, ouvindo música e com meus pensamentos.

“Acordei estava em um quarto de hospital. Não sabia como havia chegado lá. Lembro-me que depois de mais uma briga séria com Taylor, dele ter me empurrado e eu ter caído sobre a mesa de estudos no quarto dele, ter ficado um tempo desacordada, esperei chegar meu horário de ir para casa, com uma dor dilacerante no local da pancada, fui para casa. Não me lembro o caminho. Lembro de ter entrado em casa. Daí até a hora que acordei, é um espaço em branco.
— Que bom que você acordou, querida! – Se alegra minha vó
— Vó o que estou fazendo aqui?
— Você desmaiou quando entrou em casa, não lembra?
— Não. Não lembro de ter chegado em casa.
— Como não?!? Vou chamar o médico. – E sai em direção à estação das enfermeiras. Não demora muito e ela volta, acompanhada do plantonista.
— Pois é, doutor. Ela diz que não lembra como chegou em casa.
— Senhora, isso não é incomum. Devido ao trauma que sofreu na cabeça.
— Trauma na cabeça?!?
— Isso Emily. Você deu entrada no pronto socorro desmaiada com um nódulo na parte posterior da cabeça. Você lembra como conseguiu isso?
— Ontem, eu... sofri...- estava procurando uma forma de falar que não denunciasse que Taylor havia me empurrado contra a mesa – um acidente na casa de meu namorado. Tropecei no tapete e bati a cabeça numa mesa.
— Você tropeçou de costas?
— Foi, Nana! Eu tropecei no tapete.
— O hematoma condiz com a história dela. Vamos mantê-la sob observação por hoje, já que desmaiou e está com esse lapso de memória. Mas não há de ser nada.
— Vai me contar essa história direito ou terei que ir até lá perguntar àquele moleque o que ele fez com você?
— Vó já disse, estava sozinha no quarto arrumando minha mochila, andei de costas para pegar algo no chão, tropecei e caí. Foi só isso.
— Amiga! Você está bem? O que aconteceu?
— Tropeçou e caiu de costa numa mesa na casa do moleque. – Nana contou com um tom de quem não acredita.
— Aquele imbecil, te bateu? – Bravejou James
— Não tio! Eu tropecei mesmo – respondi quase chorando – Por que não acreditam em mim?!?!?
— Primeiro, porque a história é estranha. Segundo porque não seria a primeira vez que mente para protegê-lo. – Nana responde e começo a chorar.
— Deixem-na. Não vem que ela não está bem. – Reclama Penny.
— O que o médico disse?
— Que precisam observar para ver a evolução do quadro. Ela não lembra como chegou em casa
.
Algumas horas depois, de porte da tomografia que fiz quando dei entrada no pronto socorro, o médico diz que poderia vir a ter casos de lapsos de memória nos próximos dias, enquanto o hematoma perdurar. Mas não nos preocupássemos porque logo passaria. Receitou alguns remédios para as dores de cabeça e pro inchaço, e me liberou.”

Desde então, toda vez que fico emocionalmente abalada, independente da intensidade, sofro esses lapsos. Foi exatamente o que aconteceu na época que Penny veio morar aqui e tantas vezes antes disso e depois e ontem a noite.

Drew entrou no carro que nem percebi. Não sei porquê, mas essas lembranças ultimamente estão mais frequentes. Isso mexe muito comigo. E o pior é que não estou conseguindo disfarçar. Drew pergunta se está tudo bem, minto dizendo que sim. E partimos para mais um dia de trabalho.

Quando chegamos no escritório, agradeço a carona quando descemos no 35º e me dirijo para meu escritório.
— Bom dia, Gab! Estou atrasada, não?
— Depende, no seu horário ou no oficial?
— Tá entendi! Vamos começar? – Digo abrindo a porta e paro estatelada – Nossa como está linda! Antes de entrar, por favor Chame Lisa aqui para mim.
— Certo, já estou indo.

Entro, ligo o computador, abro minha pasta, pego o Ipad e começo a ver o contrato e o projeto dos Scott. Lisa entra:

— Chamou?
— O que você fez aqui?!?!
— Não gostou? Pensei que estivesse de acordo?
— Ficou muito melhor do que eu tinha percebido ontem quando saí! A sala está maravilhosa! Muito obrigada.
— Que susto! Que bom que gostou. Era só isso? Me matar do coração?
— Não. Jantar sexta, lá em casa.
— Não. Sexta você tem um jantar com Drew.
— Ele pode ir também. Farei um jantar para vocês. E não aceito não.
— Podemos começar? – Gab entra.
— Gab, você também, jantar sexta no Brooklyn. Em minha casa. Vamos começar.
— Tchau, vou ver o projeto dos Scott para nossa reunião.
—Bye! Então, nós temos um modelo de contrato?
— Temos um modelo geral que os líderes alteram alguns detalhes para encaixar as exigências dos clientes. Quer ver? – Aceno com a cabeça. Gabriel abre uma pasta no ipad e me passa.
— Fora as duas reuniões, o que temos mais? – Gab me deixa a par do que temos, graças a Deus só algumas ligações para fornecedores, que farei imediatamente e terei tempo livre para estudar para a reunião com as equipes e os Scott. Meio-dia, peço para Gabriel me providencie o almoço e agende uma reunião de urgência com os sócios, para antes da reunião com as equipes do projeto Scott.

— Emm, a sala de reunião está pronta. – Gab me alerta que é chegada a hora da primeira reunião das três que tenho hoje.
— Obrigada, Gab. – pego minhas anotações e me dirijo para lá. Entrando na sala encontro, Adam, Ashley e Drew. Artie estava em visita a obras. Não havia chegado ainda.
— O que houve para pedir essa reunião de urgência? – Indagou de imediato Adam.
— Pessoal, devido o problema no projeto Scott, dei uma olhada no contrato da obra e algo me chamou a atenção.
— E o que foi? – Questionou Ash
— Os contratos de vocês beneficiam unicamente o cliente.
— E não tem que ser assim?  — Adam estranho meu comentário
— Unicamente não. Tem que beneficiar ambos. Não podemos sair prejudicados. E pelos contratos vigentes, estamos sendo muito prejudicados. – Drew estava estranhamente calado. Podia perceber seu olhar fixo em mim, mas não falava nada. – De acordo com o modelo de contrato que temos, sempre sairemos no prejuízo, pois nos condena em caso de atraso.
— Mas nossa marca é a entrega do serviço no prazo. – Ash ressaltou.
— Maravilhoso! Mas quantas das obras atuais serão entregues no prazo? – Eles se entreolham – Por alto, lhes digo 10. Cada um de vocês, tem pelo menos, 2 projetos em atrasos. As multas que pagaremos são exorbitantes. O caso do projeto Scott, por exemplo, já está nos dando prejuízo.
— Mas isso não é nossa culpa. A cliente está alterando o projeto toda semana. – Defende-se Drew
— Nem estou dizendo que é nossa culpa. Estou dizendo que é culpa do contrato que vocês assinaram.
— Ótimo! – Interrompe Adam – O que podemos fazer agora?
— Melhorar para os próximos contratos. Acrescentando clausuras que nos protejam de casos como esse.
— O que está sugerindo? – Ash interroga
— Que peçamos ao advogado da empresa que o refaça. Simples assim. Os que já foram fechados, está fechado, precisamos recuperar o tempo atrasado e cumprir os prazos.
— Falar é fácil para quem está atrás de uma mesa. – Diz Drew com um tom agressivo que causa estranhamento em todos.
— Drew?!? O que é isso? – O repreende Artie, entrando na sala
— Você ouviu o que ela disse? Você tem noção o que teremos que fazer para cumprir o prazo de, pelo menos, 10 projetos em atrasos, como você disse?
— Claro que sei. Não faria meu trabalho, trabalho para o qual fui contratada por vocês para fazer. Gerenciar os riscos dos contratos. Sei perfeitamente que isso acarretaria em mais horas de trabalho para todos das equipes, contratação de pessoal extra, arquitetos, engenheiros e decoradores trabalhando quase que simultaneamente. Teremos custos? Teremos. Mas serão menores que as multas por atraso. É isso que será necessário. Isso é claro, se não quisermos tomar mais prejuízos que já tomamos. – Falei, especialmente para Drew, no mesmo tom dele, dura e seca. – Eu não acordo cedo para brincar e nem brinco de administrar. Eu faço meu dever de casa. Mas reforço, essas são as minhas recomendações. Cabe a vocês decidirem.
— Tá, não temos advogado. – Artie informa
— Como assim, não tem advogado? Quem criou os contratos?
— Nós e o Tim. – Respondeu meio que sem jeito Adam
— Tim, o contador/”administrador”? Vocês estão de brincadeira?
— Não. – confirmou Ash
— Pois precisamos de um. Mas isso pode esperar um pouco. Temos que determinar o que fazer com as obras que já iniciamos para minimizar o prejuízo, principalmente o dos Scott.
— O dos Scott não sei se tem como salvar. – Disse Ash. – Ela quer que movamos a pia da bancada atual para a do lado esquerdo da cozinha, onde tem uma janela.
— Mas a pia está embaixo de uma janela.
 - Drew rebate
— Eu sei. E uma janela maior, mas segundo ela, do outro lado tem uma vista mais bonita.
— Ela está errada. – Rebate novamente.
— Drew, eu sei. Eu fiz o projeto da casa, lembra?
— Eu sei. Não precisa jogar em minha cara.
— Pera, vamos fazer o seguinte: vamos deixar essa discussão para a reunião com Phill. Acho que por agora, vocês precisam se sentar com seus arquitetos e engenheiros e ver o que podem fazer para reverter esse quadro, para melhorar esse quadro. – Alerto.
— Emily tem razão. Vamos nos reunir com nossas equipes e quebrar nossas cabeças. – Ash concordou
— Cara, o que deu em você? – Adam questionou Drew – Parece que dormiu de calça.
— Deixa de palhaçada, Adam.
— Tá azedinho, hein? – Ouço a conversa deles enquanto peço a Gab para chamar Phill, para discutirmos a situação.

O humor de Drew só piora no decorrer da segunda reunião. Não sei o que deu nele. Mal fala e quando fazia, era grosseiro. Ashley o tempo todo tentando contornar o mal humor dele. Mas não consegui. A mim, não dirigiu mais nenhuma palavra. Antes da reunião com os clientes, Ashley o chamou num canto e conversou com ele. Não sei o que conversaram, mas ele pediu desculpas e se retirou antes de começarmos. Ash pediu desculpas pela ausência dele aos clientes, me apresentou e demos início a reunião. Depois de quase duas horas de reunião conseguimos convencê-la de não fazer aquela alteração na cozinha, deixar a ilha e a pia no mesmo lugar, entendeu que quanto mais ela mexesse no projeto depois de iniciarmos as obras, atrasaria ainda mais o prazo de entrega. Ao final, conseguimos não só permanecer com o projeto original da cozinha, como convencê-la a não mais alterá-lo. Volto para minha sala, arrumo minhas coisas e ligo para a empresa de taxi e volto para casa.

Não falei mais com Drew ou os outros sócios no restante da semana. Mandei uma mensagem para eles convidando-os para o jantar em minha casa. Todos confirmaram, exceto Drew.

***

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