Amanheci hoje com dor. Mesmo
assim me arrumei e vim para o trabalho. Pensei que fosse coisa boba. Pois vai e
vem. Já tive essa mesma dor mês passado, liguei apavorada para minha médica e
ela mandou que fosse imediatamente para o hospital. Poderia estar entrando em
trabalho de parto. Mas depois de examinada, descobrimos que estava tendo as
contrações de Braxton Hicks. Embora comum na transição do 2º trimestre para o
3º, as minhas vieram um pouco tardia. A Dra. Kai me informou que poderia tê-las
novamente. Imaginei que fossem.
As dores embora constantes,
eram muito espaçadas pela manhã. No princípio da tarde elas se intensificaram.
Quando elas vinham, segurava para não gritar. Ainda estava pensando nas
benditas contrações. “Isso é alarme falso. Isso é alarme falso. Logo passa”
insistia em me dizer. Numa dessas contrações, Nola entrou em minha sala com uma
pasta com o relatório que havia lhe pedido.
— Que cara é essa, Emm? –
perguntou assustada.
— Estou com ... argh ... aquelas
contrações... argh ... novamente. – Entre um gemido e outro respondo
— Não me parecem falsas dessa
vez. – Ela constatou
— São sim. Ainda não é hora. –
Respondi
— Emm, você já está
praticamente no nono mês. Seus bebês se comportaram muito bem. Acho que agora
eles querem sentir o abraço da mamãe deles. Vou chamar uma ambulância.
— Chaaaa... maiiiiiii! –
Misturei a gemida da dor com o pedido – Não tô aguentando mais. Se forem
falsas, eles me medicarão.
Os paramédicos chegam, me
examinam, dizem que não acreditam ser as contrações de Braxton Hicks, me
colocam na maca e me levam para o hospital. Antes de sair, peço para uma de
minhas assistentes reservarem um voo para minha vó e ligarem para ela e
preparassem alguém para ir buscá-la. Geralmente quem faria isso seria Nola. Mas
ela está indo comigo. Chego no hospital, sou internada. Dra. Kai chega logo
depois.
— Virou médica desde nossa
última consulta?
— Oh, Lani! Não briga agora
não!! Não tenho condições!! Aiiiiiiii!
— Qual o espaçamento?
— A cada dois minuto desde que
saímos do escritório. – Nola responde
— Vamos ficar atentas. Esse
casal não demora a vim fazer bagunça aqui fora.
Ela sai do quarto. Ficamos eu
e Nola. Trinta minutos depois de minha entrada no hospital, ainda estou
sentindo muitas dores, Lani já esteve aqui 2 vezes para ver minha dilatação.
Ainda falta muito para o parto normal. Alguém bate na porta.
— Olá! É aqui que tem duas
crianças apressadas? – Derek entra no quarto
— Não. Mas tem duas crianças
maltratando a mãe. Serve? – Digo entre dentes.
— Não diga isso. – Ele me
corrige – Para você. – Me oferecendo um buquê de lírios brancos. As minhas
flores favoritas
— Juro que quando para...
Aiiiiiiiiiii – grito de dor – lhe agradeço devidamente. – Quando a dor passa.
— Então como estamos? Olá, Derek!
– Lani entra na sala. Derek acena com a cabeça.
— Por favor, Dra. me alivia a dor! Me dá alguma
coisa! – Suplico
— Prefiro esperar. Vamos ver!
– E ela faz o exame. – Ainda não tem dilatação suficiente.
— Dra. ela está com muita dor.
É normal? – Nola pergunta – Já acompanhei os partos de minhas cunhadas e
nenhuma foi assim.
— O trabalho de parto é
diferente de mulher para mulher. Mas vou pedir um ultrassom só para me
certificar que está tudo bem com os bebês. – Aceno com a cabeça.
Quando a dor alivia um pouco
pergunto a Nola se conseguiram falar com minha vó. Ela diz que conseguiram, mas
não acharam voo direto. Ela falou também com Steph, que mandou o jato da
empresa buscar minha vó e os tios. “Deus muito obrigada por ser tão bom
comigo! Uma chefe como Steph não existe. Tenho certeza disso!” Faço uma
oração mental.
— Eles estão pousando no final
da tarde. E Derekse disponibilizou a pegá-los. – Olho para ele e agradeço.
A Dra. volta com uma equipe e
o aparelho de ultrassom. Começa o exame.
— Não estou gostando de sua
expressão, Lani! – Ela para o exame
— Mandem preparar a sala de parto.
Emm, vamos precisar fazer uma cesárea. A Trixie está muito enrolada no cordão
umbilical que é curto e é a primeira da fila. Não vou mentir, corri risco de
sufocamento.
— Meu Deus! Minha menina! –
Começo a chorar
— Ei, calma! Vai tudo terminar
bem! – Derek se aproxima e segura minha mão, a acaricia e me dá um beijo terno
em minha testa. – Ela é guerreira. Assim como a mãe dela.
Suas palavras me acalmam. Sou
levada para o centro cirúrgico. Vejo todos ao meu redor. O medo me aflige,
quero alguém ao meu lado. Antes de me anestesiarem, grito:
— Lana. espere!
— O que foi? Não temos muito
tempo.
— Pede para alguém chamar o Derek
para mim, por favor! – Ela faz um sinal com a cabeça, olho para o lado e uma
das enfermeiras sai.
— Podemos agora? – Concordo
com um gesto da cabeça.
Algum tempo estou com os olhos
fixados no teto da sala. Luzes por todos os lados. Os bipes do aparelho que
monitora meus sinais me levam para longe. Sinto alguém segurando minha mão,
olho para o lado e vejo apenas aquelas duas bolas azuis acinzentadas como num
dia nublado. Mas elas me tranquilizam. Ele faz um sinal de positivo com a
cabeça, repito o gesto.
— E minha vó?
— Nola e eu iremos buscá-los, só
chegam no final da noite. Por enquanto, não irei a lugar algum. – Ele me
informa. – Ficarei ao seu lado.
Ouço o primeiro choro. Forte e
alto.
— Olha quem chegou! – Derek fala
enquanto espia o bebê na mão de Lani – Nosso Bennie tem um grito poderoso! –
Sorrio ao ouvi isso
— Está tudo bem com ele?
— Está sim! – Lani me responde
enquanto a enfermeira me entrega Bennie
— Oi, meu anjo! Seja bem
vindo! Mamãe te ama muito! – Seguro a mãozinha dele. Tão pequenina! Mas tão
forte!
— Vou limpá-lo. E já ele
volta. – Aceno com a cabeça. Recebo outro beijo terno na testa de Derek
— Ele é lindo! – Ele elogia
meu anjinho.
— Com cuidado! Vamos movê-la
um pouco para cá!
Ao ouvir a voz de Lani olho
assustada para Derek. Ela está tentando tirar minha Trixie. Como será que ela
está? Derek parece atento ao que está acontecendo na região de minha barriga.
Sinto um puxão, como um vácuo. Não consigo explicar.
— Vamos, Trixie! – Ela saiu de
mim, mas não ouço seu choro.
Olho para Derek, parece que
ele não respira. Aliás, a sala toda está em silêncio. Um longo silêncio.
Quebrado de vez em quando pela voz da doutora implorando para que ela desse
algum sinal. Nada! Olho para um lado, olho para o outro. Não vejo nada.
Continuo ouvindo vozes, mas agora distante. Derek se põe de pé. Só agora
percebo que esteve agachado esse tempo todo. Quero perguntar, mas a voz não
sai.
— Vamos, Trixie! Bennie e
mamãe estão esperando você! – Ouço a voz doce do pediatra conversando com minha
anjinha.
“Deus não permite isso! Salva
minha bebê!” – Fico repetindo isso mentalmente.
De repente um choro estridente
e alto rompe o silêncio na sala. Derek respira aliviado. Eu começo a chorar
alto.
— Quero ver minha filha! –
grito repetidas vezes até que a me entregam. Seguro sua mãozinha. Beijo sua
face inúmeras vezes. – Não faça mais isso com sua mãe, filha, por favor! – A
enfermeira tenta tirá-la de mim, não deixo.
— Emm, ela precisa ser limpa,
depois eles a trazem junto com Bennie. – Derek fala comigo.
— Promete que não vai
acontecer mais nada com ela?
— Sabemos que “mais nada” é
impossível de prometer. Mas prometo que hoje nada vai acontecer. – Ele me
responde e libero minha menina.
Enquanto a Dra. fecha minha
barriga, trazem os dois para meus braços. Estão lindos, enrolados na mantinha
do hospital. De relance vejo a cor dos olhos deles. Azuis muito claros. Os dois!
Puxaram os olhos do pai. E não só isso. Vejo muitos traços dele neles. Tiram
eles novamente de meus braços. Sou levada para o pós-operatório e Derek sai do
meu lado pela primeira vez.
Quando chego em meu quarto,
ele estava lá. Sentado numa cadeira ao lado da cama. Estão ele e Nola esperando
que eu chegasse.
— Steph ligou e para lhe
parabenizar pelo nascimento dos meninos. – Nola me informa.
— Já viram eles? – Pergunto
depois que sou colocada na cama. Todos acenam com a cabeça
— São os bebês mais lindos do
berçário! – Nola baba os sobrinhos do coração.
— Quando poderei vê-los? – Pergunto
a Lani assim que ela entra.
— Eles estão em observação,
principalmente Trixie. Amanhã cedo se tiver tudo certo com eles, os trarão até
você.
Ainda estava meio sonolenta
por causa da anestesia, logo voltei a dormir. Nola me fez companhia durante a
noite. Na manhã seguinte, sou acordada por Nana, me beijando a testa. Abro o
olho e a vejo junto com tia Sam e tio James e Derek.
— Bom dia! – Cumprimento-os – Já
foram vê-los?
— São lindos meus bisnetos
— Também! Com os pais que têm,
só podiam ser lindos! – tia Sam se toca da presença de Derek. – Desculpe.
— Não se preocupe – Ele
responde – Do pai não posso afirmar nada, mas se puxaram à mãe, serão ainda
mais lindos do que já são! – Fala olhando para mim.
— Como está minha paciente? –
Lani entra com um sorriso no rosto.
— Dra., boa dia. Sou a vó
dela. Eles ficarão muito tempo internados?
— Não. Praticamente sairão
junto com Emily. Eles são, o que chamamos de, pouco prematuros. A gestação
deles foi de 36 semanas, se eles tivessem nascido semana que vem, por exemplo,
não seriam prematuros. Então, se tudo estiver bem com eles, ganharem um
pouquinho mais de peso, podemos estimar que em cinco dias eles recebam alta.
— Tudo isso, Lani?
— Deixe de ser afobada. – Nana
me repreende – Você esperou 36 semanas para tê-los em seus braços, poderá
esperar mais 5 dias.
— Nana! Agora sou mãe. Não
pode mais falar comigo como se fosse adolescente.
— Não só pode, como irá
continuar. – diz tia Sam – Assim como eu e James. Então, avisaram a Penny do
nascimento?
— Nem da gravidez. – Respondo
meio envergonhada.
— Você só pode estar brincando
comigo? – Outra vez a voz de repreensão e aceno negativamente com a cabeça. –
Quer dizer que abriu mão da amizade dela por um capricho besta?
— Vó, não é capricho nem besta
e muito menos renunciei à amizade dela. – Falei em um tom mais severo que o de
costume, então respiro fundo e continuo. – Apenas preferi proteger meus filhos.
– Meu jeito de falar fica mais doce e calmo.
— Nossa! Drew virou o monstro
do lago Ness. Ou pior, virou Taylor.
— Para, vó! – Grito com ela –
A senhora não tem esse direito. – Começo a chorar.
— Acho melhor deixarmos Emily
descansar. Foram muitas emoções ontem e ela ainda não se recuperou. – Sugere
Lani. – Quem a acompanhará durante o dia. - Olho para Nola e Derek. Não quero
que minha vó nem os tios fiquem. Não estou emocionalmente preparada para ter
qualquer conversa sobre Penny e Drew.
— Eu ficaria, mas preciso
estar naquela reunião com os australianos em seu lugar.
— Leve-os para a casa de Emm
que eu fico. – Derek se oferece. Não há oposição por parte dos outros. – Estou de
folga mesmo.
Sei que minha vó e os tios
estão muito chateados comigo. Sei que errei em deixar Penny de fora dessa alegria.
Mas o medo foi maior. Não queria alguém preso ao meu lado. Fiz o melhor que
pude por nós três.
Tive alta dois dias depois. Pude
levar Bennie comigo. Trixie foi liberado pelo pediatra como previsto, cinco
dias depois do nascimento. Os tios ficaram 10 dias nos ajudando. E Nana ficou
os primeiros 3 meses. Quando voltei a trabalhar, um mês depois do parto, sugeri
a Steph que abríssemos uma creche na empresa. Primeiro faríamos um teste com a
filial havaiana, se desse certo, levaríamos para as demais.
***
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