quinta-feira, 2 de julho de 2020

Livro 2 - Filhos da Paixão - Capítulo X


Penny Davis

Derek nos deixou num hotel. Aliás um excelente hotel. Não sei se um dia conseguirei perdoar Emily por ter escondido de mim e de todos sua gravidez. Foi mesquinho da parte dele.

— Pode me explicar o que aconteceu com você? – Adam me pergunta, assim que nos acomodamos no quarto.
— Você está de boa com toda aquela situação?
— Não estou de boa com nada. Apenas entendo as razões dela. E conhecendo Drew, ele iria sim, voltar da decisão dele para ficar com ela, apesar dos motivos para não, por causa da gravidez. Ele esqueceria de tudo, ou ao menos tentaria.
— Foi egoísta da parte dele, nos deixar de fora. Me deixar de fora.
— Então seu problema foi que ela não ter contado a você, especificamente.
 — Não. Não! Foi não ter nos contado. Pro inferno. Foi, foi sim. Droga! Sempre fui fiel a ela. Sei que coisas delas que Nana nem desconfia, você sabia?
— Sei. E sei também que você não me esconderia. Então seríamos dois a saber perto de Drew. O dobro do risco que ela não queria correr.
— Você já a desculpou.
— Não cabe a mim, desculpá-la ou não. Como não cabe a mim contar a Drew. Muito menos a você. – Olho para ele e bufo. – Mas já que você decidiu sair da casa dela, decidiu também se vamos ficar ou voltar? – Sinto um tom de ironia em sua voz
— E perder essa oportunidade? E se voltarmos antes do previsto, o que diríamos aos outros? Já que a passagem já tá paga e ela vai assumir o hotel também, vamos aproveitar.
— Isso diz a pessoa que brigou com a melhor amiga por esta ter sido desonesta. – Olho novamente para ele e mostro a língua. E ele me agarra e me beija.

***


Emily Campbell

Depois que Rick levou Adam e Penny, fiquei péssima. Mas não posso me dar ao luxo de ficar parada. Trixie acordou, preciso alimentá-la e dar seu remédio. Faço isso prontamente. Em seguida, pego alguns brinquedos deles, levo-os para o jardim, espalho-os no chão. Volto e pego meus anjos e os levo para fora. Eles ficam brincando, enquanto os observo.

“Não imaginei que aquela fosse ser a reação de Penny. Sabia que ficaria magoada, chateada. Mas o olhar que ela me lançou quando disse que senti a falta de meu pai era frio, perverso. Nunca imaginei ver aquele olhar novamente. Ela me olhou como Taylor me olhava quando ia me agredir. Mas sua atitude me machucou muito mais que as agressões físicas dele.”

Sinto uma presença atrás de mim. Penso que é ela, que se arrependera e pedira para voltar. Mas quando viro, vejo que é Rick que havia retornado.

— Muito obrigada. – Agradeço com uma voz tristonha
— Não por isso. Não foi exatamente como você planejou, né?
— Nem um pouco. Esperei gritos, discussões, broncas. Não indiferença.
— Ela foi um tanto dura com você. Mas não tiro a razão dela.
— Nem eu. Esperava aquela reação dele, não dela. Afinal ele e Drew são como irmãos. Se Penny agiu dessa forma, mais um motivo para manter meus filhos desconhecidos da família paterna.
— Acho que deveria refletir mais sobre isso. Talvez ele reaja como Adam.
— Não. Drew jamais me perdoará por ter escondido os filhos dele. E poderia, inclusive, tentar retirar a guarda de mim.
— Ele não teria coragem disso. Teria?
— Jamais pensei que Penny me excluiria da vida dela, como também nunca imaginei Drew tentando tirar os meninos de mim. Mas depois do que aconteceu hoje, tudo é possível.
— E se ele tentasse retomar a relação de vocês?
— Relação tenho, tive, não sei, com você. Eu e Drew estávamos indo devagar até aquele fim de semana. Quando realmente decidi nos dar uma chance. Mas... – Ele senta-se ao meu lado e me abraça.
— Você sabe lá no fundo que precisa se livrar desse segredo, não sabe? – Ele me alerta, apenas aceno com a cabeça.

Rick me informa que Penny e Adam decidiram aproveitar os dias livres e ficaram na ilha. E que antes deles irem talvez fosse uma boa ideia tentar falar com ela. Fiquei de pensar. Resolvo tirar o resto do dia e me dedicar aos dois, então vamos para Lahaina. Lá passeamos pelo parque Lahaina Banyan Court, almoçamos no Kimo’s Restaurant, para as crianças peço vegetais assados, para mim o prato de peixe com fritas, e de sobremesa uma fatia da torta original Hula. Depois do almoço fomos comprar algumas coisinhas para o feriado. Antes do entardecer estávamos a de Nakalele Blowhole, para ver a água do mar brotando de um buraco na pedra e esperar o por do sol. Enquanto esperávamos fizemos um piquenique. Depois que o sol se foi recolhi nossas coisas, coloquei as crianças em suas cadeirinhas e voltamos para casa.


Hoje acordei disposta a por em pratos limpos minha situação com Penny e Adam. Preciso conversar direito com ela, principalmente. Sei que o susto foi muito grande. Mas eu teria que esperar até a hora do almoço para poder me encontrar com ela, ainda trabalho hoje e amanhã.

— Nola, por favor, faça uma ligação para o Waileia para mim, peça para falar com o quarto do Sr. Evan, Adam. – Peço a ela e fico no aguardo lendo um contrato.
— Emily, linha 2. Falará com o próprio Sr. Evan.
— Obrigada, Nola. – Agradeço e transfiro a linha – Adam?
— Emm, é você! – Ele atende amigavelmente
— Oi, cadê Penny?
— No banho. Aconteceu alguma coisa?
— Preciso falar com vocês. Ela está mais calma?
— Não tem falado de você, se é isso o que quer saber.
— Ui! Você ainda está chateado comigo?
­— Emily, não fiquei chateado. A palavra certa é decepcionado. Não esperava esse tipo de coisa de você. Mas como disse, entendi seus motivos.
— Obrigada, Adam. Significa muito vocês entenderem minhas razões. Mas quero falar com vocês. Podemos nos encontrar no almoço?
— Podemos sim. Não quero vocês duas brigadas, amo muito as duas.
— Vou mandar um carro buscar vocês, digamos à 1:00, pode ser?
— Combinado.
— Então até lá. Beijos.
— Beijos.

Que bom que Adam está mais acessível que Penny. De certo modo com ele ao meu lado, consigo reverter a situação com ela. Mantenho-me ocupada, finalizando algumas etapas de alguns projetos, analisei alguns futuros contratos. Conversei com Steph, sobre nossas perspectivas futuras de ampliação no mercado asiático.

— Emily, você pediu para lhe avisar quando fosse uma hora.
— Já? Como passa rápido. Obrigada. – Arrumo minhas coisas, dou uma melhorada no visual e me despeço. – Vou almoçar, dependendo do que aconteça no almoço, só volto para pegar os meninos. Aviso.
— Certo. Bom almoço e boa sorte.
— Aloha. – E saio. Entro na garagem do prédio, pego o carro e me dirijo ao restaurante Moku Kitchen.

Esse foi um dos locais da região que fiz parceria com a agência para os roteiros de inverno, assim como o hotel onde eles estão hospedados. Tinha tudo muito bem planejado para essa semana com eles. Trabalharia meio período e apresentaria Maui pela tarde. Espero poder fazer isso ainda. Amo passear pela ilha, as paisagens são fenomenais, de um lado o mar do outro as montanhas. Chego ao restaurante, entro a chave do carro ao manobrista e entro. Converso com a hoster, que me leva à mesa que havia reservado. Penny e Adam já haviam chegado.

— O que é isso? Uma emboscada? – Reage Penny ao me ver – Vamos embora.
— Sente-se agora. – Ordena Adam – Vamos parar de criancice. Você precisa ouvir o que ela tem a dizer.
— Só te peço isso. Deixe-me explicar novamente. – Peço ao sentar – Se você se sentir do mesmo jeito depois lhe deixo em paz. Prometo.
— Tudo bem. – Ela diz sentando-se.
— Boa tarde, vão fazer o pedido agora?
— Vocês não pediram nada? – Pergunto
— Acabamos de chegar.
— Vamos começar com uns coquetéis. Traga dois desses com álcool e um sem álcool. – Peço
— Não está bebendo? – Adam me pergunta
— Uma estou dirigindo, dois não sei se volto para o trabalho depois.
— Entendo.
— E os meninos? – Adam me pergunta
— Estão no escritório.
— Deixou eles no escritório?!? – Penny parece indignada
— Implementei uma creche em nosso escritório como um protótipo. Estamos em fase de teste. Se der certo aqui, ampliaremos para as outras unidades.
— Você sempre inovando. – Adam elogia.
— Necessidade é a mãe da criatividade – Damos risada
— Você não nos chamou aqui para falar sobre seus projetos de trabalho, trouxe? – Penny nos corta
— Não Penny. Mas não queria começar com uma conversa estressante. Já que quer assim.
— Suas bebidas.
 Sem álcool?
— Obrigada. – Agradeço enquanto ela distribui as bebidas.
— Bem, Penny. Acredito que sua reação não foi por esconder de Drew nem dos outros minha gravidez. – Ela concorda com a cabeça – E se pergunta por que a deixei de fora, certo?
— Isso.
— Vamos fazer o seguinte. Se fosse o contrário. Eu e Drew namorássemos e você tivesse algo que Adam não poderia saber. Sabendo você que eu não escondo nada de Drew e sabendo que entre os dois não existe segredo. Você me contaria?
— Mas minha...
— Me contaria? Você sabia que eu não contaria de propósito ou para lhe prejudicar. Me contaria?
— Provavelmente, não. – Assume.
— Essa foi meu motivo para manter você afastada. Você acha que a primeira vez que senti o chute deles, ou a cada ultrassom que eu ia com Nola ou Rick, quando passei horas sentindo dor no dia do parto, ou quando não ouvi Trixie chorar quando nasceu. Eu não quis você ao meu lado? Deus! Quantas vezes nesse período eu disquei seu número para contar tudo – Falo entre lágrimas
— Ela não chorou?
— Não. Tive que fazer uma cesária de emergência, porque Trixie estava enrolada no cordão, fora que não dilatava o suficiente.
— Quem estava com você? – Adam me questiona
— Na hora do parto, Nola e Rick. Ele ficou comigo na sala durante e Nola foi buscar Nana e seus pais.
— Eles vieram para seu parto?
— Ficaram uns dias, depois voltaram. Nana ficou três meses comigo, até a creche ser uma realidade. Nana só ficou por causa do senso de responsabilidade dela. Só falava comigo o necessário sobre os bebês. Até hoje, mal trocamos algumas palavras que não sejam relacionadas a eles.
— E por que quis nos contar agora?
— No dia que liguei para você, convidando-os, Rick me deu um ultimato. Ou eu incluía vocês e Drew na vida dos bebês ou o excluía da minha vida...
— Então colocou seu namoro em primeiro lugar. Se ele não tivesse colocado você contra a parede, não estaríamos aqui. Parabéns a ele, conseguiu o que nem Nana conseguiu. – E bate palmas de uma forma cínica.
— Não. Não foi ele que me convenceu. Mais tarde naquele dia, - meu telefone toca – Alô?... É ela... Acabou? Já?... Ainda tem para próxima dose?... Certo. Faça assim, liga para meu escritório e fala com Nola, ela providenciará. Obrigada. – Desligo o telefone – Da creche, o remédio de Trixie acabou.
— Ela teve o quê no sábado? – Adam lembra
— Ela ficou com um problema respiratório por causa do parto, de vez em quando ela tem crises, e a de sábado foi um pouco mais grave.
— E você aqui sozinha? – Ela comenta, com um leve tom de culpa
— Tenho quem me apoie, graças a Deus. Nola e Rick cuidam deles como se fossem seus. Mas voltando. Não foi Rick quem me convenceu a procurar vocês. Foi Benjamim. Lembro como se tivesse sido hoje, mesmo sem lhe conhecer pessoalmente, Penny, meu filho é doido por você. Na mesa da televisão tem uma foto nossa, na minha formatura, estava na cozinha fazendo o almoço e ele veio até a mim, abraçado na foto, “tipeda, Tipeda” e separava a foto do peito e lhe beijava. Aquilo bateu forte em meu peito, doeu mais do que as dores do parto, tanto quanto a dor que sentir até Trixie começar a chorar. – E eu estou chorando. – Eu lhe peço perdão por não ter falado com você. Não posso fazer mais nada sobre o passado. Mas quero você na vida deles. Melhor, vocês dois.
— E quanto ao pai? – Adam me pergunta
— Não. Drew permanece sem saber. Assim como Arthur e Ashley.
— Mas Emm, não é justo.
— Não é justo? E acha que Drew entrar em nossas vidas agora seria justo? Conosco? Com ele? E todos meus traumas?
— Você mesma disse que não teve nenhum episódio desde que o coisa ruim foi preso.
— Não, Penny, não tive. Mas...
— Penny, com o tempo ela muda de ideia. – Adam a alerta. – Vamos dar um passo de cada vez.

Terminamos o almoço e vamos pegar os meninos e levo-os para conhecer alguns pontos turísticos de Maui. Na volta ao hotel, fechamos a conta deles, e vamos para minha casa. Deixo os meninos na terça de manhã com eles dois para se curtirem um pouco mais. A tarde passeamos. Na quarta, feriado nos juntamos à galera do escritório para os festejos do 4 de julho. Nos demais dias, ficamos juntos. Passeamos, retomamos nossa amizade. No sábado os levei para o aeroporto. Graças a Deus foi uma despedida triste, mas não por estarmos dizendo adeus, como se nunca mais fossemos nos ver, como achei que seria no início da semana, mas porque ficaríamos distante uma da outra novamente, porque eles tinham se apaixonado por meus anjos e ficariam longe deles. Queria prometer que em breve estaria em Nova York, mas não podia levá-los para lá. Os meninos sentirão saudades do Tidam e da Tipe, é pararam de chamá-la de doida, depois de muito esforço dela, corrigindo quando diziam “Tipeda”. Tenho muito o que pensar.

***

Nenhum comentário:

Postar um comentário