Drew Grant
Escureceu. A babá os levou. Entendo a posição
dela, recebeu ordens, precisa do emprego. Mas eles estavam chorando.
— Ei, cara! O que está fazendo aí sentado? –
Ergo a cabeça e vejo Adam.
— Estraguei tudo mais uma vez, meu amigo.
Estraguei tudo.
— Estragou o que?
— Minha relação com Emm, com meus filhos, com
Rebbeca, tá essa já devia ter estragado a tempos. – Corrijo quando percebo a fisionomia
dele de nojo. – A relação que meus pais, Artie e meus sobrinhos poderiam ter
com eles. Estraguei tudo.
— Não entendo. Por que ajuizou essa ação de
guarda?
— Não fui eu. Antes de vir para cá, na segunda,
conversei com o advogado de Rebbeca, acertei uma ação de reconhecimento de
paternidade, só isso. Juro. Ela e o advogado mudaram o foco da ação.
— Por que ela faria isso?
— Ela diz que achou que era o certo a fazer.
Não acredito.
— E agora?
— Conversei com outro advogado, indicado por um
dos sócios de Penny. Vamos tentar contornar isso. Mas preciso que Penny e Emm
aceitem que eu retire a ação.
— Então está fácil.
— Olha como Penny está me olhando. – Mesmo
afastado, posso perceber a raiva na face dela. — Se ela está assim, imagine
Emm. – Ele acena com a cabeça. — Cara, nunca pensei que pudesse amar alguém
como amo esses dois. Está doendo não poder estar com eles agora. E sei que eles
estão sentindo minha falta também. Quando eles me viram, fizeram a maior festa.
E quando a babá os levou, saíram chorando me chamando. – Estou chorando
novamente.
— Tudo irá se resolver. Como chegou aqui? –
Aponto com a cabeça para meu carro. — Não quer ir até meu apartamento? – Sacudo
com a cabeça. — Vai ficar aqui até que horas?
— Até Emm chegar e me deixar conversar com ela
e ver meus anjinhos.
— Cara, dê um tempo para ela. O golpe foi muito
grande. Ninguém esperava por isso.
— Pois é! Ninguém esperava. – Ergo minha cabeça
e a vejo com Bennie no colo e Penny com Trixie.
— Dandão! – ela me chama com as mãozinhas.
— Posso. – Emm acena com a cabeça e a carrego.
— Oi, meu anjinho. Papai tava com saudades. — De você também, Bennie. – Que
está se jogando do colo de Penny para o meu. Arrumo Trixie em um dos meus
braços para poder carregar Bennie com o outro.
Sento-me com eles, que me abraçam, me beijam e
alisam meu rosto, enquanto falam algo que não entendo.
— Obrigado.
— Precisamos conversar. – Assinto com a cabeça.
— Penny, leva eles para dentro de casa?
— Sozinha com ele, como sua advogada, não
aconselho. Vou ligar...
— Penny, por favor. Vamos tentar resolver isso
da melhor forma possível por eles. – Ela olha em direção às crianças - Não foi
isso que me disse quando esteve em Maui? – Penny concorda com a cabeça. –
Então, por favor.
— Vamos com tia Pe e tio Dam? – Eles agarram
meu pescoço.
— Anjos, escuta mamãe. – Ela fala de um jeito
tão doce com eles — Vocês vão com tia Penny e tio Adam jantar e tomar banho,
quando acabarem mamãe promete que o papai estará esperando vocês para brincar
um pouco, combinado? – Eles olham para mim, esperando minha resposta, aceno com
a cabeça.
Beijo cada um deles na testa e Penny e Adam os
levam.
— Drew, eu entenderia se tivesse pedido a
guarda compartilhada, é seu direito. Não quero afastá-lo dos meninos. Não mais.
Mas não vou aceitar, sem lutar, que os tire de mim.
— Mas eu não quero isso. Você é uma mãe
maravilhosa. Jamais tiraria isso deles.
— Então por quê? Por que o pedido de guarda
unilateral? Por que não veio conversar comigo primeiro?
— Emm, tudo não passou de um engano do
advogado. – Começo a falar. — Quer dizer, não foi bem um engano. Mas já
conversei com os envolvidos. Procurei outro advogado, e ele me explicou que
posso desistir da ação. Quero desistir. Mas...
— Mas o quê, Drew? – Ela fala com tom severo
— Você tem que concordar.
— Para você retirar essa ação eu preciso
concordar? Só isso? – Aceno com a cabeça. — Então está feito. Não tenho razão
para fazer meus filhos sofrer por causa disso.
— Amanhã mesmo providenciarei isso. Obrigada.
— O que você quis dizer com “não foi bem um
engano”?
— Não vem ao caso. Já está resolvido.
— Vem ao caso sim.
— Vamos esquecer, por favor.
— Nossa, depois de dois anos você ainda faz
essa cara de Gato de Botas?
— Acho que você me faz fazer isso.
— A tá! Eu sou a culpada disso?!
— Sim. – Digo com um sorriso de canto.
— Ash disse que seus pais estão vindo no fim de
semana? – Afirmo com a cabeça. — Eles já sabem dos meninos? – Novamente balanço
a cabeça. — Vão querer conhecer os netos. — Balanço de novo. – Para, isso é
irritante. – E me dá um leve tapa no braço.
— Você quer que eu faça o quê?
— Responda com a boca. – Ela fica tão linda
irritada. Minha vontade é de beijá-la ali mesmo.
— Tá. Contei a eles na terça, quando avisaram
que viriam no fim de semana. Querem conhecer os meninos sim. Como faremos isso?
— Marcamos um passeio com eles.
— Nós seis?
— Seis?!
— Eu, meus pais, você e os meninos. Eles também
não te conhecem.
— Verdade. Hummm!
— O que foi?
— Os únicos sogr... só conheci os pais de
Taylor. E sinceramente, não tive o menor prazer. Ela, uma mulher anulada pelas agressões
do marido e do filho, que me tratava bem para agradar Taylor. E ele, só sabia
trabalhar, beber e bater.
— Meus pais são muito diferentes. Você verá.
— Melhor subirmos, nunca quebrei uma promessa
feita a eles dois. Não vou começar agora.
E nos dirigimos para o apartamento dela. Ao
chegar, Emily retira a ordem dada a babá e a dispensa pelo dia. Eles ainda não
jantaram nem tomaram banho.
— Ei, qual foi nosso combinado? Jantar, banho e
brincar com o Grandão, não foi?
— Só que o grandão aqui – Penny aponta pro lado
— Não nos deixou cuidar deles. Se jogou no chão e começou a brincar, o que as
crianças fizeram? Foram junto.
— Deveria pedir ao pai de vocês para ir embora,
não é?
— Dandão ati. – Bennie agarra a perna de Drew e
Trixie imita o irmão.
— Sou voto vencido. – Emm constata jogando os
braços para o alto.
— Você quer fazer o quê primeiro? Banho ou
janta? – Penny a pergunta
— Conversar com você.
— Vamos lá pra dentro.
— Não, pode ser aqui mesmo. – Penny acena com a
cabeça. – Drew me disse que foi um “engano” do advogado. – Ela faz aspas com os
dedos e eu olho para Adam que me lança um olhar de reprovação. – E que quer
pedir a desistência da ação.
— Ele pode fazer isso, se...
— Ele me disse. Eu aceitei.
— Emm! E tudo o que passou hoje?
— Não é nada se comparado ao que podemos passar
numa disputa pela guarda. Chega de problemas. Já basta a mudança.
— Você vai se mudar? Vai voltar? – Não escondo
a alegria em minha voz.
— Menos, cara, menos. Você é comprometido. –
Adam fala entre os dentes bem perto de mim.
— Eu lhe disse que não tinha a intenção de
afastá-los mais. Já vendi minha casa em Maui. Amanhã terei uma reunião com seu
amigo Phillip Atkinson.
— Vai ficar onde? – Pergunto enquanto ela se
dirige à cozinha
— Penny, por favor, dê banho em seus sobrinhos.
Leve o Adam como castigo. Pretendo ficar na região do Prospect Park.
— Por que não vem para Manhattan? Assim ficamos
mais pertos. – Ela me olha como quem pergunta “Nós?!” — É, eu e nossos filhos.
– Respondo meio desconcertado.
— Mas aqui, estaremos a o que? Meia hora de distância?
— Muito tempo.
— Deixa de coisa, Drew. O que são 30 minutos de
carro comparado a 15 horas de voo? Vou preparar o jantar deles. Fica à vontade.
— Sempre fico. – E dou um sorriso.
Mas é verdade. Sempre fico a vontade ao lado
dela. E ao contrário do que pensei não estraguei tudo dessa vez. Depois do banho,
demos o jantar aos meninos. Nola chegou e foi direto para o quarto dela. Segundo
Emily, ela não está se adaptando à vida nessa ilha, Sente falta de casa. E os
meninos com a corda toda brincando comigo e Adam enquanto conversamos.
— Ela quer muito ficar, mas não acredito que
fique. A vida em Maui é muito diferente da nossa. – Emm comenta.
— Deve ser mesmo. Os poucos dias que ficamos em
sua casa. Deus do céu! O que foi aquilo! Que vista era aquela, que paz! – Penny
elogia.
— Mas não aguentaria mais que uma semana. –
Adam alerta.
— Emm aguentou porque eu não?
— Eu tinha meus motivos para estar lá. Mas
sempre senti falta daqui. Do agito.
— Duvido que lembrasse de Nova York quando
estava com Derek.
— Penny! – Adam chama sua atenção.
— O que foi? Ele não tá com a purgante?
— Penny! – Dessa vez são Adam e Emm que chamam
sua atenção.
— Podem deixar. Se tem uma característica que
sempre apreciei nela, foi sua sinceridade. Nunca escondeu ou se forçou a gostar
de Rebbeca.
— Cara, é bem a quinta vez, hoje, que você a
chama pelo nome. Deve estar muito puto com ela mesmo!
— Tenho meus motivos, você sabe!
— Quanto segredo! – Emm destaca.
— Segredo nenhum. Só que a noite tá tão boa que
não vale a pena. - Respondo
— Por falar em noite tá boa, já passou da hora
desses dois dormirem.
— Mimi, não! – Ouvimos um uníssono “não” vindo
deles.
— Mimi sim. – Emm responde. — Desse jeito, vou
proibir seu pai de vir a noite. Já é a segunda vez essa semana.
— Vamos dormir, anjos. Mamãe tem razão. – Eu a
apoio pegando Bennie no colo enquanto ela pega Trixie.
— Mana, vou com Adam para casa dele. Tudo bem?
— Beleza. Estou bem acompanhada.
— Eu sei. – E pisca o olho para Emm.
— Tô falando dos meus filhos, Penny.
— Também! Boa noite. – E sai rindo
— Boa noite.
Entramos no quarto onde estão dormindo.
Trocamos a roupinha de dormir dos dois e os acomodamos entre a gente enquanto
Emm conta a história da noite. “Ela é ainda mais linda cuidando de nossos
filhos. Preciso resolver as coisas. Revê-la mexeu muito mais do que podia imaginar.”
Acabo dormindo no meio da história.
***
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