Emily
Campbell
Não me acostumo a ver “minha anjinha”
respirando daquele jeito. É desesperador. Sei que preciso manter a calma nessas
horas. Preciso da minha respiração calma para acalmar a dela. Mas quando
Sabrina não achou a bombinha, bateu a aflição. Faço de um tudo para não ter que
levá-la para o hospital. Ela fica muito angustiada com os procedimentos
necessários, os médicos e enfermeiras mexendo nela, e principalmente, ficar
longe do irmão. Ainda assim consegui me estabilizar quando Drew sugeriu que
pedíssemos numa farmácia. Mas quando a babá de Ash disse que a purgante havia
mexido na bolsa deles e tirado algo, não pude controlar. Minha respiração
alterou muito.
“Gente, quem é que pega o remédio de uma
criança e some com ele?!?! Que tipo de pessoa é essa?!?! Com quem meus filhos
estariam envolvidos?!?” Não tinha outra opção senão levá-la ao hospital.
Pegamos nossas coisas e partimos. Penny, contra meu gosto, veio conosco.
Preferia que ela ficasse com Sabrina, duas pessoas em quem realmente confio. Ashley
disse que Bennie estava em família, eu sei, não é que não confie neles. Mas não
sei. Instinto materno, talvez. O mesmo instinto que me avisou que algo estava
para acontecer quando chegamos para o almoço.”
No percurso não troco uma palavra com Drew.
Penny vai tentando me acalmar e eu protegendo minha filha que chora de dor e
falta de ar. As lágrimas vão escorrendo pelo meu rosto. De vez em quando olho
para o retrovisor e o vejo me olhando, seu olhar reflete a dor que está sentindo,
mas estou com raiva. Raiva dele por ter terminado comigo a dois anos atrás.
Raiva com ele por ter desistido da gente naquela época. Raiva por ter se
envolvido com a purgante e tê-la colocado em nossas vidas. Raiva por ele ter
terminado com ela. Sei que nada disso pode fazer sentido. Mas eu estou com
raiva dele. Minha filha está sofrendo por sua causa.
Chegamos ao hospital. Ele mal para o carro na
entrada da emergência e saio com Trixie no colo, ouço Penny dizer para ele que
me acompanharia enquanto ele estaciona o carro. Vou ao balcão. Só quando a
enfermeira olha para Trixie e arregala os olhos e sai apressada dá a volta em
nossa direção é que percebo que Trixie está ficando azulada. Ela pega a menina
em meu colo e a leva para uma cama enquanto chama um médico. Ao chegar pergunta
o nome dela, digo e informo que ela sofre de angústia respiratória, conto que minha
gestação foi gemelar e que no momento do parto o cordão umbilical dela estava
com 3 voltas no pescoço dela e a sufocou. Ele pede os exames, a coloca no oxigênio,
e a medica. Puxo uma cadeira e me coloco ao seu lado segurando sua mãozinha. As
lágrimas não param. Sinto seu toque em meu ombro, ergo o olhar e me afasto
dele. Continuo em silêncio acariciando minha filha. Ele continua em pé ao meu
lado. Chegam para a levarem para os
exames solicitados. Quero ir junto. Mas não é permitido. Sua respiração está
mais tranquila. Abraço Penny.
— Mana, não fica assim. Ela vai ficar bem.
— Anjo, ela é forte. Não há de ser nada. –
Afasto meu rosto do ombro de Penny e o fuzilo com o olhar.
— Sua namorada roubou o remédio de minha filha.
Ela nunca ficou azul nas crises dela. Se alguma coisa acontecer com minha filha
a culpa é sua.
— Emily não diga isso. Ele não teve culpa de
nada. Se a louca fez isso a culpa é dela.
— Se vai ficar aqui defendendo ele, podem ir
embora. Sempre fomos só eu e meus filhos. Não precisamos de vocês.
— Não vou responder a isso, porque sei que está
nervosa. Mas não vamos embora. – Penny fala.
Saio de perto deles e fico andando pelos
corredores do hospital procurando onde estavam com minha filha. Não consigo
ficar parada. Preciso ajudar Trixie de alguma maneira. “Cadê minha filha?
Por que essa demora?” E continuo a
andar pelos corredores. De repente sinto alguém se aproximar.
— Precisamos conversar. – Drew está atrás de
mim, abatido.
— Não. Não precisamos. Preciso saber como minha
filha está. E que ela fique boa.
— Depois de tudo o que aconteceu conosco até
hoje, você vai realmente me culpar disso? Depois de tudo o que conversamos? Vai
me afastar?
— Drew não tenho cabeça para isso. Só quero
minha filha bem.
— E você acha que eu não quero? Você tá achando
que antes de ir até você no escritório sugeri que a outra pegasse o medicamento
de Trixie? É isso? Acha que quero o mal de minha filha?
— Filha essa que a uma semana não sabia da existência.
— E culpa é de quem mesmo?
— Sua. Você é o culpado.
— Você não pode tá falando sério. Você foi quem
saiu. Saiu não, fugiu carregando meus filhos em seu ventre sem dizer nada a
ninguém. Passou dois anos longe. Não contou sequer a sua melhor amiga. E a
culpa é minha?
— Você que terminou comigo por causa de um
problema de saúde meu. Problema esse que você não se importou de espalhar e
usar contra mim no processo de guarda.
— Processo esse que não existe mais. Achei que
tínhamos nos entendido sobre esse ponto.
— Acho melhor os dois pararem com isso agora. –
Penny intervém.
— Eu só queria esclarecer as coisas.
— Sinceramente, o mais importante aqui não é
quem é o culpado de coisa alguma. E sim, a saúde de Trixie. Ela já voltou.
Voltamos para perto dela. Já recuperou sua cor.
Estava dormindo. Sentei-me ao seu lado e seguro sua mãozinha novamente. E fico aguardando
o médico. Drew senta-se do outro lado. Penny está no corredor. Ele está
encarando Trixie. Vejo uma lágrima descendo de seu rosto.
— Sei que estou sendo irracional. Mas é minha
filha.
— É minha filha também. Posso só conhecê-la a
uma semana, mas a amo como se estivesse com vocês desde sempre. Assim que ela
estabilizar, vou tirar essa história a limpo. Prometo a você. Ela nunca mais
chegará perto de nenhum dos dois. – concordo com a cabeça. Ficamos assim os
três até o médico chegar com os resultados.
Ele explica que a crise foi muito forte, quase
um risco para ela e que por isso, a bombinha que ela está acostumada não
resolveria, e poderia ter sido pior. Que fizemos bem trazê-la logo para o
hospital. Irão transferi-la para um quarto assim que surgir uma vaga e ela
ficará internada por alguns dias para estabilizar. Penny diz que vai para a
casa de Drew, dar as notícias aos outros.
— Drew vai com ela. Levem Bennie para casa.
Penny faça uma muda de roupa para mim e para ela, traga alguns brinquedos
também, por favor? Nola pode lhe ajudar com isso.
— Acho melhor ele ficar lá em casa. – Drew
sugere. – Ele fica com meus pais e os meninos de Artie. Não ficará só.
— Não. Ele não está acostumado com seus pais e
lá no Brooklyn tem Nola que está acostumada a ficar com ele nesses casos.
— Pego Nola, as roupas e os brinquedos. Deixo-a
em meu apartamento e venho ficar com vocês.
— Prefiro...
— Não está aberto a discussões, Emm. Ele ficará
lá em casa e pronto. Volto em 2 horas. Vá me mantendo informado. – Dá a volta
na cama e me beija a testa.
— Deixa de ser estupida, mana. Culpá-lo por
tudo não resolverá nada. E vai acabar afastando-o de novo. – Penny me alerta
quando me abraça. – Vai me avisando também. Te amo.
— Também te amo. – E partem
Drew Grant
Acabo de sair do hospital. Estou indo com Penny
para o Brooklyn pegar algumas coisas para Emm e os meninos. E levar Nola para
meu apartamento para ficar com Bennie, para ele ter um rosto conhecido nesse
período. Não gosto de agir como agi com Emm a pouco, mas tudo tem limites.
— Não entendi a reação dela, Penny. Estávamos
nos acertando no escritório quando Sabrina entrou. Por que ela me culpa disso?
— Também não entendi. Mas, sei que é pedir
demais a você, releva isso, pelo menos por hoje ou até que Trixie saia do
hospital. Cabeça de mãe. Vai entender.
— Com certeza, é demais pedir para eu relevar
tudo.
— Não estou pedindo que releve tudo, muito
menos que esqueça. Para que vocês dois deem certo você precisa ter voz ativa
também. Caso contrário, não vai rolar mesmo. Mas você tem que entender, essa é
a segunda vez que Trixie quase morre. Ela deve estar extremamente assustada. –
Vou ponderando com a cabeça enquanto Penny vai falando.
Chegamos no apartamento delas. Enquanto as duas
estão arrumando as bolsas, vou até a cozinha e faço alguns sanduíches para
levar para Emily. Tudo pronto no Brooklyn, pegamos a Brooklyn Bridge a caminho
do meu apartamento. Paro na rua mesmo, não irei demorar muito e subo com as
duas. Preciso ver meu filho e tranquilizá-lo.
— Papa Dandão. Cadê Mamã? E Tixi?
— Elas estão bem. Logo você as verá, tudo bem?
– Ele acena com a cabeça. – Você ficara na casa de papai com os vovôs e tia
Nola.
— E você, meu filho? – Meu pai me questiona
— Fico no hospital até ela ter alta. Deverá
ficar em observação.
— O que ela teve? – Minha mãe pergunta
— Chamam de Angústia Respiratória. O médico
desconfia que algo ou alguém tenha iniciado a crise.
— Alguém?! Como assim?! – Artie estranha meu
comentário – Estão achando que algum de nós faria algum mal a Trixie?
— Claro que vocês não. – Ouço um “Aaah!”
generalizado. — Oh, ia me esquecendo. Nola esses são meus pais, Molly e Dave.
— Aloha.
— Ela ficará aqui com vocês para que Bennie não
sinta tanto a falta da mãe. Ele está acostumado a ficar com ela. Sabrina,
quando quiser ir, pode ir, algum de vocês peçam para ela um carro, por favor e
depois acertamos. Vou preparar uma sacola para mim e vou indo. – Vou até meu
quarto, separo uma bermuda, duas blusas, algumas cuecas e uma roupa de dormir.
Despeço-me de todos, que mandam beijos para
Emily e melhoras para a pequena. Vou dirigindo apressadamente, já fiquei longe
tempo demais. Chegando no hospital vou direto ao quarto onde elas estão. Entro
e vejo Emm em pé ao telefone e minha pequena na cama, parece tão fragilizada.
— Eu sei... Eu sei, Dê... mas é difícil. É minha
filha, entende?... Muito mais sério que essa... Na casa do pai com os avós e
Nola... Pode deixar... Ah, mais uma vez, obrigada por tudo... Também te amamos.
– Fico parado na porta, não queria ficar ouvindo, mas ela está falando com o
ex. O ciúmes me ataca. “Também te amamos”?!? Ela encerra a ligação
assim? Nunca me disse isso. Será que ela realmente me ama? — Ah! Você está aí?
Chegou a muito tempo?
— Tempo suficiente para ouvir a declaração. –
Entrego-lhe o pacote com o suco e os sanduiches que fiz para ela.
— Obrigada. O que é isso? Ciúmes?
— Não. Suco e sanduiches.
— Estou falando da sua voz.
— Não tem nada em minha voz.
— Tá bom, Grant. Tá bom. Obrigada – Ergue os
sanduiches e o suco. – Mas não estou com fome.
— Você precisa se alimentar. – Digo enquanto
guardo as sacolas com nossas coisas no armário. – Nola mandou esse ursinho.
— Nola é demais. Ela ama esse urso, coloca ao
lado dela. Por que tanta sacola?
— A sua, a dela e a minha.
— Não há necessidade de você ficar aqui direto.
— Ela fica, eu fico.
— O médico vai fazer você sair.
— Quero prova.
— Teimosia. Escuta. – Ela coça a parte de trás
da cabeça, nítido sinal que está nervosa. – Eu sei que fui injusta com você mais
cedo. Na hora da agonia, fazia sentido. Se você não tivesse terminado comigo
naquela época, teria acompanhado minha gravidez, não teria saído daqui, não
teria sido agredida, não teria quase perdido a Trixie, não existiria Rebbeca em
nossas vidas... Então, seguindo esse pensamento, a culpa é toda sua sim.
— Poxa! Não tem mais nada para me culpar? Se
você não tivesse criado hipóteses em sua cabeça e tivesse me contado que estava
grávida quando descobriu, não teria saído daqui, não teria sido agredida etc.,
etc. Então seguindo a minha lógica, você seria a culpada. Mas não tem culpados
nesse quarto, a culpada está lá fora e vou resolver o problema com ela quando
nossa filha estiver bem. Agora coma.
— Pare de me dar ordens.
— Não paro. Coma. Não quero ficar aqui com
vocês duas doentes.
— Quanto ao telefonema de Derek... – Ela pega o
suco
— O que é que tem esse cara? – Minha voz sai
com raiva
— Ele é só um grande amigo.
— Que fazia você esquecer Nova York enquanto
estava lá e que, pelo visto, você ama. – Falo tentando dominar minha raiva.
— É um grande amigo que sempre se fez presente
em minha vida desde o dia que nos conhecemos.
— Mesmo você estando grávida de outro? Que
canalha!
— Enquanto eu não permiti ele não se aproximou
de mim. Só aconteceu algo entre nós dois depois do nascimento dos meninos.
— Sinceramente, não quero saber. Você é livre.
— Ei, o que quer dizer? – Sua voz tem um tom de
tristeza.
— Esquece. Não sei o que estou falando. Estou
preocupado com ela.
— Drew, ela está estabilizada. O que quis dizer
com “você é livre”?
— Que você não tem compromisso com ninguém. Por
isso pode fazer ou ficar com quem quiser.
— Com quem eu quiser? – Assinto com a cabeça. –
Qualquer pessoa? – Novamente assinto. – Tem certeza disso?
— Tá a fim de me irritar?
— E se eu quiser... Humm! Deixa eu ver... – Ela
se aproxima de mim – Você – e me rouba um beijo.
Quando ela se afasta, a seguro pela cintura e a
puxo até a mim e dou um beijo apaixonado. Minha língua abre caminho por sua
boca e encontra a dela. Uma dança frenética entre as duas começa em nossas
bocas. Seu gosto é delicioso. Alguém bate na porta, o que nos obriga a nos
separar. Nossas respirações estão ofegantes. É o médico que cuidará do caso de
Trixie. Ele nos explica as etapas do procedimento. Como não conheço nada sobre
a condição dela, ele me esclarece de uma forma bem didática.
Depois que o médico sai, sento no sofá com uma
perna esticada e a outra para baixo, puxo-a até mim, faço a sentar e ficamos
assim, conversando sobre os meninos. Digo-lhe que trouxe meu Ipad com o
rascunho do projeto da casa dela. Ela tenta levantar-se.
— Só vou pegar o Ipad, quero ver esse rascunho.
— Não senhora – e a puxo – Não mostro meus projetos
até estarem prontos.
— Você foi quem tocou no assunto. Se falou é
porque quer que eu veja, então vou pegar. – Levanta-se — Rá! Consegui.
— Tem certeza? – Ela me dá a língua. — No bolso
da frente. – Ela pega e vem toda contente. — Está contente porque conseguiu se
levantar e pegar?
— Não. Porque estamos juntos e verei minha
futura casa.
— Vai ficar com essa?
— Ainda não sei. – Ela me entrega o Ipad
— Posso parecer apressado, mas se estamos juntos,
por que não se mudam para meu apartamento? – Vou falando enquanto abro o
projeto
— Ele é ótimo, muito grande mesmo. Mas pelo que
Penny me explicou não é ideal para duas crianças pequenas. O quarto principal
ficaria muito afastado do das crianças. E o mais importante: é um apartamento.
E estamos juntos?!
— E não estamos?! E, quanto ao apartamento, as
crianças precisam de uma casa. Concordo.
— E além de tudo, eles teriam mais um imóvel
para eles.
— Certo. Aqui está o esboço. Só lembrando é um
esboço. O porão não mexeríamos, poderíamos fazer uma brinquedoteca, manter a
academia, não sei. Deixo isso para você, Ash e Lisa decidirem. No segundo e
terceiro andar, onde ficam os quartos,
também não mudaríamos muito, apenas atualizar, já que está muito datado.
As grandes mudanças ficariam mesmo no térreo e na fachada. Vamos mudar o
material da fachada, tirando essas madeiras e revestindo, essas janelas da
varanda fechada trocaríamos por janelas do chão ao teto, para trazer a sensação
de estar ao ar livre para dentro... – E vou explicando minhas ideias. Explico
que, por ser uma casa antiga, poderíamos encontrar muitos problemas e que talvez
não pudéssemos mudar tanto o exterior, poderia ser considerado histórica.
Trixie ficou internada por dois dias, tendo
alta na segunda pela manhã. O médico modificou toda medicação diária dela, e
marcou uma revisão para dentro de 15 dias.
Resolvido a saúde de Trixie, vou procurar
Rebbeca no escritório dela. Ela negou que tenha mexido e pego qualquer coisa na
bolsa dos gêmeos. Se sentiu ofendida por eu pensar uma coisa daquelas dela.
Disse que eu conhecia seu caráter. Não pude provar que o que dizia era mentira,
mas a advertir novamente para não mexer com meus filhos. Nossas vidas estavam
se encaminhando.
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