terça-feira, 30 de junho de 2020

Livro 2 - Frutos de uma paixão - Capítulo VIII



Penny Davis

Quando Adam me disse que Drew queria que fossemos à casa dele, a princípio odiei a ideia. Sabia que aquela outra iria estar lá, disse logo que não e que ele inventasse uma desculpa. Mas pela cara dele, ele queria ir, e disse que ela não iria, embora soubesse que correria o risco de ela aparecer, concordei em irmos.

Às sete horas estávamos estacionando próximo ao apartamento dele. Um duplex na cobertura no Upper Side, ao entrar vemos uma ampla sala de visita, com um grande sofá em L, de frente para uma lareira, que servia como ponto de destaque, a parede em que se encontra é revestida de piso brilhante preto, contrastando com as paredes brancas. A parede que dá para a fachada do prédio era de janela do chão ao teto, com o pé direito bem alto. À esquerda de quem entrava estava a sala de jantar sendo seguida por uma cozinha moderna em conceito aberto. Do lado direito, onde fica a lareira, tinha um corredor que dava acesso à sala da família, que ele fizera uma espécie de sala de TV e jogos, do outro lado um banheiro, ao seu lado o escritório dele, ao fundo ele montou uma academia. Nunca fui ao segundo andar, mas Adam disse que além do quarto dele, que fica acima da sala de jantar e da cozinha, tem mais três quartos. Do lado de fora ainda tem uma área aberta com piscina, churrasqueira e algumas mesas.

Drew abre a porta e entramos, Artie e Ash já estavam lá, sentados no sofá. Entregamos as cervejas e nos sentamos no sofá. Existe uma certa expectativa, ou seria ansiedade, no ar. Acredito que todos estávamos esperando que ela aparecesse, saindo de algum lugar.

— Vamos escolher os sabores? – Ele pergunta todo animado – Que caras são essas?
— Sou eu quem fala mesmo, então vai. – Fui anunciando – Onde ela está?
— Ela?! – Drew questiona balançando as mãos de um lado para outro.
— Você sabe. Rebbeca. Onde ela está?
— Espero que em casa. Ou em algum outro lugar que não seja aqui. Eu disse só queria me reunir com vocês, para uma boa conversa fiada. – Ele responde
— Então ela não vem? – Ash pergunta aliviada. – Graças a Deus!
— Ashley! – Artie a repreende.
— Relaxa, mano! Sei que nenhum de vocês gosta dela, assim como ela não gosta de vocês. E sinceramente, estou começando a me questionar.
— Antes tarde do que nunca, cara! – Adam dá um tapa nas costas dele.
— Sabores... – Ash fala. Escolhemos os sabores, cada um escolheu um. Pelo visto a noite seria longa.

Começamos a noite na sala mesmo, falamos sobre futebol, música, shows que estariam acontecendo na cidade, planos para o 4 de julho. Ash contou as últimas dos gêmeos. Eles acharam umas fotos da gente em Mystic City, e disseram o nome de todos, mas o de Emily, Angie apontou e disse “Titi” e abraçou. Nem Ash nem Artie haviam mostrado essas fotos para eles. Eles ficaram surpresos com a reação dela. Assim como nós. Pude perceber a alteração na fisionomia de Drew. Nesse momento, tocam a campainha.

— As pizzas chegaram! – Ele diz aliviado, pois percebeu que eu iria falar algo.
— Estranho! Não interfonaram da portaria?! – Adam constatou. Drew se levanta e abri a porta. Para espanto de todos, o entregador... Melhor, a entregadora era conhecida.
— Por isso, não interfonaram. – Ash falou baixo
— Boa noite! – Ela disse entregando as cinco pizzas a Drew. – Ora, ora, ora! Uma reunião entre amigos e eu não fui chamada! Estou decepcionada, querido!
— Como você disse: reunião entre amigos – Respondi, reforçando esse “amigos”, e Adam me puxava o braço.
— Penny, por favor.
— O que você está fazendo aqui? – Drew perguntou de forma seca
— Queria lhe fazer uma surpresa. Mas acho que eu é quem foi surpreendida. – Meu telefone toca. Vejo quem é e mostro a Adam. Saímos da sala para a varanda.

***

Drew Davis

— Pois é. Eu lhe disse que queria ficar só hoje.
— Mas você não está só, querido! – ela fala enquanto caminha para o sofá
— Você tem razão. Mudei de ideia. E chamei meus amigos para ficarem comigo.
— E eu não sou sua amiga?
— E você tem amigos? – Ash perguntou
— Ashley, não se mete. – Artie advertiu
— Não sou eu quem está se metendo.
— Tenho, querida – soou mais falso que nota de três dólares. – Acho que tenho mais do que você.
— E por que não aproveita a noite dos amigos, e vai ficar com eles? Pelo visto, eles lhe suportam. – Ashley continua enfrentando Becca.
— Você vai permitir que ela fale assim comigo?
— Vem cá. – E a levo para a cozinha. – Escuta. Só queria ter uma noite com eles, certo? Fazia muito tempo que não nos reuníamos. Você não gosta deles e vice-versa. Será que poderia entender isso e ir embora?
— Você quer que eu vá embora?
— Preferia que vocês se dessem bem, mas não posso ter tudo. Hoje quero muito ficar com eles. É difícil de você entender? – Procuro minha voz mais doce, embora estivesse fervendo de raiva por ela ter aparecido sem ser convidada.
— Mas a culpa não é minha, meu amor! Essa tal de Penny que fez minha caveira pro Adam e para sua cunhada, que fez a de seu irmão. Ela colocou todos contra mim. – Fala com uma voz melosa, mexendo nos botões de minha camisa.
— É, Penny é realmente uma pessoa difícil. – Concordo com ela para ver se ela vai embora. – Mas Adam é como um irmão para mim. E ele a ama. – Toco seus lábios com os meus – E gosto de estar com ele.
— Só vou se prometer ficarmos juntos amanhã. – Continua com a voz melosa.
— Passo em sua casa no final da tarde. Preciso revisar um projeto para uma reunião na segunda logo cedo – Informo logo antes dela reclamar. Falou em trabalho, ela fica quieta.
— Então estamos combinados. – E se dirige até a porta. – Tchau Ash e Artie, manda beijos para seus filhotes e diz para os dois lá fora que deixei um abraço bem apertado no Adam. – Ela se despede provocando.

***

Penny Davis

Quando atravessamos a porta, atendo a chamada de vídeo dela.

— Emm?! Aconteceu alguma coisa?
— Não posso ter saudades de minha amiga?
— E ainda somos?
— Penny, o que é isso? – Adam reclama
— Oi, Adam. Saudades suas também! Deixa para lá, eu mereço. Espero que ainda sejamos.
— O que houve? Esteve chorando. – Percebo em seu rosto.
— Arrependimento.
— De...?
— Tanta coisa, mana! Mas o mais importante é o de ter me afastado de vocês dois.
— E por que fez isso? – Adam perguntou. – Não entendi essa sua reação.
— Os motivos mais óbvios foram a distância e o trabalho. Mas teve outro ainda mais importante.
— E não vai nos dizer qual é, né? – Pergunto
— Preciso e tenho que dizer. Mas não quero que seja por telefone.
— Está pensando em vim para cá?
— Na verdade, estava pensando em vocês virem para Maui.
— Nós?! No Havaí? – Minha voz oscila entre alegria e surpresa.
— Sim. No feriado. Pago a passagem dos dois. E ficam aqui em casa.
— Mama! Mama! – Ouço uma voz de bebê.
— O que foi isso?
— Ah! Isso... – ela está escondendo algo, a expressão dela a denuncia – foi a TV. Então vocês virão?
— Não sei. Precisamos ver com o trabalho.
— Venham. Tirem férias. 10 dias no Havaí, com tudo pago. Passagem, hospedagem com a melhor vista de Maui, passeios. Tudo incluído. Mas por favor, Adam, por favor mesmo, não contem para os outros.
— Por quê? – Adam pergunta
— Quando vierem para cá entenderão.
— Quanto suspense! – Adam diz
— Te ligamos para dar a resposta. Escuta. Estamos no Drew, quer falar com o pessoal?
— Quem tá aí? – Ela sai de onde está e vai a uma espécie de varanda.
— Além de nós dois, Artie e Ash, e o dono do apartamento. – Diz Adam
— E a mocreia da namorada dele.
— Mana, estou com uma ligeira impressão de que você não gosta dela.
— Ninguém gosta. – Respondo.
— Quero falar com Artie e Ash. Deixa Drew com a namorada.
— Pelo visto ela já foi. – Diz Adam que espiou pelo vidro. E entramos.
— Pessoal, nossa turma está completa. – Digo enquanto viro o telefone.
— Oi, pessoal! Que bom ver todos! – Ela os cumprimenta.
— Amiga, quanta saudades! Quando você vem aqui?
— Não sei mesmo. Parece que terei uma reunião aí em agosto, mas não é certeza. Se for realmente marcado, aproveito a viagem e tiro uns dias de férias.
— Maravilhoso! Assim você conhece os gêmeos. – Artie celebra
— Oi, Emm! – A voz de Drew soa tão cheia de carinho, como eu não o ouço a muitos anos.
— Oi, An... Drew! Como você está?
— Estou levando. E você?
— Bi bi bi – ouço novamente um grito infantil
— Tá assistindo programa infantil? – Questiono.
— Não, é um seriado que tem um bebê. Gente foi muito bom falar com vocês. Mas preciso ir. Ah! Estou bem sim, Drew. Morrendo de saudades de todos. Beijos.
— Tchau. – Todos se despedem uníssono. – E ela desliga a ligação.
Saímos da casa de Drew, por volta da meia noite. Aquelas vozes de crianças não saíram da minha cabeça. Nem que me tirassem da sociedade, agora eu irei para Maui. Quero saber o que todos estão nos escondendo esses anos todos.

***

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Livro 2 - Frutos de uma paixão - Capítulo VII


“Meu Deus! Como o tempo passa rápido! Mês que vem os gêmeos fazem dois anos. Estão a cada dia que passa mais parecido com o pai. O que torna difícil acabar com minha culpa.” – Esse é meu primeiro pensamento do dia, quando acordo e olho para meus filhos.

Tem dois anos e meio que estou em Maui. Dois anos e meio que não vejo Penny. Muito mal falo com ela. Já tem meses que conversamos. Se não me engano foi no dia 1º de janeiro. Aproveitei para desejar feliz ano novo. Mas ela agiu friamente, mal conversamos.

Nana estava certa, renunciei a minha amizade mais verdadeira, a pessoa que mais me apoiou em todas as minhas decisões, até nas mais erradas, mesmo sem concordar. “Sou sua amiga acima de tudo. Estarei aqui, lhe apoiando, principalmente quando quebrar a cara”. Ela sempre foi direta. Mas sei que não abri mão por um capricho.

Eu e Derek estamos juntos a dois anos. Embora goste muito dele e ser tratada muito bem, como uma pessoa real, não consigo sentir por ele o amor que sinto por Drew. Sim. Dois anos e meio depois, uma relação que, realmente, não passou de dez dias, ainda mexe comigo. Também sinto que não sou amada por Derek. Ele esconde algo de mim. Nada tenebroso, como meu passado, mas algo bem íntimo. E vivemos bem assim. Com nossos segredos.

Mas um segredo que o incomoda bastante é o do pai dos anjos. Ele é mais um que não aceita que eu tenha escondido dele a verdade dos meninos. As poucas vezes que tentaram chamá-lo de pai, ele os corrigiu “O titio irá com você”, “Diga para o tio o que você quer, Trixie?”, nunca fora grosseiro ou destratou meus filhos. Mas esse segredo é um dos poucos motivos para nossas discussões mais sérias.

Quanto aos meus lapsos, graças a Deus quase não os tive desde que tudo aconteceu em Mystic City. Não sei se foi ter enfrentado Taylor. Não sei se foi o fato dele ter ido para a prisão. Realmente, não sei e fico feliz sem tê-los. Assim, pude ser uma pessoa normal aos olhos de meus novos amigos.

Na empresa está tudo bem. O trabalho é um refúgio. Lá não preciso ficar respondendo perguntas que não quero sobre mim, meu passado e o pai das crianças. Temos fechado cada vez mais contratos com a Ásia e a Oceania. Os números da filial havaiana são surpreendentes.

***
Drew Grant

Tem mais de dois anos que tudo aconteceu. Tem dois anos que estou com Becca. Nesse período, meus sobrinhos nasceram. E impressionante como se parecem com nós três. Angela tem muitos traços, principalmente a personalidade independente e desafiadora, da tia que jamais conhecerá. A pobre da Ash tem sofrido bastante. Minha mãe sempre que pode, dá dicas de como fazia com ela. Já Rapha tem muito do pai e de mim. É muito mais calmo que ela.

Minha relação com Becca se resume a nós dois, apenas. Ela não conseguiu se dar bem com meus amigos nem família, também não fez esforço. Meus sobrinhos não gostam dela também. Talvez sintam que ela não gosta de crianças. O que para mim é um alerta que nossa relação não vai passar do namoro. Ao contrário de Adam e Penny que estão quase morando juntos, não tenho a menor vontade de entregar as chaves do meu apartamento a ela muito menos pegar as dela. E parece que nem ela.

Estive umas duas vezes em Mystic City para visitar Nana e os Davis com Adam e Penny. Tinha a esperança de encontrá-la lá. Nunca aconteceu. Nana me disse, na última vez que estive lá, que ela nunca mais voltou à cidade. Mas me disse que morava numa linda casa, quase a beira mar, estava muito bem no trabalho e que estava namorando um cara muito bom. Em um jantar na casa dos Davis, ela ia falando alguma coisa, mas James a cortou. Penny, Adam e eu nos entreolhamos.

— Vocês estão escondendo algo da gente? – Penny expressou o questionamento que todos já vínhamos nos fazendo.
— Escondendo o quê, filha? Não temos nada a esconder de vocês. – James a respondeu.

O jantar continuou, conversamos. Ir até Mystic é uma viagem maravilhosa. Muito relaxante. Infelizmente só podemos ficar um fim de semana. Volto para Nova York com a promessa de regresso em breve. Ainda não cumpri minha promessa. Conseguimos outro contrato para a construção de um novo condomínio, o que tem nos deixado meio atolados com os arranjos finais da obra.

Estamos finalizando para entregar aos decoradores. Cada torre terá um apartamento decorado para avaliação dos futuros moradores. Pelo projeto inicial, a decoração será básica, podendo ser alterada, ou não, de acordo com os donos. Claro que, aqueles produtos que já são inclusos no preço não terão nada de básico. Eletrodomésticos como geladeira, fogão, máquinas de lavar pratos e roupas, toda a ferragem, torneira e lustres, serão de alta qualidade, top de linha. Todas as unidades foram vendidas. Um sucesso total.

***
Emily Campbell

— O que custa você convidar sua amiga para vir passar o 4 de julho com você e os anjinhos?
— Derek, não me custaria nada. Mas não a convenceria a vir só, ela viria com Adam. – Explico pela milésima vez
— E...?????
— Chega! Não aguento mais essa pressão. O dia tá lindo lá fora. Vou aproveitar meu sábado com meus filhos na piscina. Você vem?
— Sinceramente, cansado de ver você evitando essa ligação. Faz assim, curta seu sábado, e me ligue depois de falar com Penny.
— É o quê?!
— Isso. Não posso ser mais conivente com sua atitude de esconder do pai a existência deles. E sei que sua amiga será capaz de convencê-la disso. Sei que sofre por não a ter participando, mesmo que de longe, da vida deles. Não gostaria que escondessem um filho de mim.
— Tenho certeza disso. Mas você não sabe as circunstâncias. Então não tem o direito de opinar.
— Certo, pelo que entendi no dia que eles nasceram, toda sua família quer que você conte, sua avó chegou a ser irônica comparando-o a um tal de Taylor. Mas você tem razão, não conheço nada do seu passado, você fez questão de não me contar nada...
— Assim como você. – Interrompo seu discurso, lembrando-o que também tem segredo.
— Você tá certa. Não estou em condições de exigir nada. – Ele respira fundo, aperta o nariz, faz sempre isso quando estar irritado. – Acho melhor eu ir. Me ligue quando ligar para amiga. Melhor, se ligar para sua amiga. – E se retira.

***

Drew Grant

Sábado chegou. Resolvo aproveitar o dia lindo e vou correr no Central Park. Sempre gostei de me exercitar ao ar livre. Correr por suas trilhas cercadas por árvores lindas com os prédios ao fundo. Aproveito isso para pensar na minha vida.

“O que teria acontecido se eu não tivesse me acovardado e insistido num relacionamento com Emm? Se tivesse aberto o jogo e contado a ela a história de Angie? E mesmo que tivesse feito tudo como fiz e ela estivesse ainda aqui? Estaríamos juntos? Estaríamos separados? Por que Penny ainda insiste nessa história? São tantos questionamentos que me faço todos os dias. São tantas dúvidas. O que aconteceria se eu fosse para Maui atrás dela? Mas ela está com um namorado. E se não me quisesse mais?”
Nessa minha angústia passo a amanhã correndo e não me dou conta. Volto para casa depois das doze horas. Tomo um banho e resolvo fazer uma pequena reunião aqui em casa com meus amigos. Ligo para Artie primeiro.

 — Mano, que tal nos reunirmos hoje aqui em casa para uma sessão de pizzas, cerveja, jogos e muita conversa?
— Só os homens?
— Pode trazer Ash. Adam, traz Penny... – Respondo
— E você, Becca.
— Na verdade, queria um pouco de normalidade hoje.
— Normalidade?
— É. Estou um pouco saudoso da época em que ficávamos de bobeira.
— Vou falar com Ash, precisamos ver com a babá. Não tínhamos planos para hoje a noite, acho que ela a dispensou.
— Veja e me ligue. Vou falar com Adam. – Nos despedimos e desligamos. Então ligo para Adam.

— Cara, e aí?
— Diz, A.
— Pizza, cerveja, jogos e conversa boa. Que tal?
— Onde, quando e com quem?
— Aqui, hoje, eu, você, Artie e as meninas.
— Não sei se seria uma boa reunir Penny e Becca novamente. Na última vez, quase foram aos tapas, você lembra.
— Não estou pensando em falar com ela.
— Hummm! Aí ficou interessante. Espera. Drew tá chamando a gente para ir para casa dele hoje... Sem ela... Certo. – Deveria estar falando com Penny. – Combinado. Chegaremos às sete horas. Levo uma pizza e um pac[1].
 — Traga uns 2 pacs, as pizzas providencio.
— Combinado. Até mais tarde.
— Te espero.
***

Emily Campbell

Passei o resto da manhã pensando na conversa com Derek. “É muito fácil para eles opinarem. Não sabem como foi doloroso ler aquelas palavras. Não sabem como é doloroso saber que inconscientemente você é capaz de ofender a pessoa amada e não poder se desculpar. Afinal, não sabe que ofendeu. Não tem ideia de como me magoou vê-lo no trabalho todos os dias, depois que ele me apresentou a felicidade, e não poder tocá-lo uma única vez. Quis mandar tudo à merda e abraçá-lo e dizer que não desistiria dele? Lógico que sim. Mas precisava respeitar a decisão dele, depois de tudo ele sempre respeitou minha decisão de não falar do meu passado. Tive que sofrer sozinha... Bem não tão sozinha. Ele deixou em mim duas sementinhas que alegram meus.”

— Mama! Ó! Bintá a gua! – Trixie me chama para brincar com eles na água.
— Isso, minha anjinha! – Levanto e caminho até ela – Vamos brincar na água. Nós três.

Entramos por volta das duas, dou banho nos dois, coloco-os para assistir TV, enquanto preparo o almoço deles. Quando Bennie vem em minha direção com um porta-retrato na mão.

— Tipeda. Tipeda – E me mostra a foto de minha formatura. Nela estamos eu e Penny. Foi Adam que tirou ela. Meu coração aperta.
— É, Bennie, é tia Penny doida. – E sinto uma lágrima escorrer pelo meu rosto. – Você quer conhecer tia Penny, anjo? – Ele olha para mim, e abraça minha perna.

Termino o almoço deles, coloco-os em suas cadeirinhas e entrego os pratos. Enquanto comem, pegou meu celular e faço um facetime para Penny.

***



[1] Pac é como são chamadas as embalagens com seis garrafas ou latas de cerveja nos EUA

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Livro 2 - Frutos de uma paixão - Capítulo VI


Amanheci hoje com dor. Mesmo assim me arrumei e vim para o trabalho. Pensei que fosse coisa boba. Pois vai e vem. Já tive essa mesma dor mês passado, liguei apavorada para minha médica e ela mandou que fosse imediatamente para o hospital. Poderia estar entrando em trabalho de parto. Mas depois de examinada, descobrimos que estava tendo as contrações de Braxton Hicks. Embora comum na transição do 2º trimestre para o 3º, as minhas vieram um pouco tardia. A Dra. Kai me informou que poderia tê-las novamente. Imaginei que fossem.

As dores embora constantes, eram muito espaçadas pela manhã. No princípio da tarde elas se intensificaram. Quando elas vinham, segurava para não gritar. Ainda estava pensando nas benditas contrações. “Isso é alarme falso. Isso é alarme falso. Logo passa” insistia em me dizer. Numa dessas contrações, Nola entrou em minha sala com uma pasta com o relatório que havia lhe pedido.

— Que cara é essa, Emm? – perguntou assustada.
— Estou com ... argh ... aquelas contrações... argh ... novamente. – Entre um gemido e outro respondo
— Não me parecem falsas dessa vez. – Ela constatou
— São sim. Ainda não é hora. – Respondi
— Emm, você já está praticamente no nono mês. Seus bebês se comportaram muito bem. Acho que agora eles querem sentir o abraço da mamãe deles. Vou chamar uma ambulância.
— Chaaaa... maiiiiiii! – Misturei a gemida da dor com o pedido – Não tô aguentando mais. Se forem falsas, eles me medicarão.

Os paramédicos chegam, me examinam, dizem que não acreditam ser as contrações de Braxton Hicks, me colocam na maca e me levam para o hospital. Antes de sair, peço para uma de minhas assistentes reservarem um voo para minha vó e ligarem para ela e preparassem alguém para ir buscá-la. Geralmente quem faria isso seria Nola. Mas ela está indo comigo. Chego no hospital, sou internada. Dra. Kai chega logo depois.
— Virou médica desde nossa última consulta?
— Oh, Lani! Não briga agora não!! Não tenho condições!! Aiiiiiiii!
— Qual o espaçamento?
— A cada dois minuto desde que saímos do escritório. – Nola responde
— Vamos ficar atentas. Esse casal não demora a vim fazer bagunça aqui fora.

Ela sai do quarto. Ficamos eu e Nola. Trinta minutos depois de minha entrada no hospital, ainda estou sentindo muitas dores, Lani já esteve aqui 2 vezes para ver minha dilatação. Ainda falta muito para o parto normal. Alguém bate na porta.

— Olá! É aqui que tem duas crianças apressadas? – Derek entra no quarto
— Não. Mas tem duas crianças maltratando a mãe. Serve? – Digo entre dentes.
— Não diga isso. – Ele me corrige – Para você. – Me oferecendo um buquê de lírios brancos. As minhas flores favoritas
— Juro que quando para... Aiiiiiiiiiii – grito de dor – lhe agradeço devidamente. – Quando a dor passa.
— Então como estamos? Olá, Derek! – Lani entra na sala. Derek acena com a cabeça.
  Por favor, Dra. me alivia a dor! Me dá alguma coisa! – Suplico
— Prefiro esperar. Vamos ver! – E ela faz o exame. – Ainda não tem dilatação suficiente.
— Dra. ela está com muita dor. É normal? – Nola pergunta – Já acompanhei os partos de minhas cunhadas e nenhuma foi assim.
— O trabalho de parto é diferente de mulher para mulher. Mas vou pedir um ultrassom só para me certificar que está tudo bem com os bebês. – Aceno com a cabeça.

Quando a dor alivia um pouco pergunto a Nola se conseguiram falar com minha vó. Ela diz que conseguiram, mas não acharam voo direto. Ela falou também com Steph, que mandou o jato da empresa buscar minha vó e os tios. “Deus muito obrigada por ser tão bom comigo! Uma chefe como Steph não existe. Tenho certeza disso!” Faço uma oração mental.

— Eles estão pousando no final da tarde. E Derekse disponibilizou a pegá-los. – Olho para ele e agradeço.
A Dra. volta com uma equipe e o aparelho de ultrassom. Começa o exame.

— Não estou gostando de sua expressão, Lani! – Ela para o exame
— Mandem preparar a sala de parto. Emm, vamos precisar fazer uma cesárea. A Trixie está muito enrolada no cordão umbilical que é curto e é a primeira da fila. Não vou mentir, corri risco de sufocamento.
— Meu Deus! Minha menina! – Começo a chorar
— Ei, calma! Vai tudo terminar bem! – Derek se aproxima e segura minha mão, a acaricia e me dá um beijo terno em minha testa. – Ela é guerreira. Assim como a mãe dela.

Suas palavras me acalmam. Sou levada para o centro cirúrgico. Vejo todos ao meu redor. O medo me aflige, quero alguém ao meu lado. Antes de me anestesiarem, grito:

— Lana. espere!
— O que foi? Não temos muito tempo.
— Pede para alguém chamar o Derek para mim, por favor! – Ela faz um sinal com a cabeça, olho para o lado e uma das enfermeiras sai.
— Podemos agora? – Concordo com um gesto da cabeça.

Algum tempo estou com os olhos fixados no teto da sala. Luzes por todos os lados. Os bipes do aparelho que monitora meus sinais me levam para longe. Sinto alguém segurando minha mão, olho para o lado e vejo apenas aquelas duas bolas azuis acinzentadas como num dia nublado. Mas elas me tranquilizam. Ele faz um sinal de positivo com a cabeça, repito o gesto.

— E minha vó?
— Nola e eu iremos buscá-los, só chegam no final da noite. Por enquanto, não irei a lugar algum. – Ele me informa. – Ficarei ao seu lado.

Ouço o primeiro choro. Forte e alto.
— Olha quem chegou! – Derek fala enquanto espia o bebê na mão de Lani – Nosso Bennie tem um grito poderoso! – Sorrio ao ouvi isso
— Está tudo bem com ele?
— Está sim! – Lani me responde enquanto a enfermeira me entrega Bennie
— Oi, meu anjo! Seja bem vindo! Mamãe te ama muito! – Seguro a mãozinha dele. Tão pequenina! Mas tão forte!
— Vou limpá-lo. E já ele volta. – Aceno com a cabeça. Recebo outro beijo terno na testa de Derek
— Ele é lindo! – Ele elogia meu anjinho.
— Com cuidado! Vamos movê-la um pouco para cá!

Ao ouvir a voz de Lani olho assustada para Derek. Ela está tentando tirar minha Trixie. Como será que ela está? Derek parece atento ao que está acontecendo na região de minha barriga. Sinto um puxão, como um vácuo. Não consigo explicar.

— Vamos, Trixie! – Ela saiu de mim, mas não ouço seu choro.

Olho para Derek, parece que ele não respira. Aliás, a sala toda está em silêncio. Um longo silêncio. Quebrado de vez em quando pela voz da doutora implorando para que ela desse algum sinal. Nada! Olho para um lado, olho para o outro. Não vejo nada. Continuo ouvindo vozes, mas agora distante. Derek se põe de pé. Só agora percebo que esteve agachado esse tempo todo. Quero perguntar, mas a voz não sai.

— Vamos, Trixie! Bennie e mamãe estão esperando você! – Ouço a voz doce do pediatra conversando com minha anjinha.

“Deus não permite isso! Salva minha bebê!” – Fico repetindo isso mentalmente.

De repente um choro estridente e alto rompe o silêncio na sala. Derek respira aliviado. Eu começo a chorar alto.

— Quero ver minha filha! – grito repetidas vezes até que a me entregam. Seguro sua mãozinha. Beijo sua face inúmeras vezes. – Não faça mais isso com sua mãe, filha, por favor! – A enfermeira tenta tirá-la de mim, não deixo.

— Emm, ela precisa ser limpa, depois eles a trazem junto com Bennie. – Derek fala comigo.
— Promete que não vai acontecer mais nada com ela?
— Sabemos que “mais nada” é impossível de prometer. Mas prometo que hoje nada vai acontecer. – Ele me responde e libero minha menina.

Enquanto a Dra. fecha minha barriga, trazem os dois para meus braços. Estão lindos, enrolados na mantinha do hospital. De relance vejo a cor dos olhos deles. Azuis muito claros. Os dois! Puxaram os olhos do pai. E não só isso. Vejo muitos traços dele neles. Tiram eles novamente de meus braços. Sou levada para o pós-operatório e Derek sai do meu lado pela primeira vez.

Quando chego em meu quarto, ele estava lá. Sentado numa cadeira ao lado da cama. Estão ele e Nola esperando que eu chegasse.

— Steph ligou e para lhe parabenizar pelo nascimento dos meninos. – Nola me informa.
— Já viram eles? – Pergunto depois que sou colocada na cama. Todos acenam com a cabeça
— São os bebês mais lindos do berçário! – Nola baba os sobrinhos do coração.
— Quando poderei vê-los? – Pergunto a Lani assim que ela entra.
— Eles estão em observação, principalmente Trixie. Amanhã cedo se tiver tudo certo com eles, os trarão até você.
Ainda estava meio sonolenta por causa da anestesia, logo voltei a dormir. Nola me fez companhia durante a noite. Na manhã seguinte, sou acordada por Nana, me beijando a testa. Abro o olho e a vejo junto com tia Sam e tio James e Derek.
— Bom dia! – Cumprimento-os – Já foram vê-los?
— São lindos meus bisnetos
— Também! Com os pais que têm, só podiam ser lindos! – tia Sam se toca da presença de Derek. – Desculpe.
— Não se preocupe – Ele responde – Do pai não posso afirmar nada, mas se puxaram à mãe, serão ainda mais lindos do que já são! – Fala olhando para mim.
— Como está minha paciente? – Lani entra com um sorriso no rosto.
— Dra., boa dia. Sou a vó dela. Eles ficarão muito tempo internados?
— Não. Praticamente sairão junto com Emily. Eles são, o que chamamos de, pouco prematuros. A gestação deles foi de 36 semanas, se eles tivessem nascido semana que vem, por exemplo, não seriam prematuros. Então, se tudo estiver bem com eles, ganharem um pouquinho mais de peso, podemos estimar que em cinco dias eles recebam alta.
— Tudo isso, Lani?
— Deixe de ser afobada. – Nana me repreende – Você esperou 36 semanas para tê-los em seus braços, poderá esperar mais 5 dias.
— Nana! Agora sou mãe. Não pode mais falar comigo como se fosse adolescente.
— Não só pode, como irá continuar. – diz tia Sam – Assim como eu e James. Então, avisaram a Penny do nascimento?
— Nem da gravidez. – Respondo meio envergonhada.
— Você só pode estar brincando comigo? – Outra vez a voz de repreensão e aceno negativamente com a cabeça. – Quer dizer que abriu mão da amizade dela por um capricho besta?
— Vó, não é capricho nem besta e muito menos renunciei à amizade dela. – Falei em um tom mais severo que o de costume, então respiro fundo e continuo. – Apenas preferi proteger meus filhos. – Meu jeito de falar fica mais doce e calmo.
— Nossa! Drew virou o monstro do lago Ness. Ou pior, virou Taylor.
— Para, vó! – Grito com ela – A senhora não tem esse direito. – Começo a chorar.
— Acho melhor deixarmos Emily descansar. Foram muitas emoções ontem e ela ainda não se recuperou. – Sugere Lani. – Quem a acompanhará durante o dia. - Olho para Nola e Derek. Não quero que minha vó nem os tios fiquem. Não estou emocionalmente preparada para ter qualquer conversa sobre Penny e Drew.

— Eu ficaria, mas preciso estar naquela reunião com os australianos em seu lugar.
— Leve-os para a casa de Emm que eu fico. – Derek se oferece. Não há oposição por parte dos outros. – Estou de folga mesmo.

Sei que minha vó e os tios estão muito chateados comigo. Sei que errei em deixar Penny de fora dessa alegria. Mas o medo foi maior. Não queria alguém preso ao meu lado. Fiz o melhor que pude por nós três.

Tive alta dois dias depois. Pude levar Bennie comigo. Trixie foi liberado pelo pediatra como previsto, cinco dias depois do nascimento. Os tios ficaram 10 dias nos ajudando. E Nana ficou os primeiros 3 meses. Quando voltei a trabalhar, um mês depois do parto, sugeri a Steph que abríssemos uma creche na empresa. Primeiro faríamos um teste com a filial havaiana, se desse certo, levaríamos para as demais.

***

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Livro 2 - Frutos de uma paixão - Capítulo V


Emily Campbell

Aquela não foi a última vez que vi Derek. Nos meses seguintes, ele se mostrou muito prestativo. Chegando a me levar algumas vezes às consultas e exames. Ele confessou que achou estranho o interesse súbito em mim, especialmente por eu estar grávida.

— Deve estar achando que sou algum maníaco. Mas a verdade é que algo em você me chamou a atenção. Não sei o quê. Seu sorriso, o jeito delicado com que fala com seus bebês, ou com quem está ao seu lado, ou o fascínio com que olhava o pôr do sol. – Ele tentava me explicar enquanto retornávamos de mais uma consulta.

Já estávamos em abril, havia entrado na minha vigésima nona semana, e minha médica começava a se preocupar com um parto prematuro, comum numa gravidez gemilar, e levando em consideração meu histórico, corria um risco. Então a partir de agora nossas visitas seriam mais constantes.

“Anjinhos, mamãe preparou essa casinha tão acolhedora para vocês ficarem por nove meses. Aqui fora ainda não está pronto. Por favor!” – Passou a ser meu mantra diário.

Derek me deixou no escritório contra a vontade dele, por ele eu pediria licença e só voltaria a trabalhar depois do nascimento dos gêmeos. Mas não podia fazer isso, tinha dado minha palavra para Steph que a gravidez não atrapalharia meu andamento no escritório. E não atrapalhou nem irá. Nessa altura do campeonato, já estava como gerente regional da divisão havaiana, responsável por toda negociação com a Ásia e Oceania.

Já estava ganhando um bom salário, com o dinheiro que havia juntado em Nova York e agora, consegui dá uma boa entrada numa linda casa, que o banco recuperara, então o valor estava bem abaixo do mercado, com minha participação na agência de turismo e parte do salário conseguiria pagar as prestações até consegui vender a cobertura nos Hamptons.

Estava tudo caminhando. A decoração dos quartinhos ficou linda, nada de princesa e príncipe, o tema dos quartos era Anjos, todo em tom pasteis, colorido. Ficou digno de uma designer de interiores. Queria que Lisa visse meu trabalho. “Na verdade, queria que ela e Penny estivessem aqui, me ajudando!” Penso comigo mesma. Mas como? Se ninguém sabia o que estava realmente acontecendo comigo? Já pensei diversas vezes em como contar a Penny sobre os gêmeos, mas na hora h, falta coragem. Esse é o principal motivo de minhas discussões com Nana. Ela não gosta da ideia de deixar minha melhor amiga às escuras.

***
Drew Grant

Abril chegou e nossas previsões não se concluíram. Estamos atrasados na fundação. Mas ao que tudo indica, terminaremos esse mês, e mês que vem começamos as vendas na planta do condomínio. É um negócio arriscado para uma empresa do nosso porte, mas esse risco foi muito bem calculado.

Estou em reunião com meus engenheiros sobre as obras que estão sendo finalizadas ou em processo avançado. Precisamos liberar as equipes para a próxima etapa da obra. Mas está difícil, Gabriel está fazendo muito bem seu trabalho, na prospecção de novos clientes.

Ashley já não pega mais projeto nenhum novo, por causa da gravidez, ela corre o risco de ter um parto prematuro. Então tem se dedicado, quase que exclusivamente aos projetos antigos e ao condomínio. Transferiu a liderança de sua equipe para um outro arquiteto. Artie, é claro, preferia que ela ficasse em casa, mas não se atreve mais a falar nisso. Caiu na besteira de falar durante um almoço quando nossos pais vieram nos visitar, por pouco um prato não lhe acertou perna.

— Eu. Já. Disse. Que. Não. Vou. Parar. Até. O. Dia. Do. Parto. – Terminou a frase arremessando o prato que estava em sua mão na direção dele, mas para o chão.
— Calma, minha filha! Isso não fará bem aos bebês. Arthur! Para com isso, Ash está grávida e não doente. Eu também tive gêmeos e só parei uma semana antes de vocês nascerem, porque me sentia pesada demais para andar. – Minha mãe dificilmente nos chamava pelo nome, mas quando o fazia sabíamos que não estava feliz.
— Mas, mãe... – Ele tenta argumentar, mas papai não deixa
— Nem mais nem menos. Sua mãe tem razão. Ash sabe o que faz. E acabou o assunto.

E quando ele dizia “acabou o assunto” ninguém mais tentava argumentar. Ele já havia determinado. Meu pai não era intransigente, longe disso. Mas ele sabia que uma discussão entre Artie e a mamãe duraria intermináveis horas. Então ele acabava logo no início, dando como ganha a batalha por ela. Afinal, ele sabia onde o calo dele apertava.

Nesse período, meu lance com Becca foi ficando mais sério. Agora estávamos namorando realmente. Estar com ela era um alívio para as preocupações do dia a dia nas obras. Não falávamos sobre o trabalho nunca. Nem o meu nem o dela. Mas ainda não estava apaixonado por ela. E para piorar as coisas, embora ela fosse uma boa pessoa, não conseguia se entender com meu irmão, minha cunhada, nem Adam, muito menos Penny. De todos entendo Penny, que torcia pela amiga dela. E pelo que pude perceber, ela também não faz nenhum esforço para agradar a ninguém.

***
Penny Davis

Estamos entrando em maio e tem quatro meses que Emm foi para o Havaí. Se lhe disser que falei com ela uma vez por semana nesse período, estou exagerando. Facetime, então nem pensar. Não aceita um. Tem algo de estranho. Meus pais escondem algo de mim sobre ela, assim como a Nana. Pesquisei sobre o processo contra Taylor e não tem nada que a forçasse a sumir desse jeito.

— Meu amor, vai ver que é por conta do novo trabalho dela. Você bem conhece Emm, quando se envolve em algo, se entrega.
— Desde que não seja assunto do coração. – Rebato
— Desencana desse assunto, Penny. Os dois já lhe falaram sobre isso, já aceitaram que não daria certo. Só você que insiste.
— Eles desistiram muito fácil.
— Porque o que eles sentiam não era tão forte assim como...
— O que ele e a lambisgóia sentem um pelo outro?
— Não. Como você e Ash pensaram e quiseram.
— Aí tem. Esse sumiço de Emm. Ela está me escondendo algo. – Uma luz acendeu – Será?
— Será o que, amor?
— Não! Não! Ela me contaria! Melhor, eu perceberia! Perceberia?! Contaria?!
— Do que você está falando?!
— Preciso ligar para ela. E vai ser agora. – Vou para o quarto que era dela, tranco a porta. Não quero que Adam ouça. E faço a chamada, ainda é cedo lá.

O telefone chama... Chama... Chama... Até que ela atende.

— Penny aconteceu alguma coisa?
— Você que me diga. O que está escondendo de mim?
— O quê? Tá doida?
— Não. Sei que está escondendo algo de mim. O que é?
— Mana, eu... eu... não tô escondendo nada.
— Vou fazer um facetime, e se não atender, saberei que está escondendo algo muito sério de mim.
— Penny. Estou no escritório. Indo para uma reunião com empresários australianos, não posso fazer um facetime com você agora, somente para você tirar da cabeça uma hipótese criada por você de que estou escondendo algo. Quando minha reunião acabar te ligo. Aloha.
— Aloha o escambau. – Ela já havia desligado. Essa ligação não chegou naquela semana.

Graças a Deus a gestação de Ash está sobre controle e eles decidiram fazer um chá de bebê enquanto os bebês não chegavam. Convidaram muitos amigos casados, a família deles estava presente em peso. É claro que Drew trouxe a namoradinha. Ela não me desce. Não é divertida como Drew e vive o podando.

— Para Drew, estamos em público. – Reclamava ela de alguma brincadeira que ele fez antes de chegarmos.
— Olá! – cumprimento a todos.
— Oi! – me cumprimenta com um revirar de olho
— Vou dar um tabefe nessa criatura – grunho no ouvido de Adam
— Comporte-se. – Fuzilo ele com o olhar. – Não adianta fazer nada. Ele gosta dela. Como bons amigos devemos acatar sua decisão.
— Foda-se, Adam. Você também não a suporta.
— Mas administro esse não suportar por causa dele.
— Algum problema? – Drew pergunta.
— Que eu saiba não. – Respondi a ele.
Claro que não percebe. A sutiliza é questão de berço.
— Oi?! Você disse o quê? – Finjo não ter entendido.
— Ela não disse nada. – Drew tenta abafar o caso. – Becca, por favor.
— Mas eles que começaram a conversar cochichando, querido. Isso é extremamente grosseiro.
— Talvez, estivéssemos conversando um assunto nosso, que não lhe diz respeito, querida! – Essa última palavra saiu com um sarcasmo muito grande.
— Amor, vamos ali falar com os pais de Ash. Faz muito tempo que não converso com eles. – Adam me retira para não acontecer uma baixaria. – Você também não tem ajudado, né Penny?
— Ela que veio com a história de que eu não tenho berço. E foi ela quem começou revirando os olhos quando os cumprimentei.

Artie e Ash se aproximam de nós dois. Também chateados com a presença de Rebeca na festa.

— Juro que não entendo. Drew diz que ela é uma boa pessoa. Mas não consigo enxergar. – Artie comenta ao encostar onde estamos
— E Adam diz que penso o que penso dela porque queria que Drew se entendesse com Emm.
— Não é isso. Sei que ela é desagradável. Era na faculdade e só fez piorar depois que o sucesso subiu a cabeça. Mas sua birra com ela se deu por causa de Emm.
— Só não a coloquei para fora porque amo meu cunhado. Mas ela está demais hoje. – Ash comenta muito chateada – Hoje é a festa dos meus bebês.
— Vou lhes dizer uma coisa, é melhor nos acostumarmos com ela. Drew a segurou como um náufrago segura uma boia salva-vidas. – Artie alerta
— Concordo com você, meu amigo! – Adam completa. Eu e Ash apenas respiramos fundo.

***

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Livro 2 - Frutos de uma paixão - Capítulo IV


Março chegou e com ele começamos a obra do condomínio. A primeira etapa é a das fundações. A parte que sustenta todo o prédio. A expectativa é que finalizemos essa parte entre 30 e 45 dias, com os atrasos normais é possível que fechemos em 60 dias. Estamos todos muito envolvidos nesse projeto. Até mesmo Ashley tem aparecido constantemente no canteiro de obras para fiscalizar, deixando a todos preocupados, pois sua gravidez caminha para o sexto mês, já está com a barriga bem grandinha. Teremos um casal. Eles decidiram homenagear nossa irmã, e o nome da menina será Angela. Para o nome do menino decidiram sair da letra A, e seu nome será Raphael, como o anjo.

No campo pessoal, tenho saído algumas vezes com Becca. Ela tem me feito muito bem. É uma relação em construção, estamos nos conhecendo. Na época da faculdade, não sairia com alguém como ela, que era uma doce jovem, sonhadora, romântica, enquanto eu estava realmente focado em me formar e curtir aqueles anos, pois sabia que depois dali, a vida não me trataria com tanta benevolência, levaria porradas de todos os lados. E não estava errado. Tenho apanhado muito.

Mas agora, estamos mais maduros, a vida nos ensinou muitas coisas. Certas lições foram mais suaves que outras. Algumas foram duras demais. Mas sobrevivemos e amadurecemos. Hoje sinto que ela não quer as mesmas coisas que queria na faculdade. Construiu um nome de respeito em sua área. Construiu sua empresa de móveis personalizados do nada e alcançou o mercado europeu, além do nosso. Está bem focada no trabalho.

Eu, que pensei em formar uma família como meus pais e irmão, percebi que é melhor estar solteiro. Não quero amarras. Quando comecei a me envolver com Emily, foi tudo muito intenso e rápido. Desde o momento em que a vi entrar no restaurante com Adam percebi que ela era a mãe de meus filhos, a mulher com quem eu teria tudo que meus pais sempre tiveram, e que queria para mim, quando chegasse a hora. Não que eu seja um cara romântico, mas também não estou longe disso. Cresci num lar repleto de amor, carinho e compreensão. Mesmo na época da morte de Angie, nunca ouvimos uma palavra ou vimos um gesto ou um olhar de acusação ou reprovação por a termos deixado sair sozinha. Porém essa culpa nos acompanhou mesmo sem acusações.

Mas eu acho que me afetou mais que a Artie. Logo ele compreendeu que não tivemos culpa. Claro que esse esclarecimento veio com a ajuda profissional. Mas comigo foi diferente. Desde que enterramos nossa irmã, tenho sonhos com ela sendo agredida. Em todos, principalmente nos primeiros meses, o agressor era eu. Minha psicóloga me disse que era uma projeção do que estava sentindo e que com o tempo passaria. Ela estava certa, ao longo dos anos, o agressor passou a ser o que ele era, um corpo sem rosto. Mas a culpa ainda me corroía.

Sempre que estava na companhia de alguma mulher, me sentia na obrigação de acompanhá-la até em casa. Independente se eram apenas amigas ou se tinha rolado algo de uma noite ou se eram minhas namoradas. A maioria preferia ir de táxi ou uber. Cheguei a seguir algumas. Quase fiz isso com Emily naquele dia, mas me contive. Fazendo a ligação, perguntando se já havia chegado e pedindo para me ligar, de acordo com suas respostas, o motorista saberia que ela estava sendo monitorada por alguém. E esperava que lembrassem do quão grande eu era, fazia questão de abrir a porta do carro e mostrar meu rosto a ele.

Eram medidas que aliviavam minha tensão, minha preocupação. Nunca soube de alguém com quem eu tenha estado ter sido atacada depois que tínhamos nos visto. Mas era certo que os pesadelos não me deixariam dormir.

***
Emily Campbell

Março chegou e aqui no Havaí, o sol está sempre brilhando. Tem um mês que estou trabalhando com Stephanny Fletcher. Em nossa primeira reunião aqui, quando comecei a trabalhar com ela, me informou que o cargo de sua assistente era temporário, que, na verdade, estava procurando uma pessoa para gerir a filial havaiana de sua empresa. E que meu professor tecera os melhores elogios sobre mim. E que ficara curiosa para me conhecer. Se tudo desse certo em três meses, minha posição na empresa mudaria e eu passaria a gerenciar toda a divisão nas ilhas. Uma grande responsabilidade.

Ainda não assumir de vez a posição, mas a cada dia que passava faço menos coisas para ela e mais para a empresa. Ela tem me ensinado todos os processos administrativos e organizacionais da Fletcher Co, que é uma multinacional com sede em Nova York, o que de vez em quando me levaria de volta à cidade, e com algumas filiais em pontos estratégicos na Europa. Ela começara a expandir os negócios para a Ásia e Oceania, e a filial no Havaí seria a responsável por essa expansão. A princípio estávamos receosas por causa de minha gravidez. Mas garanti a ela, que em momento algum isso iria me atrapalhar. E ela me disse que jamais descartaria uma mulher candidata a um cargo por causa de uma gravidez. E que, juntas, daríamos um jeito.

Enquanto a sorte sorriu novamente para mim no campo profissional, no lado amoroso continuo sofrendo. Não tem um dia só que não pense em Adam. Penny sempre tenta me dar notícias dele, mas sempre a corto. Ainda não contei a ela dos gêmeos. Não sei qual será a reação dela quando souber. Estou chegando ao sexto mês, e graças a Deus não sofreram nada com o que passei no início da gravidez. Às vezes me questiono se tomei a decisão correta. Estou sozinha em Maui, longe de meus amigos e minha família. O que será de mim quando chegar a hora?

Quando chego no apartamento do hotel, onde ainda estou hospedada, e graças a Deus Stephanny disse que a empresa assumiria as despesas do hotel até arrumar um lugar definitivo para mim, começo a procurar imóveis em sites. Então, em minhas horas vagas, tenho visitado muitas casas e apartamento. Decidi aceitar a proposta de Artie, fiquei com a cobertura deles, uma de 4 quartos, sendo todas suítes, mas a ideia é assim que começarem as vendas do projeto, Penny colocar à venda por mim, já que ela é minha procuradora. E espero que com esse valor possa comprar ou dar entrada em algo aqui, estou muito assustada com os valores imobiliários. Quero ver se consigo comprar uma casa com 3 ou 4 quartos. Mas verei isso. Vai depender da cobertura em Nova York.

***
Drew Grant

Sábado a noite. Chamo Becca para sairmos. Decidimos jantar e ir ao cinema. Tinha um filme que ela queria muito assistir, não era o tipo de filme que curto, mas a companhia vale, uma mistura de romance com documentário baseada na história de uma personagem histórica que ela admira. O filme não foi de todo ruim, mas tirei alguns cochilos, “Espero não ter roncado”, penso. Não que eu ronque normalmente, mas sabe, quando não se quer algo, isso acontece. E tenho andado muito cansado por conta das obras.

— Desculpe se o filme foi chato. – Ela me fala assim que saímos do cinema.
— Não. Foi chato, não. – Respondi tentando achar algum entusiasmo
— Então os cochilos foram de cansaço?
— Eu que me desculpo. Foram de cansaço sim. Passei o dia na obra.
— Não precisa se desculpar. Só o fato de ter aceitado assistir esse filme, já compensou os cochilos e roncos.
— Eu não ronco.
— Ronca sim.

E persistimos nesse ‘ronca, não ronco’ por alguns instantes. Até que ela assumiu que eu não havia roncado. Já fazia mais de um mês que estávamos saindo, mas nem eu havia entrado em seu apartamento, nem ela no meu. E parecia que ela estava decidida a mudar essa situação. Ao chegarmos na porta do prédio, ela me pergunta se não quero subir. “A verdade é que não sei se quero subir ou não”, penso mas não me atrevo a proferir uma só palavra.

— Já é tarde. Estou cansado.
— Vamos lá, Drew! Não somos mais crianças.
— Vamos deixar para a próxima, realmente estou morto. – Dou-lhe um beijo, espero que desça do carro, entre no prédio e volto para casa.

Não que eu não quisesse passar a noite com ela. Mas não me sinto preparado ainda. Nunca fui cafajeste, de ir para a cama pensando em outra. E minha cabeça ainda teimava em pensar em Emm. Mas essa situação não poderia perdurar por mais tempo. Precisava dar um jeito nisso. Entro em casa, mal tomo banho e deito. Acordo no dia seguinte com o sol batendo em meu rosto. Só então percebo que dormir de toalha. Realmente estava muito cansado.

***
Emily Campbell

Hoje é sábado e o pessoal do escritório resolveu se encontrar em um bar no final da tarde para curtir. Havia dito que não iria, por causa da gestação. Aliás tenho usado meus anjinhos muito como desculpas.  Então resolvo que merecia uma distração. Ainda não havia conhecido a noite havaiana. Vou ao meu guarda-roupas procuro um vestido confortável e que me caia bem. Graças a minha linda barriguinha, muitas de minhas roupas não cabiam mais, principalmente minhas calças. Escolhi um liso, de tecido leve, num dégradé nos tons de verde, claro no busto e escurecendo à medida que desci até o meio da coxa. Coloquei uma sandália baixa, afinal depois da semana inteira usando salto e roupa mais séria, queria algo simples, confortável e leve. Chamei um taxi, peguei minha bolsa e fui ao encontro da turma.

Escolheram o Aloha Bars Maui, que para minha sorte, fica perto de onde estou hospedada. O local é muito bonito e aconchegante, fica de frente para o mar, com uma área verde a céu aberto com mesas distribuídas, muita madeira escura. Gostei muito do ambiente.

— Olha, quem resolveu dar o ar da graça! – Fui recebida com entusiasmo por todos.
— Nossa amável novaiorquina! Sente-se aqui.
— Não sou novaiorquina, já disse isso.
— Os anjos permitiram você sair?
— Pois é! Conversei com eles e disse que a mamãe precisava conhecer mais a terra deles e as pessoas. Preciso arrumar uma babá para eles, afinal! – E olho como quem diz será um de vocês e damos risadas.

Alguém pede para mim um coquetel que não sei pronunciar o nome ainda, mas muito gostoso e sem álcool. Não veio em um daqueles abacaxis e nem tinha abacaxi na receita. A mesa estava repleta de pessoas, não só do escritório, mas era uma reunião entre amigos. Não passou despercebido por mim, nem por Nola, uma das assistentes de Stephanny, que se tornaria minha melhor amiga aqui, um olhar mais fixado em minha direção, que vinha de um homem, de uns 30 e poucos anos, cabelo castanho escuro, os olhos azul acinzentados, impossíveis de desviar, sentado um pouco à minha direita e à frente. Não sei se foram os hormônios da gravidez ou carência. Ou mesmo os dois. Mas ele mexeu comigo.

Não consegui ficar sentada, resolvi ir ver o por do sol, que é tão lindo, ou mais, que os de Nova York. Levanto-me e saio em direção à praia, chego até o final da área verde e fico em pé observando.

— A vista daqui é muito linda, mesmo? – Dou um pequeno salto por causa do susto. Olho de onde vem a voz. Mas, não sei se é minha imaginação, mas ele não estava se referindo ao por do sol. – Desculpe o susto, não foi minha intenção. – Sua voz é calma e suave.
— Tudo bem, tomo esses sustos diretos. Fico muito concentrada facilmente. – Lembro-me dos sustos que Drew vivia me dando.
— Quer dizer, que você é a nova contratada da Fletcher?
— Sou. E você também trabalha lá?
— Eu?! – Solta um sorriso de canto de boca pra lá de charmoso – Não. Cuido da segurança. Derek Crawford, detetive da Polícia do Havaí. – E estende sua mão em minha direção
— Emily Campbell. Assistente direta de Stephanny Fletcher. — Prazer.
— Todo meu. – Outra vez o sorriso. – O pai do bebê também trabalha lá?
— Não. Digamos que eles sejam produção independente.
— Gêmeos? – Aceno com a cabeça sem tirar meus olhos dos olhos dele – Além de bonita, corajosa!
— Por que corajosa?
— Tenho certeza de que tinha sua vida bem estruturada em Nova York, abandonou tudo, grávida de dois bebês e se mudou para o outro lado do país. Corajosa.
— Não vou dizer que não sou corajosa. Mas minha mudança para cá foi mais por necessidade do que por coragem ou desejo de aventura.
— Entendo. – Ele me responde e vira-se para admirar comigo o espetáculo da natureza.

E um papo animado teve início logo após nos juntarmos novamente ao grupo. Nola me lançou alguns olhares inquisitórios sobre Derek, que fui respondendo de forma discreta, pois ele continuava a me olhar fixamente.

— O que foi, Nola?
— O que estavam conversando?
— Nada demais. Sobre meus anjinhos e minha vinda para cá. Me chamou de corajosa.
— E você é.
— Talvez um dia lhe conte minha história. E depois não vá me achar tão corajosa assim. Principalmente quando, e se, falar do pai deles. – E aliso minha barriga.
— Não importa. Só em ter um bebê sem o pai ou qualquer outro familiar por perto, você é corajosa. – Aceno com a cabeça, mas sem prestar muita atenção ao que ela diz.

Estou olhando para frente, mas sem enxergar nada. Meus pensamentos vão para o passado. Mesmo sem prestar muita atenção para o que estava olhando, pude perceber que Derek continuava a me olhar. E de repente, um pensamento assustador passa pela minha cabeça: “Que tipo de pervertido é esse que fica encarando uma mulher grávida?” E a noite transcorre na maior alegria. Por volta das dez horas resolvo pedir um taxi para ir para casa.

— Se quiser posso deixá-la em casa? – Ele se oferece. Já ouvi isso antes. E olha no que deu.
— Não precisa, muito obrigada. Não quero dar trabalho.
— Nola me disse que mora perto dela e já vou dar carona a ela, estamos indo para a mesma área.
— Sendo assim, aceito.

Entramos no carro, uma pick-up, na qual tenho um pouco de dificuldade de entrar devido a barriga. Tem horas que me sinto grávida de 9 meses. Nola vai atrás. Vamos conversando coisas triviais. Ao entrar em casa, tomo um banho, coloco meu pijama e deito na cama para pensar. Acordo com a luz do sol entrando pela janela. Dormi sem desfazer a cama.

***