terça-feira, 4 de agosto de 2020

Livro 3 - Paixão Renovada - Capítulo 10


Emily Campbell

Drew não me permitiu chamar um carro para nos levar. Insisti, mas ele foi intransigente quanto a isso. Com a desculpa de ficar perto de meus filhos, viajei no banco de trás do carro. Percebia seu olhar através do espelho retrovisor. Um olhar triste. Doloroso. Conhecia a dor dele. Talvez fosse pior do que a minha. Eu sabia o motivo que estava me levando a tomar aquela decisão. Ele estava no escuro. E precisava ficar no escuro. Meu telefone vibra. Uma mensagem:
“Esse não era nosso combinado. O que está fazendo com ele e essas crianças?”
“Eu lhe disse que me separaria dele, mas nunca de meus filhos.”
“Não vou criar os filhos do playboy”
“Por favor, entenda. Farei tudo o que quiser, mas me deixe ficar com meus filhos.”
“Você tem uma semana para se livrar desses pestinhas. Senão eu mesmo faço isso.”
Ergo meu olhar e ele está me observando. Engulo o choro. Não posso arriscar. Redireciono essas mensagens para Derek. Passo a brincar com um e com o outro. O telefone vibra novamente.
“Ótimo. Ele nos deu mais uma semana. Já estou em Mystic.”
Não respondo de imediato. Prefiro esperar chegar em casa e arrumar tudo primeiro antes de conversar com ele. Penny irá me bombardear de perguntas e precisarei explicar a ela tudo. Vou precisar de uma advogada, com certeza. Quando chegamos, Drew tenta nos ajudar com a bagagem, mas eu dispenso.
— Muito obrigada, pela carona. Mas não precisa se incomodar mais.
— Levar a bagagem não é incomodo algum. Incomodo é você me abandonando.
— Não vamos retomar essa conversa. Só peço que me perdoe e entenda.
— Vou subindo com os meninos e peço para Penny descer para lhe ajudar. – Sabrina alerta e aceno com a cabeça
— Como posso entender e perdoar algo que não sei o motivo?
— Anjo, - chego bem perto dele, seguro-lhe os braços, mas me arrependo e o largo — Drew, é o melhor que posso fazer por mim, por você e pelos meninos. Entenda isso.
— Não vou desistir de você. Fiz isso uma vez, não vou fazer de novo. Quero minha família. Eu, os meninos e você. – Ele me agarra e me beija. Um beijo apaixonado, reivindicando seu lugar em minha vida. A princípio cedo. Mas logo o afasto de mim.
— Por favor, não faça isso. Guarde na lembrança os momentos que vivemos juntos. Eu farei isso. Você me ensinou o que é o amor de verdade, me apresentou uma vida calma, segura. Mas não dá mais. Nosso tempo, - inspiro fundo, tomo coragem mais uma vez, dou alguns passos para trás – acabou. – Solto todo o ar que havia inspirado, viro meu corpo e começo a carregar as coisas. Penny vem ao meu encontro, pega o que havia sobrado e entramos.
Não olho para trás. Penny fecha a porta de entrada do prédio. Tenta falar algo, mas não a escuto. Vou direto para o apartamento e em seguida para o quarto. Largo tudo e desabo na cama.
— Vai me contar que diabos está acontecendo? O que houve em Maui nesses dias que ficou só?
— Feche a porta, por favor. – Ela se vira e fecha a porta. – Quero conversar com minha advogada.
— Por quê?
— Porque o que eu lhe contar a partir de agora tem que estar protegido pela relação cliente-advogado.
— O que foi que aconteceu? – Ela fala pausadamente. -  Você está me assustando. O que você fez em Maui?
— Não fiz nada. Não aconteceu nada em Maui. Aconteceu aqui.
— Emm, não tem cinco horas que você chegou. O que poderia ter acontecido com você nesse intervalo de tempo, para que precisasse de uma advogada?
— Não foi hoje. Vamos lá. O que vou lhe contar quase me matou de susto. E por causa disso tive um curto lapso de memória e fui parar no hospital.
— Porra! Que diabos aconteceu? Você está me assustando de verdade! – Penny grita.
— Você não está sabendo que Taylor foi solto, né?
— Não! Não! Como? Quando?
— Tem algo entorno de um mês, dois meses. Sei lá. Parece que cumpriu a pena, foi solto em condicional, não sei.
— E...?
— Não sei como, ele encontrou meus filhos passeando na praça com Sabrina e está nos ameaçando.
— Filho da puta! Não aprendeu a lição?! O que Drew disse sobre isso?
— Nada.
— Nada?! Como assim nada? – Minha feição diz que ele não está sabendo. – Você escondeu isso dele?! Tá louca? São os filhos dele, você lembra disso?
— Por isso mesmo. Fui aconselhada a só conversar com você, como minha advogada e não como minha amiga.
— Quem lhe disse isso?
— Derek e Tina. Conversei com os dois. Foi ela quem me falou sobre a soltura do desgraçado.
— O que ele está exigindo?
— Que largue tudo e volte a morar com ele em Mystic City.
— Você não está pensando nisso? Tá?
— Estamos falando de meus filhos.
— Estamos falando de um maníaco perseguidor e agressor.
— Escuta. Consegui uma semana com os meninos. Mas terei que deixá-los aos cuidados de Drew até o fim de semana. Caso contrário algo muito sério poderá acontecer a eles. Não tenho escolha, se não fazer ele achar que estou atendendo a seus desejos.
— E seu emprego?
— Amanhã conversarei com Steph e explicarei a ela.
— Então semana que vem, você voltará para Mystic?
— Em teoria, sim.
— Você terminou com Drew?
— Foi preciso.
— Não estou gostando disso.
— Penny, lembre-se falei tudo isso a você por causa da confidencialidade.
—Sou profissional, sabe muito bem disso. E qual é o plano?
— Só sei a minha parte. E espero não ter que conclui-la.
E conto a ela o que preciso fazer até que tudo se resolva. Pego o telefone e ligo para Derek.
— Oi, Emm!
— Ótimo?! Ótimo?! Ótimo?! – Estou gritando. - Ele quer que eu largue meus filhos e você me diz ótimo?!?! – Estou aos berros.
— Sabe muito bem que não quis dizer isso. É ótimo que temos uma semana para achar o desgraçado.
— O que descobriu até agora?
— Tina, me colocou a par de tudo. Ele não está na cidade. Ou pelo menos, em nenhum lugar conhecido. Ela conseguiu um mandato para virar a vida dele pelo avesso. Agora tente descansar e se distraia com os meninos.
Durante a semana, sou bombardeada de mensagens dele me cobrando. Conversei com Steph. Consegui com ela fazer meu trabalho remotamente. Realmente Drew não desistiu da gente. Todos os dias recebo algo dele, uma foto de piquenique ou de uma cachoeira, vídeos de músicas que ouvimos juntos ou que tinha alguma relação com a gente, nada muito grande, mas muito significativo. Isso está me matando. Ele está tentando me reconquistar. Reconquistar algo que ele não perdeu. Todos os dias ele vem aqui, com a desculpa de ver os meninos. E isso tem irritado ainda mais Taylor. Depois que Drew vai embora ele manda mensagens muito mais agressivas.
Derek voltou de Mystic City. Viraram a vida e a cidade de cabeça para baixo e não o acharam. O final de semana estava chegando e meu desespero aumentando. Não tinha outra alternativa. Teria que mandar meus anjos para o pai e nunca mais os veria.
“Então, minha Mi. Já está arrumando as coisas dos pestinhas? O seu tempo está acabando”
Mostro a mensagem para Derek. Ele me pede para tentar ganhar mais tempo.
“Por favor, me deixe ficar com meus filhos”
“Já lhe disse que não vou criar esses pestes”
“Não fale assim deles. Sem eles eu morreria”
“Terá os nossos”
Aquela última mensagem me embrulha o estômago.
“Eu não posso mais ter filhos.”
“Livre-se deles! E quanto a porcaria do seu emprego? Vai pedir demissão quando?
“Preciso de tempo para que consigam um substituto.”
“Não me enrole. Seus filhos pagarão por isso.”
“Não estou te enrolando. Não sou irresponsável.”
Ele para de mandar mensagem. Algo nas mensagens dele tem me chamado a atenção.
— O que foi? – Derek me pergunta
— Essas mensagens.
— Relaxe, não vai acontecer nada com eles. Eu prometo a você.
— Não é isso. Tem algo de errado. A escrita. Não são palavras dele e está escrito muito correto.
— O que você está dizendo?
— Taylor não terminou os estudos. Nunca escreveu certo. Por exemplo, ele não escreveria pagarão, usaria “m” no lugar de “ão”. E demissão ou seria com um “s” só ou com “ç”.
— Tá achando que não é ele quem está mandando as mensagens?
— Não sei. Só me chamou a atenção.
— Vou falar com meus contatos aqui e pedir para que verifiquem isso. – Aceno com a cabeça.
Decido não prolongar mais. E no sábado peço para que Drew venha pegar os meninos. Na segunda, Sabrina sabe que passará a trabalhar na casa de Drew. Aproveito que estão dormindo e arrumo as coisas deles. Todas as coisas deles. As lágrimas não param de cair. No final da tarde, Drew chega. Aproveito que os meninos foram passear com Sabrina.
— Oi, anjo! – Me cumprimenta quando abro a porta.
— Oi. Senta. Preciso conversar com você.
— Aconteceu alguma coisa com os meninos?
— Mais ou menos.
— O que foi?
— Você sabe o quanto os meninos são importantes para mim, não sabe?
— Emm, o que está acontecendo?
— Preciso lhe pedir um favor enorme.
— Sabe que faço tudo por você. O que é?
— Quero... Quero não, preciso. Preciso que você... É importante que você entenda que...
— Emily, o que está acontecendo? – Vejo o desespero em seu olhar e em sua voz. — Você está me assutando.
— Droga! – Levanto-me do sofá – Eu não consigo! Eu não consigo! São muito importantes para mim! São minha vida! – Começo a chorar desesperadamente
— Meu Deus, Emily! O que é tão importante assim? O que você precisa que eu faça por você que está lhe deixando assim? – Ele está assustado, quase gritando.
— Emm?! – Ergo minha vista e vejo Penny e Derek parados me olhando.
— O que ele está fazendo aqui? – Drew não entende a presença de Derek
— Eu não consigo. Dói demais! É duro demais!
— Amiga, você precisa.
— Alguém pode me falar o que está acontecendo? Ou será preciso arrancar de vocês?
— Quer que eu conte? – Penny me pergunta
— Você não pode. Nossa relação é de advogada e cliente.
— Penny, o que está acontecendo? Para que essa confidencialidade?
— Emm, ou você pede ou teremos que pedir por você. – Derek me alerta. – Mas não pode passar de hoje.
— Agora chega. Derek me fale o que está acontecendo. – Drew esbraveja
— Ela precisa que você assuma a guarda dos meninos. – Meu choro se intensifica.
— Não. A guarda é dela. E ficará com ela.
— Drew. Ela precisa que você assuma isso. – Penny da ênfase no “precisa”
— Por quê?
— Não vem ao caso.
— Anjo, você está doente? – Ele se aproxima e me segura. Eu apenas sacudo minha cabeça. – Então por quê? – O telefone toca. Outra mensagem. Meu choro aumenta. – O que tem essa mensagem?
— Nada. – Falo entre lágrimas. – Por favor, leve os meninos. Cuide bem de nossos filhos. Lembre-se que sempre amarei vocês. – Saio correndo para meu quarto. Penny vem atrás de mim.

***
Drew Grant

Ver Emily daquele jeito me destruiu. Por que ela está me pedindo que fique com os meninos se ela não quer isso? Se a machuca tanto fazer isso? Resolvo perguntar a Derek.

— Derek, o que está acontecendo?
— Infelizmente, não posso contar. Sei que você não me conhece nem confia em mim. Mas precisamos que confie cegamente agora. Embora estejamos lhe pedindo que fique com os meninos, estamos torcendo para que seja temporário.
— Você não acha que está me pedindo demais? Olha como ela ficou?
— Eu sei. É demais sim, para pedir a qualquer um. Tenho acompanhado essa dor dela desde Maui. Mas estamos fazendo de tudo para que seja por pouco tempo.
— Papai!! – Os meninos entram em casa correndo. Sabrina se aproxima de Derek e fala algo.
— Derek. Aconteceu algo estranho agora quando estava chegando.
— O que foi? – Ela olha para mim.— Algum problema, Sabrina?
— Não, Sr. Drew. Não foi nada.
— Sabrina. Pode falar. – Derek avisa. – O que foi?
— A ex-namorada do senhor – e olha novamente para mim
— Becca? O que tem ela?
— Estava do outro lado da rua, como se estivesse esperando alguém. Com um celular na mão e olhando para o relógio o tempo todo.
— Ela lhe viu chegando? – Ela balança a cabeça. – Você tem foto dela, Drew?
— Para quê? – Eu pergunto. O celular de Emm toca de novo.
— Só para eu ver uma coisa. – Abro a galeria de fotos e procuro. Encontro uma e mostro a ele. – Pode enviar para mim? – Ele me passa o número dele e envio a foto. – É melhor vocês irem. Aqui as coisinhas deles.
— Está tudo aí? – Sabrina lhe pergunta. Derek assente com a cabeça. – Ela vai se despedir deles?
— É melhor que não. Está muito abalada.
— Hoje foi muito difícil para ela.
— Eu vou ficar no escuro mesmo? – Ninguém me responde. – Então é melhor irmos, Sabrina. – Começamos a pegar as coisas deles e descer.
Colocamos tudo no carro. Ajudo Sabrina a colocar os meninos nas cadeirinhas, guardo o carrinho deles e nos despedimos de Derek.

***
Derek Crawford

A investigação em Mystic City não deu em nada. Mas a pista sobre as mensagens confirmou que elas viam de um telefone de Nova York e que nunca saiu da cidade. O amigo de Emily, Penny e Tina que é juiz entrou em contato com um colega que é juiz na cidade e pediu que liberasse uma autorização de rastreamento e escuta para aquele número.
Depois que Drew vai embora com os meninos e Sabrina, ligo para meu contato aqui e peço que rastreie o telefone. Estou com uma desconfiança. Acho que esse telefone esteve aqui perto. Então volto para o apartamento.
— Como ela está? – Pergunto a Penny, quando entro.
— O calmante a fez dormir.
— O que você pode me falar da ex-namorada de Drew?
— Aquilo é uma cobra. A última ação dela, levou Trixie para o hospital.
— O que foi que ela fez a Trixie?
— Roubou a bombinha da menina, durante uma crise respiratória dela.
— Sério?! – Ela acena com a cabeça. – Faz muito tempo que Drew terminou com ela?
— Não. Foi depois que Emm voltou. Tem uns dois meses, mais ou menos. E tenho para mim que não aceitou muito bem.
— Interessante! – coloco a mão no queixo e balanço a cabeça. — Muito interessante.
— O que você está pensando?
— Em nada. Vamos esperar. Essa semana vai ser crucial para nossa amiga. Precisamos estar alertas.
Estávamos assistindo TV, eu e Penny, quando Adam entra afobado no apartamento.
— Que porra está acontecendo aqui?
— Nada! Só estamos assistindo TV, Adam. Calma! – Respondo
— Não com vocês dois. Com Emm.
— Fale mais baixo para não acordá-la. E se acalme, que não está acontecendo nada.
— Como não?! Ela terminou com Drew e lhe deu a guarda dos meninos.
— Adam, ela tem os motivos dela, não nos cabe nada se não aceitar sua decisão. Ela passou os cuidados para o pai deles, não para um estranho qualquer. – Respondo a ele.
— Isso. – Emm aparece e concorda.
— Como você está, mana?
— Me sinto entorpecida. Parece que estou vivendo um pesadelo.
— E está, né, minha amiga. E está! – Penny vai até Emily e a abraça.
— Vocês não vão me dizer o que está acontecendo?
— Adam, se eu soubesse que você sabendo iria me ajudar, lhe contaria. Mas infelizmente, ninguém mais pode me ajudar.
— Ele sabe? – E move a cabeça em minha direção.
— Ele é quem mais pode me ajudar. Por favor, confia em mim! – Ela implora e ele acena com a cabeça.

***

Nenhum comentário:

Postar um comentário