Emily
Campbell
Drew não me permitiu chamar um carro para nos
levar. Insisti, mas ele foi intransigente quanto a isso. Com a desculpa de
ficar perto de meus filhos, viajei no banco de trás do carro. Percebia seu
olhar através do espelho retrovisor. Um olhar triste. Doloroso. Conhecia a dor
dele. Talvez fosse pior do que a minha. Eu sabia o motivo que estava me levando
a tomar aquela decisão. Ele estava no escuro. E precisava ficar no escuro. Meu
telefone vibra. Uma mensagem:
“Esse não era nosso combinado.
O que está fazendo com ele e essas crianças?”
“Eu lhe disse que me separaria
dele, mas nunca de meus filhos.”
“Não vou criar os filhos do
playboy”
“Por favor, entenda. Farei
tudo o que quiser, mas me deixe ficar com meus filhos.”
“Você tem uma semana para se
livrar desses pestinhas. Senão eu mesmo faço isso.”
Ergo meu olhar e ele está me observando. Engulo
o choro. Não posso arriscar. Redireciono essas mensagens para Derek. Passo a
brincar com um e com o outro. O telefone vibra novamente.
“Ótimo. Ele nos deu mais uma semana. Já estou
em Mystic.”
Não respondo de imediato. Prefiro esperar
chegar em casa e arrumar tudo primeiro antes de conversar com ele. Penny irá me
bombardear de perguntas e precisarei explicar a ela tudo. Vou precisar de uma
advogada, com certeza. Quando chegamos, Drew tenta nos ajudar com a bagagem,
mas eu dispenso.
— Muito obrigada, pela carona. Mas não precisa
se incomodar mais.
— Levar a bagagem não é incomodo algum.
Incomodo é você me abandonando.
—
Não vamos retomar essa conversa. Só peço que me perdoe e entenda.
—
Vou subindo com os meninos e peço para Penny descer para lhe ajudar. – Sabrina
alerta e aceno com a cabeça
—
Como posso entender e perdoar algo que não sei o motivo?
— Anjo, - chego bem perto dele, seguro-lhe os
braços, mas me arrependo e o largo — Drew, é o melhor que posso fazer por mim,
por você e pelos meninos. Entenda isso.
— Não vou desistir de você. Fiz isso uma vez,
não vou fazer de novo. Quero minha família. Eu, os meninos e você. – Ele
me agarra e me beija. Um beijo apaixonado, reivindicando seu lugar em minha
vida. A princípio cedo. Mas logo o afasto de mim.
— Por favor, não faça isso. Guarde na lembrança
os momentos que vivemos juntos. Eu farei isso. Você me ensinou o que é o amor
de verdade, me apresentou uma vida calma, segura. Mas não dá mais. Nosso tempo,
- inspiro fundo, tomo coragem mais uma vez, dou alguns passos para trás –
acabou. – Solto todo o ar que havia inspirado, viro meu corpo e começo a
carregar as coisas. Penny vem ao meu encontro, pega o que havia sobrado e
entramos.
Não olho para trás. Penny fecha a porta de
entrada do prédio. Tenta falar algo, mas não a escuto. Vou direto para o apartamento
e em seguida para o quarto. Largo tudo e desabo na cama.
— Vai me contar que diabos está acontecendo? O
que houve em Maui nesses dias que ficou só?
— Feche a porta, por favor. – Ela se vira e
fecha a porta. – Quero conversar com minha advogada.
— Por quê?
— Porque o que eu lhe contar a partir de agora tem
que estar protegido pela relação cliente-advogado.
— O que foi que aconteceu? – Ela fala
pausadamente. - Você está me assustando.
O que você fez em Maui?
— Não fiz nada. Não aconteceu nada em Maui.
Aconteceu aqui.
— Emm, não tem cinco horas que você chegou. O
que poderia ter acontecido com você nesse intervalo de tempo, para que
precisasse de uma advogada?
— Não foi hoje. Vamos lá. O que vou lhe contar
quase me matou de susto. E por causa disso tive um curto lapso de memória e fui
parar no hospital.
— Porra! Que diabos aconteceu? Você está me
assustando de verdade! – Penny grita.
— Você não está sabendo que Taylor foi solto,
né?
— Não! Não! Como? Quando?
— Tem algo entorno de um mês, dois meses. Sei
lá. Parece que cumpriu a pena, foi solto em condicional, não sei.
— E...?
— Não sei como, ele encontrou meus filhos
passeando na praça com Sabrina e está nos ameaçando.
— Filho da puta! Não aprendeu a lição?! O que
Drew disse sobre isso?
— Nada.
— Nada?! Como assim nada? – Minha feição diz
que ele não está sabendo. – Você escondeu isso dele?! Tá louca? São os filhos
dele, você lembra disso?
— Por isso mesmo. Fui aconselhada a só
conversar com você, como minha advogada e não como minha amiga.
— Quem lhe disse isso?
— Derek e Tina. Conversei com os dois. Foi ela
quem me falou sobre a soltura do desgraçado.
— O que ele está exigindo?
— Que largue tudo e volte a morar com ele em
Mystic City.
— Você não está pensando nisso? Tá?
— Estamos falando de meus filhos.
— Estamos falando de um maníaco perseguidor e
agressor.
— Escuta. Consegui uma semana com os meninos.
Mas terei que deixá-los aos cuidados de Drew até o fim de semana. Caso
contrário algo muito sério poderá acontecer a eles. Não tenho escolha, se não
fazer ele achar que estou atendendo a seus desejos.
— E seu emprego?
— Amanhã conversarei com Steph e explicarei a
ela.
— Então semana que vem, você voltará para
Mystic?
— Em teoria, sim.
— Você terminou com Drew?
— Foi preciso.
— Não estou gostando disso.
— Penny, lembre-se falei tudo isso a você por
causa da confidencialidade.
—Sou profissional, sabe muito bem disso. E qual
é o plano?
— Só sei a minha parte. E espero não ter que
conclui-la.
E conto a ela o que preciso fazer até que tudo
se resolva. Pego o telefone e ligo para Derek.
— Oi, Emm!
— Ótimo?! Ótimo?! Ótimo?! – Estou gritando. - Ele
quer que eu largue meus filhos e você me diz ótimo?!?! – Estou aos berros.
— Sabe muito bem que não quis dizer isso. É
ótimo que temos uma semana para achar o desgraçado.
— O que descobriu até agora?
— Tina, me colocou a par de tudo. Ele não está
na cidade. Ou pelo menos, em nenhum lugar conhecido. Ela conseguiu um mandato
para virar a vida dele pelo avesso. Agora tente descansar e se distraia com os
meninos.
Durante a semana, sou bombardeada de mensagens
dele me cobrando. Conversei com Steph. Consegui com ela fazer meu trabalho
remotamente. Realmente Drew não desistiu da gente. Todos os dias recebo algo
dele, uma foto de piquenique ou de uma cachoeira, vídeos de músicas que ouvimos
juntos ou que tinha alguma relação com a gente, nada muito grande, mas muito
significativo. Isso está me matando. Ele está tentando me reconquistar.
Reconquistar algo que ele não perdeu. Todos os dias ele vem aqui, com a
desculpa de ver os meninos. E isso tem irritado ainda mais Taylor. Depois que
Drew vai embora ele manda mensagens muito mais agressivas.
Derek voltou de Mystic City. Viraram a vida e a
cidade de cabeça para baixo e não o acharam. O final de semana estava chegando
e meu desespero aumentando. Não tinha outra alternativa. Teria que mandar meus
anjos para o pai e nunca mais os veria.
“Então, minha Mi. Já está
arrumando as coisas dos pestinhas? O seu tempo está acabando”
Mostro
a mensagem para Derek. Ele me pede para tentar ganhar mais tempo.
“Por favor, me deixe ficar com
meus filhos”
“Já lhe disse que não vou
criar esses pestes”
“Não fale assim deles. Sem
eles eu morreria”
“Terá os nossos”
Aquela
última mensagem me embrulha o estômago.
“Eu não posso mais ter
filhos.”
“Livre-se deles! E quanto a
porcaria do seu emprego? Vai pedir demissão quando?
“Preciso de tempo para que
consigam um substituto.”
“Não me enrole. Seus filhos
pagarão por isso.”
“Não estou te enrolando. Não
sou irresponsável.”
Ele para de mandar mensagem. Algo nas mensagens
dele tem me chamado a atenção.
— O que foi? – Derek me pergunta
— Essas mensagens.
— Relaxe, não vai acontecer nada com eles. Eu
prometo a você.
— Não é isso. Tem algo de errado. A escrita.
Não são palavras dele e está escrito muito correto.
— O que você está dizendo?
— Taylor não terminou os estudos. Nunca
escreveu certo. Por exemplo, ele não escreveria pagarão, usaria “m” no
lugar de “ão”. E demissão ou seria com um “s” só ou com “ç”.
— Tá achando que não é ele quem está mandando
as mensagens?
— Não sei. Só me chamou a atenção.
— Vou falar com meus contatos aqui e pedir para
que verifiquem isso. – Aceno com a cabeça.
Decido não prolongar mais. E no sábado peço
para que Drew venha pegar os meninos. Na segunda, Sabrina sabe que passará a
trabalhar na casa de Drew. Aproveito que estão dormindo e arrumo as coisas
deles. Todas as coisas deles. As lágrimas não param de cair. No final da tarde,
Drew chega. Aproveito que os meninos foram passear com Sabrina.
— Oi, anjo! – Me cumprimenta quando abro a
porta.
— Oi. Senta. Preciso conversar com você.
— Aconteceu alguma coisa com os meninos?
— Mais ou menos.
— O que foi?
— Você sabe o quanto os meninos são importantes
para mim, não sabe?
— Emm, o que está acontecendo?
— Preciso lhe pedir um favor enorme.
— Sabe que faço tudo por você. O que é?
— Quero... Quero não, preciso. Preciso que
você... É importante que você entenda que...
— Emily, o que está acontecendo? – Vejo o
desespero em seu olhar e em sua voz. — Você está me assutando.
— Droga! – Levanto-me do sofá – Eu não consigo!
Eu não consigo! São muito importantes para mim! São minha vida! – Começo a
chorar desesperadamente
— Meu Deus, Emily! O que é tão importante
assim? O que você precisa que eu faça por você que está lhe deixando assim? –
Ele está assustado, quase gritando.
— Emm?! – Ergo minha vista e vejo Penny e Derek
parados me olhando.
— O que ele está fazendo aqui? – Drew não entende
a presença de Derek
— Eu não consigo. Dói demais! É duro demais!
— Amiga, você precisa.
— Alguém pode me falar o que está acontecendo?
Ou será preciso arrancar de vocês?
— Quer que eu conte? – Penny me pergunta
— Você não pode. Nossa relação é de advogada e
cliente.
— Penny, o que está acontecendo? Para que essa
confidencialidade?
— Emm, ou você pede ou teremos que pedir por
você. – Derek me alerta. – Mas não pode passar de hoje.
— Agora chega. Derek me fale o que está
acontecendo. – Drew esbraveja
— Ela precisa que você assuma a guarda dos
meninos. – Meu choro se intensifica.
— Não. A guarda é dela. E ficará com ela.
— Drew. Ela precisa que você assuma
isso. – Penny da ênfase no “precisa”
— Por quê?
— Não vem ao caso.
— Anjo, você está doente? – Ele se aproxima e
me segura. Eu apenas sacudo minha cabeça. – Então por quê? – O telefone toca.
Outra mensagem. Meu choro aumenta. – O que tem essa mensagem?
— Nada. – Falo entre lágrimas. – Por favor, leve
os meninos. Cuide bem de nossos filhos. Lembre-se que sempre amarei vocês. –
Saio correndo para meu quarto. Penny vem atrás de mim.
***
Drew Grant
Ver Emily daquele jeito me destruiu. Por que
ela está me pedindo que fique com os meninos se ela não quer isso? Se a machuca
tanto fazer isso? Resolvo perguntar a Derek.
— Derek, o que está acontecendo?
— Infelizmente, não posso contar. Sei que você
não me conhece nem confia em mim. Mas precisamos que confie cegamente agora.
Embora estejamos lhe pedindo que fique com os meninos, estamos torcendo para
que seja temporário.
— Você não acha que está me pedindo demais?
Olha como ela ficou?
— Eu sei. É demais sim, para pedir a qualquer
um. Tenho acompanhado essa dor dela desde Maui. Mas estamos fazendo de tudo
para que seja por pouco tempo.
— Papai!! – Os meninos entram em casa correndo.
Sabrina se aproxima de Derek e fala algo.
— Derek. Aconteceu algo estranho agora quando
estava chegando.
— O que foi? – Ela olha para mim.— Algum
problema, Sabrina?
— Não, Sr. Drew. Não foi nada.
— Sabrina. Pode falar. – Derek avisa. – O que
foi?
— A ex-namorada do senhor – e olha novamente
para mim
— Becca? O que tem ela?
— Estava do outro lado da rua, como se
estivesse esperando alguém. Com um celular na mão e olhando para o relógio o
tempo todo.
— Ela lhe viu chegando? – Ela balança a cabeça.
– Você tem foto dela, Drew?
— Para quê? – Eu pergunto. O celular de Emm
toca de novo.
— Só para eu ver uma coisa. – Abro a galeria de
fotos e procuro. Encontro uma e mostro a ele. – Pode enviar para mim? – Ele me
passa o número dele e envio a foto. – É melhor vocês irem. Aqui as coisinhas
deles.
— Está tudo aí? – Sabrina lhe pergunta. Derek
assente com a cabeça. – Ela vai se despedir deles?
— É melhor que não. Está muito abalada.
— Hoje foi muito difícil para ela.
— Eu vou ficar no escuro mesmo? – Ninguém me
responde. – Então é melhor irmos, Sabrina. – Começamos a pegar as coisas deles
e descer.
Colocamos tudo no carro. Ajudo Sabrina a
colocar os meninos nas cadeirinhas, guardo o carrinho deles e nos despedimos de
Derek.
***
Derek
Crawford
A investigação em Mystic City não deu em nada.
Mas a pista sobre as mensagens confirmou que elas viam de um telefone de Nova
York e que nunca saiu da cidade. O amigo de Emily, Penny e Tina que é juiz entrou
em contato com um colega que é juiz na cidade e pediu que liberasse uma
autorização de rastreamento e escuta para aquele número.
Depois que Drew vai embora com os meninos e
Sabrina, ligo para meu contato aqui e peço que rastreie o telefone. Estou com
uma desconfiança. Acho que esse telefone esteve aqui perto. Então volto para o
apartamento.
— Como ela está? – Pergunto a Penny, quando
entro.
— O calmante a fez dormir.
— O que você pode me falar da ex-namorada de
Drew?
— Aquilo é uma cobra. A última ação dela, levou
Trixie para o hospital.
— O que foi que ela fez a Trixie?
— Roubou a bombinha da menina, durante uma
crise respiratória dela.
— Sério?! – Ela acena com a cabeça. – Faz muito
tempo que Drew terminou com ela?
— Não. Foi depois que Emm voltou. Tem uns dois
meses, mais ou menos. E tenho para mim que não aceitou muito bem.
— Interessante! – coloco a mão no queixo e
balanço a cabeça. — Muito interessante.
— O que você está pensando?
— Em nada. Vamos esperar. Essa semana vai ser
crucial para nossa amiga. Precisamos estar alertas.
Estávamos assistindo TV, eu e Penny, quando
Adam entra afobado no apartamento.
— Que porra está acontecendo aqui?
— Nada! Só estamos assistindo TV, Adam. Calma!
– Respondo
— Não com vocês dois. Com Emm.
— Fale mais baixo para não acordá-la. E se
acalme, que não está acontecendo nada.
— Como não?! Ela terminou com Drew e lhe deu a
guarda dos meninos.
— Adam, ela tem os motivos dela, não nos cabe
nada se não aceitar sua decisão. Ela passou os cuidados para o pai deles, não para
um estranho qualquer. – Respondo a ele.
— Isso. – Emm aparece e concorda.
— Como você está, mana?
— Me sinto entorpecida. Parece que estou
vivendo um pesadelo.
— E está, né, minha amiga. E está! – Penny vai
até Emily e a abraça.
— Vocês não vão me dizer o que está
acontecendo?
— Adam, se eu soubesse que você sabendo iria me
ajudar, lhe contaria. Mas infelizmente, ninguém mais pode me ajudar.
— Ele sabe? – E move a cabeça em minha direção.
— Ele é quem mais pode me ajudar. Por favor,
confia em mim! – Ela implora e ele acena com a cabeça.
***
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