quarta-feira, 27 de maio de 2020

Livro 1: Calma Paixão - Capitulo VII: O primeiro jantar

— Foi isso mesmo?! Eu acabei de aceitar jantar hoje e na sexta-feira?! – penso alto.
— Não que eu estava prestando atenção. Mas parece que sim.
— Eu não acredito!
— Por quê? Drew é um cara legal. Gente boa mesmo.
— O problema não é ele, sou eu. Não estou procurando envolvimento.
— E quem está nessa cidade?
— Deixa eu cuidar do trabalho. Gab, por favor, venha cá. – Sua pergunta me pareceu retórica, por isso não a respondi.
— Em que posso ajudar?
— Você consegue o contato dos Scott?
— Do projeto de Phill?
— Não sei. Quem pediu foi Drew.
— Então é. Phill é da equipe dele. Consigo sim.
— Então tenho duas tarefas para você: primeira e mais urgente, marque uma reunião com eles, Drew, Phill, o arquiteto do projeto e eu para ontem, se é que me entende. E faça uma tabela com nossas obras, por equipe, dizendo quem é o responsável e quem está envolvido, desde os arquitetos e engenheiros líderes até o responsável pela limpeza final. Entendeu?
— Essa tabela você quer para...?
— O mais breve possível.
— Amanhã estará em seu Ipad.
— Quero uma cópia impressa também.
— Tudo bem.
— Quanto ao meu novo número?
— A empresa trará o aparelho corporativo amanhã com a lista de telefones dos funcionários já salvos. - E Gab sai da sala para providenciar meus pedidos. Eu retorno ao meu projeto. Em torno de uma hora depois, meu celular toca.
— Oi, P. Tudo bem?
— Tudo tranquilo. E você, como está?
— Acabei por hoje. – Lisa me avisa – Quanto a seus jantares, se joga. Ele é gente boa.
— Quem é? E que jantares são esses? Quem é gente boa? – Penny ouviu o comentário de Lisa.
— 1. Lisa, a decoradora líder da empresa.
— Conheço. Decorou a casa de Adam. Gosto dela.
— Que bom que gosta dela, porque também gosto. Acho que seremos boas amigas. Bom, Drew me chamou para jantar hoje.
— Drew, Drew?! Seu chefe?!
— Sim. Drew, amigo de Adam. Ele hoje me convidou para jantar.
— Pera aí! Quando esse lance com Drew começou? E por que não me contou nada?
— Não tem lance nenhum. O que foi aconteceu o seguinte. Ontem, saímos daqui juntos e ele ficou preocupado com a minha segurança, saindo tarde e indo de metrô para casa...
— Você veio de metrô ontem? Tá louca? Concordo com ele.
— Eu não fui de metrô, peguei um taxi. Mas ele queria me levar, disse que não precisava, que pegaria um taxi mesmo. No meio do caminho, ele me ligou para saber se já havia chegado. Cara louco!
— Ele não é louco. Pode ser maníaco por segurança, mas não é louco. Mas entendo seu ponto de vista. Você se assustou.
— Claro que sim. Depois de tudo que vivi, quem não?
— Sim, Lisa falou de jantares.
— Continuando. Hoje pela manhã, ele entra em minha sala, me cobrando uma ligação que não fiz, de propósito e que, ao mesmo tempo, esqueci. Começamos a conversar e ele finaliza com um convite para jantarmos hoje. Não aceitei na hora, mas pedi que e ligasse a tarde. O que fez a uma hora atrás. Recusei o convite, dando algumas desculpas, mas ele não aceitou. Tentei adiar, para ganhar tempo e ele esquecer...
— Se conheço Drew, ele não esqueceria.
— Sugeri na sexta. No final da ligação estava com dois jantares com ele marcados. E não quero ir a nenhum dos dois.
— Menina, por quê?
— Jura, Penny! Você, me perguntando por quê?! Esqueceu de minha história?!
— Emm, você precisa desencanar! Tá certo que você não deu sorte, nem nos carinhas que se envolveu aqui. Também procurava quem não queria nada.
— Pois é. Meu dedinho sabe bem escolher. Não quero mais nada com ninguém, nem mesmo aqueles casinhos.
— Mana, se dê uma chance. Você acha que se Drew fosse um sacana eu estaria dando força para ir a esse jantar?
— Não sei. Tenho medo...
— Não sabe?!?! Não me conhece?
— Não é isso. Tenho medo...
— Tem medo de quê? – Drew me pergunta ao mesmo tempo que Penny pergunta do outro lado da linha.
— Penny, preciso desligar. Drew chegou aqui e não terminei o que precisava.
— Vá jantar sem medo. Na pior das hipóteses, ganha um amigo maravilhoso.
— Tá certo. Beijos. Te amo.
—Também te amo. Quando chegar, conversamos. – E desligo o telefone
— Oi! Tá aí a muito tempo?
— Tem medo de sair comigo?
 Não me respondeu.
— Perguntei primeiro.
— De sair com você não.
— De quê, então? – Ele pergunta se aproximando.
— Disse a você que minha vida é complicada.
— Não. Você me disse que sua vida é cheia de contradições. E ter medo de sair com alguém não é uma contradição.
— No meu caso, é. Deixa terminar só esse pedaço e podemos sair, tudo bem?
— Acho melhor esquecermos. Já que está com medo.
— Não me entenda mal. Não tenho medo de você, especificamente. Já disse, é complicado.
— Você não quer ir, então cancelamos. Conseguiu marcar com os Scott?
— Está mudando de assunto. Vou terminar esse pensamento e vamos. E sim, Gab conseguiu marcar para amanhã no final da tarde aqui no escritório.
— Tem certeza?
— Claro. Tá aqui na agenda.
— Tô falando do jantar.
— A garota tem que se alimentar, né?
— Se é o que quer. Então iremos.

Tento me concentrar no projeto, mas algo na voz dele, no tom da voz, que estava me incomodando. Acho que ele ficou magoado com minha conversa com Penny. Não é que eu não confiasse nele ou no julgamento dela, mas com meu histórico não consigo evitar em me fechar para pessoas novas em minha vida pessoal. Principalmente, os homens. Levanto meu olhar e o vejo olhando pela janela, no mesmo ponto em que fico.
— É linda essa vista, não?
— Sim, muito linda. Você foi privilegiada com essa sala. É uma das melhores vista do escritório.
— Podemos ir, quando quiser.
— Já terminou?
— Não. Não estou conseguindo. Perdi a concentração.
— Minha presença lhe atrapalha?
— Não.  Foi a conversa com Penny e com você. Algo está me incomodando.
— Se quiser, lhe deixo em casa, sem nenhum problema.
— Não. Se eu não sair com você terei muitos problemas em casa. – Falo em um tom divertido
— Como assim?!
— Não sabia que Penny é sua fã? Ela sempre me falou bem dos sócios de Adam. Nunca citou nomes. Mas hoje falou muito bem de você.
— Não sabia disso. Quer dizer que tenho uma aliada?
— Aliada? Para?
— Transformar a imagem errônea que criou de mim em sua cabeça.
— Acho que você mesmo já está fazendo isso. Não precisa de aliadas. Vou ao banheiro e saímos. – Entro no banheiro que tem em minha sala, arrumo o cabelo, retoco a maquiagem. Ajeito minha roupa.
— Pronto. Podemos ir. – Pego minha bolsa, minha pasta de trabalho.
— Você vai precisar dessa pasta hoje em casa?
— Não necessariamente. Por quê?
— Por que não deixa aqui?
— Ah! Porque gosto de revisar as coisas no caminho e pela manhã, durante o café e o percurso.
— Deixa isso aí. Você não irá revisar nada no caminho, pois estará comigo. E o que tem para fazer amanhã, quando chegar aqui, verifica.
— Quem sou eu para contradizer uma ordem de meu chefe.
— Sou chefe dos engenheiros. Somente isso. Vamos.
— Vamos. – Desligamos as luzes do escritório. Descemos em direção à garagem. Ele aciona o alarme de um Porsche Cayenne preto. Abre a porta para que eu entre, fecha a porta e dá a volta no carro. Quando entra e coloca a chave na ignição, me pergunta:
— Gosta de que tipo de comida?
— Como assim?
— Italiana? Tailandesa? Japonesa?
— A tá! Amo pizza. Se não se importar.
— Pizza então. Conheço algumas pizzarias maravilhosas. Mas se tiver alguma de sua preferência, é só dizer.
— Escolhi o que, você escolhe onde vamos comer. Só posso pedir uma coisa?
— Quantas quiser. – Ele fala comigo com uma doçura que nunca ouvi num homem daquele tamanho. Ou de qualquer outro tamanho.
— Pode escolher um lugar perto? Estou faminta. Comi uma salada minúscula que Gab me obrigou na hora do almoço.
— Tem uma a duas quadras daqui. Mas por que fez isso? Não quero que fique sem se alimentar direito. – Quando ele termina de falar já estamos na rua.
— Quando me envolvo em um projeto, não consigo parar.
— Não faça mais isso, muito menos por uma firma que não é sua.
— Mas é sua e de um grande amigo. Vocês me contrataram para isso.
— Não para se matar ou ganhar uma doença qualquer. Pronto. Chegamos.
­— Já?
— Você não pediu para ser perto? Seu desejo é uma ordem.
— Só fiz um pedido. Não foi um desejo.
— Vamos discutir por isso?
— Claro que não. – O manobrista abre a porta dele, que impede que um outro abra a minha. Ele mesmo faz isso. – Obrigada.
— Vamos matar essa fome. Não vou negar, também estou faminto. Almoço muito mal nas terças-feiras.
— Boa noite, Sr. Grant. A mesa de sempre?
— Boa noite, Tony. Por favor.
— Sigam-me.
— A mesa de sempre? – Sussurro em seu ouvido. - “Nossa! Que homem cheiroso!!” Penso quando o perfume com um toque amadeirado adentra por minhas narinas, me arrepiando toda.
— Costumo comer aqui. – Limita-se a me responder.
— Claro que sim. – Completo.
— A carta de vinho? – O maitre pergunta
— Por favor.
— Logo um garçom virá lhes atender.
— Obrigada, Tony. Sobre o que vamos conversar? – Ele vira-se para mim.
— Não sei. Por que engenharia?
— Por que administração?
— Perguntei primeiro. Mas respondo. Fui criada dentro da empresa de meus pais.
— É mesmo! Seus pais e os de Penny eram amigos e sócios. E ficou de me explicar uma contradição nessa história. – Se fez de esquecido e que havia lembrado naquele exato momento.
— Isso. A relação deles nunca terminou oficialmente. Perdi meus pais no dia do aniversário de 15 anos deles.
— Sinto muito!
— Não tinha como saber.
— Então você agora é sócia dos pais de Penny. Mas se... – Ele é interrompido pelo garçom com a carta de vinho – Prefere tinto ou branco?
— Tinto.
— Seco, suave, doce?
— Só não seco, por favor.
— Uma jarra de San Polo Rubio 2016, sim.
— Claro, senhor.
— Obrigada. Continuando. Mas se você tem uma empresa... De quê?
— Ecoturismo. Fazemos passeios turístico na região do Rio Mystic, próximo à cidade de Mystic City, especialmente passeios de barco.
— Sim, se você tem uma empresa, por que aceitou gerenciar a de estranhos?
— Primeiro, Adam não é estranho, já disse que é um grande amigo. E essa é mais uma complicação de minha vida. Uma parte que não gosto de falar. Tudo que posso lhe dizer é que quando fui aceita na NYU disse adeus àquela cidade para nunca mais voltar.
— Se não se sente confortável em falar, não tocaremos mais no assunto. Só posso dizer o seguinte... – o garçom chega com nosso vinho, coloca um pouco na taça de Drew, que faz toda a firula de um enólogo, aprova a bebida e o garçom serve nossas taças. – ... como ia dizendo... como é o nome da empresa?
— PE Tourism
— Azar da PE Tourism e sorte da A4+. Saúde!
— Sorte a minha. Saúde!
— Vamos escolher o sabor da pizza?
— O que você recomenda?
— Não me venha com essa. Escolha um sabor.
— Chato. Deixa-me ver o cardápio. – Ele me entrega o cardápio – Humm!! Acho que essa de frango com parmesão parece ser uma delícia.
— É muito boa sim. Vou fazer o pedido. – Ele faz um sinal muito discreto e o garçom aparece.
— Por favor, duas pizzas sabor frango com parmesão.
— Duas?! Não é muito?


— Não. As pizzas aqui são individuais.
— Mas porque não pede outro sabor?
— Quero o mesmo que você.
— Nossa! Estou me sentindo importante.
— Obrigada! – Agradece ao garçom e vira-se para mim – Mas você aqui é importante. Por que não seria?
— Nunca fui tratada assim. – A frase sai com um tom triste que ele percebe.
— Se não foi, erro de quem não lhe tratou bem. Comigo você sempre será tratada com a devida importância.
— Obrigada. – Agradeço abaixando o rosto para que ele não visse meus olhos lacrimejantes.
— Ei! Nada disso. Não quero você triste.
— Quem sabe um dia você venha a entender.
— No dia que você me permitir, eu entenderei.
— Eu lhe disse o porquê de ter escolhido administração. E você não me disse por que escolheu engenharia. – Mudo de assunto
— Negócio de família também. Meu pai é engenheiro e minha mãe arquiteta e decoradora.
— Humm! Então você e Arthur dividiram para não ter briga entre seus pais.
— Isso. São áreas muito parecidas, mas me identifiquei com a engenharia. Sempre gostei de ir aos canteiros de obra com meu pai.
— Meu pai me levava para andar de canoa. Era muito bom! Quando voltávamos, minha mãe tinha o lanche preparado, aí íamos os três fazer piquenique no quintal de nossa casa, que dá para uma lagoa linda! Brincávamos até o anoitecer. Depois íamos ver filmes e comer pipoca. Esse era nosso fim de semana.
— Deve ser muito linda sua cidade natal.
— Era muito linda mesmo. Agora não sei mais.
— Nunca mais voltou?
— Não. Quando saí de lá, saí para nunca mais voltar.
— Quem criou você?
— A mãe de meu pai, com a ajuda de uma tia, irmã de minha mãe por um período, e os pais de Penny. Tirando minha tia, todos ainda moram lá.
— E nunca mais os viu?
— Não, os vejo sempre. Na minha formatura estavam todos aqui. Que bom, estou faminta. – Celebrou baixo quando vejo o garçom se aproximar com nossos pedidos.
— Buon apetito! – O garçom nos deseja e se retira
— Bom apetite! – Drew ergue sua taça e brindamos.
— Parece saborosa! – comento
E enquanto comíamos, íamos conversando.
— Então. Você e seu irmão. Quem é o mais velho?
— Ele. Ele é um minuto mais velho que eu.
— Vocês são gêmeos?!
— Somos. Não percebeu?
— Notei uma semelhança muito grande, mas não achei que fossem gêmeos.
— Somos. Bivitelinos, mas somos. Tive que dividir tudo com ele, até o útero de nossa mãe.
— Dividiram tudo? Sempre?
— Menos as namoradas. Claro.
— Ah bom!
— Por que esse alívio? Tá pensando em namorar Artie? Sabia que ele é casado com sua chefe, não sabia?
— Meu Deus! Não! Claro que sabia! Falei por achar uma falta de escrúpulos dividirem as namoradas!
— Quer dizer que não existe o interesse?
— Não! Por Deus!
— Pena!!
— Oi?! Você aceitaria que seu irmão traísse sua cunhada?
— Não estou falando dele.
— OH! OH!!! A pizza daqui é gostosa mesmo. – Mudei de assunto novamente, meio embaraçada. - Você tinha razão! Nossa! Veja as horas já é tarde. Melhor eu pedi o taxi.
— Deixo você em casa. Então relaxa. E não mude de assunto.
— Não estou mudando. Amanhã é dia de trabalho ainda. Preciso acordar cedo.
— Não terminamos nossas pizzas nem o vinho. E ainda falta a sobremesa. Por favor!
— Não faça essa cara!
— Que cara?
— Do Gato de Botas.
— Do Gato de Botas?!
— É! O filme da Disney. Cara de pedinte, de carente.
— Ah! Mas quem lhe disse que não sou carente?
— Sem essa Drew! Você não é carente.
— Como sabe?
— Bonito desse jeito, – Claro que pensei em lindo – atencioso, educado, bem situado, se está carente é porque quer.
— Bem situado? – Dando uma leve risada. – É, estou solteiro por opção, até achar a pessoa certa.
— Humm! Ainda não achou? Entre todas as mulheres com quem se envolveu?
— E quem lhe disse que me envolvi com muitas mulheres?
— Fora ser uma observação lógica, a partir dos argumentos citados anteriormente, Ashley deixou escapar algumas vezes ontem no almoço.
— Então, a senhorita está julgando o livro pela capa e pela opinião de terceira? Isso é um costume?
— Não estou julgando. Estou presumindo. Infelizmente isso é um costume. Presumo coisas a partir de minha vivência. Analiso e presumo.
— Mas nem todos somos iguais.
— Interessante. Se vocês não são todos iguais, por que sempre dizem essa mesma frase?
— Vocês quem?
— Os homens.
— Humm, entendo! Então suas presunções são apenas com os homens! Percebo. Gostaria de conhecer ele.
— Ele? Ele quem?
— Aquele que lhe fez julgar que todos, julgar não, presumir que todos os homens são iguais.
— E quem lhe disse que existe um “ele”?
— E não existe?
— Já disse. Presumo pela vivência.
— E reafirmo, se você presume por vivência é porque existiu um ele.
— Não necessariamente.
— Não quer falar, beleza. Mas ainda quero conhecer ele. E quero lhe mostrar que não somos todos iguais a ele.
— Tudo bem. – E enfio um pedaço de pizza na boca e passo o restante da noite calada. Termino minha pizza e a taça de vinho, peço licença e vou ao banheiro. Apoiada na pia, me encaro e me perco no meu olhar.

“— Gostaria de ir comer uma pizza no Mamma’s. Podemos?
— Hoje é dia de jogo, tá louca?!? Daqui não sairemos.
— Poxa! Nunca mais saímos. Só queria ir passear com você um pouco. Ver as pessoas.
—VOCÊ QUER VER QUEM? HEIN? SCOTT PETERSON?! QUEM VOCÊ TEM QUE VER ESTÁ AQUI. BEM NA SUA FRENTE.
— Queria ver Penny. Nunca mais a vi, porque nunca saímos. Penny está indo embora em breve e quero me despedir dela.
— AQUELA PIRANHA JÁ VAI TARDE. E VOCÊ DEIXARÁ DE SER INFLUENCIADA POR ELA. AGORA CALE-SE PORQUE O JOGO JÁ VAI COMEÇAR.
— Baby. Então me deixa ir. – Senti a mão dele no meu rosto e as lágrimas escorrendo.”
— Senhora, está tudo bem? – Sou despertada por uma das garçonetes do restaurante.
— Ah! Estou. Estou bem sim.
— Tem um cavalheiro procurando pela senhora. Estava preocupado e pediu para que viesse ver se estava bem.
— Obrigada. Diga-lhe que saio em um minuto.
— Tudo bem.

Ela sai e me encaro mais uma vez. Levo a mão ao rosto, massageio mais onde aquele tapa estalou. Ligo a torneira e lavo o rosto, me recompondo. Enxugo minha face. Aplico uma camada de pó, passo o batom, passo as mãos na roupa. Ajo como agi naquele dia. Fingindo que nada acontecera.

Saio do banheiro, encontro Drew sentado em nossa mesa, meio agitado. Dava para ver que estava aflito. Algo me dizia que a garçonete lhe contara como havia me encontrado no banheiro. Peço-lhe desculpa pela demora. Na verdade, não sei como fui parar naquele banheiro nem quanto tempo fiquei lá, nem se alguém havia entrado. Tudo, desde que começamos a comer a pizza, estava apagado. Não lembrava de mais nada. Só lembrava da dor do tapa.

— Está tudo bem?
— Está sim. Acho que foi o cansaço.
— Mas o que sentiu?
— Nada demais. Nada que uma boa noite de sono não resolva. – Como naquela noite. “No dia seguinte, ele acordou e me pediu desculpas”. – Podemos ir?
— Vou pedir a conta.
— Será que conseguiria um copo de água para mim?
— Claro. – Fez aquele sinal discreto sem tirar os olhos de mim, e eu disfarçando. Tinha medo de que ele me olhasse e percebesse a marca do tapa que levei naquela noite.
— Por favor, poderia trazer um copo de água para a dama e a conta? –
“Ele me chamou de dama!!!” - Pensei
— Só um instante e trarão sua água, senhora.
— Muito obrigada. – Ergui a cabeça para agradecer e logo virei para o lado oposto.

Rapidamente, alguém trouxe minha água e degustei com avidez. Ao finalizar de beber, Drew ergue-se da cadeira e veio até a minha, puxou-a para que levantasse e saímos.

O caminho até o Brooklyn foi feito em silêncio. Queixei-me de dor de cabeça, culpei a mistura de vinho e estômago vazio. Parece que ele aceitou a desculpa. Perguntou se me incomodava o rádio baixinho, disse que não. Virei para a janela e me perdi em meus pensamentos, observando a paisagem. Quando atravessamos a ponte e me chamou e perguntou o endereço correto. Despertei no susto. Passei-lhe as informações e voltei a encarar as ruas.

Ele parou em frente ao prédio. Toca-me no braço, tive um sobressalto.
— Desculpa, não quis lhe assustar de novo.
— Tudo bem. Estava cochilando. - Minto
— Chegamos – Sua voz era doce, atenciosa, preocupada. – Tem certeza de que está bem?
— Estou sim. Acho que você tem razão. Não devo ficar sem me alimentar por tanto tempo. É isso que dá.
— Se precisar de qualquer coisa essa noite, é só ligar. Virei imediatamente.
— Obrigada. Mas acredito que não será necessário. Grata por tudo. Boa noite.
— Descanse. E se não acordar bem, não se preocupe em aparecer no escritório. Eu lhe cubro por lá.
— Vai fazer minhas funções?
— Não foi isso que quis dizer.
— Eu sei. Obrigada, mas o trabalho é minha terapia. Boa noite. Me liga quando chegar em casa, fico preocupada com sua segurança.
— Já estamos melhorando. Está fazendo piada.
— Sério, é muito tarde. Me ligue. Ou mande mensagem.
— Mando mensagem. Boa noite. Se cuide.
— Me cuidarei. Tchau. Até amanhã. – Desço do carro, caminho cabisbaixa até a porta do prédio, viro e vejo o carro ainda parado, ele ficou esperando que entrasse antes de dar a partida e retornar para Manhattan. Entrei em casa sem fazer barulho, não queria acordar Penny. Mas não adiantou. Ela apareceu saindo do quarto. Quando a vejo desabo no chão, aos prantos.

***

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