Acordei diversas vezes durante a madrugada. Novamente, tive
aqueles sonhos. Algo neles me assustam, mas de uns tempos para cá não consigo
mais lembrar sobre o que eles eram, só fica aquela sensação aterrorizante de
insegurança e perigo. Tudo que consigo associar é que os tenho sempre que algo
me preocupa, algo me deixa em alerta, como ontem à noite.
Vou até a cozinha, preparo meu café, e enquanto leio o
jornal e como, vou pensando em Emily. Fiquei admirado com a beleza dela. Alta,
corpo nem muito magro nem muito gordo, não parecia ser musculosa, mas estava em
forma. Cabelos castanhos claros, que presos num coque, pareciam dourados. Dona
de um olhar muito expressivo, que transmitiam sua força e garra e brilhavam ao
falar de trabalho. Sua roupa lhe dava um toque de seriedade, mas ao mesmo
tempo, simplicidade e um ar juvenil, embora fosse um terno. Se mostrou muito
inteligente, durante o almoço. Bem mais que as mulheres que estava acostumado a
sair. Entende muito sobre administração e demonstrou ter conhecimentos na área
da construção. Tudo nela indicava que era uma mulher fora de série. Formidável!
Termino meu café, vou tomar banho e me arrumo para o
trabalho. Como hoje vou a campo, coloco uma calça jeans, tênis, uma t-shirt e
um blazer, pois antes vou ao escritório. Pego a carteira e as chaves do carro e
desço até a garagem e rumo para o escritório. Dirijo mais rápido que o de
costume, quero chegar logo na empresa, mas não me arrisco a sofrer um acidente.
— Segurança em primeiro lugar! Sempre! – Falo em voz alta.
No rádio toca Gravity, de John Mayer. Passo a cantar bem alto dentro do carro
todo fechado. Assim, me acalmo e não explodo quando encontrar com a senhorita
Emily.
Estaciono o carro na garagem do prédio e pego o elevador.
Normalmente, pararia no 36º andar, nas terças faço visita nas obras mais
recentes, então antes de ir vê-las, tenho uma reunião com os engenheiros
encarregados e revisamos os projetos. Mas hoje, vou direto na diretoria, então
descerei no 35º. Tenho que ter certeza de que ela está bem.
Quando o elevador para no andar, me bato com Gabriel e Lisa
na porta.
— Bom dia, Drew! – Lisa me cumprimenta.
— Bom dia, Lisa! Gabriel! – Aceno com a cabeça e passo pelos
dois. Gabriel! – Chamo-o com mais ênfase, quase gritando. – Você está
assessorando Emily, não?
— Sim.
— Ela já chegou?
— Desde as 7:00. Hoje chegou a todo vapor. Mal esperou o
computador ligar. Disse que estava fervilhando de ideias.
— Ótimo! Agora mesmo que ela vai me ouvir. – Os dois se
entreolham e me olham como quem pedisse uma explicação. Viro as costas e
deixo-os sem resposta. Dirijo-me até o escritório dela. Abro a porta e a vejo
sentada em sua mesa, debruçada em um monte de papel, escrevendo e apagando e
escrevendo. Deus, como ela está linda hoje! Como pode estar ainda mais linda
que ontem! O cabelo está solto, cheio de cachos, caindo sobre os ombros. Sim,
eles têm um tom dourado em algumas partes. Sua maquiagem é muito discreta o que
lhe dá um ar mais profissional, mesmo com o cabelo solto. Linda mesmo! O que
está acontecendo comigo?!
— Bom dia! – Cumprimento-a num tom meio meloso
— Oi, tá aí a muito tempo? Entre. – Ela me convida como se
nada tivesse acontecido.
— Você não esqueceu de nada? – Pergunto enquanto entro e
sento-me à sua frente.
— Humm! Esqueci e não esqueci. – Ela responde repousando o
lápis sobre os papeis
— Como é?!
— Esqueci que prometi te ligar, mas não ia ligar mesmo.
— Você é dessas que não cumpre com as promessas?
— E você é desses que desligam na cara das pessoas?
— O quê?!?
— Como você desligou o telefone antes de eu terminar de falar,
resolvi não ligar.
— Desliguei!? Você ainda estava falando?! Desculpe. Não tive
a intenção!
— A tá! Não teve a intenção de ser mandão e controlador!
— Epa! Espere um pouco. Não sou nem mandão muito menos
controlador. Na verdade, sou o oposto disso. Com o tempo verá.
— “Assim que chegar me ligue para saber que chegou bem.” Se
isso não é ser mandão nem controlador, não sei o que é.
— Assumo que tenho mania de segurança, o pessoal das obras
fica doido comigo, mas não sou maníaco controlador. Tá, você não ligou porque
não quis, então? Passei a noite preocupado. Liguei umas duas ou três vezes, por
que não atendeu? Para me castigar?
— Você ligou? Não ouvi. Deixei a bolsa com o celular na
sala. E não. Não liguei só porque não quis. Disse que esqueci, e esqueci mesmo.
Cheguei em casa, Penny me bombardeou com perguntas sobre ontem.
— Penny? Quem é?
— A namorada de Adam. Somos amigas de infância e moramos
juntas. Você não sabia?
— Não. Sabia que a namorada de Adam se chama Penélope. Mas
não pensei que você fosse amiga dela.
— Somos. Praticamente fomos criadas juntas. Meus pais e os
pais dela eram amigos e sócios em nossa cidade.
— Eram? Desfizeram a sociedade ou a amizade?
— Nenhum dos dois. Ou os dois. Depende do ponto de vista.
— Você é cheia das contradições.
— Minha vida é composta por contradições.
— Humm! Mulher de mistérios. – Meu telefone toca – Alô! – É
um dos engenheiros das obras a serem visitadas hoje. – Já estou no escritório.
Tive uma reunião com a nova gerente. Já estou subindo.
— Você se atrasa para seu compromisso e eu sou a culpada?
— Não disse que você era a culpada do meu atraso. Disse que
estava em reunião com você. Podemos jantar hoje?
— Oi?
— Quero saber mais sobre essas contradições em sua vida.
Chamaria para almoçar, mas vou visitar obras, não tenho horário.
— Também não tenho horário. Quero terminar essa pesquisa
hoje. E começar logo a planejar essa ação. Precisamos retomar o crescimento da
empresa. Não podemos ter profissionais sem ter o que fazer, nos custa caro.
— Gosto do jeito que fala do trabalho. Então, jantar? Hoje?
— Me ligue a tarde que lhe respondo. Pode ser?
— Preferia já sair com minha resposta, mas... fazer o que.
Não quero ser mandão nem controlador.
— Me ligue. Te dou a resposta.
— Tá bom. Mais tarde te ligo. Tenha um lindo dia!
— Você também.
Saio da sala dela e ela retoma seu projeto. E eu vou à minha
reunião antes de sair para nossas visitas. Quando entro na sala de reuniões,
encontro os engenheiros responsáveis pelas cinco obras que visitarei hoje.
— Desculpem meu atraso, mas estava passando algumas
informações sobre nossa rotina à nova gerente. Ela precisa ficar a par de
nossos costumes e ações.
— Ela passou um memo ontem para todos informando que teremos
uma reunião com ela toda segunda-feira, argumentou que por estar na linha de
frente, precisa estar ciente de nossos passos. Acho balela. Sendo sincero com
você. Acho que está querendo mostrar serviço, porque é nova. Com o Tim não
tinha essa frescura de reuniões. – comentou Ted, um dos engenheiros mais
antigos da firma.
— Com o Tim não tínhamos gerência. Ela está fazendo a parte
dela. Eu já fiz hoje a minha. E a partir de segunda, vocês farão a de vocês.
Ok?
— Claro, chefe. – Disseram todos.
— Já que chegamos a um acordo sobre o ponto gerência, vamos
ao próximo. Como está as obras dos Scott?
— Não aguento mais a Sra. Scott. Toda hora ela vem com uma
mudança e cobrando o prazo. Você precisa falar com ela. – Informou Phill, o
encarregado da obra Scott.
— Qual foi a última dela?
— Ela tinha dado o ok para estrutura da nova ilha, ligou
ontem a noite dizendo que queria mudar, pois acha que não ficará legal daquele
jeito. E não quer mais a ilha.
— Só pode tá brincando! Vou marcar uma reunião com eles
ainda essa semana. Por enquanto, faça um projeto com uma península, tentando
não mexer nos pontos hidráulicos e elétricos, e outro sem nada, com espaço para
uma grande mesa. Veja com as equipes de Ash e Lisa o que é possível e viável
fazer nesse caso, sem comprometer o orçamento e o prazo.
E assim passamos a manhã, tentando modificar os projetos
para satisfazer as vontades dos clientes. À tarde, partimos para as vistorias.
Fomos logo na obra Scott. Pois seria a que daria mais trabalho que além de ser
a reforma da casa inteira, em dois meses de obra a Sra. Scott alterou o projeto
umas 5 vezes, gerando um atraso de, pelo menos, 15 dias. E não quer aceitar o
atraso. Se na próxima reunião, não a convencermos a ficar com a ilha, o atraso
passará de um mês, dependendo do que ela escolha. Fora o prejuízo com a bancada
da ilha.
Última visita do dia. Reforma do closet da filha do casal
Rutherford. Coisa simples, são clientes novos da firma, fomos indicados por um
outro cliente. Então quiseram um serviço pequeno para se certificarem da
qualidade de nosso serviço antes de nos contratar para serviço maior,
construção de uma casa de hóspede no terreno deles nos Hamptons. Estávamos bem
adiantados, as perspectivas eram de terminarmos até o final da semana para que
a equipe de decoração finalizasse e assim, entregaríamos antes do prazo final.
Então estava tranquilo que a outra obra seria nossa. Aproveito quando termino a
vistoria e no caminho até o carro e ligo para Penny.
— Oi! Pode conversar?
— Drew! Oi. Posso sim. Estou ainda com o projeto do
condomínio, mas posso falar.
— Ainda nisso?
— Foram as interrupções de Lisa sobre a decoração de minha
sala, já que não quis sair daqui para ela fazer o serviço dela.
— Eu não tenho culpa de nada! – Ouço a voz de Lisa ao fundo.
— Nem disse que era sua culpa. Adianta isso, por favor. Pode
falar.
— Quero duas coisas suas.
— Oi?!
— Uma pessoal e outra profissional.
— Comece pela profissional.
— Preciso que marque uma reunião com o casal Scott.
— Qual o problema?
— De grosso modo, mais alterações no projeto e prazos.
— Mais alterações?!? Isso não é bom. Vou pedi a Gabriel para
agendar agora mesmo. E qual é a outra?
— Esqueceu?!
— Esqueci?! De que?!
— Sério? Esqueceu do meu convite?
— Claro que não. Podemos deixar para outro dia?
— Por quê?
— Não sei que horas Lisa vai terminar aqui.
— Não é desculpa. Lisa fica e você vai.
— Mas não terminei com o projeto.
— Deixa sem terminar.
— Não vai aceitar esse adiamento!? Marcamos para sexta, que
tal?
— Ótimo! Jantamos hoje e sexta. Vou em casa, tirar a poeira
e passo aí para lhe pegar e vamos jantar. Tchau.
— Espere, eu não...
Desliguei o telefone, mas dessa vez me despedi o mesmo tempo
que ela falava, por tanto não bati o telefone na cara dela. Disso ela não vai
me acusar nem usar como desculpa. Não dessa vez. (Sorrio para mim mesmo)
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