— Vamos, Emm! Você não quer se atrasar para a cerimônia,
quer?
— Relaxa, Adam! Estamos bem adiantados! – Replico
— Você conhece o trânsito de Nova York. – Como sempre, Penny
fica do lado de Adam.
— Belo casal vocês formam! Argh!! – Resmungo saindo da
frente do espelho e pegando o capelo – Pronto! Podemos ir!
E deixamos o apartamento e partimos em rumo à Universidade
de Nova York. Fazia um lindo dia de verão. No céu, apenas o sol a brilhar forte
e luminoso. Enchendo meu coração de esperanças. As árvores no caminho, pareciam
nos saudar, de tão vistosas que estavam. As pessoas em seus trajes de verão,
com tecidos mais leves, mais coloridas, mais estampadas, passavam agitadas e
ligeiras para seus compromissos.
A cerimônia estava marcada para as 11:00 da manhã e depois
sairíamos para comemorar com um almoço em um restaurante em Manhattan, perto do
escritório de Adam. Descobri nesses anos que Adam era sócio em um escritório de
arquitetura e engenharia, onde era um dos engenheiro líder. Tinha 32anos e nunca
tivera um relacionamento a longo prazo até conhecer Penny. Eles estão juntos a
quase 3 anos. Demorou um pouco para que os dois se entendessem. Ele é muito
brincalhão e leva a vida de uma forma leve, ao contrário dela, muito metódica e quase beirando a seriedade. Ele
passa a maior parte do tempo provocando e ela reagido. Mas, apesar da diferença
de personalidade, raramente eles brigam de verdade. Ela está sempre criando
caso. Mas ele não está nem aí, faz uma piada, uma carinha de gato de botas, ela
se derrete todas e acabou a briga. Tive muita sorte ao conhecer Adam, a forma
como ele trata minha amiga-irmã, me faz crer que exista sim homens bons e
atenciosos nesse mundo, além de ser um amigo muito prestativo, atencioso e
acima de tudo, protetor.
Chegamos ao campus. No grande jardim próximo à Biblioteca
Bobst, armaram o palco e dispuseram as cadeiras para os convidados. Minha vó e
os pais de Penny que viriam direto do aeroporto para a cerimônia já deveriam
estar sentados. Então fomos procurá-los. Estavam sentados logo atrás das
cadeiras reservadas aos formandos.
— Que bom que conseguiram chegar a tempo! – Comento ao
abraçar minha amada vó.
— Não perderia esse momento por nada nesse mundo, minha
filha! Seus pais estariam muito orgulhosos de você. – Ela fala se afastando do
abraço
— Sei que estão aqui comigo hoje. Tio James! Tia Sam! Que bom que
vieram!! – Os pais de Penny me proibiram de chamá-lo de Sr e Sra Davis, ainda
na minha infância. Ou era tios ou pelos nomes deles. Muito raramente os chamava pelo primeiro nome só.
— Estamos muito orgulhosos de nossas meninas. Penny começou a trabalhar num escritório de advocacia de renome na cidade e agora é uma
associada e você concluindo sua graduação em administração, logo estará pronta
para voltar e assumir sua posição na PE T. – Falou James, olhei para Penny e
Adam, eles sabiam que meus planos não era voltar para Mystic City. Queria
distância de lá.
— Não cabemos em nós de tanta felicidade. – Recebo um abraço
materno de tia Sam.
— Depois conversamos sobre isso. Preciso me juntar ao grupo.
Ocuparam seus lugares e eu fui para o meu. Já sabia que não
voltaria para minha cidade no dia em que recebi a carta de admissão da NYU.
Comentei algumas vezes com Nana, mas ela sempre se fez de surda e desentendida.
Acredito que não queria admitir que minha hora de partir havia chegado. E ao
longo desses anos, fui protelado, empurrando com a barriga. Sabia que, agora,
quando afirmasse que não voltaria, ela teria realmente a confirmação e seria
muito doloroso. E para evitar o sofrimento dela, me acovardei.
Não tinha porque eu voltar para Mystic City. Os piores
momentos de minha vida, os mais doloridos e difíceis eu passei lá. Foi lá que
não pude dar adeus a meus pais, que o rio Mistic levou e não trouxe de volta.
No caixão estão apenas algumas roupas e seus bens mais simbólicos. Foi lá que
descobri que príncipes encantados só existem nos contos. Conheci a forma mais
sombria do amor, machismo e desilusão.
Nas mãos de um algoz que dizia me amar acima de tudo, e
usava esse amor para justificar seus rompantes de agressividade e tortura. O
medo se instalou em mim de uma forma que até hoje sinto. Não consigo acreditar
em nada que um homem diz. Nem mesmo Adam, quando fala coisas boas para mim ou
pego alguma declaração dele para Penny, consigo acreditar. E olha que nunca
presenciei Adam se quer aumentando a voz. Nem mesmo quando ele conta que está furioso com
alguém que faz besteira no trabalho, percebo alguma alteração
nele.
— Emily Campbell. – Ouço meu nome pelo autofalante instalado
pelo jardim da cerimônia. Subo as escadas. Pego meu diploma, troco de lado o
cordão do capelo de lado. Dirijo-me ao meu acento para ouvir os demais
discursos e homenagens. Ao final, levantamos e jogamos nossos capelos ao ar.
Pronto. Agora eu estava formada. Era uma gerente de risco, uma vertente do
curso de Business da Universidade. Vou sentir falta de andar pelo campus. Mas a
vida segue em frente. Nunca para ou anda para trás. Então agora era minha vez
de dar mais um passo para frente. Um grande passo. Fui ao encontro de minha
família. Penny era a mais tagarela e animada de todos.
— Que cerimônia mais linda" Foi mais linda que a minha. –
Ela me recebeu comentando, enquanto eu era abraçada por minha vó novamente.
— Lindos discursos. – Elogiou James.
— Que nada! Linda nada!! Ninguém se estabanou no chão. A
minha sim! Quando o orador da turma estava saindo do palco, preferiu ir pela
frente e não pela escada. Foi de cara no chão. Não teve um que não
tenha rido entre os formando de nossa turma. Fez nossa formatura!
— Adam!! – voziferou Penny, dando um leve tapa nos ombros
dele. Rimos da fisionomia dele ao contar a história.
— Então, vamos almoçar? – Minha vó chamou
— Vamos! – Dissemos em coro.
— Minha filha, depois de tudo que você passou, estava fadada
a morrer em nossa cidade, com a barriga colada num fogão e na pia, sendo
escrava daquela criatura, merece comemorar com champanhe sim. – Rebateu minha
amada e doce avó.
— Vamos esquecer o passado e olhar para frente. Temos um
lindo e promissor futuro pela frente. Penny e eu.
— Isso mesmo. O que passou, passou. Foi um aprendizado.
Agora que venha o futuro na capital do mundo! – Ao mesmo tempo que ela falava
isso eu arregalava meus olhos para ela.
— Como assim, na capital do mun... - Nesse momento o garçom terminou de servir
nossas taças
— Um brinde ao futuro brilhante dessas duas meninas
fabulosas, onde quer que estejam! – Adam ergueu o brinde
— Saúde!! – novamente em coro, respondemos.
— Então... Estou morrendo de fome. O que vamos escolher? Daqui
a pouco o garçom vem anotar nossos pedidos. – Adam fazendo de tudo para que a
tão dolorosa conversa não tivesse lugar na mesa
— Não sei! O que vocês sugerem? Afinal, conhecem o
restaurante melhor que a gente.
— Qual será o especial do chef hoje? Ele sempre surpreende
com seus especiais. - Indagou Penny
— Gente, lembra aquele especial que ele ofereceu no dia do
aniversário de namoro de vocês ano passado? Até hoje sinto o gosto daquele
Salmão!! Hummmm!!
— Foi especial mesmo!! Nunca mais ele fez aquele prato. –
Concordou Adam.
— Então vamos pedir o especial para todos. – Comandou Penny
— Certo. – Adam fez um sinal chamando o garçom
— Em que posso ajudá-los? – Perguntou Adrian, nosso garçom,
ao se aproximar de nossa mesa.
— Vamos querer o especial do chef.
— Completo?
— Sim, entrada, principal e sobremesa. E as bebidas sugerida
por ele. Queremos a experiência completa hoje – ele sorrir para Adrian e para todos
nós.
— Essa é a melhor pedida. – Completa Adrian
— Com certeza. – Respondemos eu e Penny juntas.
— Logo serão servidos. Com sua permissão. – E Adrian se
retira, levando nossos pedidos.
— Bem. To achando que estamos evitando esse assunto. Mas
quais são seus planos agora Emm? – questiona Nana
— Não podemos falar sobre isso depois do almoço? – Pergunto
— Não. Já protelamos demais, você não acha?
— Para ser sincera, não acho.
— 5 anos foram pouco? – solta Penny
— Penny!! – Adam a repreende
— To falando sério! Arranca logo esse curativo. Vai doer,
mas vai passar logo.
— Penny! – Dessa vez sou eu a reclamar.
— Desculpa amiga. Mas já passou da hora.
— Do que vocês estão falando? – Somos questionadas pela mãe
de Penny
— Tá ok. Amo muito vocês três. Nana cuidou de mim como minha
mãe cuidaria. O mesmo foi com você tia Sam. Foram minhas mães. Que sorte eu
tive, perdi uma para o rio e ganhei duas maravilhosas. James foi meu pai
sempre. Vocês honraram o amor que tinham por eles. Vocês viveram comigo e
me apoiaram nos piores momentos de minha vida. A dor de perdê-los foi amenizada
pela presença dos três, se sou o que sou hoje, é porque tive vocês como
exemplo.
— Oh! Querida! Fizemos o que precisávamos fazer! Tudo foi
por amor! – Replicou Sam com os olhos mareados.
— Te amamos, minha neta!
— Também amo vocês. Mas me deixem terminar. Depois o que
sofri com Taylor, escondendo a maior parte do que eu permitia que ele fizesse
comigo para não magoá-los. As agressões verbais, psicológicas, as privações e,
o pior de tudo, as agressões físicas. Isso tudo me marcou demais...- Paro e
respiro, as lágrimas insistem em rolar de meus olhos, tendo me controlar, se
não, não termino. Olho para Penny, que disfarça e olha para o outro lado
enxugando suas lágrimas, ela bem sabe de tudo o que passei! Minha vó e Samantha
enxugam seus rostos. – Foi muito dolorido, perceber que meus sonhos haviam
acabado com aquela relação. Quando Penny me entregou aquele formulário para a inscrição na NYU e não contei a
ninguém...
— Hu- hum! – Penny pigarreia
— A quase ninguém. – Retruco – Não o fiz para esconder de
vocês, o fiz para que ele não soubesse. E quando fui aceita, a sentença fora
determinada. Mantive a carta escondida até o dia de vim para cá. Precisava. Era
minha alforria. Sei que vocês entenderam isso e agradeço a ajuda que me deram
para sair naquela noite de lá. Mas acho que não conseguiram aceitar é que no
dia em que entrei no avião e vim para Nova York, foi o dia que disse adeus a Mystic
City para sempre. Não pretendo voltar nunca mais. Aquela cidade me fez muito
mal.
— Filha, não foi a cidade! Você precisa lembrar que foi
muito feliz também lá.
— Vó, era feliz quando era criança, com meus
pais. Depois foi uma dor atrás da outra. Quando queria sorrir e festejar, tinha
que ser escondido. Aquilo que vivi dos 14 aos 18, principalmente, não foi vida.
Aquilo era o inferno instaurado na Terra.
— Nós entendemos suas razões. Não ache você que não sabemos o
quanto você sofreu. – Interrompe James. – Por muitas vezes, Penelope e Sam me
impediram de ir até a polícia para denunciá-lo. Sabíamos que de nada iria
adiantar, já que depois que veio morar com a família, o pai dele se tornou muito influente. Por tantas outras,
quase fui lá e dei uma surra naquele pedaço de merda mal feita.
— Então você entende o motivo de minha decisão de ficar e
construir minha vida aqui. – Dessa vez fui eu quem interrompeu a fala. – Voltar
para lá, por mais madura que esteja, será viver de lembranças dolorosas, que a
muito estão adormecidas. - Eu achava que estavam adormecidas
— Querida, entendemos sim. E já sabíamos que você não
voltaria. Mas tínhamos a esperança de que depois de tanto tempo, essa dor não
nos separasse para sempre. – Com a voz doce que só as mães têm, Sam se coloca
ao meu lado e me beija a testa.
— Obrigada pela compreensão. Quem sabe um dia, não consiga
ir visitá-los?
— Sabe que lugar não irá faltar. – Sorrimos. O garçom trás
nossas entradas. Vieiras ao molho de limão siciliano e salada verde acompanhada
por um belo vinho branco. Enquanto comemos continuamos a conversar.
— Agora vamos às boas notícias. – Comemorou Penny
— Quais? – Perguntou James com uma cara de quem estava
adivinhando a boa notícia.
— Calma, pai! O senhor não será vovô ainda.
— Penny!! – Eu, Sam e Adam a repreendemos
— Não é verdade?! A primeira notícia é que ainda morarei com
minha irmã-amiga por um longo período.
— Talvez não! – brinco olhando para Adam
— Claro que sim. Vamos morar juntas para sempre. Mesmo
depois de casadas, dividiremos a mesma casa.
— Essa invenção não dará certo. Quem casa quer casa. –
Lembrou minha vó.
— Sim, essa é uma e a outra? – Perguntou James
— Essa não sou eu quem irei contar. Não é Emm?
— Ah!! É mesmo!! Ia me esquecendo. Bom. Como eu não vou
voltar para Mystic City, preciso de um emprego, certo?
— Sim. - Tio James respondeu
— Faz sentido. – Concordou tia Sam
— Claro. – Nana disse, não muito animada.
— Ainda no ano passado, me ofereceram um cargo muito bom,
como Gerente Geral em uma grande empresa daqui dessa região de Manhattan.
— Que bom, minha filha! – Nana celebra – Lembro que me disse
algo do tipo. Mas não lembro onde.
— Quero apresentar meu chefe: o senhor Evans. – aponto para Adam minha vó e
os pais de Penny se entreolham sem entender nada.
— É parente seu, Adam? E cadê ele?
— Não, mãe! É o Adam.
— Como assim? Você vai trabalhar com engenharia?
— Não, Senhora Campbell. A empresa está crescendo muito, e
precisamos de alguém competente que gerencie os riscos que corremos e seja
capaz de exercer a função de Gerente Geral. Eu e meus sócios sabemos que para
que ela continue crescendo, precisamos ter ao nosso lado uma pessoa capacitada.
E é aí que entra nossa Emily.
— Em uma das disciplinas finais do curso, elaborei um
projeto que Adam amou e, escondido de mim, mostrou a seus sócios. E eles me
convidaram para, assim que concluísse o curso, implementar as inovações na
empresa e cuidar dos novos contratos e da empresa de forma geral, afinal são
todos engenheiros e arquitetos. Estavam apenas esperando a formatura, começo
próxima segunda. Ou seja, nem bem me formei e já estou empregada em um
excelente cargo.
— Que maravilha!! – Celebra minha vó.
— Isso merece outro brinde. – Sugere James e erguemos nossas
taças.
O restante do almoço foi mais animado que o início. E com
certeza, o chef se supera em seus especiais. Como prato principal ele nos
serviu de atum branco com salada de papaia verde, estava dos deuses,
acompanhado de um Chardonnay maravilhoso! E a sobremesa... Jesus!! Que
cheesecake foi aquele!!
Minha celebração de formatura não podia ser melhor! Cercada
das melhores pessoas do mundo. Que realmente me amavam e me apoiavam acima de
tudo. Mas depois que foram embora uma parte de nossa conversa veio a minha
mente. Estou longe de lá a mais de cinco anos, e nesse período não soube de
notícias nenhuma de Taylor. Será que ele aceitou minha partida de boa? Será que
ele está me procurando? O que será que aconteceu? Não acredito que tenha
aceitado minha partida assim tão fácil...
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