quinta-feira, 28 de maio de 2020

Livro 1: Calma Paixão - Capitulo VIII

Ao me ver caindo no chão, Penny se assusta e solta um grito correndo em minha direção. O que eu não sabia era que Adam estava em casa. Tinha ido passar a noite com ela.

— Emm, pelo amor de Deus, o que aconteceu? Me diz. O que houve?
— Ele... ele... ele... me bateu.
— Drew lhe bateu?!?!? – Foi então que percebi a presença de Adam na sala. – Não pode ser. Ele não é disso.
— Não foi Drew. Foi Taylor. – Penny o tranquiliza. – Venha querida, vamos para o quarto. – Ela e Adam me levantam. Ele me carrega no colo e me deposita com todo cuidado na cama.
— Amor, nos deixa a sós? – Ouço a ternura na voz de minha.
— Vou pegar um copo com água para ela.
— Obrigada. – Ele sai.

Enquanto me desfaço em lágrimas, sinto o toque leve das mãos dela em meus cabelos. Ouço meu celular tocando. Chegou uma mensagem. Penny pega e verifica de quem é.

— É de Drew. Quer que leia? – Apenas concordo com a cabeça. – “Não sei o que aconteceu, mas se foi algo que disse peço perdão. Quero que fique bem. A propósito, cheguei em casa em segurança. Dorme com os anjos, meu anjo.” Quer que lhe responda algo? – Novamente assinto com a cabeça. – “Não se preocupe, não foi nada que me disse. Fico feliz que chegou em segurança. Durma você também com os anjos.”  Tá bom? – Não consigo dizer uma só palavra. Apenas balanço a cabeça. Adam entra com a água, entrega o copo a Penélope.
— Quer que eu vá para casa?
— Não precisa. Já é tarde. Fica aí mesmo. – Ele volta para o quarto dela.

Não sei por quanto tempo ficamos assim. Eu chorando e ela alisando meu cabelo e segurando o copo. Quando notei que ela segurava um copo com água, ergui-me e o peguei. Comecei a beber daquele líquido como se fosse lavar meus pensamentos.

— Quer conversar? – Ela me perguntou com todo carinho e doçura que uma irmã poderia transmitir.
— Quando você estava para vim para Nova York, eu quis me despedir. – Comecei a relatar, entre soluços - Apesar de estarmos estremecidas, queria me despedir de você. Era um final de semana, dia de jogo. Pedi para irmos comer uma pizza no Mamma’s, como desculpas para poder me encontrar com você. Ele se alterou, gritou – Paro de falar, coloco a mão no lugar onde o tapa pegou – não pude mais sair. No dia seguinte, me pediu desculpas, que tinha perdido a razão, que eu tinha provocado mais uma vez, sabia que ele não gostava de você e que você não gostava dele, pensei em dizer que não era aquilo, que ele estava enganado, mas sabia que podia piorar as coisas. Prometeu que aquilo não iria mais acontecer. Fiz o almoço e no final da tarde, voltei para casa como era de costume. Juro Penny, que quis me despedir, quis mesmo, ele não deixou. Ele não deixava que eu fizesse as coisas. – Recomeço a chorar.
— Eu sei que você quis. E você foi, meu amor. Você se despediu de mim. Escondido dele. Sua vó arrumou nosso encontro e você se despediu, não lembra?
— Não. Não me despedi. Você foi embora naquele fim de semana.
— Emm, isso foi um mês antes de eu vim para cá. Foi antes do final do ano. Eu vi você chegando em casa com o rosto muito maquiado, mas dava para ver a mancha.
— Foi?
— Ele tentou nos separar, mas não conseguiu. Estamos aqui, realizando nossos sonhos, morando juntas, formadas, trabalhando em empresas de renome. Ele não os afetou.
— Não lembro de ter me despedido de você.
— Agora se acalme e me diga o que gerou isso? Por que esse canalha atrapalhou sua noite?
— Não lembro. Estava sentada à mesa com Drew falando sobre nossas escolhas profissionais. Entramos em algum assunto sobre homens e mulheres, não lembro ao certo. Daí só lembro que estava no banheiro e uma garçonete me chamando que havia um cavalheiro preocupado comigo do lado de fora. – Solto um riso irônico - Um cavalheiro preocupado comigo! – Rio novamente - Nunca houve!
— Você estava sim com um cavalheiro, jantando e ele estava e está preocupado com você, achando que disse algo que a magoou. Veja. – Ela me mostra a mensagem que ele enviou.
— Não lembro disso. – E aponto para a mensagem de resposta
— Isso fui eu. Tinha que deixá-lo mais tranquilo. – Ouço baterem na porta.
— Desculpa. Mas alguém descobriu que estou aqui e quer saber notícias.
— Eu mandei uma mensagem dizendo que ela estava bem.
— Eu sei. Mas ele não acreditou.
— Diga-lhe que amanhã estarei sentada em minha cadeira trabalhando normalmente.
— Acho que ele não está preocupado com a gerente geral. E não senhora, amanhã a senhora não irá trabalhar. – Respondeu Adam.
— Adam, vou lhe dizer o que já disse a muita gente nos meus piores momentos. Meus estudos e trabalho são minhas terapias. Eu estarei sim no escritório.
— Tá, não vou discutir. Mas não vai adiantar eu mandar mensagem.
— Então liga. – Sugeriu Penny – Pera aí! Como ele descobriu que você estava aqui?
— Eu meio que liguei para ele, depois que ela entrou chorando e dizendo que ele bateu nela.
— Eu. lhe. disse. que.  não. havia. sido. Drew.
— Eu sei. Queria saber se esse tal Taylor estava no restaurante. Se eles haviam encontrado alguém.
— Tá. Tá. Liga para ele e diga que ela está bem. – O interfone toca. – Não me diga que...
— Ele chegou. – Adam completou a frase de Penny, meio que sem graça. Enquanto eu ouvia a discussão dos dois, meio que alheia ao que estava acontecendo ao meu redor.
— Quem chegou?
— Querida, Adam, bocão, fez uma pequena cagada, e Drew está lá embaixo. – O interfone toca novamente.
— Meninas, o cara está lá embaixo, já são quase meia noite, é perigoso.
— Deixo-o entrar. – Respondo meio que no automático, sem ter certeza do que faria.
— Tem certeza? – Penny me pergunta.
— Ele já tá aí, não vai embora até me ver bem. Então deixo-o entrar. Vou ao banheiro, me organizar. Vendo que estou bem, quem sabe ele volta para Manhattan.
— Mas você não está bem.
— Já tem gente demais sabendo disso. E passei 4 anos de minha vida disfarçando meus sentimentos para quem me conhecia. Acha que não sou capaz de enganar a ele? – Entro no banheiro, lavo bem o rosto, faço uma maquiagem leve, muito natural, mas que disfarça o rosto de choro. Penny e Adam estão na sala esperando que ele entre. Ouço do quarto, a voz dele, percebo a preocupação nela.
— Onde ela está? Como ela está? Quem é esse tal de Taylor?
— Deus! Como Adam é bocudo! – rebate Penny. – Não podia ter feito apenas o que eu lhe pedi?
— Eu fiz. Fui para o quarto, deixei vocês a sós. Só que também me preocupei...
— Se preocupou por nada, né Adam? – Entro na sala, como se tivesse acabado de sair do escritório.
— Como assim, por nada? Esqueceu que caiu aos prantos...
— Adam, você já fez demais por hoje. Vamos para o quarto. – Penny o puxa em direção aos quartos, mas quando passa por mim fala baixinho – Ele não é Taylor, e está realmente preocupado com você. Confie em mim e confie nele. Não se esconda embaixo dessa maquiagem. Não lhe fez bem e não lhe faz bem.
— Eu sou forte o suficiente para suportar isso tudo sozinha. Diga ao Adam que da próxima vez ele perde a gerente geral.
— Venha comigo agora. Adam. Mudanças de plano. Fique com Drew. – E sou puxada para o quarto por ela. – O que você está pensando em fazer?
— Você acha que eu vou chegar para um estranho, um HOMEM que conheci a dois dias e me abri? Depois de tudo que passei?
— Esse HOMEM que você conheceu a dois dias, se jogou da casa dele até a sua, depois de você ter um blackout num banheiro de restaurante sem lhe dizer nada, achando que era o culpado, só porque soube que alguém lhe bateu. Detalhe isso ocorreu a 8 anos. Não acha que ele deve saber de alguma coisa?
— Deixe-me falar com ele. Cuide de Adam
— Tudo bem. Você é quem sabe. – Saio do quarto em direção à sala.
— Adam, você nos dá licença?
— Desculpa me meter, mas eu realmente me preocupei. – diz ao passar por mim.
— Por favor, sente-se. Desculpa o alarde de Adam, embora nos conheçamos a alguns anos, ele ainda não sabe de muita coisa sobre mim. Posso lhe oferecer algo?
— A verdade seria bom.
— Mas não estou contando nenhuma mentira. Muito pelo contrário, você hoje soube mais do meu passado que Adam nesses anos que convivemos.
— Então me conte o que houve naquele banheiro. Quem estava lá que lhe bateu?
— Ninguém me bateu no banheiro. O que aconteceu lá, eu realmente não lembro.
— A garçonete me disse que você estava parada olhando fixamente para o espelho com a mão no rosto e chorando. E vai me dizer que não aconteceu nada.
— Eu não disse que não aconteceu nada. Disse que não me lembrava. E que ninguém havia me batido.
— Por favor, Emily! Você entrou em casa gritando que eu havia batido em você.
— Não. Eu disse que ELE havia me batido. Não disse seu nome, nem que tinha sido você.
— Foi esse Taylor. – Abaixo a cabeça, coloco a mão no rosto novamente e balanço positivamente. – E quem é ele? Onde ele estava no restaurante? E por que não me disse quando saiu do banheiro?
— Taylor é meu ex. Ele não estava no restaurante. Ele... – respiro fundo – ele... – tento falar, mas não consigo.
— Ele lhe agrediu? – Começo a chorar baixinho. Drew se aproxima de mim e me abraça. – Pega um pouco de água para ela. – Levanto a cabeça e vejo Penny estava nos observando da porta do quarto. Ela se dirige à cozinha, pega a água e um remédio.
— Melhor tomar seu calmante, caso contrário, não dormirá. Tome.
— Que remédio é esse? – Ele perguntou
— Um calmante natural que o médico receitou para quando estivesse assim, agitada.
— Melhor levá-la pro quarto. – Eles me levantam do sofá e novamente sou carregada até minha cama, onde sou colocada com muita delicadeza. – Penny, se importa se eu ficar com ela?
— Querida? – Concordo com a cabeça – Fique à vontade então. Ali é o banheiro, a cozinha já sabe onde é.
— Obrigado.

Ele tira a camisa que estava usando, o cinto e o sapato, ficando de calça e camiseta. Deita-se em minha cama e me coloca em seu peito e começa a alisar minhas costas, num gesto carinhoso e delicado. Deposito minha cabeça e uma de minhas mãos em seu peito, mesmo meio dopada pelo remédio e de tanto chorar, pode sentir o peitoral e abdômen bem definidos. E aquele perfume! Que perfume delicioso!

— Anjo, pode confiar em mim. Jamais lhe farei mal. Nem permitirei que lhe façam.

Essas foram as últimas coisas que ouvi e que me lembro. Acordei com o despertador tocando. Estava na mesma posição que adormeci. Melhor, estávamos. Coitado! Irá acordar todo dolorido. Levanto-me com todo cuidado para não despertá-lo. Paro enfrente a cama e o observo. Aquele homem lindo, cheiroso, atencioso, saiu de sua casa para ver o que tinha acontecido comigo. Penny tinha razão, ele não é igual a Taylor. Ele começa a despertar.

— Bom dia, anjo! – Cumprimento-o
— Bom dia, anjo!
— Deve estar todo dolorido. Vou pegar um comprimido
— Não precisa. Não estou sentindo dor alguma.
— Jura?
— Tenho certeza.
— Vou tomar um banho e logo preparo nosso café, tudo bem?
— Fique à vontade. A casa é sua.
— Rapidinho. Enquanto preparo o café você toma o seu.
— Não se preocupe comigo.
— É o mínimo que posso fazer, depois de ontem. – Respondo entrando no banheiro. Minutos depois, saio já vestida pro trabalho, entrego-lhe a toalha e dirijo-me à cozinha.

— Bom dia, minha querida! Como se sente? – Adam estava sentado no sofá
— Bom dia! Envergonhada, mas bem.
— Emm, me desculpa por ter ligado para Drew. Mas estava muito preocupado. Não podia imaginar, conhecendo-o como conheço, alguém lhe batendo e ele não fazendo nada. Só depois foi que liguei o nome a história, mas já era tarde.
— Tudo bem. Meu terapeuta sempre diz que segurar esse segredo por tanto tempo não me faz bem.
— Você faz terapia?
— Bom dia, né cara!
— Bom dia, a todos. Tá bom assim?
— É mais educado. Sei que sua mãe lhe ensinou direitinho.
— Então. Respondendo sua pergunta. Faço. Desde os 12 anos. Por causa do acidente com meus pais.
— Mas não foi aos 9?
— Mas só deu curto aos 12, na entrada da adolescência.
— E conheceu o mané.
— Penny, por favor, falar dele agora de manhã não.
— Tudo bem. Mas que ele é um mané, ele é.
— Vamos tomar nosso café em paz, falando de coisas agradáveis. Como, exemplo, Sra. Scott.
— Fala sério? Qual foi dessa mulher de novo?
— Essa senhora Scott é a da reunião de hoje? - pergunto
— Isso. Ela quer mudar todo o layout da cozinha novamente.
— Jura? Isso atrasa o projeto em quê? 15 dias?
— Não. 15 dias já estamos. 45 dias.
— O quê?!? – Adam quase grita.
— É cara! Juntando todas as modificações e essa, coloque aí mais, pelo menos, 45 dias.
— Isso é inaceitável. – Adam parece incrédulo.
­— Estamos falando de algum prejuízo para a firma? – Pergunto novamente.
— Isso vai depender do novo layout. Se podermos reaproveitar as instalações hidráulicas e elétricas, talvez, e eu frizo esse talvez, não.
— Que delícia!! Se soubesse que nos dariam tanto trabalho não havia aceitado o serviço. – Diz arrependido Adam.
— Pensei que o projeto fosse de Drew. – Estranho a afirmação de Adam.
— Era para ser meu. Como já estava com minhas equipes ocupadas passei para ele.
— O presente de grego! Muito meu amigo.
— Queria ter mais conhecimento do assunto. Por isso, trago para casa aquela pastinha que você me fez deixar ontem no escritório. Agora terei que estudá-lo na hora do almoço para a reunião. Ou seja, não almoçarei direito.
— Você tem todos nossos projetos na pasta?
— Alguns. Quando solicitou uma reunião nossa com eles, pedi para que Gab transferisse o arquivo para o Ipad.
— Vocês vão se reunir com eles hoje? Por que não fiquei sabendo?
— Porque essas reuniões agora são da minha responsabilidade. Para isso me contrataram.
— Perfeito!
— Por falar em trabalho, estou no meu horário. Vocês vão daqui direto?
— Vou deixar Pen no escritório e de lá vou visitar uma obra. Só chego no meio da manhã.
— Ainda está cedo. – Disse Drew
— Chego sempre uma hora antes.
— É mesmo! Gabriel me disse ontem. Eu ainda vou passar em casa, trocar de roupa. Você pode ir comigo.
— Tudo bem. Só vou pegar minha bolsa e o blazer.
— Para que o blazer? Tá linda assim.
— Por causa do ar condicionado. Vamos? Penny, querida, já estamos indo. Adam, desculpa por ontem.
— Estamos quites, ok? – Ele dá uma piscadela que retribuo. E saímos.

A viagem até o apartamento de Drew foi feita em silêncio. Eu não queria tocar no assunto da noite passada. Sentia-me envergonhada. Tanto pelo meu comportamento no restaurante quanto pelo meu passado. Não queria que pensasse que eu era fraca, não sou. Não queria que ele achasse que aceitaria aquele comportamento abusivo novamente. Pois não aceitaria. Taylor tirou o que havia de melhor de mim naquela época. Destruiu toda boa imagem que eu tinha de mim mesma.
Chegando no prédio onde Drew morava, enquanto ele subiu até seu apartamento para se trocar, preferi ficar no carro, ouvindo música e com meus pensamentos.

“Acordei estava em um quarto de hospital. Não sabia como havia chegado lá. Lembro-me que depois de mais uma briga séria com Taylor, dele ter me empurrado e eu ter caído sobre a mesa de estudos no quarto dele, ter ficado um tempo desacordada, esperei chegar meu horário de ir para casa, com uma dor dilacerante no local da pancada, fui para casa. Não me lembro o caminho. Lembro de ter entrado em casa. Daí até a hora que acordei, é um espaço em branco.
— Que bom que você acordou, querida! – Se alegra minha vó
— Vó o que estou fazendo aqui?
— Você desmaiou quando entrou em casa, não lembra?
— Não. Não lembro de ter chegado em casa.
— Como não?!? Vou chamar o médico. – E sai em direção à estação das enfermeiras. Não demora muito e ela volta, acompanhada do plantonista.
— Pois é, doutor. Ela diz que não lembra como chegou em casa.
— Senhora, isso não é incomum. Devido ao trauma que sofreu na cabeça.
— Trauma na cabeça?!?
— Isso Emily. Você deu entrada no pronto socorro desmaiada com um nódulo na parte posterior da cabeça. Você lembra como conseguiu isso?
— Ontem, eu... sofri...- estava procurando uma forma de falar que não denunciasse que Taylor havia me empurrado contra a mesa – um acidente na casa de meu namorado. Tropecei no tapete e bati a cabeça numa mesa.
— Você tropeçou de costas?
— Foi, Nana! Eu tropecei no tapete.
— O hematoma condiz com a história dela. Vamos mantê-la sob observação por hoje, já que desmaiou e está com esse lapso de memória. Mas não há de ser nada.
— Vai me contar essa história direito ou terei que ir até lá perguntar àquele moleque o que ele fez com você?
— Vó já disse, estava sozinha no quarto arrumando minha mochila, andei de costas para pegar algo no chão, tropecei e caí. Foi só isso.
— Amiga! Você está bem? O que aconteceu?
— Tropeçou e caiu de costa numa mesa na casa do moleque. – Nana contou com um tom de quem não acredita.
— Aquele imbecil, te bateu? – Bravejou James
— Não tio! Eu tropecei mesmo – respondi quase chorando – Por que não acreditam em mim?!?!?
— Primeiro, porque a história é estranha. Segundo porque não seria a primeira vez que mente para protegê-lo. – Nana responde e começo a chorar.
— Deixem-na. Não vem que ela não está bem. – Reclama Penny.
— O que o médico disse?
— Que precisam observar para ver a evolução do quadro. Ela não lembra como chegou em casa
.
Algumas horas depois, de porte da tomografia que fiz quando dei entrada no pronto socorro, o médico diz que poderia vir a ter casos de lapsos de memória nos próximos dias, enquanto o hematoma perdurar. Mas não nos preocupássemos porque logo passaria. Receitou alguns remédios para as dores de cabeça e pro inchaço, e me liberou.”

Desde então, toda vez que fico emocionalmente abalada, independente da intensidade, sofro esses lapsos. Foi exatamente o que aconteceu na época que Penny veio morar aqui e tantas vezes antes disso e depois e ontem a noite.

Drew entrou no carro que nem percebi. Não sei porquê, mas essas lembranças ultimamente estão mais frequentes. Isso mexe muito comigo. E o pior é que não estou conseguindo disfarçar. Drew pergunta se está tudo bem, minto dizendo que sim. E partimos para mais um dia de trabalho.

Quando chegamos no escritório, agradeço a carona quando descemos no 35º e me dirijo para meu escritório.
— Bom dia, Gab! Estou atrasada, não?
— Depende, no seu horário ou no oficial?
— Tá entendi! Vamos começar? – Digo abrindo a porta e paro estatelada – Nossa como está linda! Antes de entrar, por favor Chame Lisa aqui para mim.
— Certo, já estou indo.

Entro, ligo o computador, abro minha pasta, pego o Ipad e começo a ver o contrato e o projeto dos Scott. Lisa entra:

— Chamou?
— O que você fez aqui?!?!
— Não gostou? Pensei que estivesse de acordo?
— Ficou muito melhor do que eu tinha percebido ontem quando saí! A sala está maravilhosa! Muito obrigada.
— Que susto! Que bom que gostou. Era só isso? Me matar do coração?
— Não. Jantar sexta, lá em casa.
— Não. Sexta você tem um jantar com Drew.
— Ele pode ir também. Farei um jantar para vocês. E não aceito não.
— Podemos começar? – Gab entra.
— Gab, você também, jantar sexta no Brooklyn. Em minha casa. Vamos começar.
— Tchau, vou ver o projeto dos Scott para nossa reunião.
—Bye! Então, nós temos um modelo de contrato?
— Temos um modelo geral que os líderes alteram alguns detalhes para encaixar as exigências dos clientes. Quer ver? – Aceno com a cabeça. Gabriel abre uma pasta no ipad e me passa.
— Fora as duas reuniões, o que temos mais? – Gab me deixa a par do que temos, graças a Deus só algumas ligações para fornecedores, que farei imediatamente e terei tempo livre para estudar para a reunião com as equipes e os Scott. Meio-dia, peço para Gabriel me providencie o almoço e agende uma reunião de urgência com os sócios, para antes da reunião com as equipes do projeto Scott.

— Emm, a sala de reunião está pronta. – Gab me alerta que é chegada a hora da primeira reunião das três que tenho hoje.
— Obrigada, Gab. – pego minhas anotações e me dirijo para lá. Entrando na sala encontro, Adam, Ashley e Drew. Artie estava em visita a obras. Não havia chegado ainda.
— O que houve para pedir essa reunião de urgência? – Indagou de imediato Adam.
— Pessoal, devido o problema no projeto Scott, dei uma olhada no contrato da obra e algo me chamou a atenção.
— E o que foi? – Questionou Ash
— Os contratos de vocês beneficiam unicamente o cliente.
— E não tem que ser assim?  — Adam estranho meu comentário
— Unicamente não. Tem que beneficiar ambos. Não podemos sair prejudicados. E pelos contratos vigentes, estamos sendo muito prejudicados. – Drew estava estranhamente calado. Podia perceber seu olhar fixo em mim, mas não falava nada. – De acordo com o modelo de contrato que temos, sempre sairemos no prejuízo, pois nos condena em caso de atraso.
— Mas nossa marca é a entrega do serviço no prazo. – Ash ressaltou.
— Maravilhoso! Mas quantas das obras atuais serão entregues no prazo? – Eles se entreolham – Por alto, lhes digo 10. Cada um de vocês, tem pelo menos, 2 projetos em atrasos. As multas que pagaremos são exorbitantes. O caso do projeto Scott, por exemplo, já está nos dando prejuízo.
— Mas isso não é nossa culpa. A cliente está alterando o projeto toda semana. – Defende-se Drew
— Nem estou dizendo que é nossa culpa. Estou dizendo que é culpa do contrato que vocês assinaram.
— Ótimo! – Interrompe Adam – O que podemos fazer agora?
— Melhorar para os próximos contratos. Acrescentando clausuras que nos protejam de casos como esse.
— O que está sugerindo? – Ash interroga
— Que peçamos ao advogado da empresa que o refaça. Simples assim. Os que já foram fechados, está fechado, precisamos recuperar o tempo atrasado e cumprir os prazos.
— Falar é fácil para quem está atrás de uma mesa. – Diz Drew com um tom agressivo que causa estranhamento em todos.
— Drew?!? O que é isso? – O repreende Artie, entrando na sala
— Você ouviu o que ela disse? Você tem noção o que teremos que fazer para cumprir o prazo de, pelo menos, 10 projetos em atrasos, como você disse?
— Claro que sei. Não faria meu trabalho, trabalho para o qual fui contratada por vocês para fazer. Gerenciar os riscos dos contratos. Sei perfeitamente que isso acarretaria em mais horas de trabalho para todos das equipes, contratação de pessoal extra, arquitetos, engenheiros e decoradores trabalhando quase que simultaneamente. Teremos custos? Teremos. Mas serão menores que as multas por atraso. É isso que será necessário. Isso é claro, se não quisermos tomar mais prejuízos que já tomamos. – Falei, especialmente para Drew, no mesmo tom dele, dura e seca. – Eu não acordo cedo para brincar e nem brinco de administrar. Eu faço meu dever de casa. Mas reforço, essas são as minhas recomendações. Cabe a vocês decidirem.
— Tá, não temos advogado. – Artie informa
— Como assim, não tem advogado? Quem criou os contratos?
— Nós e o Tim. – Respondeu meio que sem jeito Adam
— Tim, o contador/”administrador”? Vocês estão de brincadeira?
— Não. – confirmou Ash
— Pois precisamos de um. Mas isso pode esperar um pouco. Temos que determinar o que fazer com as obras que já iniciamos para minimizar o prejuízo, principalmente o dos Scott.
— O dos Scott não sei se tem como salvar. – Disse Ash. – Ela quer que movamos a pia da bancada atual para a do lado esquerdo da cozinha, onde tem uma janela.
— Mas a pia está embaixo de uma janela.
 - Drew rebate
— Eu sei. E uma janela maior, mas segundo ela, do outro lado tem uma vista mais bonita.
— Ela está errada. – Rebate novamente.
— Drew, eu sei. Eu fiz o projeto da casa, lembra?
— Eu sei. Não precisa jogar em minha cara.
— Pera, vamos fazer o seguinte: vamos deixar essa discussão para a reunião com Phill. Acho que por agora, vocês precisam se sentar com seus arquitetos e engenheiros e ver o que podem fazer para reverter esse quadro, para melhorar esse quadro. – Alerto.
— Emily tem razão. Vamos nos reunir com nossas equipes e quebrar nossas cabeças. – Ash concordou
— Cara, o que deu em você? – Adam questionou Drew – Parece que dormiu de calça.
— Deixa de palhaçada, Adam.
— Tá azedinho, hein? – Ouço a conversa deles enquanto peço a Gab para chamar Phill, para discutirmos a situação.

O humor de Drew só piora no decorrer da segunda reunião. Não sei o que deu nele. Mal fala e quando fazia, era grosseiro. Ashley o tempo todo tentando contornar o mal humor dele. Mas não consegui. A mim, não dirigiu mais nenhuma palavra. Antes da reunião com os clientes, Ashley o chamou num canto e conversou com ele. Não sei o que conversaram, mas ele pediu desculpas e se retirou antes de começarmos. Ash pediu desculpas pela ausência dele aos clientes, me apresentou e demos início a reunião. Depois de quase duas horas de reunião conseguimos convencê-la de não fazer aquela alteração na cozinha, deixar a ilha e a pia no mesmo lugar, entendeu que quanto mais ela mexesse no projeto depois de iniciarmos as obras, atrasaria ainda mais o prazo de entrega. Ao final, conseguimos não só permanecer com o projeto original da cozinha, como convencê-la a não mais alterá-lo. Volto para minha sala, arrumo minhas coisas e ligo para a empresa de taxi e volto para casa.

Não falei mais com Drew ou os outros sócios no restante da semana. Mandei uma mensagem para eles convidando-os para o jantar em minha casa. Todos confirmaram, exceto Drew.

***

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Livro 1: Calma Paixão - Capitulo VII: O primeiro jantar

— Foi isso mesmo?! Eu acabei de aceitar jantar hoje e na sexta-feira?! – penso alto.
— Não que eu estava prestando atenção. Mas parece que sim.
— Eu não acredito!
— Por quê? Drew é um cara legal. Gente boa mesmo.
— O problema não é ele, sou eu. Não estou procurando envolvimento.
— E quem está nessa cidade?
— Deixa eu cuidar do trabalho. Gab, por favor, venha cá. – Sua pergunta me pareceu retórica, por isso não a respondi.
— Em que posso ajudar?
— Você consegue o contato dos Scott?
— Do projeto de Phill?
— Não sei. Quem pediu foi Drew.
— Então é. Phill é da equipe dele. Consigo sim.
— Então tenho duas tarefas para você: primeira e mais urgente, marque uma reunião com eles, Drew, Phill, o arquiteto do projeto e eu para ontem, se é que me entende. E faça uma tabela com nossas obras, por equipe, dizendo quem é o responsável e quem está envolvido, desde os arquitetos e engenheiros líderes até o responsável pela limpeza final. Entendeu?
— Essa tabela você quer para...?
— O mais breve possível.
— Amanhã estará em seu Ipad.
— Quero uma cópia impressa também.
— Tudo bem.
— Quanto ao meu novo número?
— A empresa trará o aparelho corporativo amanhã com a lista de telefones dos funcionários já salvos. - E Gab sai da sala para providenciar meus pedidos. Eu retorno ao meu projeto. Em torno de uma hora depois, meu celular toca.
— Oi, P. Tudo bem?
— Tudo tranquilo. E você, como está?
— Acabei por hoje. – Lisa me avisa – Quanto a seus jantares, se joga. Ele é gente boa.
— Quem é? E que jantares são esses? Quem é gente boa? – Penny ouviu o comentário de Lisa.
— 1. Lisa, a decoradora líder da empresa.
— Conheço. Decorou a casa de Adam. Gosto dela.
— Que bom que gosta dela, porque também gosto. Acho que seremos boas amigas. Bom, Drew me chamou para jantar hoje.
— Drew, Drew?! Seu chefe?!
— Sim. Drew, amigo de Adam. Ele hoje me convidou para jantar.
— Pera aí! Quando esse lance com Drew começou? E por que não me contou nada?
— Não tem lance nenhum. O que foi aconteceu o seguinte. Ontem, saímos daqui juntos e ele ficou preocupado com a minha segurança, saindo tarde e indo de metrô para casa...
— Você veio de metrô ontem? Tá louca? Concordo com ele.
— Eu não fui de metrô, peguei um taxi. Mas ele queria me levar, disse que não precisava, que pegaria um taxi mesmo. No meio do caminho, ele me ligou para saber se já havia chegado. Cara louco!
— Ele não é louco. Pode ser maníaco por segurança, mas não é louco. Mas entendo seu ponto de vista. Você se assustou.
— Claro que sim. Depois de tudo que vivi, quem não?
— Sim, Lisa falou de jantares.
— Continuando. Hoje pela manhã, ele entra em minha sala, me cobrando uma ligação que não fiz, de propósito e que, ao mesmo tempo, esqueci. Começamos a conversar e ele finaliza com um convite para jantarmos hoje. Não aceitei na hora, mas pedi que e ligasse a tarde. O que fez a uma hora atrás. Recusei o convite, dando algumas desculpas, mas ele não aceitou. Tentei adiar, para ganhar tempo e ele esquecer...
— Se conheço Drew, ele não esqueceria.
— Sugeri na sexta. No final da ligação estava com dois jantares com ele marcados. E não quero ir a nenhum dos dois.
— Menina, por quê?
— Jura, Penny! Você, me perguntando por quê?! Esqueceu de minha história?!
— Emm, você precisa desencanar! Tá certo que você não deu sorte, nem nos carinhas que se envolveu aqui. Também procurava quem não queria nada.
— Pois é. Meu dedinho sabe bem escolher. Não quero mais nada com ninguém, nem mesmo aqueles casinhos.
— Mana, se dê uma chance. Você acha que se Drew fosse um sacana eu estaria dando força para ir a esse jantar?
— Não sei. Tenho medo...
— Não sabe?!?! Não me conhece?
— Não é isso. Tenho medo...
— Tem medo de quê? – Drew me pergunta ao mesmo tempo que Penny pergunta do outro lado da linha.
— Penny, preciso desligar. Drew chegou aqui e não terminei o que precisava.
— Vá jantar sem medo. Na pior das hipóteses, ganha um amigo maravilhoso.
— Tá certo. Beijos. Te amo.
—Também te amo. Quando chegar, conversamos. – E desligo o telefone
— Oi! Tá aí a muito tempo?
— Tem medo de sair comigo?
 Não me respondeu.
— Perguntei primeiro.
— De sair com você não.
— De quê, então? – Ele pergunta se aproximando.
— Disse a você que minha vida é complicada.
— Não. Você me disse que sua vida é cheia de contradições. E ter medo de sair com alguém não é uma contradição.
— No meu caso, é. Deixa terminar só esse pedaço e podemos sair, tudo bem?
— Acho melhor esquecermos. Já que está com medo.
— Não me entenda mal. Não tenho medo de você, especificamente. Já disse, é complicado.
— Você não quer ir, então cancelamos. Conseguiu marcar com os Scott?
— Está mudando de assunto. Vou terminar esse pensamento e vamos. E sim, Gab conseguiu marcar para amanhã no final da tarde aqui no escritório.
— Tem certeza?
— Claro. Tá aqui na agenda.
— Tô falando do jantar.
— A garota tem que se alimentar, né?
— Se é o que quer. Então iremos.

Tento me concentrar no projeto, mas algo na voz dele, no tom da voz, que estava me incomodando. Acho que ele ficou magoado com minha conversa com Penny. Não é que eu não confiasse nele ou no julgamento dela, mas com meu histórico não consigo evitar em me fechar para pessoas novas em minha vida pessoal. Principalmente, os homens. Levanto meu olhar e o vejo olhando pela janela, no mesmo ponto em que fico.
— É linda essa vista, não?
— Sim, muito linda. Você foi privilegiada com essa sala. É uma das melhores vista do escritório.
— Podemos ir, quando quiser.
— Já terminou?
— Não. Não estou conseguindo. Perdi a concentração.
— Minha presença lhe atrapalha?
— Não.  Foi a conversa com Penny e com você. Algo está me incomodando.
— Se quiser, lhe deixo em casa, sem nenhum problema.
— Não. Se eu não sair com você terei muitos problemas em casa. – Falo em um tom divertido
— Como assim?!
— Não sabia que Penny é sua fã? Ela sempre me falou bem dos sócios de Adam. Nunca citou nomes. Mas hoje falou muito bem de você.
— Não sabia disso. Quer dizer que tenho uma aliada?
— Aliada? Para?
— Transformar a imagem errônea que criou de mim em sua cabeça.
— Acho que você mesmo já está fazendo isso. Não precisa de aliadas. Vou ao banheiro e saímos. – Entro no banheiro que tem em minha sala, arrumo o cabelo, retoco a maquiagem. Ajeito minha roupa.
— Pronto. Podemos ir. – Pego minha bolsa, minha pasta de trabalho.
— Você vai precisar dessa pasta hoje em casa?
— Não necessariamente. Por quê?
— Por que não deixa aqui?
— Ah! Porque gosto de revisar as coisas no caminho e pela manhã, durante o café e o percurso.
— Deixa isso aí. Você não irá revisar nada no caminho, pois estará comigo. E o que tem para fazer amanhã, quando chegar aqui, verifica.
— Quem sou eu para contradizer uma ordem de meu chefe.
— Sou chefe dos engenheiros. Somente isso. Vamos.
— Vamos. – Desligamos as luzes do escritório. Descemos em direção à garagem. Ele aciona o alarme de um Porsche Cayenne preto. Abre a porta para que eu entre, fecha a porta e dá a volta no carro. Quando entra e coloca a chave na ignição, me pergunta:
— Gosta de que tipo de comida?
— Como assim?
— Italiana? Tailandesa? Japonesa?
— A tá! Amo pizza. Se não se importar.
— Pizza então. Conheço algumas pizzarias maravilhosas. Mas se tiver alguma de sua preferência, é só dizer.
— Escolhi o que, você escolhe onde vamos comer. Só posso pedir uma coisa?
— Quantas quiser. – Ele fala comigo com uma doçura que nunca ouvi num homem daquele tamanho. Ou de qualquer outro tamanho.
— Pode escolher um lugar perto? Estou faminta. Comi uma salada minúscula que Gab me obrigou na hora do almoço.
— Tem uma a duas quadras daqui. Mas por que fez isso? Não quero que fique sem se alimentar direito. – Quando ele termina de falar já estamos na rua.
— Quando me envolvo em um projeto, não consigo parar.
— Não faça mais isso, muito menos por uma firma que não é sua.
— Mas é sua e de um grande amigo. Vocês me contrataram para isso.
— Não para se matar ou ganhar uma doença qualquer. Pronto. Chegamos.
­— Já?
— Você não pediu para ser perto? Seu desejo é uma ordem.
— Só fiz um pedido. Não foi um desejo.
— Vamos discutir por isso?
— Claro que não. – O manobrista abre a porta dele, que impede que um outro abra a minha. Ele mesmo faz isso. – Obrigada.
— Vamos matar essa fome. Não vou negar, também estou faminto. Almoço muito mal nas terças-feiras.
— Boa noite, Sr. Grant. A mesa de sempre?
— Boa noite, Tony. Por favor.
— Sigam-me.
— A mesa de sempre? – Sussurro em seu ouvido. - “Nossa! Que homem cheiroso!!” Penso quando o perfume com um toque amadeirado adentra por minhas narinas, me arrepiando toda.
— Costumo comer aqui. – Limita-se a me responder.
— Claro que sim. – Completo.
— A carta de vinho? – O maitre pergunta
— Por favor.
— Logo um garçom virá lhes atender.
— Obrigada, Tony. Sobre o que vamos conversar? – Ele vira-se para mim.
— Não sei. Por que engenharia?
— Por que administração?
— Perguntei primeiro. Mas respondo. Fui criada dentro da empresa de meus pais.
— É mesmo! Seus pais e os de Penny eram amigos e sócios. E ficou de me explicar uma contradição nessa história. – Se fez de esquecido e que havia lembrado naquele exato momento.
— Isso. A relação deles nunca terminou oficialmente. Perdi meus pais no dia do aniversário de 15 anos deles.
— Sinto muito!
— Não tinha como saber.
— Então você agora é sócia dos pais de Penny. Mas se... – Ele é interrompido pelo garçom com a carta de vinho – Prefere tinto ou branco?
— Tinto.
— Seco, suave, doce?
— Só não seco, por favor.
— Uma jarra de San Polo Rubio 2016, sim.
— Claro, senhor.
— Obrigada. Continuando. Mas se você tem uma empresa... De quê?
— Ecoturismo. Fazemos passeios turístico na região do Rio Mystic, próximo à cidade de Mystic City, especialmente passeios de barco.
— Sim, se você tem uma empresa, por que aceitou gerenciar a de estranhos?
— Primeiro, Adam não é estranho, já disse que é um grande amigo. E essa é mais uma complicação de minha vida. Uma parte que não gosto de falar. Tudo que posso lhe dizer é que quando fui aceita na NYU disse adeus àquela cidade para nunca mais voltar.
— Se não se sente confortável em falar, não tocaremos mais no assunto. Só posso dizer o seguinte... – o garçom chega com nosso vinho, coloca um pouco na taça de Drew, que faz toda a firula de um enólogo, aprova a bebida e o garçom serve nossas taças. – ... como ia dizendo... como é o nome da empresa?
— PE Tourism
— Azar da PE Tourism e sorte da A4+. Saúde!
— Sorte a minha. Saúde!
— Vamos escolher o sabor da pizza?
— O que você recomenda?
— Não me venha com essa. Escolha um sabor.
— Chato. Deixa-me ver o cardápio. – Ele me entrega o cardápio – Humm!! Acho que essa de frango com parmesão parece ser uma delícia.
— É muito boa sim. Vou fazer o pedido. – Ele faz um sinal muito discreto e o garçom aparece.
— Por favor, duas pizzas sabor frango com parmesão.
— Duas?! Não é muito?


— Não. As pizzas aqui são individuais.
— Mas porque não pede outro sabor?
— Quero o mesmo que você.
— Nossa! Estou me sentindo importante.
— Obrigada! – Agradece ao garçom e vira-se para mim – Mas você aqui é importante. Por que não seria?
— Nunca fui tratada assim. – A frase sai com um tom triste que ele percebe.
— Se não foi, erro de quem não lhe tratou bem. Comigo você sempre será tratada com a devida importância.
— Obrigada. – Agradeço abaixando o rosto para que ele não visse meus olhos lacrimejantes.
— Ei! Nada disso. Não quero você triste.
— Quem sabe um dia você venha a entender.
— No dia que você me permitir, eu entenderei.
— Eu lhe disse o porquê de ter escolhido administração. E você não me disse por que escolheu engenharia. – Mudo de assunto
— Negócio de família também. Meu pai é engenheiro e minha mãe arquiteta e decoradora.
— Humm! Então você e Arthur dividiram para não ter briga entre seus pais.
— Isso. São áreas muito parecidas, mas me identifiquei com a engenharia. Sempre gostei de ir aos canteiros de obra com meu pai.
— Meu pai me levava para andar de canoa. Era muito bom! Quando voltávamos, minha mãe tinha o lanche preparado, aí íamos os três fazer piquenique no quintal de nossa casa, que dá para uma lagoa linda! Brincávamos até o anoitecer. Depois íamos ver filmes e comer pipoca. Esse era nosso fim de semana.
— Deve ser muito linda sua cidade natal.
— Era muito linda mesmo. Agora não sei mais.
— Nunca mais voltou?
— Não. Quando saí de lá, saí para nunca mais voltar.
— Quem criou você?
— A mãe de meu pai, com a ajuda de uma tia, irmã de minha mãe por um período, e os pais de Penny. Tirando minha tia, todos ainda moram lá.
— E nunca mais os viu?
— Não, os vejo sempre. Na minha formatura estavam todos aqui. Que bom, estou faminta. – Celebrou baixo quando vejo o garçom se aproximar com nossos pedidos.
— Buon apetito! – O garçom nos deseja e se retira
— Bom apetite! – Drew ergue sua taça e brindamos.
— Parece saborosa! – comento
E enquanto comíamos, íamos conversando.
— Então. Você e seu irmão. Quem é o mais velho?
— Ele. Ele é um minuto mais velho que eu.
— Vocês são gêmeos?!
— Somos. Não percebeu?
— Notei uma semelhança muito grande, mas não achei que fossem gêmeos.
— Somos. Bivitelinos, mas somos. Tive que dividir tudo com ele, até o útero de nossa mãe.
— Dividiram tudo? Sempre?
— Menos as namoradas. Claro.
— Ah bom!
— Por que esse alívio? Tá pensando em namorar Artie? Sabia que ele é casado com sua chefe, não sabia?
— Meu Deus! Não! Claro que sabia! Falei por achar uma falta de escrúpulos dividirem as namoradas!
— Quer dizer que não existe o interesse?
— Não! Por Deus!
— Pena!!
— Oi?! Você aceitaria que seu irmão traísse sua cunhada?
— Não estou falando dele.
— OH! OH!!! A pizza daqui é gostosa mesmo. – Mudei de assunto novamente, meio embaraçada. - Você tinha razão! Nossa! Veja as horas já é tarde. Melhor eu pedi o taxi.
— Deixo você em casa. Então relaxa. E não mude de assunto.
— Não estou mudando. Amanhã é dia de trabalho ainda. Preciso acordar cedo.
— Não terminamos nossas pizzas nem o vinho. E ainda falta a sobremesa. Por favor!
— Não faça essa cara!
— Que cara?
— Do Gato de Botas.
— Do Gato de Botas?!
— É! O filme da Disney. Cara de pedinte, de carente.
— Ah! Mas quem lhe disse que não sou carente?
— Sem essa Drew! Você não é carente.
— Como sabe?
— Bonito desse jeito, – Claro que pensei em lindo – atencioso, educado, bem situado, se está carente é porque quer.
— Bem situado? – Dando uma leve risada. – É, estou solteiro por opção, até achar a pessoa certa.
— Humm! Ainda não achou? Entre todas as mulheres com quem se envolveu?
— E quem lhe disse que me envolvi com muitas mulheres?
— Fora ser uma observação lógica, a partir dos argumentos citados anteriormente, Ashley deixou escapar algumas vezes ontem no almoço.
— Então, a senhorita está julgando o livro pela capa e pela opinião de terceira? Isso é um costume?
— Não estou julgando. Estou presumindo. Infelizmente isso é um costume. Presumo coisas a partir de minha vivência. Analiso e presumo.
— Mas nem todos somos iguais.
— Interessante. Se vocês não são todos iguais, por que sempre dizem essa mesma frase?
— Vocês quem?
— Os homens.
— Humm, entendo! Então suas presunções são apenas com os homens! Percebo. Gostaria de conhecer ele.
— Ele? Ele quem?
— Aquele que lhe fez julgar que todos, julgar não, presumir que todos os homens são iguais.
— E quem lhe disse que existe um “ele”?
— E não existe?
— Já disse. Presumo pela vivência.
— E reafirmo, se você presume por vivência é porque existiu um ele.
— Não necessariamente.
— Não quer falar, beleza. Mas ainda quero conhecer ele. E quero lhe mostrar que não somos todos iguais a ele.
— Tudo bem. – E enfio um pedaço de pizza na boca e passo o restante da noite calada. Termino minha pizza e a taça de vinho, peço licença e vou ao banheiro. Apoiada na pia, me encaro e me perco no meu olhar.

“— Gostaria de ir comer uma pizza no Mamma’s. Podemos?
— Hoje é dia de jogo, tá louca?!? Daqui não sairemos.
— Poxa! Nunca mais saímos. Só queria ir passear com você um pouco. Ver as pessoas.
—VOCÊ QUER VER QUEM? HEIN? SCOTT PETERSON?! QUEM VOCÊ TEM QUE VER ESTÁ AQUI. BEM NA SUA FRENTE.
— Queria ver Penny. Nunca mais a vi, porque nunca saímos. Penny está indo embora em breve e quero me despedir dela.
— AQUELA PIRANHA JÁ VAI TARDE. E VOCÊ DEIXARÁ DE SER INFLUENCIADA POR ELA. AGORA CALE-SE PORQUE O JOGO JÁ VAI COMEÇAR.
— Baby. Então me deixa ir. – Senti a mão dele no meu rosto e as lágrimas escorrendo.”
— Senhora, está tudo bem? – Sou despertada por uma das garçonetes do restaurante.
— Ah! Estou. Estou bem sim.
— Tem um cavalheiro procurando pela senhora. Estava preocupado e pediu para que viesse ver se estava bem.
— Obrigada. Diga-lhe que saio em um minuto.
— Tudo bem.

Ela sai e me encaro mais uma vez. Levo a mão ao rosto, massageio mais onde aquele tapa estalou. Ligo a torneira e lavo o rosto, me recompondo. Enxugo minha face. Aplico uma camada de pó, passo o batom, passo as mãos na roupa. Ajo como agi naquele dia. Fingindo que nada acontecera.

Saio do banheiro, encontro Drew sentado em nossa mesa, meio agitado. Dava para ver que estava aflito. Algo me dizia que a garçonete lhe contara como havia me encontrado no banheiro. Peço-lhe desculpa pela demora. Na verdade, não sei como fui parar naquele banheiro nem quanto tempo fiquei lá, nem se alguém havia entrado. Tudo, desde que começamos a comer a pizza, estava apagado. Não lembrava de mais nada. Só lembrava da dor do tapa.

— Está tudo bem?
— Está sim. Acho que foi o cansaço.
— Mas o que sentiu?
— Nada demais. Nada que uma boa noite de sono não resolva. – Como naquela noite. “No dia seguinte, ele acordou e me pediu desculpas”. – Podemos ir?
— Vou pedir a conta.
— Será que conseguiria um copo de água para mim?
— Claro. – Fez aquele sinal discreto sem tirar os olhos de mim, e eu disfarçando. Tinha medo de que ele me olhasse e percebesse a marca do tapa que levei naquela noite.
— Por favor, poderia trazer um copo de água para a dama e a conta? –
“Ele me chamou de dama!!!” - Pensei
— Só um instante e trarão sua água, senhora.
— Muito obrigada. – Ergui a cabeça para agradecer e logo virei para o lado oposto.

Rapidamente, alguém trouxe minha água e degustei com avidez. Ao finalizar de beber, Drew ergue-se da cadeira e veio até a minha, puxou-a para que levantasse e saímos.

O caminho até o Brooklyn foi feito em silêncio. Queixei-me de dor de cabeça, culpei a mistura de vinho e estômago vazio. Parece que ele aceitou a desculpa. Perguntou se me incomodava o rádio baixinho, disse que não. Virei para a janela e me perdi em meus pensamentos, observando a paisagem. Quando atravessamos a ponte e me chamou e perguntou o endereço correto. Despertei no susto. Passei-lhe as informações e voltei a encarar as ruas.

Ele parou em frente ao prédio. Toca-me no braço, tive um sobressalto.
— Desculpa, não quis lhe assustar de novo.
— Tudo bem. Estava cochilando. - Minto
— Chegamos – Sua voz era doce, atenciosa, preocupada. – Tem certeza de que está bem?
— Estou sim. Acho que você tem razão. Não devo ficar sem me alimentar por tanto tempo. É isso que dá.
— Se precisar de qualquer coisa essa noite, é só ligar. Virei imediatamente.
— Obrigada. Mas acredito que não será necessário. Grata por tudo. Boa noite.
— Descanse. E se não acordar bem, não se preocupe em aparecer no escritório. Eu lhe cubro por lá.
— Vai fazer minhas funções?
— Não foi isso que quis dizer.
— Eu sei. Obrigada, mas o trabalho é minha terapia. Boa noite. Me liga quando chegar em casa, fico preocupada com sua segurança.
— Já estamos melhorando. Está fazendo piada.
— Sério, é muito tarde. Me ligue. Ou mande mensagem.
— Mando mensagem. Boa noite. Se cuide.
— Me cuidarei. Tchau. Até amanhã. – Desço do carro, caminho cabisbaixa até a porta do prédio, viro e vejo o carro ainda parado, ele ficou esperando que entrasse antes de dar a partida e retornar para Manhattan. Entrei em casa sem fazer barulho, não queria acordar Penny. Mas não adiantou. Ela apareceu saindo do quarto. Quando a vejo desabo no chão, aos prantos.

***

terça-feira, 26 de maio de 2020

Livro 1: Calma Paixão - Capitulo VI: Drew Grant

“Simplesmente é inacreditável! Ela disse que me ligaria assim que chegasse em casa. E até agora nada! Minha vontade é ir até lá e saber, pessoalmente, como ela chegou. Mas não sei o endereço e não quero parecer um louco pedindo o endereço dela a Adam, ele já achou meio estranho eu pedi o telefone dela, imagine o que falaria se pegasse o endereço numa hora dessa! Amanhã vou direto à sala dela e ela me dirá.” Deito e luto para dormir.

Acordei diversas vezes durante a madrugada. Novamente, tive aqueles sonhos. Algo neles me assustam, mas de uns tempos para cá não consigo mais lembrar sobre o que eles eram, só fica aquela sensação aterrorizante de insegurança e perigo. Tudo que consigo associar é que os tenho sempre que algo me preocupa, algo me deixa em alerta, como ontem à noite.

Vou até a cozinha, preparo meu café, e enquanto leio o jornal e como, vou pensando em Emily. Fiquei admirado com a beleza dela. Alta, corpo nem muito magro nem muito gordo, não parecia ser musculosa, mas estava em forma. Cabelos castanhos claros, que presos num coque, pareciam dourados. Dona de um olhar muito expressivo, que transmitiam sua força e garra e brilhavam ao falar de trabalho. Sua roupa lhe dava um toque de seriedade, mas ao mesmo tempo, simplicidade e um ar juvenil, embora fosse um terno. Se mostrou muito inteligente, durante o almoço. Bem mais que as mulheres que estava acostumado a sair. Entende muito sobre administração e demonstrou ter conhecimentos na área da construção. Tudo nela indicava que era uma mulher fora de série. Formidável!

Termino meu café, vou tomar banho e me arrumo para o trabalho. Como hoje vou a campo, coloco uma calça jeans, tênis, uma t-shirt e um blazer, pois antes vou ao escritório. Pego a carteira e as chaves do carro e desço até a garagem e rumo para o escritório. Dirijo mais rápido que o de costume, quero chegar logo na empresa, mas não me arrisco a sofrer um acidente.

— Segurança em primeiro lugar! Sempre! – Falo em voz alta. No rádio toca Gravity, de John Mayer. Passo a cantar bem alto dentro do carro todo fechado. Assim, me acalmo e não explodo quando encontrar com a senhorita Emily.

Estaciono o carro na garagem do prédio e pego o elevador. Normalmente, pararia no 36º andar, nas terças faço visita nas obras mais recentes, então antes de ir vê-las, tenho uma reunião com os engenheiros encarregados e revisamos os projetos. Mas hoje, vou direto na diretoria, então descerei no 35º. Tenho que ter certeza de que ela está bem.

Quando o elevador para no andar, me bato com Gabriel e Lisa na porta.

— Bom dia, Drew! – Lisa me cumprimenta.
— Bom dia, Lisa! Gabriel! – Aceno com a cabeça e passo pelos dois. Gabriel! – Chamo-o com mais ênfase, quase gritando. – Você está assessorando Emily, não?
— Sim.
— Ela já chegou?
— Desde as 7:00. Hoje chegou a todo vapor. Mal esperou o computador ligar. Disse que estava fervilhando de ideias.
— Ótimo! Agora mesmo que ela vai me ouvir. – Os dois se entreolham e me olham como quem pedisse uma explicação. Viro as costas e deixo-os sem resposta. Dirijo-me até o escritório dela. Abro a porta e a vejo sentada em sua mesa, debruçada em um monte de papel, escrevendo e apagando e escrevendo. Deus, como ela está linda hoje! Como pode estar ainda mais linda que ontem! O cabelo está solto, cheio de cachos, caindo sobre os ombros. Sim, eles têm um tom dourado em algumas partes. Sua maquiagem é muito discreta o que lhe dá um ar mais profissional, mesmo com o cabelo solto. Linda mesmo! O que está acontecendo comigo?!
— Bom dia! – Cumprimento-a num tom meio meloso
— Oi, tá aí a muito tempo? Entre. – Ela me convida como se nada tivesse acontecido.
— Você não esqueceu de nada? – Pergunto enquanto entro e sento-me à sua frente.
— Humm! Esqueci e não esqueci. – Ela responde repousando o lápis sobre os papeis
— Como é?!
— Esqueci que prometi te ligar, mas não ia ligar mesmo.
— Você é dessas que não cumpre com as promessas?
— E você é desses que desligam na cara das pessoas?
— O quê?!?
— Como você desligou o telefone antes de eu terminar de falar, resolvi não ligar.
— Desliguei!? Você ainda estava falando?! Desculpe. Não tive a intenção!
— A tá! Não teve a intenção de ser mandão e controlador!
— Epa! Espere um pouco. Não sou nem mandão muito menos controlador. Na verdade, sou o oposto disso. Com o tempo verá.
— “Assim que chegar me ligue para saber que chegou bem.” Se isso não é ser mandão nem controlador, não sei o que é.
— Assumo que tenho mania de segurança, o pessoal das obras fica doido comigo, mas não sou maníaco controlador. Tá, você não ligou porque não quis, então? Passei a noite preocupado. Liguei umas duas ou três vezes, por que não atendeu? Para me castigar?
— Você ligou? Não ouvi. Deixei a bolsa com o celular na sala. E não. Não liguei só porque não quis. Disse que esqueci, e esqueci mesmo. Cheguei em casa, Penny me bombardeou com perguntas sobre ontem.
— Penny? Quem é?
— A namorada de Adam. Somos amigas de infância e moramos juntas. Você não sabia?
— Não. Sabia que a namorada de Adam se chama Penélope. Mas não pensei que você fosse amiga dela.
— Somos. Praticamente fomos criadas juntas. Meus pais e os pais dela eram amigos e sócios em nossa cidade.
— Eram? Desfizeram a sociedade ou a amizade?
— Nenhum dos dois. Ou os dois. Depende do ponto de vista.
— Você é cheia das contradições.
— Minha vida é composta por contradições.
— Humm! Mulher de mistérios. – Meu telefone toca – Alô! – É um dos engenheiros das obras a serem visitadas hoje. – Já estou no escritório. Tive uma reunião com a nova gerente. Já estou subindo.
— Você se atrasa para seu compromisso e eu sou a culpada?
— Não disse que você era a culpada do meu atraso. Disse que estava em reunião com você. Podemos jantar hoje?
— Oi?
— Quero saber mais sobre essas contradições em sua vida. Chamaria para almoçar, mas vou visitar obras, não tenho horário.
— Também não tenho horário. Quero terminar essa pesquisa hoje. E começar logo a planejar essa ação. Precisamos retomar o crescimento da empresa. Não podemos ter profissionais sem ter o que fazer, nos custa caro.
— Gosto do jeito que fala do trabalho. Então, jantar? Hoje?
— Me ligue a tarde que lhe respondo. Pode ser?
— Preferia já sair com minha resposta, mas... fazer o que. Não quero ser mandão nem controlador.
— Me ligue. Te dou a resposta.
— Tá bom. Mais tarde te ligo. Tenha um lindo dia!
— Você também.

Saio da sala dela e ela retoma seu projeto. E eu vou à minha reunião antes de sair para nossas visitas. Quando entro na sala de reuniões, encontro os engenheiros responsáveis pelas cinco obras que visitarei hoje.
— Desculpem meu atraso, mas estava passando algumas informações sobre nossa rotina à nova gerente. Ela precisa ficar a par de nossos costumes e ações.
— Ela passou um memo ontem para todos informando que teremos uma reunião com ela toda segunda-feira, argumentou que por estar na linha de frente, precisa estar ciente de nossos passos. Acho balela. Sendo sincero com você. Acho que está querendo mostrar serviço, porque é nova. Com o Tim não tinha essa frescura de reuniões. – comentou Ted, um dos engenheiros mais antigos da firma.
— Com o Tim não tínhamos gerência. Ela está fazendo a parte dela. Eu já fiz hoje a minha. E a partir de segunda, vocês farão a de vocês. Ok?
— Claro, chefe. – Disseram todos.
— Já que chegamos a um acordo sobre o ponto gerência, vamos ao próximo. Como está as obras dos Scott?
— Não aguento mais a Sra. Scott. Toda hora ela vem com uma mudança e cobrando o prazo. Você precisa falar com ela. – Informou Phill, o encarregado da obra Scott.
— Qual foi a última dela?
— Ela tinha dado o ok para estrutura da nova ilha, ligou ontem a noite dizendo que queria mudar, pois acha que não ficará legal daquele jeito. E não quer mais a ilha.
— Só pode tá brincando! Vou marcar uma reunião com eles ainda essa semana. Por enquanto, faça um projeto com uma península, tentando não mexer nos pontos hidráulicos e elétricos, e outro sem nada, com espaço para uma grande mesa. Veja com as equipes de Ash e Lisa o que é possível e viável fazer nesse caso, sem comprometer o orçamento e o prazo.

E assim passamos a manhã, tentando modificar os projetos para satisfazer as vontades dos clientes. À tarde, partimos para as vistorias. Fomos logo na obra Scott. Pois seria a que daria mais trabalho que além de ser a reforma da casa inteira, em dois meses de obra a Sra. Scott alterou o projeto umas 5 vezes, gerando um atraso de, pelo menos, 15 dias. E não quer aceitar o atraso. Se na próxima reunião, não a convencermos a ficar com a ilha, o atraso passará de um mês, dependendo do que ela escolha. Fora o prejuízo com a bancada da ilha.

Última visita do dia. Reforma do closet da filha do casal Rutherford. Coisa simples, são clientes novos da firma, fomos indicados por um outro cliente. Então quiseram um serviço pequeno para se certificarem da qualidade de nosso serviço antes de nos contratar para serviço maior, construção de uma casa de hóspede no terreno deles nos Hamptons. Estávamos bem adiantados, as perspectivas eram de terminarmos até o final da semana para que a equipe de decoração finalizasse e assim, entregaríamos antes do prazo final. Então estava tranquilo que a outra obra seria nossa. Aproveito quando termino a vistoria e no caminho até o carro e ligo para Penny.
— Oi! Pode conversar?
— Drew! Oi. Posso sim. Estou ainda com o projeto do condomínio, mas posso falar.
— Ainda nisso?
— Foram as interrupções de Lisa sobre a decoração de minha sala, já que não quis sair daqui para ela fazer o serviço dela.
— Eu não tenho culpa de nada! – Ouço a voz de Lisa ao fundo.
— Nem disse que era sua culpa. Adianta isso, por favor. Pode falar.
— Quero duas coisas suas.
— Oi?!
— Uma pessoal e outra profissional.
— Comece pela profissional.
— Preciso que marque uma reunião com o casal Scott.
— Qual o problema?
— De grosso modo, mais alterações no projeto e prazos.
— Mais alterações?!? Isso não é bom. Vou pedi a Gabriel para agendar agora mesmo. E qual é a outra?
— Esqueceu?!
— Esqueci?! De que?!
— Sério? Esqueceu do meu convite?
— Claro que não. Podemos deixar para outro dia?
— Por quê?
— Não sei que horas Lisa vai terminar aqui.
— Não é desculpa. Lisa fica e você vai.
— Mas não terminei com o projeto.
— Deixa sem terminar.
— Não vai aceitar esse adiamento!? Marcamos para sexta, que tal?
— Ótimo! Jantamos hoje e sexta. Vou em casa, tirar a poeira e passo aí para lhe pegar e vamos jantar. Tchau.
— Espere, eu não...

Desliguei o telefone, mas dessa vez me despedi o mesmo tempo que ela falava, por tanto não bati o telefone na cara dela. Disso ela não vai me acusar nem usar como desculpa. Não dessa vez. (Sorrio para mim mesmo)

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Livro 1: Calma Paixão - Capitulo V: O primeiro dia de trabalho

Acordo antes do despertador tocar e fico fazendo hora na cama. Imaginando como seria trabalhar naquilo que estudei e gosto de fazer. Estava tão ansiosa por começar que ontem antes de dormir já estava com minha roupa escolhida. Semana passada, sai com Penny para comprar roupas de trabalho. Comprei alguns terninhos femininos, alguns conjuntos de saia e blazer, mais alguns vestidos tubinhos, algumas tantas blusas, calças, sapatos e acessórios. E para começar escolhi um conjunto azul marinho de saia, na altura do joelho, e blazer, uma blusa branca com detalhes combinando com o conjunto, um scarpin na mesma cor do conjunto. Separei um par de brinco e pulseiras douradas para usar.

Quando o despertador tocou, me levantei entrei no banheiro e tomei meu banho. Prendi meu cabelo, que é castanho claro cacheados, num coque baixo. Fiz uma maquiagem discreta, dando um ar de natural. Não queria chamar a atenção pela que vestia e sim pelo meu conteúdo. Fui para a cozinha, o café já estava pronto, então preparei torradas para comermos com geleia. Quando Penny entrou na cozinha, nos sentamos na bancada para comermos juntas antes de sairmos para trabalhar.

— E aí? Muito nervosa?
— Que nada!! Muito natural! – E levanto a mão forçando uma tremedeira – Que nervosa nada!! – E caímos na risada.
— Relaxa! Você é competente no que faz. Sempre foi.
— Sério, agora. Estou um pouco, mas acho que é normal. Afinal é meu primeiro emprego real.
— Qualquer coisa, me liga. Posso não entender nada de administração ou construção, mas lhe faço relaxar em dois tempos.
— Como sempre fez! Você é realmente uma grande amiga.
— É melhor irmos. Você não quer chegar atrasada no primeiro dia.
— Na verdade, estou uma hora adiantada. Quero chegar cedo para me familiarizar com o escritório e as rotinas.
— NERRRRRD!!! fala forçando o R
— Não.
— Você sempre foi NEERRRD!!
— Deixa de ser chata. Sou nerd nada. Apenas aplicada e dedicada em tudo que faço. Sempre me serviu de terapia.
— Nisso eu lhe invejo, queria ser só um pouquinho mais dedicada. Mas já sou muito boa no que faço do jeito que sou.
— É a melhor advogada que conheço. Vamos?
— Deixa eu colocar a louça na máquina e saímos.

Uma hora depois estou entrando no prédio onde fica a A4+ Projects. Ele deve ter uns 50 andares. Um dos muitos de arranha-céus da cidade. Sua fachada é toda de vidro espelhado que refletem a luz do sol, criando um jogo de luzes de tirar o folego. O andar térreo era todo de vidro, assim de fora víamos seu interior. O lobby muito bem decorado, com sofás e poltronas modernas nas cores branca e com leves toques dourados, dando um ar sofisticado ao ambiente. Era muito amplo. Fui até a recepção do prédio e me identifiquei.

— Bom dia! Sou Emily Campbell, e vim ver o Sr. Evans na A4+.
— Bom dia, Srta Campbell, o Sr. Evans nos deixou informados que iria começar hoje. Este é seu cartão de acesso temporário, em breve receberá o definitivo. Os elevadores são por ali e pode descer no 35º andar.
— Muito obrigada. Tenha um bom dia...?
— Smith. Spencer Smith.
— Bom dia, Spencer. E pode me chamar de Emily.
— Obrigada, Srta. Tenha um bom dia também.

Olho para ele como quem diz: “Entendo. Mas você me chamará de Emily, eventualmente.” E me dirijo aos elevadores. O escritório ocupa dois andares do prédio. No 35º fica o setor administrativo, com os escritórios da administração e dos sócios e duas salas de reuniões pequenas, e no 36º, a parte operacional, onde estão os engenheiros e arquitetos e seus assistentes em suas pranchetas gigantescas. Também tem um setor destinado aos decoradores, porque um bom projeto de arquitetura e engenharia não existe sem um bom projeto de decoração.

Entrando na empresa, temos uma grande mesa com as recepcionistas, são três. Todas muito bem vestidas, com um conjunto de calça social e blazer preto com a logo da empresa bordado, num tom amarelo. Faço minha identificação e uma das meninas, Hillary, me acompanha até a minha sala. A maioria dos funcionários ainda não haviam chegado, tirando o pessoal da copa e as recepcionistas, parecia uma empresa fantasma. Agradeço a Hillary por me acompanhar. Sento-me em minha mesa, coloco alguns objetos pessoais sobre ela, ligo o computador e me direciono até a janela para observar a cidade que começa a se agitar para mais um dia de trabalho. É impressionante como Nova York nunca para de me impressionar. De cada ponto que a observo, me descubro cada vez mais apaixonada por ela. Um bater na porta me tira dos meus devaneios.

— Bom dia, Srta. Campbell, sou Lisa Miller, líder da equipe de decoração do escritório.
— Bom dia, pode me chamar de Emm ou Emily. Mas esqueça essa “senhorita”, por favor.
— Então seremos Emm e Lisa.
— Combinadas.
— Vamos discutir a decoração de seu escritório?
— Não imaginei que seria meu primeiro compromisso – dou uma pequena risada – Não havia pensado em nada.
— Me fale um pouco de você. Do que gosta, do que te inspira. De onde vem? Sei que não é da região, quem sabe trazer um pouco de casa para aqui.
— Sou de Mystic City, Massachusetts. Mas não quero nada que me lembre lá. O que me inspira? Isso aqui. – E aponto para a janela. – Essa cidade linda e maravilhosa, que muito bem me acolheu.
— Humm! Sim. Nova York é uma cidade incrível mesmo. Podemos dizer que um estilo urbano chique lhe agrada.
— Podemos. Sim. Esse seria meu estilo.
— Cores?
— Sóbrias. Nada espalhafatoso. Até porque não é chique. – E dou risada.
— Acho que já tenho algo em mente. Vou criar alguns modelos e mais tarde venho lhe mostrar.
— Por favor, Lisa. Não vá atrasar seus projetos por minha causa. Eu me viro com o que tenho aqui. Já está muito bonito.
— Primeiro, essa sala não tem personalidade, não diz: “Olá, eu sou Emily Campbell, Gerente Geral da A4+ Project”. E em segundo, você é – ela enfatiza esse “é” - minha cliente, tenho que lhe dar atenção e prioridade.
— Não digo mais nada. Até mais.
— Até. Bom dia, Gabriel. Sua chefe é um doce. – Ao cruzar com um jovem rapaz, um pouco mais novo que eu.
— Bom dia, Lisa. Que sorte a minha, porque o último! Com licença, srta. Campbell. Sou Gabriel Mendes, serei seu assistente.
— Bom dia, Sr. Mendes. Espero que possamos nos entender. Sei que sem o sr., não serei ninguém aqui.
— Pode me chamar de Gabriel. Todos aqui me chamam assim.
— Bem, se for para lhe chamar pelo primeiro nome, você também me chamará pelo meu nome, Emily.
— Como desejar, Emily.
— Ótimo. Primeiro quero lhe dizer que eu, e friso o eu, chegarei, tentarei chegar sempre, por volta de uma hora antes do horário e provavelmente, sairei depois do horário. Mas, de forma alguma, você é obrigado a chegar antes ou sair depois. Só peço que deixe minha agenda do dia seguinte à disposição.
— Tudo bem. Tem sempre uma cópia dela em seu computador e outra no Ipad, são carregados automaticamente quando faço alguma alteração.
— Perfeito. Vamos começar? O que temos para hoje?

A manhã passou com Gabriel me atualizando das rotinas administrativas da empresa, metodologia de trabalho e outras informações importante sobre o escritório e passo minhas intenções, reuniões com as equipes, com os líderes me separados. Já passava da uma da tarde quando Adam entra em minha sala. Não o tinha visto pela manhã, como estava absorvida com tudo que Gabriel me passava e as decisões a serem tomadas, não tinha percebido nem que não o tinha visto ou a qualquer um dos sócios, e que já era tão tarde.

— Nossa! Que pessoa trabalhadora! Nunca vi tanto papel em cima de uma mesa. Nem na dos engenheiros nem dos arquitetos muito menos na de Gabriel.
— Adam! Bom dia!
— Boa tarde, você quer dizer, né? Já passa da uma.
— Gente! Nem percebi. Gabriel estava me atualizando de tudo. Vá almoçar, depois continuamos. – Falo para Gabriel
— Você ainda não comeu nada?!
— Desde o café da manhã. Agora estou ficando com fome.
— Ótimo! O pessoal estão nos esperando no Gianni’s.
— Pessoal?!
— Sim, seus chefes. Queremos lhe oferecer um almoço de boas-vindas.
— Então vamos. – Pego minha bolsa e nos dirigimos ao restaurante.

A caminhada até lá é curta, mal trocamos uma palavra no percurso.

— Então, qual a primeira impressão?
— Estão realmente precisando de alguém que organize tudo por lá. Quem fazia isso antes?
— Tínhamos um contador/administrador que gerenciava tudo.
— Ou não. – Faço uma cara de desaprovação.
— É, ou não. Mas ele tentava.
— Se você está dizendo...
— Ali estão eles! – E aponta a mesa onde tem dois homens de tirar o folego e uma mulher tão linda quanto. Vamos até a mesa e nos juntamos a eles.
— Pessoal, essa é Emiliy, nossa salvadora.
— Não tem essa de salvadora coisa nenhuma. A empresa não está perdida nem falida. – Repreendi seu comentário.
— Amiga, estamos, sim, precisando de uma salvadora. Não entendemos nada de administrar. E pelo que percebi, a empresa está entrando num buraco. Oi, sou Ashley, arquiteta líder de equipe e sócia da empresa.
— Não que o antigo “administrador” de vocês fosse péssimo. – Fiz o sinal de aspas com os dedos” – Podia ter boa intenção, mas não entendia nada.
— Boa tarde. Sou Adrian e serei seu garçom hoje. – Adrian se apresenta como de costume.
— Impressionante como você sempre nos atente e continua a se apresentar formalmente, Adrian. – Comentou Arthur, o outro líder de equipe de arquitetura.
— Artie, deixa o rapaz trabalhar em paz. Você já que o Gianni exige essa postura.
— O que é, Drew? Que se apresentar como o Sr. Certinho? – ironizou Arthur
— Crianças comportem-se. Pode nos trazer aquela garrafa do champanhe de sempre, temos o que comemorar hoje. – Pediu Adam
— Eu ainda volto para o escritório. – Lembrei a ele.
— Além de bonita, é responsável! Já gostei dela. – Elogiou Drew. – A propósito sou Andrew, mas me chame de Drew, o outro engenheiro líder de equipe e louco suficiente para ser sócio desse povo. – Se apresenta estendendo a mão para me cumprimentar.
— Maravilha! Agora Drew ligou o modo paquerador! – Ironizou Adam
— Pronto! Mais um a pegar no meu pé. Se saia, Adam! Só fiz elogiar a garota.
— Vocês não tomam jeito! Tudo ficando velho e continuam agindo como garotos da fraternidade. – Repreendeu Ash
— Tranquilo, Ash. Emily está vacinada contra vacilões. – Alerta Adam e rimos juntos.
— Deixe-me ver se peguei o nome de cada um de vocês e cargos. Adam e Drew engenheiros. Ashley, arquiteta, Arthur é o segundo arquiteto, certos?
— Quase. Esqueceu dos palhaços da equipe. – Completou Adam. – A equipe de palhaço é formada por Arthur e Drew. Não se engane com essas capas de homens responsável e sério, porque ninguém perdeu para eles acharem.
— Então temos Ashley e Arthur, arquitetos, Adam e Drew, engenheiros e Arthur, Drew e Adam, palhaços. É isso?
— Ehhhh! Temos uma comediante!! – Comemorou Arthur
— Toma, Adam! Quis bancar o esperto! – Retrucou Drew, quando Adrian, o garçon, chegou com nosso champanhe.
— Salvo pelo gongo. – Disse Ashley
— Pois é! Esqueci dessa faceta de nossa gerente geral. Vamos brindar a essa aquisição maravilhosa à equipe da A4+ Projects.
— Seja bem vinda à loucura! – Brindou Ashley.
— Bem vinda! – Disseram os rapazes juntos.

Terminamos o almoço e retomamos ao escritório, brincando no caminho. Descobri que Ashley e Arthur eram casados e que Drew era irmão de Arthur e solteiro. Não era difícil perceber que esses dois eram irmãos. Além das provocações que faziam um ao outro, eram muito parecidos fisicamente. Ambos tinham o cabelo castanho claro, rosto bem masculino, sendo que Arthur tinha no rosto uma barba por fazer, Drew não. Os olhos de Drew são azuis, tão claros e muito penetrantes e o de Artie eram castanho-escuros. Os dois tinham a pele levemente bronzeada. Todos três homens sócios tinham os corpos muito bem definidos, musculosos. Onde entravam, chamavam atenção, pela beleza e pelo tamanho de cada um deles, todos girando em torno dos 1, 80cm. Meus chefes eram muito divertidos além de lindos. Ashely era uma mulher com mais ou menos 1,70 cm, estava de salto alto, o que lhe conferia uma altura um pouco superior, seus cabelos eram ruivos, com os olhos castanhos claros. Tinha o corpo como o meu, nada fora do lugar, mas não éramos magras.

Entro no escritório e Gabriel já estava lá, a postos para continuarmos nossa reunião. Agendamos compromissos e reuniões com clientes em potencial para a semana seguinte. Decidi que teria uma reunião com as equipes uma vez por semana para ficar a par de tudo que estava acontecendo dentro do escritório e nas obras, para fazer o controle de possíveis contratempos e avaliação dos riscos. Afinal, eu e minha equipe erámos a linha de frente do escritório. Por volta das 5:00, Lisa entra na sala com um monte projetos desenhados.

— Vamos discutir seu escritório?
— Temos opção?
— Claro... que não. Vamos dar vida a isso aqui. – E circula a mão sobre a cabeça mostrando o ambiente.
— Ok. O que temos?

E passamos a ver os desenhos, ela explicado as ideias que teve, o porquê de cada um deles. Escolhemos o que mais teve a ver comigo. Um projeto que apresentou uma visão que me lembrou muito Nova York. A palheta de cor circulava entre tons de preto, branco e cinza, com detalhes em laranja, amarelo e vermelho, essas últimas, segundo ela, por lembrar o pôr do sol, já que da minha sala tinha uma visão privilegiada dele sobre o rio Hudson. Os móveis seriam de metal, com um design industrial, que dava um ar moderno ao ambiente. Eu traria mais objetos pessoais para a decoração.

Terminamos nossa reunião, chamei Gabriel para dispensá-lo. Eu ficaria por mais uma hora, mais ou menos, para concluir o estudo de risco de um grande projeto que a equipe de Ash e Artie está pensando em aceitar e envolverá todas as equipes, que comecei pouco antes de Lisa chegar.

Antes de retomar o trabalho, fui até a janela para observar novamente a cidade. Que agora começa a se iluminar. O sol estava se pondo, deixando o céu em tons de laranja, amarelo e vermelho. Lembrei do projeto, Lisa tinha razão, o pôr do sol visto daqui é de tirar o folego. Minha sala ficaria muito bonita. Retorno à minha mesa e começo avaliar os riscos que correremos com esse projeto de um condomínio a beira mar.

Fiquei tão envolvida com o trabalho que passei mais de uma hora além do previsto. Quando meu telefone tocou. Era Penny preocupada com a minha demora. Avisei que estava terminando algo e que iria para casa logo em seguida. Ao terminar, desliguei meu computador, organizei minha mesa, que estava uma bagunça generalizada. No dia seguinte, continuaria o projeto. Pego minha bolsa e minha pasta, onde tem alguns prospectos do projeto e o tablete com alguns contratos, projetos e minha agenda, e saio da sala em direção aos elevadores.

— Então, como foi o primeiro dia? – Tomo um susto quando ouço a voz de Drew.
— Ui! Que susto! Pensei que estava sozinha.
— Precisei corrigir alguns pontos de um projeto que o cliente solicitou e levou mais tempo que pensei. E você?
— Estava criando analisando o possível contrato do condomínio à beira mar. Passei da hora também.
— Desculpa se pareci um pouco assanhado no almoço. Gosto de descontrair o ambiente.
— Não se preocupe. Não fiquei ofendida. Muito pelo contrário. – Entramos no elevador.
— Que bom. A Ash sempre acha que estou cantando todas as mulheres que conheço.
— E não está?
— Não sempre. Na faculdade era muito atirado. Hoje estou mais calmo. Quero qualidade, já tive a quantidade.
— Entendo. – Chegamos ao térreo e me despeço. – Bom, até amanhã.
— Você está indo para onde e vai como?
— Estou indo para o Brooklyn e vou pegar o metrô.
— Metrô, a uma hora dessas, sabe que já passa das 9:00? Para o Brooklyn? Sozinha? De jeito algum. Eu te levo.
— Não há necessidade. E não quero dar trabalho
— Não é trabalho algum. Uma hora dessas, o trânsito é tranquilo. Chegamos num instante.
— Mesmo assim, não é preciso. O metrô é tranquilo.
— Senhorita, segurança em primeiro lugar. E o metrô não é tão tranquilo assim.
— Posso pegar um taxi.
— Está com medo de mim?
— Medo? De você? Você não é o bicho papão, é?
— Para você, jamais.
— Fico feliz. Mas não quero dar trabalho.
— Já disse que não é trabalho. Você vai comigo e estamos conversados. - Ouvi muito esse “e estamos conversados.” e isso disparou o gatilho de defesa.
— Agradeço. Mas prefiro ir de taxi. – Disse num tom um pouco mais rude.
— Ok. Mas só queria ajudar.
— Se esperar comigo, já ajudará. – Mudei o tom, quando percebi que ele havia sentido meu desagrado anterior. - Desculpa o jeito que falei.
— Não, tudo bem. Fico com você até o taxi chegar. Mas você pretende sair sempre nesse horário? – Ele me questionou enquanto eu ligava para a empresa de taxi para pedir o que me levaria até em casa.
— Realmente, não tão tarde, espero. Mas terá dias que sairei sim nesse horário, possivelmente. – Faço um sinal para ele esperar - Alô, gostaria de pedir um taxi para o Brooklyn. – Passo o endereço do prédio.
— Então precisamos providenciar um transporte seguro para você voltar para casa.
— Não tem por que se preocupar. Sempre pego taxi com essa empresa.
— Mas os motoristas sempre mudam. Pode vir um que não seja de confiança.
— Você é liga muito com a segurança!
— Faz parte do trabalho.
— Mas eu não sou seu trabalho.
— Não, mas faz parte da equipe. Então me preocupo. E sei que não é da cidade, o que me deixa um pouco mais preocupado.
— Eu agradeço, mas já moro em Nova York a quase 6 anos. Não sou tão novata aqui, não acha?
— Nessa me pegou. Mas uma mulher bonita como você, sempre chama a atenção dos bons e maus moços.
— Muito gentil! Meu taxi chegou. Obrigada pela companhia.
— Calma! Vou com você até o carro. – E caminhamos até o carro. Ele abre a porta e entro.
— Muito obrigada pela gentileza e boa noite.
— Boa noite e até amanhã.

Dentro do taxi, passo o endereço ao motorista e passo a mexe em meu Ipad, verificando algumas anotações sobre o projeto e seus pontos positivos e negativos. Quando começamos a atravessar a ponte do Brooklyn, desligo o aparelho e passo a observar o percurso.

“Será que Drew é tão atencioso com as outras mulheres da empresa? Ou será que Ashley está certa sobre o cunhado e ele continua o mulherengo da faculdade e aquela era apenas uma de suas cantadas? Ei! por que estou me preocupando com isso?!?!” Meu celular toca, me tirando dos meus pensamentos.

— Alô!
— Já chegou?
— Quem está falando?
— Emily, é Drew. Você já chegou? – Nossa! Ele está mesmo preocupado?!?!
— Acabei de passar pela ponte do Brooklyn. Como conseguiu meu número?
— Com o Adam. Assim que chegar me ligue dizendo que chegou bem. Estou preocupado. Salve meu número.
— Senhor, sim, senhor! – Respondo em um tom militar.
— Emily, não estou brincando. Fico preocupado mesmo.
— Certo. Se é para deixar você tranquilo, te ligo. Mas... – Não termino a frase, pois ele desligou o telefone. – Mas que abuso! Desligou na minha cara. Pois agora só terá notícias minha amanhã. – Mas salvo o número dele no celular. Afinal, trabalhamos juntos. Isso me lembra que preciso de um número para o trabalho e ter nos meus contatos os telefones de todos os funcionários da empresa.

Quando chego em casa, mesmo que quisesse ligar para Drew para dizer que cheguei bem, não poderia. Penny me bombardeou com um monte de perguntas sobre meu primeiro dia. Depois de um relato completo enquanto me alimento, deixo minhas coisas na sala, vou em direção ao banheiro, tomo um banho e desabo na cama.

***